“Sonhei que eu residia numa casa residível, tinha banheiro,
cozinha, copa e até quarto de criada. […] Quando fui pegar
outro bife, despertei. Que realidade amarga!”
-Maria Carolina de Jesus
Resgatada da condição de trabalho escravo em novembro do ano passado, Inês procurou novamente a casa e o convívio da família em que foi submetida por 36 anos a essa situação. A notícia do Diário de Pernambuco choca! Imediatamente nos perguntamos: Inês sofre de síndrome de Estocolmo? Como pode preferir o trabalho escravo à liberdade?
Na verdade, o caso revela uma das faces mais brutais do atual estágio do sistema capitalista: a negação do direito ao trabalho. Inês não prefere o trabalho escravo à liberdade e ao trabalho livre. O seu direito ao trabalho livre que lhe é negado, como é negado a mais de 9 milhões de brasileiros desempregados e desalentados.
No dia 28 de abril, Inês foi ao Ministério Público do Trabalho para reclamar sobre o fato de não estar sendo assistida pelo poder público, sobre promessas que haviam sido feitas após seu resgate no ano passado. Diante dessa situação, sua vontade de retornar à casa de seus antigos senhores. A ida dela ao MPT gerou o relatório “Da omissão das redes estadual e municipal de assistência social no pós-resgate de trabalhadora submetida a trabalho análogo ao de escravo doméstico no Recife/PE”. Ao final, nada foi feito além do relatório, e Inês buscou novamente aquela casa em 10 de maio… três dias antes da efeméride abolicionista.
A mulher por trás do nome fictício de Inês é filha de uma família desestruturada, seu pai agredia sua mãe em casa e vivia em situação de fome com dez irmãos. Diante dessa situação, foi trabalhar com 16 anos na casa que então era submetida a tal condição, no ano de 1989. Inês parou de receber salários quando a moeda ainda era o cruzeiro, e como se não fosse o bastante, ao ser cadastrada no programa emergencial durante a pandemia, teve de repartir o benefício com a patroa. A descrição parcial de tudo isso, como também das agressões, pode ser encontrada na notícia do Diário de Pernambuco.
O que nos interessa aqui é retornar à pergunta do título: Por que Inês prefere o trabalho escravo?
Nos últimos anos, vimos uma crescente de denúncias de condições de trabalho análogas à escravidão, de 2019 com 508 denúncias, saltamos para 4.515 em 2025, número que cresceu numa constante ano a ano. São trabalhadores da construção civil, das plantações de café, cebola, laranja, cacau e hortaliças, empregadas domésticas etc., segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania.
No início do século XX, o contato com os seringueiros em trabalho análogo à escravidão fez Euclides da Cunha escrever: “[…] o seringueiro realiza uma tremenda anomalia: é o homem que trabalha para escravizar-se”. Devemos acrescentar ao seringueiro, todos esses outros trabalhadores. Esses são os figurantes de nossa peça de terror mais sórdida, e cada um dos milhões de desempregados no Brasil é candidato potencial a figurar nesse papel. Os 23 resgatados de trabalho análogo à escravidão, submetidos pela Cassiano Fernandes de Lira Construtora LTDA, no litoral norte de Pernambuco, são trabalhadores desempregados ou em péssimas condições de emprego, de locais distantes, aliciados por falsas promessas de emprego.
Tem sido cada vez mais difícil afirmar que o regime capitalista suprimiu por completo o trabalho escravo. O trabalho livre tornou-se a regra, mas o escravo não foi totalmente suprimido! Vemos que a chamada exceção constitui um pilar importante para muitos setores da economia no Brasil.
Mais do que isso. Se o desenvolvimento do capitalismo não suplantou por completo o trabalho escravo, a sua decadência e crise o estimulam.
Respondamos com todas as letras: Por que Inês prefere o trabalho escravo? Inês prefere o trabalho escravo à fome pois a negação ao direito ao trabalho livre é o maior aliciamento ao trabalho escravo, é isso que o caso Inês escancara! O combate ao trabalho escravo dentro dos marcos do capitalismo hoje é uma farsa, pois o mecanismo do desemprego, utilizado pelos patrões para reduzir o salário dos trabalhadores empregados, é também o motivo de Inês realizar essa “tremenda anomalia”.
A extinção real do trabalho escravo requer uma perspectiva como a apresentada no Programa por um Brasil Comunista, que defende em seu ponto 2 defendido pela Internacional Comunista Revolucionária-Brasil: “Emprego para Todos! Nenhuma pessoa apta ao trabalho deve estar desempregada ou em subemprego! Planificar a economia para permitir que todo o trabalho disponível seja dividido racionalmente entre os trabalhadores, com uma escala móvel de horas de trabalho (redução da jornada de trabalho sem redução dos salários)!”.
