O artigo a seguir foi publicado como editorial da nova edição impressa do Brasil Comunista, lançada em 1 de julho. Apoie e assine para ter acesso à edição completa.
Jones Manoel anunciou uma frente de pré-candidaturas por uma “Bancada da Esquerda Radical” para o Congresso Nacional nas eleições deste ano. A declaração ocorreu em 18 de junho, durante a plenária “Derrotar a extrema direita, construir o futuro!”, realizada em São Paulo com Glauber Braga, Sâmia Bomfim e outros nomes. Segundo ele, a iniciativa será fundamentada em um programa de 10 pontos, ainda em construção, a ser defendido pelos integrantes da bancada.
Já Glauber, em entrevista, pontuou que, como primeiro ponto, um programa comum deve partir da exigência de revogação de qualquer medida de teto de gastos, seja com o nome de Arcabouço Fiscal ou qualquer outro. Uma aliança que expresse radicalidade política deve, em sua opinião, combater qualquer medida de austeridade e de restrição de direitos da classe trabalhadora que ocorra em benefício do mercado financeiro.
Eleições 2026: O vazio político e o papel da esquerda
Saudamos a iniciativa porque entendemos que ela tem o potencial de se tornar uma resposta ao vazio político de representatividade que existe à esquerda de Lula e do PT. Uma mensagem clara e revolucionária (10 pontos) poderia converter-se num pólo de atração para milhões de trabalhadores e jovens que buscam uma saída radical para a situação.

As candidaturas e o programa dessa Bancada da Esquerda Radical poderiam tornar-se um ponto de referência para os radicalizados ou em processo de radicalização. Pessoas que concluíram que o problema não é apenas quem eleger, mas que o sistema inteiro está apodrecido e precisa ser substituído. Processo esse que, como já demonstramos na edição #01 do jornal Brasil Comunista, tem sido capitalizado pela extrema direita, mas que tem um lastro a ser explorado de ao menos 9,6 milhões de brasileiros radicalizados à esquerda.
O potencial dessa iniciativa está demonstrado pelos 3% de intenção de votos registrados pela candidata do partido Unidade Popular (UP), Samara Martins, para presidente da República, em pesquisa DataFolha divulgada em 22 de maio. Se essa tendência se confirmar, a estimativa é de 3,5 milhões de brasileiros votando por uma candidata que se diz socialista e que apresenta um programa de reformas sociais e políticas bastante avançado. Samara, porém, iniciou a campanha como completa desconhecida. Seu antecessor na corrida presidencial, Léo Péricles, obteve apenas 53.519 votos pela UP em 2022.
Oportunidade perdida: Jones Manoel candidato a presidente da República
Essa situação explicita a falha da esquerda radical em não emplacar a candidatura de Jones Manoel para presidente nestas eleições de 2026. Essa proposta feita por Mano Brown empolgou milhares só de ser aventada e provocou intenso debate público e em partidos e organizações de esquerda. Se uma desconhecida até ontem pontua 3%, imagine o terremoto político que seria se a esquerda radical tivesse uma candidatura unificada em torno de Jones, que já partiria de uma audiência de milhões.
A responsabilidade pelo desperdício da oportunidade recai, em primeiro lugar, sobre a política oportunista do PSOL, que se incorporou ao Governo Lula desde a vitória de 2022. Já naquele ano barrou a pré-candidatura de Glauber Braga a presidente e optou por não ter candidato presidencial, o que será repetido este ano. Mas também tem responsabilidade o PSTU, o PCB e a própria UP de Samara, que optaram sectariamente por candidaturas para autoconstrução, recusando-se a debater uma candidatura unificada e não dispondo suas legendas para Jones lançar-se à presidência como proposto por Mano Brown.
A Bancada da Esquerda Radical pode ganhar espaço e impulso nesse vazio político e animar aqueles que empolgaram-se com a hipótese de Jones presidente e que agora pontuaram nas pesquisas ao optar por Samara. Porém, dizer-se radical não é suficiente para a iniciativa ser bem sucedida. Marketing, redes sociais e militância de rua são importantes. Mas o que irá determinar seu alcance será justamente o programa que irá expressar.
O programa de 10 pontos da Bancada da Esquerda Radical
A ideia de 10 pontos para basear a frente é muito positiva. Isso permite politizar a iniciativa, clarificar e debater as ideias defendidas por todos, para além dos nomes dos pré-candidatos.
Consideramos um ótimo ponto de partida a demanda expressa por Glauber, de que os pré-candidatos comprometam-se com o combate a qualquer medida de austeridade. Essa reivindicação conecta-se com os sentimentos de milhões de trabalhadores e jovens que percebem seu nível de vida cair. Isso enquanto políticos, juízes e capitalistas não param de enriquecer às suas custas, inclusive com o apoio do governo.
Partindo desse ponto, é necessário que os 10 pontos expressem uma radicalidade política que se conecte com o que os trabalhadores e jovens estão vivendo. Mas o que seria ser radical?
Ser radical não significa usar uma linguagem mais dura ou adotar uma postura mais combativa. Como explicou Marx, ser radical significa ir à raiz dos problemas. E a raiz da crise brasileira está no próprio sistema capitalista. Tanto em sua estrutura econômica, quanto em sua estrutura social e política. Por isso, os 10 pontos da bancada devem apresentar respostas que ataquem as causas da exploração e da desigualdade, e não apenas seus sintomas.
Contribuição ao debate: Programa por um Brasil Comunista
Os 10 pontos anunciados, para serem condizentes com o nome a que se propõe, precisam responder de forma radical às urgentes e gritantes demandas da classe trabalhadora e da juventude brasileira. A uma profunda crítica do modo de vida no Brasil sobre as bases capitalistas. O jornal Brasil Comunista e os militantes da Internacional Comunista Revolucionária (ICR-Brasil) apresentam como contribuição para esse debate o documento de 20 pontos “Programa Por Um Brasil Comunista”, publicado também nesta edição.
Acreditamos que tratam-se de demandas no espírito radical de que falava Marx e que podem dotar as candidaturas com o conteúdo necessário para melhor se conectar com os anseios da classe. Apesar dessas divergências e dos erros que apontamos, consideramos que a iniciativa anunciada abre uma oportunidade real de debate e ação comum. Queremos discutir cada um desses 20 pontos com os integrantes da Bancada da Esquerda Radical, mas também com cada trabalhador e jovem que for atraído e quiser organizar sua indignação.
O fascismo na história e o debate na atualidade
Em nossa visão, uma iniciativa como essa anunciada por Jones, que expresse um programa radical nestas eleições, pode ser capaz também de disputar a radicalização capitalizada hoje pela extrema direita. Esse é um ponto que consideramos central no debate. Muitos argumentam a urgência de tal iniciativa devido a um avanço do fascismo no Brasil. Porém, entendemos sua urgência por motivos diferentes.
Queremos aqui iniciar um debate com esses camaradas a respeito do real caráter do movimento que se formou em torno da família Bolsonaro e que encontra expressão em elementos como o partido Missão e a candidatura de Renan Santos. Não se trata de uma tarefa fácil definir o conteúdo e o sentido do que vem sendo apresentado como extrema direita e as políticas que ela vem implementando em todo o mundo.
Para começar esse debate, queremos deixar claro de onde partimos: “O nome NÃO é Fascismo”. Não queremos dizer que o fascismo é uma peça de museu, dos anos 1930 e 1940. Não. O fascismo é uma forma política do arsenal que a burguesia desenvolveu e que é usada para manter o domínio do grande capital. Trata-se, porém, de uma arma específica, com características próprias, e com um grande perigo para a própria burguesia que a usa.
Bolsonarismo, MBL, Renan Santos e a crise da democracia burguesa
O fascismo é uma medida extrema da burguesia. Lança-se mão dele em períodos de perigo ao regime da propriedade privada. Pode seguir períodos em que as massas exploradas já não aceitam a dominação por vias pacíficas, mostram audácia e disposição de resistência, mas não conseguem colocar o edifício burguês abaixo. É uma orientação de guerra civil contra a classe trabalhadora, e daí também o seu perigo para a própria burguesia.
Este não é o caso do Brasil hoje. O que avança no Brasil não é o fascismo, mas sim uma extrema direita que expressa a própria desmoralização e crise da democracia burguesa brasileira e do sistema como um todo.
Essa extrema direita apela demagogicamente aos anseios e necessidades das massas de trabalhadores, pequenos burgueses e setores empobrecidos para distorcê-las em um sentido reacionário. Este não é um movimento de guerra civil, mas sim um movimento político reacionário e demagógico que, apresentando-se como antissistema, cresce diante da ausência de uma resposta radical de esquerda visível para as massas.
Como combater o avanço da extrema direita no Brasil
Quem pode culpar amplos setores dos trabalhadores de se apoiarem na extrema direita para expressar eleitoralmente sua raiva contra o sistema quando o PT é aquele que, com o apoio do PSOL e PCdoB, lidera a máquina do Estado e gerencia a vida insuportável sob o capitalismo?
A maioria dos trabalhadores, jovens e setores populares que seguem Bolsonaro não o faz por adesão às ideias de tipo fascista. Expressam, de forma distorcida e, por vezes, reacionária, sua revolta contra um sistema que não lhes oferece perspectivas. Isso não significa que não haja a presença de elementos fascistas e grupos fascistas organizados em seu interior.
A extrema direita continuará a ter audiência e crescerá enquanto não houver uma força social na extrema esquerda capaz de disputar essa insatisfação. Isso não quer dizer que ela não precise ser combatida. Pelo contrário, é necessário enfrentá-la. Mas a partir do diagnóstico correto é que pode-se receitar os remédios mais adequados.
Um programa radical é um programa comunista
A melhor forma de combater a extrema direita é por meio da mobilização de massas. Essas são lições da história da classe trabalhadora, mas também das experiências recentes, como da luta contra o ICE, a polícia anti-imigração de Trump. A questão é como mobilizar as massas. Apenas proclamar-se de esquerda e radical não é suficiente, se suas propostas e ideias não se apresentarem como verdadeiras alternativas programáticas à demagogia da extrema direita.
A questão decisiva das eleições de 2026 não será apenas quantos parlamentares a esquerda radical conseguirá eleger. Será saber se ela conseguirá transformar a indignação dispersa de milhões de trabalhadores e jovens em uma força política consciente. E a consciência materializa-se em organização. Portanto, quanto mais organizado, maior o nível de consciência do movimento. É necessário olhar para além de outubro, e organizar essa indignação para agir em prol de um programa radical, seja lá qual for o governo que surja das urnas.
A Bancada da Esquerda Radical pode contribuir para essa tarefa se apresentar um programa que ataque as causas profundas da crise brasileira e aponte para a superação revolucionária do capitalismo. É nessa perspectiva que apresentamos os 20 pontos do “Programa Por Um Brasil Comunista” e convidamos nossos leitores a participar desse debate.


