No mês passado, uma greve planejada pelos trabalhadores da Samsung Electronics — o maior conglomerado da Coreia do Sul e a quinta marca mais valiosa do mundo — causou grande impacto na classe dominante sul-coreana. Temendo as consequências econômicas, o governo, o Banco da Coreia e até mesmo a Câmara de Comércio Americana intervieram. Por fim, 90 minutos antes do início previsto da greve, a Samsung fechou um acordo destinando 10,5% de seus lucros operacionais anuais para distribuição como bônus de até 400 mil dólares por trabalhador.
Essa postura combativa tem relevância internacional: apenas 40 mil trabalhadores — indispensáveis para a produção de um produto de importância estratégica fundamental, o microchip — teriam sido capazes de paralisar a cadeia global de suprimentos de eletrônicos caso tivessem levado a greve adiante.
No entanto, este episódio também revelou um risco crítico para o movimento sindical sul-coreano. Ao conceder a uma metade da força de trabalho bônus cem vezes maiores do que à outra, a Samsung criou uma divisão arbitrária entre os trabalhadores, deixando-os ainda mais fragmentados e vulneráveis a ataques futuros.
Lucros recordes
A Samsung Electronics é o principal conglomerado da Coreia do Sul e, sozinha, representa cerca de 14% do PIB anual do país, 23% de suas exportações e 26% de seu mercado de ações. Considerando a Samsung — o conglomerado controlador — em sua totalidade, ela responde por aproximadamente 20% do PIB sul-coreano.
O que confere a essa gigante nacional uma importância estratégica particular é, entre outras tecnologias-chave, sua produção de semicondutores, um pilar fundamental da economia sul-coreana voltada para a exportação. A Samsung, isoladamente, abastece 36% do mercado global de chips DRAM (Memória de Acesso Aleatório Dinâmico), componentes indispensáveis para os computadores modernos. Ela também é uma fornecedora essencial de chips de memória de alta largura de banda (HBMs) para gigantes ocidentais da tecnologia, como Apple e Nvidia.
Como uma das duas principais fabricantes de microchips do mundo, a Samsung viu suas vendas atingirem níveis sem precedentes impulsionadas pelo boom da IA — fenômeno que provocou escassez de oferta e disparada nos preços. No primeiro trimestre de 2026, a empresa registrou um lucro operacional de US$ 42,4 bilhões (57,2 trilhões de wons), um aumento de 755% em relação ao ano anterior. Graças a esse desempenho excepcional, a Samsung consolidou-se entre as cinco empresas mais lucrativas do mundo.
Apesar disso, os trabalhadores viram-se obrigados a aceitar seus salários e bônus habituais. Ao saírem do trabalho e retornarem para casa, eles enfrentam — assim como o restante da classe trabalhadora sul-coreana — as consequências da guerra de Trump no Irã: inflação crescente e disparada nos preços da energia, além de transtornos adicionais causados por medidas de economia de energia impostas pelo Estado, como a regra que permitia aos funcionários do setor público circular com seus veículos apenas em dias alternados.
Um fator que agravava a frustração dos trabalhadores da Samsung Electronics era a significativa disparidade salarial entre eles e os funcionários da SK Hynix, a principal empresa concorrente no setor doméstico de semicondutores. Em setembro de 2025, para evitar uma greve, a SK Hynix eliminou o teto para o pagamento de bônus e destinou 10% de seus lucros operacionais anuais aos trabalhadores.
Isso serviu de exemplo. Sob pressão, os três principais sindicatos da Samsung uniram-se para realizar uma votação sobre a greve em 18 de março de 2026. Eles exigiam o fim dos limites para bônus e um aumento salarial de 7%. Caso contrário, deflagrariam aquela que seria apenas a segunda greve na história da empresa, após a paralisação de 2024.
Mais de 93% votaram a favor — uma declaração contundente de luta de classes.

Classe dominante em pânico
A possibilidade de que um dos mais importantes fabricantes de chips do mundo tivesse suas atividades paralisadas pelos trabalhadores provocou um choque na classe dominante da Coreia do Sul e de todo o planeta.
A Samsung sentiu-se particularmente ameaçada pelo fato de que uma grande parcela dos trabalhadores que planejavam a greve pertencia, desta vez, à divisão de chips de memória — setor responsável por mais de 40% da receita total da Samsung Electronics no quarto trimestre de 2025.
Além disso, como os produtos da Samsung são indispensáveis para os monopólios tecnológicos do Ocidente, temia-se que a greve pudesse “travar o boom da IA“, nas palavras da revista Fortune. Uma paralisação da produção teria gerado repercussões em cadeia imensuráveis em toda a cadeia global de suprimentos de eletrônicos, com custos impossíveis de calcular.
A AMCHAM — a Câmara de Comércio Americana na Coreia e porta-voz da classe capitalista dos EUA — alertou de forma contundente que, caso uma greve se concretizasse, isso poderia “prejudicar a competitividade da Coreia em termos de investimentos de longo prazo” e que “mercados manufatureiros regionais concorrentes poderiam se beneficiar se persistissem as preocupações quanto à previsibilidade e à continuidade”. Em outras palavras, eles ameaçaram abertamente transferir seus investimentos para outros locais, a menos que a Coreia do Sul conseguisse controlar essas “perturbações”. Cabia, portanto, ao Estado sul-coreano preservar a paz de classes.
O Estado intervém
Assim que a greve foi anunciada, o presidente Lee Jae-myung — um reformista autoproclamado “favorável aos trabalhadores”, vinculado ao Partido Democrático da Coreia (DPK), de caráter burguês — não perdeu tempo em manifestar publicamente sua oposição às reivindicações “excessivas” dos sindicatos. Ele declarou:
“Na República da Coreia, que adota a ordem fundamental da democracia liberal e uma economia de mercado capitalista, o trabalho deve ser respeitado tanto quanto as empresas, e os direitos de gestão devem ser respeitados assim como os direitos trabalhistas”.
Empossado após as eleições gerais do ano passado como uma figura de confiança da classe dominante — na sequência da bizarra tentativa de golpe do ex-presidente Yoon Suk-yeol —, Lee tem feito esforços deliberados para manter a paz de classes ao apaziguar os trabalhadores. Por exemplo, ele introduziu reformas limitadas nas regulamentações do setor imobiliário e a chamada “lei do envelope amarelo“, que amplia os direitos de negociação coletiva para trabalhadores terceirizados. Como previmos anteriormente, a estabilidade social que ele almeja mostrou-se precária, sobretudo devido à guerra envolvendo o Irã.
No entanto, quando se tratou das greves na Samsung, a agenda dita “progressista” do governo evaporou completamente para defender os interesses da classe dominante. O governo de Lee interveio para mediar o conflito entre os trabalhadores e a Samsung. O desconforto do governo era tamanho que, na véspera da greve, o Ministério do Trabalho ameaçou recorrer a medidas de arbitragem de emergência, o que teria interrompido à força a paralisação por 30 dias. Em outras palavras, o Estado estaria intervindo para acabar com a greve.
Trabalhadores divididos
No final, a urgência da situação e suas implicações para a economia mundial forçaram a direção da Samsung a ceder a algumas das reivindicações dos trabalhadores, apenas 90 minutos antes do início previsto da greve.
No entanto, ao contrário do espírito de luta demonstrado pela base, a forma como o conflito foi encerrado prejudicou os sindicatos da Samsung. O acordo foi arquitetado pela direção para dividir a força de trabalho, essencialmente cooptando um segmento em detrimento do outro.
Entre os três principais sindicatos da empresa, o Samsung Electronics Labour Union (SELU) representa principalmente os trabalhadores da divisão DS (semicondutores). Por sua vez, o National Samsung Electronics Union (NSEU) e o sindicato menor, Samsung Electronics Company Union (SECU), organizam separadamente a divisão DX (produtos acabados).
Como a divisão DS é a parte mais lucrativa do negócio, a Samsung ofereceu os já mencionados 400 mil dólares (600 milhões de wons) em bônus exclusivamente aos funcionários da DS. Aos trabalhadores da divisão DX, foi oferecido o valor de 4 mil dólares (6 milhões de wons) — ou seja, 100 vezes menos.
O evidente descontentamento com essa situação refletiu-se na votação de 27 de maio. Embora 80,6% dos filiados do SELU tenham votado a favor do acordo, este foi categoricamente rejeitado pelos trabalhadores dos outros dois sindicatos: 78,9% dos trabalhadores do NSEU votaram contra, enquanto apenas 47, de um total de mais de 8.956 trabalhadores do SECU, votaram a favor. Como o SELU representava a maioria, o acordo foi aprovado.
Anteriormente, os trabalhadores da Samsung — apesar de divididos entre vários sindicatos — organizavam-se e faziam greve em conjunto. Agora, dessa forma, criaram-se efetivamente duas categorias de trabalhadores, separadas por essa linha divisória técnica e arbitrária, gerando ressentimento mútuo entre elas.

O desânimo entre os trabalhadores da DX era tamanho que a SECU abandonou completamente as negociações e, desde então, recorreu à justiça para tentar anular legalmente o acordo. Mesmo no âmbito da SELU, 6.000 trabalhadores da DX — sentindo-se traídos — deixaram o sindicato nos dias seguintes ao acordo. Como resultado, a SELU deixou de ser o maior sindicato da Samsung.
O que é criminoso é a postura de conivência da liderança sindical diante dessa situação. Em vez de intensificar a pressão por um acordo melhor para todos, eles decidiram se antecipar e aceitar uma medida paliativa deliberada, deixando todo um segmento da força de trabalho marginalizado e insatisfeito. O presidente da SELU, Choi Seung-ho, defende veementemente essa traição. Em sua plataforma de reeleição para a presidência do sindicato, ele chega a propor que, doravante, os sindicatos que compõem a organização conduzam efetivamente as negociações futuras de forma separada.
A fragmentação dos sindicatos favorece diretamente os planos cínicos dos capitalistas, que podem semear ainda mais desunião ao oferecer acordos distintos a diferentes sindicatos e, assim, minar quaisquer lutas futuras na empresa.
Guerra de classes
Apesar da traição, o caminho trilhado pelos trabalhadores da Samsung Electronics abriu um precedente perigoso para todos os conglomerados da Coreia do Sul, impulsionando a atividade sindical como um todo.
Imediatamente, trabalhadores de empresas importantes — incluindo Hyundai, LG, Kakao e outras — começaram a exigir planos de remuneração semelhantes. Em 10 de junho, o sindicato da Kakao realizou a primeira paralisação na história da empresa.
Para além da Coreia do Sul, trabalhadores de outra fabricante importante de semicondutores, a TSMC em Taiwan, estão atentos a isso; alguns já defendem a organização sindical, algo atualmente proibido.
Este é um caso clássico de trabalhadores que começam a compreender o verdadeiro poder que possuem e a utilizá-lo a seu favor. Neste caso, trabalhadores de uma empresa altamente estratégica para o capitalismo mundial demonstraram sua força para recuperar a imensa riqueza que produziram para os patrões — e forçaram os patrões a fazer concessões.
Mas isso também ressalta a importância da liderança. Se não tivessem sido conduzidos por uma liderança sindical pelega — que age claramente como “prepostos trabalhistas do capital” — a um acordo divisivo e desmoralizante, uma vitória decisiva poderia ter sido alcançada. Isso teria envolvido os trabalhadores da Samsung em uma greve unificada, ao mesmo tempo em que buscavam ações de solidariedade de trabalhadores de toda a Coreia do Sul. Tal movimento teria paralisado algumas das maiores corporações de tecnologia do mundo e, nesse processo, demonstrado qual classe realmente governa a sociedade.
Além disso, isso é apenas um prenúncio do que está por vir. A Coreia do Sul, assim como o restante da Ásia e do mundo, está mergulhando em uma crise cada vez mais profunda. De uma forma ou de outra, camadas mais amplas da classe trabalhadora serão lançadas no caminho da luta. Nesse processo, as ideias marxistas serão indispensáveis para que conquistem não apenas uma pequena parcela dos lucros dos capitalistas, mas uma sociedade inteiramente nova.


