Somos levados a acreditar que a democracia é um sistema político estável, baseado em transições pacíficas de poder e na representação popular. Essa ideia está longe de corresponder à realidade no Peru, país que viu nove presidentes passarem pelo cargo em dez anos.
A vencedora mais recente, Keiko Fujimori — filha do conhecido ditador —, herda uma bomba-relógio repleta de crises e contradições.
Nos últimos anos, o Peru enfrentou crises constitucionais, movimentos de massa, greves, escândalos de corrupção, inflação e violência. A confiança no establishment político está em seu nível mais baixo. Seis dos últimos dez presidentes foram presos ou tiveram mandados de prisão expedidos contra si por crimes de corrupção ou violações constitucionais.
A eleição mais recente — a primeira desde o golpe de 2022, apoiado pelos EUA, contra o governo de Pedro Castillo — teve um resultado extremamente apertado, com uma apuração do primeiro turno tão caótica e marcada por tantos atrasos que o chefe do Escritório Nacional de Processos Eleitorais acabou renunciando. O pleito, que deveria ter ocorrido em 2022, foi deliberadamente adiado por Dina Boluarte; ela havia assumido o poder ilegalmente e pretendia permanecer no cargo até 2026 — até que um movimento insurrecional derrubou seu governo.
Nenhum dos candidatos obteve maioria no primeiro turno, forçando a realização de um segundo turno entre Keiko Fujimori (Fuerza Popular) e Roberto Sánchez (Juntos por el Perú). Eles representam as duas vertentes do sistema político peruano: o Fujimorismo de direita e a fragmentada esquerda institucional.
Em terceiro lugar ficou a Renovación Popular, um partido de direita conservador-religioso com forte presença na capital, Lima, mas nenhuma no resto do país.
A margem entre os candidatos no segundo turno foi tão pequena (49.600 votos para Fujimori, ou 0,27%) que os 307.000 votos vindos do exterior desempenharam um papel decisivo. Isso beneficiou amplamente a direita, já que os eleitores pobres de Juntos por el Perú são escassos em Miami ou Buenos Aires.
A infraestrutura do Peru é tão precária que é mais fácil para um reacionário de classe média votar no consulado de Tóquio do que para um agricultor indígena que vive na Selva Alta. Se fossem considerados apenas os votos computados no Peru, Sánchez da esquerda teria vencido.
Essa disparidade levou Sánchez a rejeitar o resultado e a pedir ao Júri Nacional Eleitoral (JNE) que “declare nulas as eleições de 7 de junho realizadas nos consulados para peruanos no exterior”.
Apesar das enormes marchas em todo o país em apoio a Juntos por el Perú e da recusa desafiadora de Sánchez em reconhecer a derrota, o presidente do JNE, Roberto Burneo, proclamou oficialmente Fujimori vencedora para o mandato presidencial de 2026-2031 em 3 de julho de 2026 — quase um mês após a votação e depois de terem sido contestados os resultados de milhares de seções eleitorais.
Por enquanto, tudo indica que Fujimori tomará posse em 28 de julho. Mas, como é comum no Peru, não sabemos o que os próximos cinco meses reservam, muito menos os próximos cinco anos.
O Peru, assim como muitos países do continente, é extremamente desigual, com uma burguesia nacional corrupta centralizada em Lima e estreitamente ligada e subordinada aos interesses de multinacionais estrangeiras. O 1% mais rico detém metade da riqueza, enquanto os 50% mais pobres recebem 5,7% de toda a renda. Oitenta por cento das residências rurais não têm acesso a saneamento básico, e a anemia infantil é a norma nas áreas rurais.
O retorno do autoritarismo com uma face “democrática”
Keiko Fujimori é conhecida como filha do ditador Alberto Fujimori, que governou entre 1990 e 2000, quando foi deposto por um movimento de massa. Ela tem tentado se apresentar como a versão “democrática” e renovada desse projeto. Foi candidata à presidência quatro vezes (2011, 2016, 2021, 2026) e chegou ao segundo turno em três dessas eleições, sem nunca conquistar a presidência.

O partido dela é a principal força de direita do país, com raízes profundas nos setores urbanos da classe trabalhadora que associam o fujimorismo à “ordem”, ao combate à violência de gangues e à estabilidade econômica.
Entre suas principais propostas estão o corte de gastos públicos, a drástica redução de regulamentações e impostos para empresas de mineração e o lançamento de uma campanha militarizada contra a violência de gangues, defendendo assim o legado do governo de seu pai.
Roberto Sánchez é um político de esquerda, atualmente deputado e psicólogo de profissão. Sua candidatura conta com o apoio do Juntos por el Perú, uma coalizão de esquerda que se apresenta como a herdeira legítima do governo de Pedro Castillo — o professor rural e sindicalista que conquistou a presidência com uma plataforma de transformação radical, mas foi destituído do cargo pelo Congresso em um golpe, em dezembro de 2022, após tentar dissolver o Parlamento.
Ele avançou para o segundo turno graças ao apoio da esquerda em certos setores da classe trabalhadora e em áreas regionais (especialmente nos Andes do sul). Sua companheira de chapa foi Brígida Curo Bustincio, uma liderança da região de Puno, na fronteira com a Bolívia — uma área com forte tradição de lutas camponesas e indígenas.
A plataforma de Sánchez permaneceu pouco clara durante grande parte da campanha. Ele tentou se posicionar como sucessor do castillismo (prometendo uma assembleia constituinte, reforma agrária, nacionalização de recursos, etc.), mas adotando um tom mais moderado, visando dissipar os receios da classe média e do grande empresariado. O foco principal de seu plano era a “reforma constitucional” e a “recuperação da soberania”, com uma “economia mista” caracterizada por uma forte presença do Estado.
No entanto, essa falta de clareza gerou desconfiança, refletindo um problema mais profundo: a esquerda institucional peruana (popularmente conhecida como “esquerda caviar”) não conseguiu elaborar um programa voltado para a classe trabalhadora e o campesinato, ambos pressionados pela crise. A iniciativa de Sánchez manteve-se sempre firmemente ancorada na estrutura da democracia burguesa — aceitando as regras do jogo eleitoral, buscando alianças com partidos de centro e evitando um programa abertamente anticapitalista.
A experiência do governo de Pedro Castillo é instrutiva: ele chegou ao poder com uma plataforma radical, mas, uma vez no cargo, foi rapidamente envolvido pela dinâmica de uma democracia burguesa concebida para impedir tal radicalismo.
Sob pressão, ele moderou seu programa, aceitou a remoção dos elementos mais radicais de seu próprio gabinete e aproximou-se dos interesses das multinacionais de mineração — atitudes que erodiram sua base de apoio entre trabalhadores e camponeses pobres. O Congresso, dominado pela direita (incluindo os fujimoristas), submeteu-o a um assédio constante que culminou em sua destituição do cargo e prisão.
A esquerda institucional não aprendeu a lição. Ela disputou novamente no mesmo terreno em que havia sido derrotada anteriormente, sem alterar sua estratégia ou sua plataforma.
Sánchez encarna a contradição de uma esquerda que deseja mudar o sistema, mas opera dentro de suas regras, prometendo transformações profundas enquanto cuida para não alarmar os poderes estabelecidos. Essa postura ambígua reflete, em última análise, a dificuldade de se construir uma alternativa real à democracia burguesa a partir de dentro do próprio sistema.
Outra saída?
O marxista peruano José Carlos Mariátegui vislumbrou uma solução:
“A Revolução Latino-Americana não será nada mais, nada menos do que uma etapa, uma fase da revolução mundial. Será, simples e claramente, a revolução socialista.”
O problema é que, no Peru de hoje, esse objetivo parece mais distante do que nunca. A esquerda institucional representada por Sánchez desistiu de formular seu programa em termos radicais. O fujimorismo é a encarnação mais brutal da contrarrevolução. No entanto, esse governo de direita não possui a base social necessária para viabilizar outra ditadura.
No primeiro turno da eleição presidencial, Fujimori obteve 14% dos votos válidos, e seu partido detém um terço das cadeiras no Congresso. A classe trabalhadora, o campesinato pobre e a juventude ainda detêm um poder imenso e demonstraram sua capacidade de mobilização contra a reação. A lista de problemas que o governo enfrenta atualmente é vasta.
O Peru, por exemplo, é o campo de batalha mais controverso da Doutrina Donroe. Fujimori, uma apoiadora de Trump, quase certamente aderirá ao Escudo das Américas, concebido para combater as incursões chinesas no continente.
O recém-construído Porto de Chancay, destinado a reduzir em 10 dias o tempo de transporte até a China, já sofre forte pressão dos EUA; o governo americano está forçando o Estado peruano a investir US$ 1,5 bilhão na modernização da Base Naval de Callao para seu próprio uso e benefício. Nenhum país latino-americano pode esperar sobreviver sem o comércio com a China, e a Doutrina Donroe visa romper esses laços econômicos.
Embora o Peru não enfrente a mesma crise financeira que a Argentina ou a Colômbia, está longe de ser uma economia burguesa estável. A empresa estatal de petróleo, Petroperú, atravessa uma grave crise financeira e necessita de bilhões de dólares em aportes de socorro para manter suas operações. O tráfico de cocaína cresceu vertiginosamente nos últimos anos — sendo o Peru um produtor-chave —, alimentando a violência de gangues, assassinatos e extorsões. As forças armadas têm sido mobilizadas repetidamente em Lima e Callao, mas a situação não melhorou.
Os preços elevados do ouro e do cobre, embora tenham proporcionado ao Estado um enorme impulso financeiro, também alimentaram atividades de mineração ilegal que movimentam bilhões. No entanto, esses preços altos não se sustentarão; e, visto que a mineração responde por cerca de 20% da arrecadação total de impostos do Peru e por 60% de todas as exportações nacionais, uma queda nos preços terá um impacto imediato.

Em suma, um golpe em 2022 incumbiu a filha de um ditador da ingrata tarefa de restaurar a legitimidade da democracia burguesa em uma economia frágil, dominada pelo imperialismo dos EUA e da China, em meio à maior crise do capitalismo.
A Trumpificação da América Latina
Seria muito fácil observar as vitórias eleitorais da direita no Peru, na Colômbia, na Bolívia, no Equador, etc., e tirar conclusões derrotistas. Esse é mais um passo no que a revista The Economist chama de “a dramática Trumpificação da América Latina”.
No entanto, não se trata de democracias burguesas fortes e estáveis. O sistema está mais desacreditado do que nunca. Essas vitórias revelam mais sobre a total ausência de um programa anticapitalista coerente do que sobre qualquer desejo das pessoas de serem oprimidas ou dominadas pelo imperialismo norte-americano.
Apenas neste ano, testemunhamos revoltas populares na Bolívia e na Argentina. No Peru, o Estado só conseguiu retomar o controle após o golpe de 2022 assassinando mais de 60 pessoas e prendendo, espancando e torturando centenas de outras. Ninguém se esqueceu disso. “Liberdade para Castillo!” e “Por justiça e dignidade, Fujimori nunca mais!” são palavras de ordem comuns nas ruas do Peru.
A vitória da direita representa apenas um impasse temporário até que o próximo confronto se inicie. O avanço dos EUA no continente apenas intensificará essa situação. No entanto, nada disso é automático. A direita pode continuar a se arrastar ano após ano, implementando seu programa de austeridade, repressão e crescente presença militar dos EUA, tudo isso utilizando a ameaça da violência ligada às drogas como cortina de fumaça.
O problema fundamental do Peru hoje é evidenciado pela palavra de ordem que levou Pedro Castillo à eleição: “No más pobres en un país rico” — ou seja, “Chega de pobres em um país rico”.
O Peru possui vasta riqueza mineral e agrícola, além de uma das maiores biodiversidades do mundo. Inicialmente, Castillo falou em nacionalizar o ouro, a prata, o cobre e o lítio, bem como em desenvolver uma rede estatal de gás natural. No entanto, ele rapidamente cedeu a uma pressão imensa e optou, em vez disso, por renegociar os royalties. Isso manteve o poder nas mãos dos mesmos oligarcas sanguinários que acabariam por derrubá-lo e matar trabalhadores nas ruas que lutavam contra o golpe.
Juntos por el Perú e o restante da esquerda precisam assimilar a lição de que a conciliação é um caminho que leva ao precipício. Não se pode dialogar com os assassinos que estão no governo. Castillo aprendeu isso da maneira mais difícil. Por fim, Fujimori está construindo sua casa sobre a areia. Ela poderá se arrepender de ter concorrido pela quarta vez.


