Dia após dia, o rufar persistente dos tambores de guerra no Oriente Médio torna-se cada vez mais alto e ameaçador. Nas últimas semanas, acompanhamos o que parece ser uma deriva inevitável rumo à retomada do conflito armado entre os Estados Unidos e o Irã.
Novos elementos entram nessa equação complexa à medida que os lados opostos movem novas peças no sangrento tabuleiro de xadrez da violência e do caos, gerando uma escalada em espiral mortal.
No entanto, o cenário geral apresenta-se como um emaranhado incompreensível de confusão, no qual uma declaração surpreendente do presidente dos Estados Unidos é imediatamente contradita por algo totalmente diferente.
Segundo o mantra frequentemente repetido pelo homem na Casa Branca, o poderio militar do Irã foi total e completamente aniquilado em pelo menos uma dúzia de ocasiões pelo poder aéreo superior dos Estados Unidos.
Donald Trump havia ameaçado destruir a civilização do Irã caso o país não aceitasse um acordo. “Se o Irã tivesse recusado nossos termos, os próximos alvos teriam sido suas usinas de energia, pontes e infraestrutura de petróleo e energia”, disse Hegseth.
No entanto, não há absolutamente nenhuma evidência de que o Irã tenha aceitado qualquer acordo americano. De fato, Teerã declarou publicamente que não houve qualquer negociação com os americanos.
E, por alguma razão peculiar, que ainda precisa ser explicada pelo homem na Casa Branca, o Irã continua a lançar rajadas de mísseis balísticos contra alvos no Oriente Médio, notadamente, em data recente, contra uma base americana na Jordânia.
A real extensão da destruição causada por esses ataques nunca foi claramente explicada. Mas deve ter sido considerável, levando os americanos a retirar suas forças de bases na região.
Theodore Roosevelt tinha um lema interessante: “fale baixo e carregue um grande porrete”. Donald J. Trump prega exatamente o oposto: gritar e berrar a plenos pulmões, proferir as ameaças mais aterrorizantes e brandir uma espada de papelão no ar.
O único resultado dessa política absurda — que hoje em dia passa por diplomacia nos Estados Unidos — é desacreditar os americanos aos olhos do mundo.
Quantas vezes o presidente americano ameaçou desencadear um ataque aéreo devastador que reduziria o Irã a um monte de escombros fumegantes? Quantos prazos ele estabeleceu para esse desfecho apocalíptico?
Perdemos a conta. Mas os prazos do Sr. Trump chegam e passam. E, invariavelmente, na última hora, ele muda de rumo e esquece tudo.
Infelizmente para ele, seus inimigos não esquecem nem perdoam. Eles interpretam corretamente essas constantes mudanças de rumo como um sinal claro de fraqueza e agem de acordo.
A guerra dos EUA contra o Irã destruiu “completamente” a capacidade do país de fabricar mísseis e outros armamentos sofisticados, vangloriou-se o Secretário de Defesa Pete Hegseth em abril.
“Acabamos de destruir completamente a base industrial de defesa do Irã, um pilar fundamental da nossa missão”, disse Hegseth aos repórteres.
“Eles não conseguem mais fabricar mísseis, foguetes, lançadores ou drones — suas fábricas foram arrasadas, sofrendo um retrocesso histórico”, afirmou ele.
No entanto, as declarações absurdas e arrogantes de Trump e Hegseth são contrariadas pelos fatos.
Já naquele momento, fontes militares israelenses afirmavam que os iranianos possuíam um vasto arsenal de mísseis — provavelmente mais de mil — e que aumentavam constantemente a produção.
Percebendo as hesitações e vacilações na Casa Branca, os iranianos tornaram-se ainda mais confiantes e agressivos.
Longe de abrir o Estreito de Ormuz, a Guarda Revolucionária — que, na prática, é a força mais poderosa do Irã atualmente — reagiu declarando que iria endurecer o controle sobre Ormuz, expandindo a zona de controle a oeste do estreito.
Ao contrário do presidente americano, a Guarda Revolucionária sempre concretiza suas ameaças com ações. Quaisquer navios-tanque que tentem se aproximar do Estreito de Ormuz podem ser atacados pelos iranianos à distância, a menos que obtenham permissão do Irã para passar.
Para agravar a situação, os iranianos, como já mencionamos, lançaram uma enxurrada de mísseis e drones contra bases americanas na Jordânia e em outras partes da região.
A lógica por trás desses ataques iranianos é bastante óbvia. O objetivo não era tanto causar danos materiais, mas sim provocar uma resposta dos americanos, fazendo com que estes consumissem estoques valiosos — e cada vez mais escassos — de caros mísseis de defesa aérea.
Esse objetivo parece ter sido alcançado com sucesso pelos ataques recentes, para cuja contenção os Estados Unidos dispararam 60 interceptadores de mísseis Patriot PAC-3.
Visto que se estimava, há cerca de um mês, que o estoque total desses mísseis era de aproximadamente 640 unidades, isso representa uma redução significativa no já limitado inventário americano de mísseis Patriot.
Esses mísseis, de custo elevadíssimo, são extremamente complexos, e muitos de seus componentes fundamentais são, ao que tudo indica, produzidos em grande parte de forma artesanal. Leva-se dois anos para que os Estados Unidos produzam um único exemplar desses mísseis. Isso significa que, mesmo que os americanos planejem aumentar a produção de mísseis interceptadores Patriot PAC-3, não será possível fabricá-los com rapidez suficiente para repor as perdas nesse ritmo.
Um desenvolvimento ainda mais alarmante para os americanos é o fato de que a precisão e o alcance dos mísseis iranianos aumentaram enormemente.
Eles têm atingido alvos regularmente — incluindo bases americanas — com precisão cirúrgica e um conhecimento muito exato dos pontos mais vulneráveis das defesas dos EUA; tal capacidade só pode advir de assistência direta da Rússia e, possivelmente, também da China.
Essa evolução acendeu todos os sinais de alerta no Pentágono, que teme — com razão — que essa tecnologia torne os mísseis iranianos muito mais perigosos para os navios de guerra e as bases americanas na região.
Segundo o The Wall Street Journal, houve uma reunião na Casa Branca na qual, apesar das declarações ousadas que o presidente Trump continua fazendo sobre como a guerra contra o Irã está sendo ganha, já foi ganha ou será ganha após as eleições de meio de mandato, ele foi aparentemente informado em particular de que o conflito poderia se prolongar pelo restante de seu mandato.
É esse fato — e não qualquer desejo de paz — que explica por que Trump não concretizou, pelo menos por enquanto, suas ameaças aterrorizantes de um ataque devastador contra o Irã.
Os Houthis passam à ofensiva
Tudo isso já era grave o suficiente. Mas, para agravar ainda mais os problemas do Sr. Trump, chegaram-lhe repentinamente notícias de um desdobramento extremamente alarmante em mais uma parte estratégica da região.
Enquanto prossegue o conflito entre o Irã e os Estados Unidos e o Estreito de Ormuz permanece fechado, um novo confronto eclodiu subitamente entre os sauditas e o movimento Houthi no Iêmen.
Esses avanços dos Houthis, apoiados pelo Irã, fazem parte da guerra civil em curso no Iêmen contra o Conselho de Liderança Presidencial, apoiado pela Arábia Saudita.
De 2015 até a assinatura de uma trégua precária em 2022, a Arábia Saudita foi a principal força por trás de uma campanha brutal, combinando ataques aéreos e terrestres, contra os Houthis. A frágil trégua manteve-se até este ano.
No entanto, ela foi rompida por um ataque não provocado de bombardeiros sauditas contra o aeroporto de Sanaa, a capital dos houthis. E a trégua foi agora totalmente destruída pela ofensiva rápida e aparentemente imparável dos houthis.
É difícil ter uma visão clara desta guerra, mas parece evidente que os houthis avançaram com velocidade relâmpago, tomando uma grande parte do território e, sobretudo, ocupando uma vasta área, superando a resistência ineficaz das forças governamentais e avançando para o sul. Eles já chegaram à extremidade sul do Iêmen, ao longo do Mar Vermelho.
O governo do Iêmen, apoiado pela Arábia Saudita, tenta agora recuperar territórios capturados durante o rápido avanço dos militantes houthis nos últimos dias.
Alguns relatos sugerem que opositores dos houthis estão lançando contra-ataques em outras localidades. Apesar disso, os houthis parecem ser, de longe, a força militar mais poderosa do Iêmen atualmente.
Na verdade, se existe uma horda desorganizada no Iêmen, não são os houthis. São as facções Anti-Houthi (algumas apoiadas pela Arábia Saudita, outras pelos Emirados Árabes Unidos) que, em meio à guerra, estão demasiado ocupadas lutando e matando umas às outras para obter mais espólios, a ponto de não prestarem atenção nos houthis.
O avanço dos Houthis lhes conferiu o controle de toda a costa iemenita do Mar Vermelho. Eles estão agora a apenas 32 quilômetros de uma base militar dos EUA no Djibuti — o pequeno país no Chifre da África, situado do outro lado do estreito de Bab el-Mandeb, na parte sul do Mar Vermelho.
Em 15 de setembro, o jornal The Guardian expressou os receios crescentes dos governos ocidentais quanto às consequências dessas ações:
“Os militantes houthis do Iêmen tomaram duas ilhas estratégicas no Mar Vermelho, reforçando a capacidade do grupo — apoiado pelo Irã — de controlar uma rota de navegação fundamental, em meio a preocupações crescentes de que o mundo esteja diante de uma nova crise no abastecimento de petróleo.
“A tomada das ilhas Hanish Maior e Hanish Menor é o episódio mais recente do rápido avanço do grupo militante pela costa iemenita do Mar Vermelho, após a captura do porto de Mokha e da ilha de Perim, no estreito de Bab-el-Mandeb.
“As ilhas situam-se a 160 km ao norte do estreito, um ponto de estrangulamento que conecta o Mar Vermelho ao oceano aberto e aos principais mercados asiáticos da Arábia Saudita.”
Este estreito é um ponto de estrangulamento estratégico na rota marítima que conecta o Mar Mediterrâneo ao Oceano Índico. Com o fechamento, de fato, do Golfo de Ormuz, ele passou a oferecer a única alternativa viável para o transporte de petróleo, gás natural liquefeito e outras mercadorias que saem da região ou passam por ela.
A Arábia Saudita, em particular, desviou cerca de 64% de suas exportações de petróleo para um oleoduto terrestre que atravessa o país de leste a oeste, transportando o produto até o Porto de Yanbu para, então, embarcá-lo através do estreito de Bab el-Mandeb.

O oleoduto em questão é de importância crítica, pois os sauditas o utilizavam para transportar petróleo por fora do Estreito de Ormuz, em direção aos portos do Mar Vermelho. No entanto, ele foi atingido por mísseis — aparentemente disparados por um grupo militante pró-Irã no Iraque, que tem utilizado mísseis balísticos e drones para atacar alvos militares e econômicos estratégicos.
Os graves danos sofridos paralisaram, na prática, as exportações de petróleo saudita para a Ásia. As autoridades sauditas confirmaram a extensão dos danos ao interromperem a operação de todo o oleoduto. O reparo levará muitas semanas — isso se a estrutura não for alvo de novos ataques nesse meio-tempo.
O avanço aumentou enormemente o potencial de controle dos Houthis sobre a saída de navios-tanque pelo estreito de Bab el-Mandeb.
Os Houthis declararam que seus alvos são embarcações e petróleo da Arábia Saudita; eles realizaram ataques contra caminhões e instalações petrolíferas dentro do território saudita.
No entanto, países da Europa, Ásia e África dependem do fluxo de mercadorias que passam pelo estreito de Bab el-Mandeb. O suprimento proveniente da Arábia Saudita — o maior exportador de petróleo do mundo — é particularmente vital para as economias da África e da Ásia, que dependem de importações de petróleo do Oriente Médio.
Essa situação representa uma ameaça à economia e ao comércio globais. Os rebeldes Houthis estão agora em condições de interromper e controlar efetivamente a navegação global que passa pelo estreito. Utilizando meios leves e assimétricos, como drones, mísseis antinavio e lanchas de ataque rápido, eles podem paralisar rapidamente o tráfego marítimo.
MbS em pânico
Esta é a maior crise que a Arábia Saudita enfrenta desde a fundação do reino, na década de 1930. A situação gera alarme nos círculos governantes sauditas, especialmente para o príncipe herdeiro e governante de fato, Mohammed bin Salman Al Saud — também conhecido como MbS.
Evidencia-se que o homem forte da Arábia Saudita tem pés de barro. De fato, ele demonstra claros sinais de pânico. Não é difícil entender o motivo.
Já é um segredo aberto que, antes de os americanos lançarem seu ataque ao Irã em 28 de fevereiro, MbS e outros líderes árabes do Golfo Pérsico vinham pressionando Trump a tomar essa atitude. Esse foi um dos fatores que influenciaram a decisão de Donald Trump de seguir em frente. MbS claramente supunha que um ataque americano resultaria em uma vitória rápida e no colapso do regime iraniano.
No entanto, a situação tomou um rumo muito diferente. O regime iraniano não foi derrubado; pelo contrário, acabou fortalecido. O Estreito de Ormuz foi bloqueado e instalações petrolíferas sauditas sofreram ataques. Agora, a crise se estendeu ao Iêmen, e o acesso ao Mar Vermelho pelo sul está sob ameaça dos Houthis. Um oleoduto vital, do qual a Arábia Saudita depende, foi inutilizado.
Os Houthis estão atacando com frequência crescente as instalações petrolíferas sauditas — alvos que os sauditas terão cada vez mais dificuldade em proteger, dada a escassez de interceptadores de mísseis Patriot PAC-3.
Em um gesto de desespero, MbS “pressionou pessoalmente o presidente Trump a realizar uma ação militar contra os houthis à medida que as forças houthis avançavam rapidamente ao longo da costa do Iêmen no Mar Vermelho, […] acrescentando que Trump e o príncipe herdeiro conversaram diversas vezes nos últimos dias sobre a escalada da situação.”
No entanto, todos esses apelos desesperados não surtiram efeito, prossegue o artigo:
“Apesar da insistência de bin Salman, Trump recusou-se, até o momento, a envolver diretamente as forças armadas dos EUA, oferecendo, em vez disso, assistência com inteligência e apoio na identificação de alvos, segundo as fontes, que tiveram sua identidade preservada para falar sobre as delicadas negociações.”
O maior erro que se pode cometer em uma guerra é subestimar o inimigo. E os americanos incorreram nesse erro em muitas ocasiões.
Eles subestimaram os russos ao provocarem deliberadamente uma guerra insensata, usando o povo ucraniano como bucha de canhão. O resultado disso está agora à vista de todos.
Eles têm tentado sistematicamente minimizar o poder e as conquistas econômicas da China, que é hoje a nação industrialmente mais poderosa do planeta, com um nível tecnológico pelo menos equivalente — e provavelmente superior — ao dos Estados Unidos.
Também subestimaram o Talibã no Afeganistão, onde sofreram uma derrota humilhante, e, até o momento, vinham subestimando os Houthis. A mídia ocidental insiste em retratar os Houthis como uma força desorganizada e heterogênea, sem competência militar ou capacidade de resistir ao poder avassalador e ao armamento sofisticado de um país como os Estados Unidos.
No entanto, a experiência demonstra que essa imagem é totalmente falsa — fruto da arrogância imperialista e de um senso equivocado de superioridade inata em relação a povos “atrasados”. Essa caricatura absurda e maliciosa, apresentada pela mídia, entra em flagrante contradição com os fatos conhecidos.

Os Houthis são, de fato, uma força militar altamente disciplinada, composta por guerreiros resistentes e implacáveis. Além do fanatismo e da resiliência, eles demonstraram um domínio admirável de táticas e estratégias militares. Eles sempre persistiram na luta, independentemente de bombardeios aéreos, navais ou terrestres. Anos de árdua batalha transformaram-nos em uma força militar formidável.
Além disso, com o auxílio do Irã (e, sem dúvida, da Rússia e da China), eles agora dispõem de um sistema de defesa aérea próprio e funcional, de modo que qualquer ataque aéreo terá um custo muito elevado.
Esses fatos foram compreendidos tardiamente pelos senhores do Pentágono, que finalmente começaram a entender as virtudes da cautela na guerra. Eles transmitiram suas preocupações — sem dúvida de maneira contundente — ao próprio presidente.
Donald Trump avaliou a situação e disse: “Obrigado, mas dispenso!” Os americanos já estão sobrecarregados com uma guerra (na verdade, duas) e não têm qualquer desejo de serem arrastados para mais um conflito armado, cuja vitória está longe de ser garantida. Essa é certamente a posição do Pentágono, se não a do próprio Donald Trump.
Essa recusa deve ter atingido MbS como um soco no plexo solar. Ele deve ser agora um homem muito assustado, abandonado por seu suposto aliado na Casa Branca e forçado a enfrentar um inimigo implacável e impiedoso, sem qualquer perspectiva realista de ajuda.
O que MbS mais precisa urgentemente é reforçar suas defesas. Assim como Zelensky, ele clama pelo envio de mais mísseis Patriot. Mas, como vimos, esses equipamentos estão em falta. É muito improvável que seus pedidos sejam atendidos — e certamente não nas quantidades que ele necessita.
Assuntos pendentes
A tomada de uma rota de navegação vital no Mar Vermelho pelos Houthis marca um ponto de virada na guerra inconclusa entre os Estados Unidos e o Irã.
Embora o Irã jamais tenha admitido qualquer envolvimento, parece inconcebível que os Houthis tenham agido sem a anuência explícita de Teerã.
Tanto o Irã quanto os Houthis detêm agora um controle estratégico sobre duas vias navegáveis vitais para o transporte marítimo global. Isso lhes confere um poderoso meio de pressão sobre seus adversários, ao impactar a economia mundial e, em particular, os EUA.
Tal fato demonstra um elevado grau de confiança tanto por parte dos iranianos quanto dos Houthis: tudo isso evidencia que eles não recuarão diante de um conflito prolongado com os EUA.
Trump demonstrou relutância em envolver ainda mais as forças armadas dos EUA, “a menos que seja necessário”. Mas o que ele quer dizer com a palavra “necessário”?
Após recusar os pedidos do príncipe herdeiro saudita para participar de ataques sauditas contra alvos houthis no Iêmen, Trump relatou que os próprios houthis haviam pedido aos EUA que não interviessem.
Será que isso significa que, finalmente, a voz da sensatez e da razão prevaleceu no Salão Oval? Podemos concluir que o homem na Casa Branca descartou a possibilidade de uma nova guerra?
Embora fosse muito agradável pensar assim, a experiência passada nos ensinou a ser extremamente cautelosos com quaisquer conclusões sobre a conduta futura do homem na Casa Branca.
Não seria possível que, apesar de todas as evidências, temendo as consequências de um colapso da Arábia Saudita, Trump decida finalmente intervir diretamente, independentemente das consequências?
As declarações vindas de Washington são tão oblíquas e obscuras quanto as misteriosas palavras do Oráculo de Delfos. O Secretário de Estado Marco Rubio afirmou que os EUA estavam monitorando a situação no Iêmen “muito de perto”. No entanto, o Departamento de Estado manteve-se reticente sobre o que tais declarações implicavam.
O Almirante Bradley Cooper, comandante do Comando Central dos EUA, esteve na Arábia Saudita na semana passada para conversas de coordenação. Sobre o que trataram essas conversas? Ninguém parece saber. De qualquer forma, não houve declarações públicas a respeito.
Um alto funcionário do governo declarou que os EUA estão “concentrados em proteger nossos interesses fundamentais de segurança nacional — como garantir a liberdade de navegação no Mar Vermelho — ao mesmo tempo em que capacitam nossos parceiros regionais a assumir a liderança na gestão e na resolução de desafios de segurança na região”.
A autoridade afirmou que os EUA mantêm um “diálogo contínuo com a Arábia Saudita e o governo da República do Iêmen sobre a estabilidade regional”. Mas o que isso significa na prática?
Sabe-se que os sauditas estão se empenhando freneticamente para formar uma coalizão contra os houthis e proteger o reino de represálias iranianas caso os houthis sejam atacados.
Por mais tentado que Trump estivesse em evitar envolver-se em mais um conflito, ele precisa compreender que tal atitude seria vista como uma traição, não apenas pelos sauditas, mas por todos os Estados do Golfo que tradicionalmente apoiam os Estados Unidos.
Uma derrota saudita pelas mãos dos houthis e dos iranianos é algo que Trump e os Estados Unidos simplesmente não podem aceitar.
Por esse motivo, Trump provavelmente não terá outra escolha a não ser colocar seu poderio militar a serviço da Arábia Saudita. Em um discurso recente na convenção republicana de meio de mandato, Trump disse:
“Construímos as forças armadas mais poderosas do mundo. Nós as utilizamos um pouco mais do que eu imaginava. Mas não podemos permitir que o Irã tenha uma arma nuclear, e eles jamais terão uma arma nuclear.”
Essas palavras sugerem fortemente que Donald J. Trump acredita que os EUA ainda têm pendências no Oriente Médio a serem resolvidas.
Apesar de todas as recomendações do Pentágono, o homem na Casa Branca não desistiu, de forma alguma, de seus planos de retomar a ofensiva contra o Irã para forçar Teerã a curvar-se à sua vontade.
A menção recorrente a armas nucleares é apenas uma manobra de distração para ocultar o verdadeiro objetivo — que é, naturalmente, a reabertura do Estreito de Ormuz e, se possível, uma mudança de regime no Irã.
Uma das definições de loucura é continuar repetindo o mesmo erro já cometido diversas vezes, na expectativa confiante de que, eventualmente, ele dará certo. Sob essa ótica, o comportamento de Donald Trump é, literalmente, insano.

Mas isso nunca o deteve antes. E não há razão para supor que isso o impeça agora de seguir a linha de ação que ele considera “necessária”, uma vez superadas as eleições de meio de mandato.
Quaisquer que sejam os planos que fervilhem na mente complexa e hiperativa do presidente, é bastante claro que ele jamais alcançará seus objetivos por meios militares. Se isso fosse possível, ele já os teria alcançado há muito tempo.
Os sauditas e seus aliados bombardearam os houthis implacavelmente em diversas ocasiões. Os americanos gastaram uma grande quantidade de munição valiosa contra os houthis na primavera de 2025, com poucos resultados concretos.
Isso não abalou nem um pouco o ânimo deles. Portanto, é insensatez imaginar que a retomada dos bombardeios alterará o curso da guerra no Iêmen.
É de conhecimento público que os Estados Unidos estão com estoques reduzidos de armamentos cruciais — como interceptadores Patriot, mísseis THAAD e mísseis de cruzeiro —, os quais seriam de importância vital em qualquer conflito prolongado.
De qualquer modo, a história demonstra que guerras jamais podem ser vencidas apenas com o uso do poder aéreo. Qualquer campanha militar séria contra os houthis envolveria inevitavelmente o emprego de tropas em solo — uma estratégia, de fato, muito arriscada.
O prestigiado Conselho de Relações Exteriores dos EUA publicou um artigo em 22 de setembro que aponta corretamente que:
“As campanhas aéreas contra os houthis e o Irã demonstraram que existem limites para esse tipo de guerra. Se Trump e os sauditas quiserem resolver o problema dos houthis, será necessário muito mais do que ataques aéreos.”
E acrescenta:
“Qualquer esforço militar dos EUA teria de incluir uma operação terrestre significativa e coordenada para expulsar os houthis das áreas onde controlam o Estreito de Bab el-Mandeb. Essa é uma tarefa árdua, dada a fragilidade das forças do governo iemenita e a relutância da Arábia Saudita em lançar suas próprias forças militares no combate.”
A curto prazo, os ataques aéreos contra os houthis no Iêmen podem, possivelmente, salvar os sauditas de uma derrota iminente. No entanto, isso terá outras consequências muito mais graves.
As consequências
Torna-se cada vez mais claro que as ações propostas por Donald Trump acarretam consequências que ele é incapaz de ver ou não quer enxergar.
Qualquer ataque levará tanto os iranianos quanto os Houthis e seus aliados regionais — as milícias xiitas no Iraque e o movimento Hezbollah no Líbano — a retaliações ainda mais drásticas.
Ao pedir que os americanos fiquem de fora do conflito, a liderança Houthi empenhou-se em assegurar a Washington que não pretende bloquear toda a navegação comercial no Mar Vermelho, mas apenas navios ligados à Arábia Saudita.
Se os Houthis forem atacados pelos EUA, é muito provável que os iranianos decidam que também precisam retaliar, pois não o fazer seria visto como uma traição aos Houthis — algo que eles não podem se permitir. Isso é ainda mais verdadeiro, naturalmente, no caso de um ataque direto ao Irã.
Nesse ponto, a situação escalará para um confronto aberto e sem restrições. Os houthis não hesitarão em bloquear o acesso de navios americanos e de outras nações ocidentais ao Mar Vermelho, elevando assim a crise da economia mundial a um patamar totalmente novo.
Os iranianos poderiam reagir não apenas com ataques a instalações petrolíferas sauditas (tanques de armazenamento, portos, petroleiros e oleodutos vulneráveis), mas também — o que seria muito mais grave — contra infraestruturas críticas, como usinas de dessalinização. Isso teria consequências catastróficas para a Arábia Saudita e para todos os seus aliados do Golfo.
Será uma guerra curta?
Uma coisa é certa. Uma vez que a guerra se alastre, não haverá fim para ela. A ideia de algum tipo de campanha militar curta e bem-sucedida é uma miragem insensata, que contraria todos os fatos conhecidos.

Tanto os iranianos quanto os houthis demonstraram sua capacidade de resistir até mesmo às guerras mais brutais. Não lhes faltam nem a vontade nem a capacidade — em termos de poderio militar — para travar uma guerra prolongada.
Em contrapartida, os EUA não possuem nenhuma dessas duas coisas. Do ponto de vista militar, tal guerra seria uma catástrofe para os Estados Unidos. Líderes do Pentágono têm alertado repetidas vezes.
O Washington Post noticiou que altos comandantes das Forças Armadas dos EUA alertaram o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, de que operações em larga escala contra o Irã não podem ser sustentadas indefinidamente e que a continuidade da concentração de forças no Oriente Médio poderia comprometer a capacidade militar dos EUA de responder a ameaças em outras partes do mundo, inclusive a defesa do próprio território americano.
As preocupações do Pentágono são plenamente justificadas. No entanto, as repercussões mais graves serão sentidas na esfera política e na consciência de milhões de pessoas.
Uma guerra contra o Irã não conta com o apoio da opinião pública nos EUA. Cerca de 60% dos americanos se opõem à ação militar, o que a tornaria um dos grandes conflitos mais impopulares da história recente.
Essa oposição também é generalizada na base eleitoral de Trump, que não esqueceu sua promessa de acabar com as “guerras sem fim”, particularmente no Oriente Médio.
Tudo aponta para um grande ciclo de escalada no Oriente Médio, no qual a causa se torna efeito e o efeito se torna causa, em uma espiral descendente e infernal de violência e caos. Quem pode dizer onde isso levará?
Convulsões na economia mundial
Enquanto isso, a economia global enfrenta um aumento descontrolado nos preços dos combustíveis e uma inflação galopante.
O preço de referência do petróleo bruto voltou a ultrapassar os 100 dólares o barril. E isso é apenas o começo. O jornal The Guardian afirmou, em 15 de setembro:
“A empresa de pesquisas Rystad Energy informou na segunda-feira que, desde o final de agosto, uma média de 2,6 a 4 milhões de barris de petróleo por dia passou pelo oleoduto e saiu do porto de Yanbu — um volume que, segundo a empresa, corre agora o risco de ‘desaparecer do mercado’.
“Na manhã de terça-feira, o petróleo bruto Brent subiu 1,17%, atingindo 106,92 dólares o barril. O preço médio do diesel nos EUA chegou a 6 dólares o galão pela primeira vez na semana passada.”
Assim, mesmo antes das eleições de meio de mandato de novembro, os preços da gasolina e do diesel nos postos de abastecimento americanos já atingem níveis nominais historicamente elevados.
E a escassez global de petróleo tende a se agravar. O Bank of America prevê que o preço do barril de petróleo chegará a US$ 150. Em retrospecto, essa previsão pode acabar se mostrando excessivamente otimista. Se a situação continuar a se deteriorar, o preço do petróleo poderá facilmente ultrapassar os US$ 200 por barril.
A crise no Oriente Médio, a alta dos preços da energia e os problemas nos mercados de títulos significam que todos os governos (exceto os da Rússia e da China) terão de enfrentar uma crise grave e crescente. Uma nova escalada do conflito na região — e o consequente colapso na produção e no fornecimento de petróleo — agravaria enormemente todos esses problemas.
Os bancos centrais serão forçados a recorrer ao aumento das taxas de juros. Isso, por sua vez, causará uma contração acentuada da demanda, provocando uma trajetória inevitável rumo à recessão, à queda dos lucros, ao colapso da confiança dos investidores e a uma crise no mercado de ações.
O fechamento de fábricas, o aumento acentuado do desemprego e a queda do padrão de vida e das receitas fiscais virão acompanhados de cortes profundos nos gastos públicos com educação, saúde e outros benefícios sociais.
Mudanças bruscas de consciência
Isso é particularmente verdadeiro para a Europa, onde as reservas de gás natural estão em níveis alarmantemente baixos. Já se observa um pânico crescente em relação à escassez de gás no continente — um assunto que os governos europeus têm evitado mencionar por receio de provocar alarme na população.
Os europeus podem esperar, de fato, um inverno muito rigoroso. Nuvens de tempestade se acumulam e tornam-se cada vez mais densas.
É possível, naturalmente, que os líderes europeus tentem desviar a atenção da crise econômica interna envolvendo-se na guerra no Oriente Médio, sob o pretexto de “defender a liberdade dos mares”.
Isso traz à mente o conhecido provérbio de que os tolos se lançam onde os anjos temem pisar. Tendo cometido todos os erros imagináveis em política externa — e alguns outros que são, francamente, inimagináveis —, esses cabeças-duras seriam perfeitamente capazes de se lançar em uma aventura militar num momento em que seus próprios exércitos estão em estado deplorável, seus cofres estão vazios e o eleitorado dificilmente estaria disposto a apoiar tais aventuras.
Por outro lado, parece que a estupidez dessa gente realmente não tem limites.
Mas tal aventura militar teria, inevitavelmente, as mais graves consequências políticas para todos os países da Europa.
Reviravoltas bruscas e repentinas como essa estão implícitas em toda a situação. Elas são as manifestações mais claras da instabilidade inerente a um sistema socioeconômico que já esgotou sua utilidade e entrou em contradição com as necessidades do progresso humano.

Mas isso também provocará mudanças na consciência igualmente repentinas e abruptas. Na ausência de uma alternativa viável de esquerda, o caminho fica aberto para demagogos de direita como Trump ou a AfD na Alemanha.
Esses demagogos de direita podem surgir repentinamente e alcançar certo êxito por algum tempo. Mas, inevitavelmente, eles se depararão com as contradições do capitalismo, para as quais não têm resposta. Eles entrarão em colapso tão rapidamente quanto surgiram.
Já podemos ver com que rapidez as ilusões em torno de Trump (que eram consideráveis) começam a se dissipar e a dar lugar a um clima de recriminação irada, particularmente no que diz respeito à guerra contra o Irã.
Uma guerra sem objetivos claros e sem fim à vista, acompanhada por um elevado número de baixas americanas, provocaria um nível de indignação popular e de manifestações de massa não visto desde a Guerra do Vietnã. Isso marcaria o naufrágio definitivo da carreira política de Trump.
Assim como na mecânica elementar, também na política, toda ação gera uma reação de igual intensidade e sentido oposto. Uma vez rompido o encanto do Trumpismo, as comportas se abrirão, desencadeando uma torrente de radicalismo que abalará a sociedade americana em suas próprias bases, abrindo caminho para uma guinada brusca do pêndulo da direita para a esquerda.
As previsões apocalípticas de Trump sobre a ascensão do comunismo nos EUA deixarão de ser o que têm sido até agora: os delírios de um político falido, desesperado por encontrar uma maneira de desviar a atenção do público dos problemas reais enfrentados pela população dos Estados Unidos.
Em vez disso, serão vistos como uma antecipação precisa da crescente radicalização à esquerda entre amplos setores da juventude, bem como do interesse crescente pelas ideias do comunismo e da revolução.
O mesmo fenômeno será observado em um país após o outro. As recentes eleições na Alemanha foram um claro sinal de alerta de que o sentimento popular é de crescente descontentamento; o desencanto com os partidos, líderes e governos atuais aumenta, e a antiga passividade está sendo substituída por um novo espírito de rebelião combativa.
Em suma, as condições atuais estão se tornando a receita pronta e acabada para uma explosão da luta de classes em uma escala sem precedentes.


