Na última semana, o nome Maricarmen ganhou destaque nas manchetes da Espanha. Essa mulher de 87 anos, fisicamente incapacitada, vivia em seu apartamento em Madri há 71 anos até sofrer um despejo violento na semana passada.
Houve uma grande onda de solidariedade a essa mulher inocente e à sua luta incansável contra um fundo de investimento predador. O caso canalizou a profunda indignação e a frustração que vêm se acumulando há anos na sociedade espanhola em decorrência da crise habitacional em curso.
A Puerta del Sol, a praça central de Madri, está tomada por um acampamento de manifestantes, o governo de Pedro Sánchez corre contra o tempo para aprovar alguma medida que acalme o movimento.
Um despejo brutal
A semana passada não foi a primeira vez que o Estado tentou despejar Maricarmen. Ela viveu a vida toda em um apartamento no bairro de Retiro, em Madri, até que o imóvel foi comprado pelo fundo de investimento Urbagestión, que buscou aumentar o aluguel em mais de 400% (de 500 para 2.650 euros). Com sua aposentadoria modesta, era impossível para ela arcar com esse custo.
O processo de despejo foi iniciado. As três primeiras tentativas de retirá-la do imóvel foram barradas pela pressão do movimento por moradia. No entanto, após uma série de trâmites judiciais e recursos, a Suprema Corte decidiu, em março, pelo encerramento do contrato de locação. O tribunal argumentou que o grau de incapacidade física da inquilina estava abaixo do limite legalmente exigido para a manutenção da proteção. Essa decisão demonstra o caráter arbitrário e desumanizador do sistema judiciário, que não passa de mais uma ferramenta a serviço da classe capitalista.
A reintegração de posse estava marcada para quarta-feira, 23 de setembro. Todos estavam preparados para um confronto decisivo. Na noite anterior à ação planejada, mais de 500 vizinhos solidários, organizados pelo Sindicato de Inquilinos, acamparam pacificamente, prontos para impedir que a polícia acessasse o prédio e realizasse o despejo.
Às 6h da manhã, um aparato policial desproporcional — composto por 15 vans, um helicóptero e dezenas de agentes — avançou com força total para dispersar violentamente a multidão e lançar gás lacrimogêneo contra o prédio. Maricarmen foi retirada em uma maca para ser levada de ambulância diretamente ao hospital.
Imagens do evento desencadearam uma onda imediata de indignação, com protestos simultâneos realizados naquela mesma tarde em uma dúzia de cidades por todo o país. Nos dias seguintes, a tensão social continuou a aumentar, levando a uma mobilização em massa no sábado, com mais de 200 mil participantes em Madri. Os manifestantes exigiam uma solução para a crise habitacional e ameaçavam realizar uma greve geral.
O protesto de sábado terminou com uma ocupação na Puerta del Sol, a praça central de Madri e sede do governo regional autônomo. Os organizadores exigem que o governo central aprove um “decreto Maricarmen” até terça-feira, incluindo o fim da especulação no mercado imobiliário, contratos de aluguel por tempo indeterminado (com renovação automática) e o fim dos despejos.
Naturalmente, essa sequência de eventos aterrorizou a burguesia, que agora se apressa para tentar arrefecer os ânimos da luta. De fato, é impossível não se lembrar do movimento dos “Indignados” de 2011 — a última grande ocupação da Puerta del Sol —, ocorrido na esteira da crise financeira de 2008.
A crise habitacional na Espanha
Sob o capitalismo, a moradia é simplesmente uma mercadoria como qualquer outra; não é produzida para satisfazer uma necessidade humana, mas apenas para gerar lucro. No entanto, dada a crise de superprodução, é mais atraente para a classe capitalista utilizar as moradias para fins de especulação, em vez de construir os milhões de imóveis a preços acessíveis de que os trabalhadores necessitam.
Na Espanha, quatro milhões de imóveis estão completamente vazios, pertencendo, em sua maioria, a grandes bancos e fundos de investimento. Eles não passam de fichas em um cassino de especulação. Além disso, mais de 350 mil apartamentos foram desviados para o setor mais lucrativo de aluguel de curta duração para turistas: isso representa nada menos que 10% do mercado de locação.
Como resultado dessa atividade insensata e improdutiva, o custo de comprar ou até mesmo de alugar uma casa disparou, ultrapassando em muito o poder de compra do salário do trabalhador médio. Enquanto os salários na Espanha subiram 10,8% desde 2008, os custos de moradia saltaram 54% no mesmo período. No final de 2025, os aluguéis médios haviam atingido um recorde histórico de € 1.176 por mês — 98,7% do salário médio de um jovem trabalhador! Madri é uma das áreas mais afetadas, onde uma casa custa, hoje, 2,3 vezes mais do que em 2014.
Não surpreende que a crise habitacional tenha se tornado um ponto central da luta de classes na Espanha. A economia do país sobrevive apenas graças à indústria do turismo, que gera empregos sazonais precários e absorve uma parcela significativa do mercado imobiliário.
Nessa situação sufocante, ocorrem mais de 25.500 despejos por ano. É evidente para todos que o despejo de Maricarmen não é uma anomalia e que o problema vai além da crueldade da Urbagestión. Ainda na semana passada, uma mulher de 54 anos tirou a própria vida cinco meses depois de ser despejada de sua casa em L’Hospitalet (Barcelona). Essa é a verdadeira face do capitalismo, sem máscaras.
O despejo de Maricarmen foi apenas a gota d’água: o caráter particularmente doloroso das imagens foi algo fortuito, mas revelou um profundo mal-estar social latente que estava prestes a explodir.
Madri em frangalhos
Tudo isso ocorre em um momento inoportuno para Isabel Díaz-Ayuso, a presidente de direita da Comunidade de Madri, que há anos está envolvida em uma série de escândalos no setor habitacional. Em sua vida pessoal, as diversas atividades fraudulentas nas quais ela, sua família e seu companheiro se envolveram permitiram-lhe adquirir várias coberturas avaliadas em mais de um milhão de euros cada, em um dos bairros mais ricos de Madri.
Sua atuação no governo não tem sido diferente. Como uma das mais entusiastas bajuladoras da burguesia, ela recebeu o fundo de investimentos BlackRock para a realização de seu fórum de investimentos em Madri, em outubro passado. Ela está sempre buscando formas de transferir o patrimônio público para investidores privados, como na tentativa de vender 3 mil unidades de habitação pública para a Goldman Sachs-Azora por 201 milhões de euros — iniciativa que acabou sendo barrada pela Suprema Corte.
Mais recentemente, revelou-se que o governo de Ayuso havia adquirido discretamente uma cobertura por 6,3 milhões de euros — bem em frente à sua própria casa! A compra foi realizada por meio de uma imobiliária pertencente à região de Madri, mas nada disso foi divulgado ao público.
Embora sua equipe tenha tentado vender o imóvel imediatamente após a notícia vir à tona no final de julho, o estrago já estava feito. Ayuso viu-se acuada, tentando dar uma explicação. Inicialmente, ela alegou que o governo regional pretendia utilizar o local como escritório temporário, apesar de o imóvel ser de uso estritamente residencial.
A corrupção é desenfreada no governo de Ayuso. Um novo escândalo surge a cada mês.
Enquanto isso, a classe trabalhadora de Madri sofre ataques em todas as frentes, especialmente no setor de educação — para não falar da saúde. Paralelamente, durante o verão, o maior incêndio florestal da história da Espanha devastou uma vasta área a oeste da cidade, cobrindo o ar de cinzas.
Agora já é fim de setembro, o aluguel vence na semana que vem e, eis que essa pobre senhora é despejada.
Naturalmente, as pessoas associaram o despejo brutal da indefesa Maricarmen ao fato de Ayuso desperdiçar dinheiro público em uma cobertura milionária, apenas para poder brincar de telefonista com a mãe, que mora do outro lado da rua. Na noite do despejo, 10 mil pessoas se reuniram em frente à “cobertura de Ayuso” para protestar.
Todos foram expostos
Sánchez e sua comitiva tentaram aproveitar o clima atual para culpar a direita e reforçar suas próprias credenciais reformistas. Isso ocorreu poucos dias depois de suas aparições públicas para fotos com Zohran Mamdani, em Nova York. Alguns políticos do PSOE chegaram até a aparecer cinicamente para posar para fotos no ato realizado em frente à cobertura de Ayuso.
É verdade que, nos últimos anos, o governo aprovou uma série de medidas brandas para amenizar a crise habitacional. No entanto, como a questão da habitação é de competência principalmente das comunidades autônomas, a ausência de um plano ousado implementado em nível nacional permitiu que a direita — que governa 12 das 17 comunidades autônomas — mantivesse uma posição de intransigência.
Embora esse seja o calcanhar de Aquiles de um conjunto de medidas já fraco, é também uma forma de o PSOE acabar transferindo para a direita a culpa pela crise. Na realidade, as meias-medidas do governo, os vouchers para jovens e os subsídios habitacionais são ineficazes, como demonstrou o despejo de Maricarmen.
Assim, quando Ayuso rebate — tentando manter a posição enquanto finge se preocupar — dizendo que o governo central teve oito anos para agir diante dessa crise e optou por não o fazer… ela tem razão! Há apenas duas semanas, o PSOE barrou um projeto de lei do Sumar — o partido reformista com o qual governa — que buscava proibir empresas e fundos de investimento de comprar imóveis residenciais.

Assim, o governo regional de direita culpa o governo central de centro-esquerda — e vice-versa —, enquanto a esquerda reformista ganha pontos por apresentar uma proposta… que acaba sendo sumariamente descartada.
Essa “batata quente” reflete o medo que eles têm de se tornar o alvo da onda de indignação que cresce na classe trabalhadora. Todos sabem que nenhum deles fez algo de concreto para amenizar essa crise, já que ambos os partidos no poder servem aos mesmos senhores. Mas os trabalhadores já perceberam a situação. Ambos os partidos estão completamente desacreditados.
O incidente expôs a natureza hipócrita do atual governo e de todo o aparato estatal capitalista, do Executivo ao Judiciário. Ficou provado que não podemos confiar em nenhuma instituição nem contar com qualquer lei: quando se está diante dos interesses de um fundo multimilionário, os lucros são sempre priorizados em detrimento das vidas das pessoas.
Nesse contexto, as massas se veem sem a quem recorrer. Embora o Vox, de extrema-direita, não tenha o mesmo apelo que seus equivalentes europeus, partidos de esquerda como Sumar e Podemos estão desacreditados — são forças irrelevantes e desprovidas de capacidade de inspirar, que já foram postas à prova e fracassaram.
Subordinada à esquerda liberal, a esquerda “radical” não consegue oferecer o programa ousado necessário para resolver a crise. Eles não acreditam que tal programa possa ser efetivamente realizado. E, de fato, apenas por meio da atividade parlamentar, isso não é possível.
No entanto, existe um profundo anseio por tal programa. Os recentes resultados eleitorais em Berlim, onde o Die Linke venceu com base em um programa de expropriação, demonstram claramente esse sentimento na sociedade — particularmente entre o segmento da população mais duramente atingido pela crise habitacional: os jovens trabalhadores urbanos.
Mas, sem ninguém para catalisar esse sentimento, os trabalhadores têm conduzido suas próprias lutas, demonstrando enorme força e maior ousadia do que aqueles que pretendem liderá-los. Durante o verão, milhares de trabalhadores de uma grande fábrica da Airbus em Madri deflagraram uma greve geral, rejeitando em votação um acordo medíocre que os principais sindicatos haviam firmado à revelia da categoria. Paralelamente, foi convocada uma greve geral no setor de educação de Madri para o dia 14 de outubro.
O que fazer?
Com o agravamento constante da crise habitacional, ocorreram diversos protestos de grande porte nos últimos anos. À frente dessas mobilizações tem estado o Sindicato de Inquilinos (Tenants’ Union).
O Sindicato de Inquilinos organiza principalmente greves de aluguel de alcance e abrangência limitados, oferece diversos tipos de apoio em casos como o de Maricarmen e organiza ações diretas para impedir despejos. Embora esse trabalho seja certamente valioso, seu programa político não chega a propor as medidas de amplo alcance necessárias para enfrentar a crise habitacional, como a desapropriação de fundos de investimento. Na verdade, isso é um sintoma de sua estratégia limitada, baseada em apelos ao governo e às instituições burguesas.
No ano passado, eles participaram da organização de grandes protestos realizados simultaneamente em todo o país, levando centenas de milhares de pessoas às ruas. Embora isso revele um descontentamento profundo na sociedade à espera de expressão, os organizadores encaram esses protestos como um fim em si mesmos — uma forma de “pressionar” o governo em torno de uma questão específica.
No entanto, é justamente essa perspectiva limitada que permite à classe dominante respirar aliviada — assim que os trabalhadores terminam de extravasar suas frustrações naquele dia. De fato, após aquelas grandes manifestações, toda essa energia se dissipou no ar. Nada resultou delas, exceto, talvez, as medidas tímidas que já foram aprovadas.
Agora, o Sindicato de Inquilinos montou acampamento em Sol sob o lema: “Se [o decreto Maricarmen] não for aprovado, este governo deixará de fazer sentido”. Mas quando é que ele fez sentido? Foi o governo central — o chamado “governo mais progressista da história” — que mobilizou a Polícia Nacional para realizar esse despejo. Tudo isso aconteceu sob sua responsabilidade, seguindo a lógica que rege o sistema capitalista.
No que diz respeito a este decreto, não apenas o PSOE já descarta as propostas mais ousadas do Sumar, como também o conservador Junts e o PNV — integrantes da coalizão governista — diluirão ainda mais o seu alcance. Isso sem falar que eles sequer possuem maioria no Congresso. Além disso, que tipo de empatia se poderia esperar de um Congresso no qual 85% dos parlamentares são proprietários de imóveis — incluindo o próprio Pedro Sánchez e seu Ministro da Habitação —, enquanto 20% são proprietários de três ou mais imóveis e recebem rendimentos de aluguel?
Eles não conseguem aprovar um decreto robusto, mas apenas um “decreto Frankenstein”, que inevitavelmente implicará concessões significativas à direita, como benefícios fiscais e subsídios para proprietários “afetados”. Trata-se apenas de mais formas indiretas de transferir dinheiro da classe trabalhadora para as mãos dos ricos.
No entanto, não há um plano claro sobre o que fazer quando o governo, inevitavelmente, deixar de atender a essas demandas.
Enquanto isso, o movimento avança segundo sua própria lógica. Nos últimos dias, protestos têm surgido espontaneamente por todo o país. Em Barcelona, barricadas foram erguidas durante um protesto, embora uma tentativa de acampamento tenha sido rapidamente dispersada. Em outras cidades, como Granada e Málaga, pequenos acampamentos foram montados.
Tudo isso pegou o Estado de surpresa. Em Madri, nem mesmo Ayuso reprimiu imediatamente o acampamento, temendo a reação, mas, na terça-feira, ela deu um ultimato para que os manifestantes saíssem até quinta-feira. Eles apostam em seu decreto para dissolver o movimento e obter uma justificativa para retirar os manifestantes da Puerta del Sol.
Alguns integrantes do Sindicato de Inquilinos, sem saber que rumo tomar à medida que a situação foge ao controle, já estão preparando as pessoas para a decepção. Em uma cena bastante reveladora durante uma manifestação na segunda-feira — antes mesmo de o conteúdo do decreto governamental proposto ter sido divulgado —, um ativista em Madri disse à assembleia:
“Da parte do Sindicato dos Inquilinos, gostaríamos de transmitir uma mensagem: nós já vencemos!
[Vaias; ‘Não! Nós vamos ficar!’]
“Vencemos porque estamos aqui… e sabemos que, independentemente de nos concederem ou não contratos de aluguel por tempo indeterminado… nós estamos organizados!… E quando tudo isso terminar — pois sabemos que este é apenas mais um meio de pressionar as instituições e de afirmar que o poder está nas mãos do povo organizado…
[Vaias ensurdecedoras; gritos de ‘Nós – vamos – ficar!’]”
Em vez de desperdiçar energia apelando a atores que não têm interesse em mudar nada, o sindicato de inquilinos deve concentrar seus esforços em instar persistentemente os sindicatos a se mobilizarem, começando pela CCOO e pela UGT. As organizações da classe trabalhadora — especialmente as maiores — devem lutar contra esses ataques de empresários e governos.
No entanto, as burocracias sindicais têm desempenhado seu papel habitual até agora: expressar solidariedade verbal ao acampamento e pedir aos grupos parlamentares que “ajam com coragem” para conceder mais algumas migalhas.
Se os dirigentes sindicais não estiverem dispostos a lutar, devemos apelar diretamente à base, criando uma pressão vinda de baixo que force esses dirigentes a agir. Isso já aconteceu na Espanha e na Itália, há menos de um ano, com as greves em solidariedade à Palestina.
Nosso programa
O movimento por moradia tem um potencial enorme – milhões de pessoas foram às ruas por essa causa no último ano. Mas a questão não pode ser tratada de forma isolada. Precisamos conectá-la a outras lutas que afetam a classe trabalhadora: cortes em serviços públicos como educação e saúde, precarização do trabalho e baixos salários, a crise climática, o belicismo e o genocídio, etc.
Precisamos de um programa revolucionário com reivindicações claras e firmes – sendo a principal delas a desapropriação, sem indenização, de todas as moradias vazias pertencentes a grandes proprietários: bancos, fundos de investimento e empresas imobiliárias. Exigimos a proibição da compra de apartamentos para fins de locação, bem como a proibição de aluguéis para turistas.
Para construir moradias de qualidade e a preços acessíveis, devemos também desapropriar – sem indenização – os grandes bancos e as construtoras que acumularam lucros obscenos. Devemos colocá-los sob controle dos trabalhadores e lançar um plano estatal de construção de habitação pública baseado nas reais necessidades sociais.
E, claro: exigimos o fim permanente dos despejos! Coordenar e unificar a luta por moradia em todo o país! Para que nós vivamos, o capitalismo deve morrer!
Àqueles para quem este programa parece ousado demais, dizemos: utópico é pensar que quaisquer reformas “realistas e práticas” poderiam ser implementadas em um contexto de crise capitalista, no qual a classe dominante não tem outra escolha senão promover novos cortes.
Os capitalistas e seus aliados políticos não concederão nenhuma dessas medidas de bom grado. Só as conquistaremos por meio da luta organizada. Nossa tarefa, portanto, é construir um partido revolucionário capaz de canalizar essas explosões de indignação e transformar essa energia na força capaz de derrubar este sistema podre.


