“Estávamos lá parados, de olhos fechados, levando socos na cara.” Foi assim que um militar americano da ativa descreveu a guerra contra o Irã.
[Publicado originalmente em communistusa.org]
Após meses minimizando ou ignorando os danos generalizados e a destruição de bases americanas no Oriente Médio, a grande mídia agora publicou fotos de prédios e alojamentos destruídos por bombardeios. Como disse o militar que falou à CBS no mês passado: “São danos graves às nossas bases que não foram comunicados ao público americano… Não estamos defendendo essas bases. Estamos apenas assistindo à destruição delas”.
De fato, o mundo inteiro está acompanhando o declínio do imperialismo dos EUA em tempo real.
Marinheiros suicidas
Impossibilitadas de reabastecer em bases no Golfo Pérsico, as condições a bordo de navios como o USS Gerald Ford e o USS Abraham Lincoln deterioraram-se durante suas prolongadas missões. Os marinheiros sobreviviam com pequenas porções de rações de qualidade repugnante. Eles tomavam banhos de um minuto sem sabonete, escovavam os dentes sem pasta e passavam semanas sem serviço de lavanderia.
Essas condições deploráveis desencadearam uma crise de saúde mental nas embarcações. Vários marinheiros tentaram o suicídio lançando-se ao mar. Em uma reunião pública realizada em San Diego para familiares dos militares destacados nesses navios, uma mulher relatou, entre lágrimas, que o marido lhe dissera “esperar não acordar no dia seguinte”.
Há, inclusive, indícios de que marinheiros do Lincoln e do Ford sabotaram suas embarcações na esperança de forçar o retorno ao porto.
A Marinha é a mais proletária de todas as forças armadas. A vasta maioria dos marinheiros não está diretamente envolvida em combate; em vez disso, eles passam o tempo operando e fazendo a manutenção de navios imensos, que são como fábricas gigantes em alto-mar.
A Marinha é também o ramo mais importante das forças armadas para a projeção de poder ao redor do mundo. O declínio alarmante do moral e da disciplina entre os marinheiros é um mau presságio para a classe dominante.
No momento em que este texto está sendo escrito, o Lincoln retorna com dificuldade ao porto de San Diego. Quando atracou na Tailândia, fotógrafos flagraram seu casco fortemente enferrujado — uma ilustração contundente da podridão que corrói o imperialismo norte-americano.
Dinheiro jogado fora
Os imperialistas dos EUA gastaram quantias inimagináveis de dinheiro no desastre do Irã. Pela primeira vez, o Pentágono informou que os custos da guerra somam US$ 43,6 bilhões. É provável que esse valor esteja enormemente subestimado, e Hegseth está solicitando até US$ 70 bilhões em verbas emergenciais adicionais.
Escrevendo no estilo circunspecto preferido por burocratas de todo o mundo, o Inspetor-Geral do Pentágono relatou: “O gasto com munições [no Irã] resultou em déficits estratégicos de estoque e revelou gargalos na base industrial para o reabastecimento de munições… Embora o Departamento de Guerra tenha começado a implementar estratégias de mitigação, a base industrial de defesa requer um prazo considerável para expandir a produção”.
Em termos simples: os imperialistas dos EUA estão com estoques perigosamente baixos de armas e munições e não têm capacidade de produzir mais em um futuro imediato.

Fontes militares confirmaram que os EUA utilizaram “praticamente todos” os seus mísseis de longo alcance e alta precisão — os ATACMS e PrSM — em uma tentativa vã de subjugar o Irã. Os estoques de interceptadores Patriot e THAAD também estão diminuindo.
O próprio Trump admitiu isso em uma coletiva de imprensa no Salão Oval: “Quanto à munição — se você fala em níveis baixos —, temos quantidades enormes, quantidades ilimitadas, de armamentos de categoria intermediária e mais antigos que também são muito potentes. Estamos falando apenas daquilo que chamamos de armamento de elite… Mas sempre podemos recorrer a outras fontes.”
le também ameaçou, via Truth Social, prender qualquer pessoa da administração flagrada divulgando informações sobre os baixos estoques: “Os ‘vazadores’ dessas declarações de traição estão sendo caçados. Serão pedidas penas de prisão de longa duração!”
A escassez de mísseis ilustra a diferença entre as abordagens americana e iraniana em relação à guerra. Os interceptadores Patriot, por exemplo, custam entre 4 e 5 milhões de dólares cada. Os EUA gastaram esses projéteis de custo exorbitante tentando abater os drones Shahed do Irã, que custam 30 mil dólares a unidade. Enquanto os estoques de munição dos EUA se esgotam, os iranianos estão em condições de continuar lutando durante as eleições de meio de mandato e além. Segundo o Foreign Policy Research Institute, “no ritmo atual de produção… seriam necessários três anos [para os EUA] reporem o que foi utilizado em pouco mais de um mês”.
Derrota estratégica
O atoleiro no Irã está desferindo golpes contra os escalões mais altos da máquina burocrática do imperialismo norte-americano. No início de seu governo, Trump e seu Secretário de Guerra, Pete Hegseth, expurgaram da cúpula militar elementos que consideravam insuficientemente leais. Desde o início do fiasco no Irã, uma nova onda de altos funcionários do Pentágono e das agências de inteligência dos EUA pediu demissão, fugindo como ratos de um porta-aviões enferrujado.
Pelo menos 25 generais e almirantes de alto escalão foram demitidos, forçados à aposentadoria antecipada ou pediram demissão, incluindo o Secretário do Exército, o comandante do Comando Sul dos EUA, o Chefe e o Vice-Chefe do Estado-Maior do Exército e o comandante do Comando Terrestre Aliado. A classe dominante investiu décadas e milhões de dólares no treinamento desses quadros de elite do imperialismo norte-americano, que agora levaram seus talentos para empresas de consultoria do setor privado e para os campos de golfe por todo o país.
O Coronel Lawrence Wilkerson — republicano de longa data, ex-assessor de segurança nacional no governo Ronald Reagan e chefe de gabinete do Secretário de Estado Colin Powell — refletiu recentemente sobre a situação da liderança militar:
“Meus amigos e eu… provavelmente passamos meio século no aparato de segurança ou ligados a ele. Sem exceção, o que eles me dizem agora é: ‘Não consigo acreditar que vivi para ver isso… Hoje, não temos nas Forças Armadas americanas a liderança de que precisamos’. É realmente triste chegar ao fim da vida neste planeta — tendo dedicado meio século ao governo daquilo que você considerava uma nação verdadeiramente decente, ponderados todos os aspectos — e descobrir que ela é tão corruptível quanto qualquer nação do passado, e talvez até mais, devido ao seu poder.”
Sem mais ideias, o Comando Central dos EUA está tão desesperado que um de seus oficiais de inteligência enviou um e-mail solicitando a analistas militares, em uma espécie de consulta coletiva, “novas formas criativas e não convencionais de pressionar e punir o Irã”.
Se algum dia tiver um momento de reflexão lúcida sobre essa situação caótica, Hegseth — um fanático religioso — poderá muito bem recordar a lamentação de Davi em 2 Samuel 1:27: “Como caíram os valentes, e pereceram as armas de guerra!”
Os imperialistas fracassaram em alcançar qualquer um de seus objetivos estratégicos: o programa nuclear e as capacidades militares do Irã permanecem intactos, sua capacidade de atacar os Estados do Golfo e Israel é maior do que nunca, seu controle sobre o Estreito de Ormuz é sólido, e o apoio da população ao seu governo foi fortalecido por sua postura firme contra os odiados americanos.
Enquanto isso, a Rússia continua a desgastar o representante do imperialismo norte-americano na Ucrânia. A escassez de efetivo militar na Ucrânia é tão grave que o recrutamento militar degenerou em meros sequestros. A prática, coloquialmente conhecida como “busificação”, envolve “recrutadores” que vasculham as ruas, sequestram homens jovens e de meia-idade e os lançam na parte traseira de vans rumo a centros de “treinamento”. Essas táticas têm provocado confrontos nas ruas. Em alguns casos, soldados da ativa chegaram a participar de protestos contra o recrutamento — inclusive em Lviv, tradicional reduto nacionalista de extrema-direita.
Diante desse caos, potências de “médio porte” ao redor do mundo estão despertando para o fato de que não podem mais contar com os imperialistas norte-americanos para garantir a segurança de seus regimes. Esses Estados buscarão diversificar suas opções, voltando-se cada vez mais para a Rússia e a China.
Uma base industrial esvaziada
Após a queda da União Soviética em 1991, o imperialismo dos EUA permaneceu incontestável, capaz de dominar todo o planeta. Apenas 35 anos depois, o antigo colosso assemelha-se cada vez mais a uma ruína colossal.
Em 1993, as forças armadas dos EUA adotaram a doutrina das “duas grandes guerras”, projetando a capacidade de travar grandes conflitos em dois teatros de operações simultaneamente. Duas décadas mais tarde, viram-se forçadas a reduzir suas ambições para apenas uma grande guerra. Agora, não conseguem sequer vencer uma guerra regional contra uma potência de médio porte como o Irã.
Como pôde uma potência tão formidável cair tão rapidamente? Em última análise, o poder militar é um reflexo do poder industrial — e a indústria americana encontra-se em profundo declínio. Em 1979, o setor manufatureiro empregava quase um em cada cinco trabalhadores nos EUA. Hoje, esse índice é de apenas 8%. No mesmo período, a participação da indústria de transformação no PIB dos EUA caiu de cerca de 25% para menos da metade desse indicador.

Em busca de lucros, os capitalistas terceirizaram a produção para países onde prevaleciam salários mais baixos, esvaziando a base industrial dos EUA. Incapaz de obter lucro produzindo mercadorias úteis, a classe capitalista canalizou seu capital para a usura e a especulação no mercado de ações. Como resultado, os capitalistas americanos desfrutam de lucros recordes, mas sua posição global está em declínio.
A China é hoje a principal potência industrial do mundo, tendo aumentado sua participação na produção manufatureira global de 2% a 3%, em 1978, para cerca de 30% atualmente. O equilíbrio de poder global está mudando para refletir o crescente poder econômico do país.
Enquanto suas rivais imperialistas, China e Rússia, ostentam indústrias militares estatais voltadas para seus objetivos estratégicos, a produção militar dos EUA é gerida visando o lucro. A guerra no Irã pode ser um desastre no campo de batalha, mas, nas salas de diretoria da Raytheon e da Lockheed Martin, tem sido um êxito retumbante. Além dos US$ 22,3 bilhões em munições que os EUA consumiram apenas nos três primeiros meses do conflito, as fabricantes de armas americanas registraram mais de US$ 45 bilhões em vendas para aliados dos EUA no Oriente Médio que se encontravam em situação crítica.
Economia à beira do colapso
Além da humilhação militar, as consequências econômicas da guerra podem se revelar ainda mais prejudiciais para a classe dominante. O preço do petróleo Brent voltou a superar a marca de US$ 105 o barril no mês passado, enquanto o preço médio da gasolina se aproximava de US$ 4,50 o galão. O diesel — combustível essencial que move locomotivas, tratores e caminhões de grande porte — disparou para um recorde histórico acima de US$ 6,50.
Na tentativa de conter a alta dos preços, os EUA reduziram suas reservas estratégicas de petróleo para um nível inferior a 300 milhões de barris. Essa redução drástica significa que a classe dominante não terá capacidade de reagir a choques energéticos provocados por guerras futuras ou desastres naturais, além de ameaçar a integridade estrutural das cavernas de sal onde o petróleo é armazenado.
A disparada nos custos de energia está alimentando a inflação. Os preços continuarão a subir enquanto os iranianos permanecerem no controle do estratégico Estreito de Ormuz e o Ansar Allah — também conhecido como “Houthis” — consolidar seu domínio sobre o Estreito de Bab el-Mandeb.
A inflação e a instabilidade fizeram com que os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 10 e 30 anos — as taxas de juros da dívida pública de longo prazo — ultrapassassem a marca de 5% pela primeira vez desde o período anterior à crise global de 2008. Isso indica que os investidores estão perdendo a confiança na capacidade do governo dos EUA de controlar a inflação e, em última análise, de pagar sua dívida de US$ 40 trilhões.
Em resposta, o Secretário do Tesouro, Scott Bessent, passou grande parte do mês passado tentando forçar a queda das taxas: contraiu mais dívidas de curto prazo para recomprar títulos de longo prazo e firmou acordos com o Japão e os Emirados Árabes Unidos para evitar que despejassem títulos do Tesouro no mercado. Todos esses esforços foram totalmente infrutíferos.
Prevê-se que os EUA paguem mais de US$ 1 trilhão em juros da dívida somente neste ano. Isso representa quase US$ 3 bilhões por dia indo parar nos bolsos de banqueiros e outros capitalistas. A relação dívida/PIB dos EUA está atualmente em 125%. A única maneira de reduzir esse índice é cortar gastos ou fazer a economia crescer. No entanto, o governo federal está gastando mais do que nunca, e o crescimento do PIB no segundo trimestre deste ano foi de apenas 1,5% — um ritmo anêmico.
David Kelly, estrategista-chefe global da JP Morgan Funds, comentou a intervenção ineficaz de Bessent da seguinte forma:
“Trata-se apenas de movimentar uma grande quantia de dinheiro emprestado. Isso não vai mudar o cenário de forma significativa. A menos que encontrem uma maneira de realmente alterar a trajetória da nossa dívida, o governo não terá poder para impedir isso. Estouramos o limite dos nossos cartões de crédito. A única maneira infalível de provocar uma forte alta no mercado de títulos é enfrentar uma recessão profunda. Isso sim resolveria a situação.”
De fato, prepara-se uma recessão generalizada. Ninguém pode prever exatamente quando, mas a classe trabalhadora acabará enfrentando as turbulências de uma crise econômica. Desemprego em massa, fome, despejos e execuções de hipotecas estão todos no horizonte.
Preparem-se para a luta de classes
Ovídio escreveu em As Metamorfoses: “Nações e impérios florescem e declinam; ora comandam, ora obedecem”. Após comandar o mundo por décadas, a classe dominante americana vê-se agora forçada a obedecer — não a um novo senhor, mas às leis da própria história.
Sem dúvida, o imperialismo dos EUA continua sendo a força mais reacionária do planeta. Do Caribe ao Oriente Médio, ele desfere golpes em um frenesi de fúria, como um animal ferido, destruindo inúmeras vidas em sua tentativa de se manter no topo. Mas seus dias estão contados.
O capitalismo americano encontra-se em um impasse. Revitalizar a indústria dos EUA, fazer a economia crescer e reduzir a dívida exigiria investimentos maciços em infraestrutura, com pouca perspectiva de lucro imediato. Exigiria também ataques ferozes à classe trabalhadora, para reduzir salários e condições de trabalho ao nível dos concorrentes internacionais.
Essa é uma receita pronta e acabada para a luta de classes.


