A Ordem Executiva que bloqueou o acesso de Cuba a petróleo foi um grande golpe. O petróleo russo que chegou a Cuba no final de março já se esgotou. O Ministro da Energia do País explicou que “Em Havana, os apagões agora ultrapassam 20 a 22 horas [por dia]”. A Revolução Cubana enfrenta seu período mais difícil nos últimos tempos e, diante de uma pressão econômica e política sem precedentes, Cuba está prestes a restaurar o capitalismo. Para compreender profundamente todos esses acontecimentos, é necessário enxergá-los no contexto internacional, em que o imperialismo americano busca retomar o controle da América Latina.
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos EUA
O documento Estratégia de Segurança Nacional dos EUA, publicado em novembro do ano passado, apresenta claramente a ideologia da burguesia imperialista dos EUA. Abrindo o capítulo sobre a estratégia no “Hemisfério Ocidental”, lemos: “Após anos de negligência, os Estados Unidos reafirmarão e farão cumprir a Doutrina Monroe para restaurar a preeminência americana no Hemisfério Ocidental e para proteger nossa pátria e nosso acesso a geografias-chave em toda a região. Negaremos a concorrentes não hemisféricos a capacidade de posicionar forças ou outras capacidades ameaçadoras, ou de possuir ou controlar ativos estrategicamente vitais, em nosso Hemisfério” (ênfases nossas).
Quando diz-se “outras capacidades ameaçadoras”, entenda-se – em primeiro lugar – o capital financeiro de outras potências como a China, que tem ampliado suas parcerias comerciais na região. E “controlar ativos estrategicamente vitais”, entenda-se recursos como o petróleo. Um exemplo bem ilustrativo é a relação entre Venezuela e China. Primeiro, a China endividou a Venezuela por meio de uma “generosa” linha de crédito. Depois, como a Venezuela não tinha capacidade de pagar sua dívida em capital, o governo chinês aceitou o pagamento de parte da dívida em barris de petróleo. Para o imperialismo americano, é inaceitável que seu principal concorrente exerça domínio sobre um país que considera como parte de seu “quintal”.
Outro ponto que merece destaque é a iniciativa “Escudo das Américas”, na qual diversos governos de direita se reuniram com Trump sob o pretexto de estabelecer colaboração para acabar com os cartéis de drogas. O encontro ganhou repercussão porque Trump disse na cara de diversos presidentes latinos “Não vou aprender a sua maldita língua”, enquanto o presidente da Argentina, Milei, pediu desculpas por fazer seu discurso em espanhol. O Departamento de Estado dos EUA apresentou o verdadeiro propósito da iniciativa: “Esta coligação histórica de nações trabalhará em conjunto para impulsionar estratégias que visem travar a interferência estrangeira no nosso hemisfério, as gangues e cartéis criminosos e narcoterroristas, e a imigração ilegal e em massa”. Essa iniciativa é mais um meio do imperialismo americano fortalecer sua influência na América Latina, apoiando-se em governos submissos e entreguistas. Em outras palavras, essa iniciativa poderá ser usada para gerar pânico e reprimir a classe trabalhadora, impondo os interesses dos EUA pela força militar, enquanto justificarão que estão contendo o “narcotráfico”, tal como, no ano passado, navios de guerra americanos interceptaram e atacaram barcos de pesca venezuelanos e colombianos.
Mais recentemente, no Dia Internacional do Trabalhador (1º de Maio), outra Ordem Executiva foi publicada com o objetivo de aumentar a pressão econômica, financeira e diplomática sobre o governo cubano, ampliando as sanções para atingir não apenas autoridades cubanas, mas também empresas, indivíduos e instituições financeiras estrangeiras que mantenham relações consideradas “relevantes” com o governo de Cuba. E, pasmem, qualquer adulto da família de algum acusado poderá também ser acusado por não respeitar os interesses dos EUA! Essa Ordem demonstrou que, mesmo não saindo vitoriosos do conflito com o Irã, Trump pretendia cumprir sua promessa de lidar com Cuba, o que significava impor sua estratégia na América Latina.
Finalmente, depois de negar diversas vezes que estivesse em negociação com os EUA e inclusive mobilizar as massas trabalhadoras e a juventude cubanas contra a interferência do imperialismo americano, Miguel Díaz-Canel, presidente de Cuba, admitiu que negociações estavam sendo realizadas. Devido à enorme pressão exercida pelos EUA com as contínuas sanções e a crise energética em Cuba, as condições dessas negociações estão focadas nos interesses americanos, já que Trump, neste caso, está em situação de vantagem. Ficou claro que, enquanto denunciava a agressão imperialista, a direção do Partido Comunista Cubano discutia um conjunto de “reformas econômicas”. Essas medidas incluem, por exemplo, maior espaço para o capital privado e entrega das empresas estatais ao investimento estrangeiro.
Portanto, a “estratégia de segurança” de Trump está se traduzindo em diversos ataques contra a classe trabalhadora dos países latino-americanos. Seu objetivo central é retomar o controle e a influência dos EUA sobre a América Latina, dispersando seus rivais, em especial a China. Para a burguesia imperialista americana, não existem escrúpulos quando se trata de atingir seus objetivos e isso está ficando cada vez mais claro para uma camada de jovens e trabalhadores que estão buscando uma saída radical contra os horrores do capitalismo.
Como podemos defender a Revolução Cubana?
A Revolução Cubana de 1959 representou uma ruptura com o domínio econômico dos EUA sobre Cuba. Na América Latina, foi a primeira demonstração de que um país subjugado ao imperialismo podia desafiar uma grande potência, mas, com uma condição: a classe trabalhadora deveria assumir a direção da revolução, confirmando que a burguesia nacional cubana era incapaz de realizar reformas democráticas, por mais mínimas que fossem. Contraditoriamente, esse não era o objetivo inicial de Fidel Castro e Che Guevara, que estavam à frente de um movimento democrático e nacionalista. Eles não encontraram apoio na burguesia cubana. Ela sustentava a ditadura de Batista, que garantia seus interesses como sócia menor da burguesia imperialista dos EUA. O apoio veio da classe trabalhadora cubana, levando a revolução muito além dos objetivos iniciais de seus dirigentes.
A burguesia imperialista dos EUA não podia esquecer a ousadia dos trabalhadores da pequena ilha caribenha, localizada a cerca de 150 km da maior potência imperialista do mundo. Desde então, diferentes governos dos EUA operam bloqueios econômicos a Cuba, com o objetivo de destruir as conquistas da Revolução e punir aqueles que ousaram, de fato, lutar por sua soberania e sair do jugo do imperialismo dos EUA.
Tendo Trump como seu representante, a burguesia imperialista dos EUA pretende submeter não apenas Cuba, mas toda a classe trabalhadora latino-americana aos seus interesses de enriquecer ainda mais. Para isso, não poupará ameaças militares, pressões econômicas e propaganda mentirosa.
Defender Cuba não é apenas defender a Revolução. É defender o direito dos povos da América Latina escolherem seu próprio destino. Por isso, uma resposta de classe deve ser dada contra o imperialismo dos EUA. Os trabalhadores cubanos têm um forte sentimento anti-imperialista, mas isso não se restringe a Cuba. Em todos os países da América Latina, muitos trabalhadores mais conscientes da situação política internacional repudiam as ações de Trump e sabem que é necessário se defender das agressões imperialistas. Por outro lado, a classe trabalhadora enfrenta as limitações dos governos ditos “reformistas”.
Um desafio encontrado pelos trabalhadores é justamente o fato de que suas direções tradicionais, por mais que tentem apresentar um discurso “radicalizado”, têm vacilado constantemente na hora em que mais é necessário organização e um contra-ataque das massas trabalhadoras.
Delcy Rodríguez, vice-presidente no poder na Venezuela após o golpe do imperialismo americano que levou ao estabelecimento de uma relação colonial da Venezuela com os EUA, tem tentado se equilibrar entre declarações públicas contra as ordens de Washington e cooperação com os interesses dos EUA nos bastidores. Já foi revelado que grandes multinacionais como a Vitol e a Trafigura, além da americana Chevron, estão à frente da rede de venda do petróleo venezuelano em que os lucros são divididos entre diversas empresas no ramo da extração, comercialização, refinamento e afins. Outra parte da venda é utilizada para pagar as despesas essenciais do governo venezuelano, logicamente, com o controle dos EUA, que escolhem quais fornecedores e credores recebem, quando recebem e quanto recebem. Os recentes terremotos no país, além de deixarem milhares de mortos e feridos, trarão consequências negativas à frágil economia venezuelana.
No Brasil, o governo Lula não se atreveu a enfrentar o imperialismo americano enviando petróleo a Cuba. Ele se limitou, como de costume, aos discursos “à esquerda” enquanto, na prática, apelava à medidas diplomáticas que não alteram a correlação de forças e nem enfrentam os interesses dos EUA. Em outras oportunidades, explicamos que essa vacilação é resultado da necessidade do governo Lula se equilibrar entre o poder financeiro de duas potências: EUA e China, buscando com isso “vantagens” para manter sua “governabilidade”.
Em Cuba, vale lembrar que a burocratização do Estado, da economia e da política enfraqueceu a participação da classe trabalhadora cubana na condução da Revolução. Isso tornou ainda mais difícil organizar uma resposta contundente às pressões do imperialismo americano ao longo dos anos e, paralelamente, às tendências “restauracionistas” em Cuba.
A solidariedade internacional da classe trabalhadora é parte da solução para o problema da restauração capitalista em Cuba. Nessa perspectiva, a defesa de Cuba e da Revolução Cubana depende da solidariedade internacional da classe trabalhadora, que precisa se refletir na capacidade das organizações políticas e sindicais, que se colocam como representantes dos interesses dos trabalhadores, de se mobilizarem contra sanções, os bloqueios e outras formas de pressão econômica. Isso pode animar a resistência do povo cubano, que necessita retomar a gestão da economia e do poder em suas mãos.
Por fim, a preservação das conquistas da Revolução Cubana e a luta contra a restauração capitalista e a contrarrevolução em curso não pode ser garantida apenas por acordos diplomáticos ou pela ação isolada do Estado cubano, muito menos pelas ações de outras burguesias, como a russa e a chinesa que, na verdade, não estão interessadas em defender Cuba e sim seus próprios interesses capitalistas na região. Somente uma alternativa independente da burguesia e de seus representantes pode trazer uma saída para a situação cubana e, em grande medida, isso passa por acelerar a construção do instrumento necessário para a revolução da classe trabalhadora em cada país da América Latina, os partidos revolucionários, que ajudarão a classe trabalhadora a construir a Federação Socialista da América Latina. Essa tem sido a principal tarefa da classe trabalhadora latino-americana e da nossa seção brasileira da Internacional Comunista Revolucionária.


