Neste artigo, Trotsky explica as diferenças fundamentais entre o marxismo e a versão caricatural que foi estabelecida pela burocracia stalinista que usurpou o poder político na União Soviética.
[Publicado originalmente em Socialist Appeal, Vol. 1 No. 7, em 25 de setembro de 1937 e em Socialist Appeal, Vol. 1 No. 8, 02 de outubro de 1937]
Períodos reacionários como o que estamos vivendo não apenas desintegram e enfraquecem a classe trabalhadora e sua vanguarda, mas também rebaixam o nível ideológico geral do movimento e arrastam o pensamento político de volta a estágios já amplamente superados. Nessas circunstâncias, a tarefa mais importante da vanguarda não é ser arrastada pela maré regressiva, mas nadar contra a corrente. Se o desequilíbrio de poder a impede de manter as posições conquistadas, ela deve ao menos se apegar às suas posições ideológicas, pois estas expressam as lições custosas do passado. Os tolos chamarão essa política de “sectária”. Na realidade, é a única maneira de se preparar para um novo e enorme avanço quando a próxima onda histórica chegar.
A Reação Contra o Bolchevismo e o Marxismo
Grandes derrotas políticas inevitavelmente levam a uma reavaliação de valores, que geralmente procede de duas direções. Por um lado, a verdadeira vanguarda, enriquecida pela experiência da derrota, defende ferozmente o legado do pensamento revolucionário e, com base nisso, tenta formar novos quadros para as futuras lutas de massas. Por outro lado, aqueles que caíram na rotina, os centristas e os diletantes fazem tudo o que podem para destruir a autoridade da tradição revolucionária e para retornar à busca de um “Novo Mundo”.
Poderíamos apontar inúmeros exemplos de reações ideológicas, a maioria das quais assume a forma de prostração. Toda a literatura da Segunda e da Terceira Internacional e de seus satélites no Bureau de Londres consiste essencialmente em tais exemplos. Nenhum traço de análise marxista. Nenhuma tentativa séria de explicar as causas da derrota. Nem uma única palavra nova sobre o futuro. Nada além de lugares-comuns, conformismo, mentiras e, acima de tudo, preocupação com a sobrevivência da burocracia. Basta ler dez linhas de Hilferding ou Otto Bauer para sentir o fedor da decadência.[2] Quanto aos teóricos do Comintern, nem merecem ser mencionados. O célebre Dimitrov é tão ignorante e trivial quanto um merceeiro com uma caneca de cerveja. O intelecto dessas pessoas é preguiçoso demais para renunciar ao marxismo: elas o prostituem. Mas não são esses que nos interessam aqui. Voltemos aos “inovadores”.
O ex-comunista austríaco Willi Schlamm publicou um panfleto sobre os Julgamentos de Moscou, sob o título sugestivo “A Ditadura das Mentiras” [3]. Schlamm é um jornalista talentoso, preocupado principalmente com os acontecimentos políticos da atualidade. Sua crítica às fraudes judiciais de Moscou, bem como sua denúncia do mecanismo psicológico das “confissões voluntárias”, são excelentes. No entanto, ele não para por aí: quer criar uma nova teoria do socialismo que nos imunize contra futuras derrotas e fraudes. Mas, como Schlamm não é um teórico e, aparentemente, não conhece bem a história do socialismo, ele retorna completamente ao socialismo pré-marxista, principalmente à sua variante alemã, a mais retrógrada, sentimental e piegas de todas. Schlamm renuncia à dialética e à luta de classes, para não mencionar a ditadura do proletariado. Para ele, a questão da transformação da sociedade se resume à concretização de certas verdades morais “eternas”, com as quais ele gostaria de imbuir a humanidade, mesmo sob o capitalismo. A tentativa de Willi Schlamm de salvar o socialismo transplantando uma glândula moral foi recebida com júbilo e orgulho na Novaya Rossiya de Kerensky (uma antiga revista russa provincial, agora publicada em Paris): previsivelmente, o conselho editorial proclamou que Schlamm havia chegado aos princípios do autêntico socialismo russo, que há muito contrastava os preceitos sagrados da fé, da esperança e da caridade com a austeridade e o rigor da luta de classes. A doutrina “nova” dos socialistas-revolucionários russos é, em suas premissas “teóricas”, simplesmente um retorno ao socialismo alemão anterior a março de 1848![4] No entanto, seria injusto exigir de Kerensky um conhecimento mais profundo da história das ideias do que o de Schlamm. É muito mais importante salientar que esse mesmo Kerensky, que simpatiza com Schlamm, quando chefiava o governo, acusou os bolcheviques de serem agentes do Estado-Maior alemão e os perseguiu. Vale mencionar que ele orquestrou as mesmas fraudes judiciais contra as quais Schlamm mobiliza seus absolutos metafísicos desgastados.
Não é difícil desvendar o mecanismo psicológico da reação ideológica representada por Schlamm e outros de sua laia. Trata-se de pessoas que participaram, por um tempo, de um movimento político que jurou fidelidade à luta de classes e apelou, senão em atos ao menos em palavras, ao materialismo histórico. Tanto na Áustria quanto na Alemanha, a questão culminou em catástrofe. Schlamm chega a uma conclusão geral: este é o resultado da dialética e da luta de classes! E como a escolha das revelações é limitada pela experiência histórica e… pelo conhecimento pessoal, nosso reformador e buscador de palavras se vê com um amontoado de roupas velhas e as opõe corajosamente ao bolchevismo e ao marxismo como um todo.
À primeira vista, a variante de reação ideológica de Schlamm pode parecer demasiado rudimentar (de Marx a… Kerensky!) para justificar uma análise mais aprofundada. Na realidade, é bastante instrutiva: o seu primitivismo representa o denominador comum da reação em todas as suas formas, especialmente aquelas expressas na condenação total do bolchevismo.
“De volta ao marxismo”?
O marxismo encontrou sua expressão histórica máxima no bolchevismo. Sob a bandeira bolchevique, alcançou-se a primeira vitória do proletariado e estabeleceu-se o primeiro Estado operário. Nenhuma força pode agora apagar esses fatos da história. Mas, dado que, no estágio atual, a Revolução de Outubro levou ao triunfo da burocracia com seu sistema de repressão, pilhagem e fraude — à ditadura da mentira, na feliz expressão de Schlamm —, muitas mentes superficiais e simplistas chegam à mesma conclusão sumária: o stalinismo não pode ser combatido sem renunciar ao bolchevismo. Como vimos, Schlamm vai ainda mais longe: o bolchevismo, que degenerou em stalinismo, surgiu do marxismo; portanto, o stalinismo não pode ser combatido sobre os alicerces estabelecidos pelo marxismo. Outros indivíduos, menos consistentes, mas mais numerosos, dizem o contrário: “Devemos retornar o bolchevismo ao marxismo”. Como? A qual marxismo? Antes de falir na forma do bolchevismo, o marxismo já havia degenerado em social-democracia. Isso significa, então, que “voltar ao marxismo” é um salto por cima da Segunda e da Terceira Internacionais… para a Primeira Internacional? Mas esta também ruiu em seu tempo. Portanto, em última análise, trata-se de retornar… às obras completas de Marx e Engels. Qualquer pessoa pode dar esse salto de fé sem sair de casa, sem sequer tirar os chinelos. Mas como passar dos nossos clássicos (Marx morreu em 1883, Engels em 1895) para as tarefas do nosso tempo, ignorando várias décadas de lutas teóricas e políticas, incluindo o bolchevismo e a Revolução de Outubro? Nenhum daqueles que propõem abandonar o bolchevismo como uma tendência histórica “falida” apontou outro caminho. Consequentemente, o problema se reduz ao estudo de O Capital. Não temos objeções a isso. Mas os bolcheviques também estudaram O Capital, e não cegamente. Isso não impediu a degeneração do Estado soviético e os Julgamentos de Moscou. Então, o que fazer?
O bolchevismo é o responsável pelo stalinismo?
Será verdade que o stalinismo é um produto legítimo do bolchevismo, como todos os reacionários afirmam, como o próprio Stalin jura, como acreditam os mencheviques, os anarquistas e certos doutrinários de esquerda que se consideram marxistas? “Sempre previmos isso”, alegam. “Ao proibir outros partidos socialistas, reprimir os anarquistas e impor a ditadura bolchevique nos sovietes, a Revolução de Outubro só poderia culminar na ditadura da burocracia. Stalin é, ao mesmo tempo, a continuação e o fracasso do leninismo.”
A falha nesse raciocínio reside na identificação tácita entre o bolchevismo, a Revolução de Outubro e a União Soviética. O processo histórico do choque de forças hostis é substituído pela evolução do bolchevismo em um vácuo. No entanto, o bolchevismo é apenas uma tendência política, intimamente ligada à classe trabalhadora, mas não idêntica a ela. E na União Soviética, além da classe trabalhadora, havia cem milhões de camponeses, de diversas nacionalidades, e um legado de opressão, miséria e ignorância. O Estado construído pelos bolcheviques reflete não apenas o pensamento e a vontade do bolchevismo, mas também o nível cultural do país, a composição social da população, a pressão de um passado bárbaro e de um imperialismo mundial não menos bárbaro. Apresentar o processo de degeneração do Estado soviético como a evolução do bolchevismo puro é ignorar a realidade social em nome de um único elemento, isolado por um ato de pura lógica. Basta chamar esse erro elementar pelo seu verdadeiro nome para destruí-lo sem deixar vestígios.
Seja como for, o bolchevismo jamais se identificou com a Revolução de Outubro, nem com o Estado que dela emergiu. O bolchevismo sempre se considerou um fator na história, o fator “consciente”, importante, mas de modo algum decisivo. Nunca caímos no pecado do subjetivismo histórico. Para nós, o fator decisivo — com base nas forças produtivas existentes — era a luta de classes, não em escala nacional, mas internacional.
Ao concederem direitos à propriedade privada camponesa, ao estabelecerem regras rígidas para filiação e ingresso no partido, ao expurgarem elementos externos, proibirem outros partidos, introduzirem a NEP (Nova Política Econômica), arrendarem empresas estatais a investidores estrangeiros e firmarem acordos diplomáticos com governos imperialistas, os bolcheviques chegaram a conclusões parciais a partir de um fato que, em teoria, lhes fora claro desde o início: a conquista do poder, por mais importante que seja, de modo algum transforma o partido no soberano do processo histórico. O partido que toma o poder pode, certamente, exercer influência sobre o desenvolvimento da sociedade com um poder antes inacessível; mas, em contrapartida, a influência que outros elementos da sociedade exercem sobre ele aumenta dez vezes. Um ataque direto de forças hostis pode destituí-lo do poder. Se o ritmo do processo for mais lento, ele pode degenerar internamente sem perder o poder. Essa é precisamente a dialética do processo histórico que escapa aos lógicos sectários para os quais o declínio do stalinismo constitui um argumento aniquilador contra o bolchevismo.
Em essência, o que esses senhores estão dizendo é: um partido que não contém em si a garantia contra sua própria degeneração é ruim. Por essa lógica, o bolchevismo está condenado, pois não possui talismãs. Mas a lógica é falha. O pensamento científico exige uma análise concreta: como e por que o partido degenerou? Até hoje, apenas os bolcheviques empreenderam tal análise. E não acharam necessário romper com o bolchevismo: seu arsenal lhes forneceu todas as ferramentas necessárias para esclarecer seu destino. Chegaram à seguinte conclusão: é verdade que o stalinismo “emergiu” do bolchevismo, mas não mecanicamente, e sim dialeticamente; não como uma afirmação revolucionária, mas como uma negação termidoriana. Não são a mesma coisa.
O Prognóstico Fundamental do Bolchevismo
Contudo, os bolcheviques não precisaram esperar pelos Julgamentos de Moscou para explicar as razões da desintegração do partido governante da URSS. Eles já haviam previsto e descrito há muito tempo a possibilidade teórica desse processo. Recordemos a previsão que os bolcheviques formularam não apenas na véspera, mas também muitos anos antes da Revolução de Outubro. É possível que, em virtude de um certo alinhamento de forças nacionais e internacionais, o proletariado tome o poder pela primeira vez em um país atrasado como a Rússia. Mas esse mesmo alinhamento de forças demonstra antecipadamente que, sem uma vitória mais ou menos rápida do proletariado nos países avançados, o governo operário russo não sobreviverá. O regime soviético, deixado à própria sorte, degenerará ou cairá. Mais precisamente, degenerará e depois cairá. Eu mesmo escrevi isso mais de uma vez, a partir de 1905. Em minha História da Revolução Russa (veja o apêndice do último volume: “Socialismo em um Só País”) estão as declarações feitas pelos dirigentes bolcheviques entre 1917 e 1923. Todas elas levam à mesma conclusão: sem uma revolução no Ocidente, o bolchevismo será liquidado por uma contrarrevolução interna, pela intervenção estrangeira ou por uma combinação de ambas. Lênin enfatizou repetidamente que a burocratização do Estado soviético não era um problema teórico ou organizacional, mas o potencial início da degeneração do Estado operário.
No décimo primeiro congresso do partido (março de 1922), Lênin falou sobre o apoio que certos políticos burgueses, como o professor liberal Ustrialov, ofereciam à Rússia Soviética sob a NEP. “Sou a favor de apoiar o governo soviético”, disse Ustrialov, “apesar de ter sido um democrata constitucional, um burguês e um defensor da intervenção[5], porque ele tomou um rumo que o levará ao Estado burguês comum.” Lênin preferia a voz cínica do inimigo às “mentiras comunistas sentimentais”. De forma sóbria, porém severa, ele adverte o partido sobre o perigo:
“Devemos dizer francamente que as coisas que Ustrialov diz são possíveis. A história conhece todos os tipos de metamorfoses. Confiar na firmeza das convicções, na lealdade e em outras magníficas qualidades morais está longe de ser uma atitude séria na política. Alguns podem possuir magníficas qualidades morais, mas os problemas históricos são resolvidos pelas grandes massas, se alguns deles não lhes agradarem, podem, por vezes, tratá-los de forma pouco educada.” [Lênin, Obras Completas, vol. 33, pp. 286-287].
Em suma, o partido não é o único fator no processo e, em uma escala histórica mais ampla, nem sequer é o fator decisivo.
“Uma nação conquista outra”, continuou Lênin no mesmo congresso, o último de que participou. “Isso é simples, qualquer um pode entender. Mas o que acontece com a cultura de ambas as nações? Isso não é tão simples. Se a nação conquistadora for mais culta que a vencida, a primeira impõe sua cultura à segunda; se ocorrer o contrário, os conquistados impõem sua cultura ao conquistador. Não aconteceu algo semelhante na capital (da República Russa)? Não aconteceu de 4.700 comunistas (quase uma divisão do exército, e todos da melhor qualidade) se verem sob a influência de uma cultura alheia?” (p. 288)
Isso foi dito no início de 1922, e não pela primeira vez. A história não é feita por poucos, nem mesmo pelos “melhores”. Além disso, os “melhores” podem degenerar no espírito de uma cultura alheia, ou seja, burguesa. Assim como o Estado soviético pode abandonar o socialismo, o Partido Bolchevique pode, em condições históricas desfavoráveis, perder seu bolchevismo.
A Oposição de Esquerda emergiu definitivamente em 1923 a partir de uma clara compreensão desse perigo. Ao registrar os sintomas da degeneração dia após dia, buscou opor-se ao crescente Termidor com a vontade consciente da vanguarda proletária. Contudo, o fator subjetivo mostrou-se insuficiente. As “grandes massas”, que, segundo Lênin, determinam o resultado da luta, cansaram-se das privações internas e da espera pela revolução mundial. Seu moral despencou. A burocracia prevaleceu. Intimidou a vanguarda proletária, esmagou o marxismo e prostituiu o Partido Bolchevique. O stalinismo triunfou. O bolchevismo, na forma da Oposição de Esquerda, rompeu com a burocracia soviética e sua Internacional Comunista. Esse foi o verdadeiro processo.
É verdade que, formalmente falando, o stalinismo surgiu do bolchevismo. Até hoje, a burocracia de Moscou ainda se autodenomina Partido Bolchevique. Ela usa o antigo rótulo de bolchevismo para enganar melhor as massas. Mais patéticos ainda são os teóricos que confundem a casca com o núcleo, a aparência com a realidade. Ao identificarem o stalinismo com o bolchevismo, eles prestam um grande serviço aos termidorianos e, precisamente por isso, desempenham um papel claramente reacionário.
Com a eliminação de todos os outros partidos do cenário político, os interesses e tendências políticas antagônicas das diversas camadas da população passaram a ser expressos, em maior ou menor grau, dentro do partido governante. À medida que o centro de gravidade política se deslocava da vanguarda proletária para a burocracia, tanto a estrutura social quanto a ideologia do partido se alteraram. Em quinze anos, o desenvolvimento vertiginoso desse processo provocou uma degeneração muito mais radical do que a sofrida pela social-democracia em meio século. Após o expurgo, a linha divisória entre stalinismo e bolchevismo não é uma linha sangrenta, mas um verdadeiro dilúvio de sangue. A aniquilação de toda a velha geração bolchevique, de uma parcela significativa da geração intermediária — aqueles que participaram da guerra civil — e do segmento da juventude que abraçou seriamente as tradições bolcheviques demonstra que entre bolchevismo e stalinismo existe uma incompatibilidade que não é apenas política, mas também diretamente física. Como isso pode ser ignorado?
Stalinismo e “Socialismo de Estado”
Por sua vez, os anarquistas querem ver o stalinismo como um produto orgânico não apenas do bolchevismo e do marxismo, mas também do “socialismo de Estado” em geral. Estão dispostos a substituir o conceito patriarcal de Bakunin de “federação de comunas livres” pelo conceito mais moderno de uma federação de sovietes livres.[6] Mas, hoje como ontem, opõem-se ao poder estatal centralizado. De fato, um setor do marxismo “estatal” — a social-democracia — chegou ao poder e tornou-se um agente declarado do capitalismo. Do outro, emergiu uma casta privilegiada. É evidente que a raiz do problema é o Estado. Desde uma perspectiva histórica ampla, esse raciocínio contém um grão de verdade. O Estado, como aparelho de coerção, é sem dúvida uma fonte de degeneração política e moral. A experiência demonstra que isso também ocorre no caso do Estado operário. Pode-se dizer, portanto, que o stalinismo é produto de uma situação em que a sociedade foi incapaz de se libertar da camisa de força do Estado. Mas essa situação é irrelevante para a avaliação do marxismo e do bolchevismo: ela apenas caracteriza o nível cultural geral da humanidade e, sobretudo, o equilíbrio de poder entre o proletariado e a burguesia. Mesmo concordando com os anarquistas que o Estado, inclusive o Estado operário, é produto da barbárie de classe e que a verdadeira história da humanidade começará com a abolição do Estado, a seguinte questão permanece, com toda a força: quais serão os caminhos e métodos que levarão, em última instância, à abolição do Estado? A experiência recente nos mostra que esses métodos certamente não serão os do anarquismo.
No momento crítico, os dirigentes da Confederação Nacional do Trabalho (CNT), a única grande organização anarquista do mundo, entraram para um gabinete ministerial burguês.[7] Para justificar a sua traição aos princípios anarquistas, invocaram a pressão de “circunstâncias excepcionais”. Mas os líderes social-democratas alemães não invocaram o mesmo pretexto na sua época? Logicamente, a guerra civil não é uma situação pacífica nem comum, mas sim uma “circunstância excepcional”. Contudo, as organizações revolucionárias sérias preparam-se para agir precisamente em “circunstâncias excepcionais”. A experiência espanhola demonstrou mais uma vez que se pode “negar” o Estado em panfletos publicados em “circunstâncias normais” com a permissão do Estado burguês, mas que as circunstâncias da revolução não permitem “negar” o Estado; pelo contrário, exigem a conquista do Estado. Não temos de todo a intenção de condenar os anarquistas por não terem abolido o Estado com uma simples canetada. A conquista do poder (que os líderes anarquistas se mostraram incapazes de alcançar, apesar do heroísmo demonstrado pelos trabalhadores anarquistas) de modo algum torna o partido revolucionário o senhor soberano da sociedade. Mas condenamos veementemente a teoria anarquista que, embora aparentemente adequada para tempos de paz, teve de ser rapidamente abandonada quando surgiram as “circunstâncias excepcionais” da… revolução. Houve, antigamente, certos generais — provavelmente ainda os há — que diziam que nada é mais prejudicial a um exército do que a própria guerra. Os revolucionários cuja doutrina é destruída pela revolução pertencem a essa mesma categoria.
Marxistas e anarquistas concordam plenamente quanto ao objetivo final: a abolição do Estado. Os marxistas são “estatistas” apenas na medida em que é impossível abolir o Estado ignorando-o. A experiência do stalinismo não refuta as lições do marxismo; pelo contrário, as confirma por inversão. Obviamente, a doutrina revolucionária que ensina o proletariado a encontrar o caminho certo e a aproveitar ativamente cada situação não contém uma garantia automática de vitória. Mas a vitória só pode ser alcançada pela aplicação dessa doutrina. Além disso, a vitória não deve ser vista como um evento isolado. Ela deve ser projetada na perspectiva da época histórica. O primeiro Estado operário — construído sobre fundamentos econômicos inferiores aos do imperialismo e cercado por ele — tornou-se a gendarmeria do stalinismo. Mas o bolchevismo autêntico lançou uma luta de vida ou morte contra essa gendarmaria. Agora, para manter seu domínio sobre o poder, o stalinismo se vê forçado a travar uma guerra civil aberta contra o bolchevismo, sob o disfarce de “trotskismo”, não apenas na URSS, mas também na Espanha. O antigo Partido Bolchevique está morto, mas o bolchevismo está ressurgindo em todos os lugares.
Deduzir o stalinismo do bolchevismo ou do marxismo é, em sentido amplo, equivalente a deduzir a contrarrevolução da revolução. Essa verdade óbvia tem sido uma constante no pensamento liberal-conservador e, posteriormente, no reformista. Devido à estrutura de classes da sociedade, as revoluções sempre geram contrarrevoluções. Isso não significa, pergunta o lógico, que o método revolucionário tem uma falha intrínseca? Apesar disso, nem liberais nem reformistas conseguiram encontrar um método mais econômico. Mas, embora não seja fácil racionalizar o processo histórico vivo, não é nada difícil encontrar uma interpretação racional de suas ondas sucessivas e deduzir, por pura lógica, o stalinismo do “socialismo de Estado”, o fascismo do marxismo, a reação da revolução — em suma, a antítese da tese. Nessa área, como em muitas outras, o pensamento anarquista se enquadra no racionalismo liberal. Não pode haver pensamento revolucionário autêntico sem dialética.
Os “Pecados” Políticos do Bolchevismo como a fonte do Stalinismo
Por vezes, os argumentos dos racionalistas assumem, pelo menos exteriormente, um caráter mais concreto. Eles não derivam o stalinismo do bolchevismo em sua totalidade, mas sim de seus pecados políticos.[8] Os bolcheviques — segundo Gorter, Pannekoek, certos “Espartaquistas” alemães e outros[9] — substituíram a ditadura do proletariado pela ditadura do partido; Stalin substituiu a ditadura do partido pela ditadura de sua burocracia. Os bolcheviques destruíram todos os partidos, exceto o seu próprio; Stalin estrangulou o Partido Bolchevique em benefício de sua camarilha bonapartista. Os bolcheviques fizeram acordos com a burguesia; Stalin tornou-se um aliado e pilar da burguesia. Os bolcheviques mantiveram a necessidade de participação nos antigos sindicatos e no parlamento burguês; Stalin buscou e obteve a amizade tanto da burocracia sindical quanto da democracia burguesa. Comparações semelhantes podem ser feitas à vontade. Apesar de sua aparente força, elas são, em última análise, sem sentido.
O proletariado só pode tomar o poder através de sua vanguarda. A necessidade de poder estatal é, em si, produto do nível cultural insuficiente e da heterogeneidade das massas. A vanguarda revolucionária, organizada como um partido, cristaliza as aspirações de liberdade das massas. Se a classe não confia na vanguarda, se a classe não a apoia, não se pode sequer falar em tomada de poder. Nesse sentido, a revolução proletária e a ditadura são obra da classe como um todo, mas apenas sob a liderança da vanguarda. Os sovietes são meramente a forma organizada da ligação entre a vanguarda e a classe. Somente o partido pode dar a essa forma conteúdo revolucionário, como demonstram a experiência positiva da Revolução de Outubro e a experiência negativa de outros países (Alemanha, Áustria e agora Espanha). Ninguém demonstrou na prática, nem tentou explicar de forma articulada no papel, como o proletariado pode tomar o poder sem a liderança política de um partido que saiba o que quer. O fato de o partido subordinar politicamente os sovietes a seus próprios dirigentes não aboliu o sistema soviético, assim como a maioria conservadora não aboliu o sistema parlamentar britânico.
Quanto à proibição de outros partidos soviéticos, esta não foi produto de uma “teoria” bolchevique, mas sim uma medida defensiva da ditadura num país atrasado e devastado, cercado por inimigos. Os bolcheviques compreenderam claramente, desde o início, que essa medida, posteriormente complementada pela proibição de facções dentro do próprio partido governante, sinalizava um enorme perigo. Contudo, o perigo não residia na doutrina ou na tática, mas na fragilidade material da ditadura e nas dificuldades internas e internacionais. Se a revolução tivesse triunfado apenas na Alemanha, a necessidade de proibir os partidos soviéticos teria desaparecido por completo. É absolutamente indiscutível que o domínio do partido único serviu como ponto de partida jurídico para o sistema totalitário stalinista. Mas a causa desse processo não reside no bolchevismo, nem na proibição de outros partidos como medida temporária de guerra, mas sim nas derrotas do proletariado na Europa e na Ásia.
O mesmo se pode dizer da luta contra o anarquismo. Durante o período heroico da revolução, os bolcheviques lutaram lado a lado com anarquistas genuinamente revolucionários. Muitos se juntaram às fileiras do partido. Mais de uma vez, Lênin e o autor destas linhas discutiram a possibilidade de conceder aos anarquistas certos territórios onde, com o consentimento da população local, poderiam experimentar a abolição do Estado. Mas a guerra civil, o bloqueio e a fome impediram que tais planos se concretizassem. A revolta de Kronstadt? Mas, é claro, o governo revolucionário não podia simplesmente “entregar” a fortaleza que defendia a capital aos marinheiros amotinados, só porque alguns anarquistas hesitantes se juntaram à rebelião reacionária de soldados e camponeses. Uma análise histórica concreta dos eventos destrói completamente todas as lendas, baseadas na ignorância e no sentimentalismo, sobre Kronstadt, Makhno e outros episódios da revolução.
Resta apenas constatar que, desde o início, os bolcheviques aplicaram não apenas a convicção, mas também a coerção, muitas vezes da maneira mais brutal. É também inegável que a burocracia que emergiu da revolução monopolizou posteriormente o sistema coercitivo para seus próprios fins. Cada etapa do desenvolvimento, mesmo etapas tão catastróficas como a revolução e a contrarrevolução, decorre da etapa anterior, está enraizada nela e conserva algumas de suas características. Os liberais, incluindo os Webb, sempre afirmaram que a ditadura bolchevique é uma nova versão do czarismo.[10] Eles fecham os olhos para “detalhes” como a abolição da monarquia e da nobreza, a distribuição de terras aos camponeses, a expropriação do capital, a introdução de uma economia planificada, a educação ateísta e assim por diante. Além disso, o pensamento liberal-anarquista ignora o fato de que a Revolução Bolchevique, com toda a sua coerção, representou uma completa transformação das relações sociais em benefício das massas, enquanto a revolução termidoriana stalinista acompanhou a transformação da sociedade soviética em benefício de uma minoria privilegiada. Claramente, a linha de pensamento que equipara o stalinismo ao bolchevismo não contém um pingo de princípios socialistas.
Problemas teóricos
Uma das características mais marcantes do bolchevismo tem sido sua atitude severa, exigente e até irascível em relação às questões teóricas. Os vinte e seis volumes das obras de Lênin permanecerão para sempre um exemplo do mais alto rigor teórico.[11] Sem essa qualidade fundamental, o bolchevismo jamais teria conseguido cumprir sua missão histórica. Nesse aspecto, o stalinismo, grosseiro, ignorante e inteiramente empírico, situa-se no polo oposto.
Há mais de dez anos, a Oposição declarou em seu programa:
“Desde a morte de Lênin, toda uma série de novas teorias foi criada, cujo único propósito é justificar o afastamento dos stalinistas do caminho da revolução proletária internacional.”[12]
Há poucos dias, o escritor americano Liston M. Oak, que participou da Revolução Espanhola, escreveu o seguinte:
“Hoje, os stalinistas são os maiores revisionistas de Marx e Lênin: Bernstein não ousou ir nem à metade do caminho que Stalin percorreu na revisão de Marx.”[13]
Isso é inteiramente verdade. Resta apenas acrescentar que Bernstein teve que satisfazer certas necessidades teóricas: ele tentou conscientemente estabelecer a relação entre a prática reformista e o programa da social-democracia. A burocracia stalinista, por outro lado, é estranha não apenas ao marxismo, mas também a qualquer doutrina ou sistema. Sua “ideologia” está imbuída de subjetivismo policial; sua prática é o empirismo da violência descarada. Pela própria natureza de seus interesses essenciais, essa casta de usurpadores é hostil a toda teoria: eles não conseguem justificar seu papel social para si mesmos ou para qualquer outra pessoa. Stalin revisa Marx e Lênin, mas não com a pena do teórico, e sim com a bota da GPU.
O Problema Moral
Aqueles que mais se queixam da “imoralidade” dos bolcheviques são os arrogantes e insignificantes cujas máscaras baratas foram arrancadas pelo bolchevismo. Os círculos pequeno-burgueses, intelectuais, democráticos, “socialistas”, literários, parlamentares e outros da mesma laia se apegam a valores convencionais ou empregam linguagem convencional para ocultar a sua ausência deles. Essa vasta e heterogênea cooperativa de proteção mútua — “viver e deixar viver” — não resiste ao toque do bisturi marxista em sua pele sensível. Esses teóricos, escritores e moralistas que oscilam entre diferentes campos pensavam, e ainda pensam, que os bolcheviques exageram astutamente as diferenças, que são incapazes de colaboração “leal” e que, com suas “intrigas”, rompem a unidade do movimento operário. Por sua vez, o centrista sensível e meticuloso sempre acreditou que os bolcheviques o “caluniavam”… simplesmente porque levavam seus pensamentos vagos às suas próprias conclusões: ele jamais conseguira fazê-lo. Mas é fato que somente a qualidade inestimável de manter uma postura intransigente diante de toda sofística e evasão permite ao partido revolucionário se instruir e não ser pego de surpresa por “circunstâncias excepcionais”.
Em última análise, as qualidades morais de qualquer partido derivam dos interesses históricos que ele representa. As qualidades morais bolcheviques de abnegação, altruísmo, audácia e desprezo por todas as aparências e falsidades — as maiores qualidades da humanidade! — derivavam de sua intransigência revolucionária a serviço dos oprimidos. Nesse aspecto, a burocracia stalinista imitou os termos e gestos do bolchevismo. Mas a “intransigência” e a “flexibilidade”, aplicadas por um aparato policial a serviço de uma minoria privilegiada, tornam-se fonte de desmoralização e gangsterismo. Só podemos sentir desprezo por aqueles que equiparam o heroísmo revolucionário dos bolcheviques ao cinismo burocrático dos termidorianos.
Hoje, apesar dos eventos dramáticos do passado recente, o filisteu médio quer acreditar que o choque entre o bolchevismo (“trotskismo”) e o stalinismo é meramente um choque de ambições pessoais ou, na melhor das hipóteses, entre duas “correntes” do bolchevismo. Temos a expressão mais grosseira dessa visão em Norman Thomas, líder do Partido Socialista da América: “Há poucos motivos para acreditar”, escreve ele (Socialist Review, setembro de 1937, p. 6), “que se o vencedor (!) tivesse sido Trotsky em vez de Stalin, as intrigas, conspirações e o reinado de medo na Rússia teriam terminado”. O homem que escreveu isso se considera… um marxista. Aplicando a mesma lógica, poderíamos dizer: “Há poucos motivos para acreditar que se o chefe da Santa Sé não fosse Pio XI, mas Norman I, a Igreja Católica se transformaria em um bastião do socialismo”.
Thomas se recusa a entender que esta não é uma luta entre Stalin e Trotsky, mas sim um antagonismo entre a burocracia e o proletariado. É verdade que a burocracia dominante ainda hoje é obrigada a se adaptar ao legado da revolução, que ainda não foi totalmente liquidado, enquanto simultaneamente prepara uma mudança na ordem social por meio de uma guerra civil (um sangrento “expurgo”: o extermínio em massa dos descontentes). Mas na Espanha, a camarilha stalinista já atua abertamente como um baluarte da ordem burguesa contra o socialismo. Diante de nossos olhos, a luta contra a burocracia bonapartista está se transformando em uma luta de classes: dois mundos, dois programas, duas moralidades. Se Thomas pensa que a vitória do proletariado socialista sobre a infame casta de opressores não regeneraria política e moralmente o regime soviético, então ele demonstra que, apesar de suas reservas, evasivas e suspiros piedosos, está muito mais próximo da burocracia stalinista do que dos trabalhadores.
Thomas, assim como todos aqueles que se enfurecem com a “imoralidade” bolchevique, não está à altura da moralidade revolucionária.
Tradições Bolcheviques e a Quarta Internacional
Os “esquerdistas” que tentaram “retornar” ao marxismo contornando o bolchevismo geralmente se entregavam a panaceias isoladas: boicotes aos sindicatos existentes, boicotes ao parlamento, a criação de sovietes “autênticos”. Tudo isso poderia ter parecido muito profundo no calor dos primeiros dias do pós-guerra. Agora, após as experiências recentes, tais “desordens infantis” não são sequer interessantes como objetos de estudo. Os holandeses Gorter e Pannekoek, os “Espartaquistas” alemães, os bordiguistas italianos, todos queriam demonstrar sua independência do bolchevismo: exaltaram artificialmente uma de suas características e a contrastaram com as demais.[14] Mas nada resta dessas tendências “esquerdistas”, nem na teoria nem na prática; prova indireta, porém convincente, de que o bolchevismo é o único marxismo possível para o nosso tempo.
O Partido Bolchevique demonstrou na prática a combinação da maior audácia revolucionária com o realismo político. Mostrou, pela primeira vez, a única relação entre vanguarda e classe capaz de garantir a vitória. Provou, através da experiência, que a aliança entre o proletariado e as massas oprimidas da pequena burguesia rural e urbana exige a derrota política prévia dos partidos pequeno-burgueses tradicionais. O Partido Bolchevique mostrou ao mundo inteiro como se deve conduzir a insurreição armada e a conquista do poder. Aqueles que contrapõem a abstração dos sovietes à ditadura do partido devem compreender que somente graças à direção bolchevique os sovietes puderam emergir do atoleiro do reformismo e alcançar a forma de Estado proletário. Na guerra civil, o Partido Bolchevique alcançou a combinação ideal entre arte militar e política marxista. Mesmo que a burocracia stalinista tenha conseguido destruir os fundamentos econômicos da nova sociedade, a experiência da economia planificada sob a direção bolchevique ainda assim ficará marcada na história como uma das maiores lições da humanidade. Somente os sectários magoados e ofendidos, que viraram as costas ao processo histórico, podem ignorá-lo.
Mas isso não é tudo. O Partido Bolchevique foi capaz de realizar seu magnífico trabalho “prático” porque iluminou cada passo com a teoria. O bolchevismo não criou a teoria: o marxismo a forneceu. Mas o marxismo é a teoria do movimento, não da estagnação. Somente eventos de grande magnitude histórica poderiam enriquecer a própria teoria. O bolchevismo deu contribuições inestimáveis ao marxismo: a análise da era imperialista como uma era de guerras e revoluções; da democracia burguesa na era do declínio capitalista; da relação recíproca entre greve geral e insurreição; do papel do partido, dos sovietes e dos sindicatos na revolução proletária; a teoria do Estado soviético, da economia de transição, do fascismo e do bonapartismo na era do declínio capitalista; e, finalmente, a análise da degeneração do próprio Partido Bolchevique e do Estado soviético. Cite alguma tendência que tenha contribuído de forma essencial para as conclusões e generalizações do bolchevismo. Em termos teóricos e políticos, Vandervelde, De Brouckere, Hilferding, Otto Bauer, Leon Blum, Zyromsky, sem mencionar o Major Attlee e Norman Thomas, vivem dos restos podres do passado.[15] A expressão mais grosseira da degeneração da Internacional Comunista é a sua descida ao nível teórico da Segunda Internacional. Os grupos intermediários, em todas as suas variações (Partido Trabalhista Independente da Grã-Bretanha, POUM e outros), adaptam fragmentos selecionados aleatoriamente de Marx e Lênin às suas necessidades semanais. Eles não têm nada a ensinar aos trabalhadores.
Somente os fundadores da Quarta Internacional, que abraçaram a tradição de Marx e Lênin, mantêm uma abordagem séria à teoria. Os filisteus podem zombar dos revolucionários que, vinte anos após a Revolução de Outubro, são mais uma vez relegados a modestos grupos de propaganda e treinamento. Nessa arena, como em tantas outras, os grandes capitalistas se mostram muito mais astutos do que a pequena burguesia que se considera “socialista” ou “comunista”. Não é por acaso que o tema da Quarta Internacional está constantemente presente nas colunas da imprensa mundial. A premente necessidade histórica de construir uma direção revolucionária garante à Quarta Internacional um ritmo de crescimento excepcionalmente rápido. A maior garantia de seu sucesso futuro reside no fato de que ela não surgiu à parte do grande caminho histórico, mas como um produto orgânico do bolchevismo.
28 de agosto de 1937
Notas:
[1] Stalinismo e Bolchevismo. Publicado como panfleto pela Pioneer Publishers em 1937. Traduzido do francês [para o inglês] por Eleanor Clark.
[2] Rudolph Hilferding (1877–1941): líder social-democrata alemão antes da Primeira Guerra Mundial, foi pacifista durante a guerra. Serviu como Ministro das Finanças nos gabinetes burgueses de 1923 e 1928. Morreu em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial.
[3] Willi Schlamm (n. 1904): um dos fundadores da Oposição de Direita Austríaca. Quando Hitler chegou ao poder, publicou vários artigos importantes de Trotsky na Die Neue Weltbühne, revista que editava. Mais tarde, estabeleceu-se nos Estados Unidos e foi editor da editora Henry Luce.
[4] Socialismo antes de março de 1948: Refere-se ao socialismo utópico, refutado e repudiado por Marx e Engels quando começaram a construir o movimento revolucionário.
[5] N. V. Ustrialov (1890–?): Membro do Partido Democrático Constitucional (Cadete), era um liberal, defensor de uma monarquia constitucional ou de uma república na Rússia. Era um partido de latifundiários, burgueses médios e intelectuais burgueses progressistas. Ustrialov opôs-se à Revolução Bolchevique, mas mais tarde trabalhou para o governo soviético, acreditando que este seria forçado a restaurar o capitalismo. Preso em 1937, foi acusado de atividades antissoviéticas e desapareceu.
[6] Mikhail Bakunin (1814–1876): Contemporâneo de Marx e membro da Primeira Internacional, foi o fundador do anarquismo. Sua teoria defendia a abolição do Estado e a criação de uma federação de comunidades livres.
[7] CNT (Confederação Nacional do Trabalho): Confederação anarco-sindicalista espanhola.
[8] Um dos principais representantes dessa escola de pensamento é o francês B. Souvarine, autor de uma biografia de Stalin. Os aspectos factuais e documentais de sua obra são fruto de uma pesquisa prolongada e séria. No entanto, a filosofia histórica desse autor é marcada por sua vulgaridade. Ele busca explicar os reveses históricos subsequentes nas falhas intrínsecas do bolchevismo. Para ele, as pressões do processo histórico real sobre o bolchevismo não existem. Taine, com sua teoria do “ambiente”, está mais próximo de Marx do que Souvarine. * (Nota de L.T.)
* Hippolyte Taine (1828-1893) – Filósofo francês cujas teorias deterministas, segundo as quais o homem é produto da hereditariedade, do condicionamento histórico e do ambiente social, tornaram-se a base da escola naturalista.
[9] Hermann Gorter (1864–1927) e Anton Pannekoek (1873–1960): escritores da esquerda social-democrata holandesa. Durante a Primeira Guerra Mundial, foram pacifistas e internacionalistas, associados à Esquerda de Zimmerwald. Ingressaram no Partido Comunista Holandês em 1918, mas opuseram-se à participação de comunistas em sindicatos e no parlamento. Criticados por seu ultra-esquerdismo, romperam com o Partido Comunista em 1921. Os primeiros Espartaquistas adotaram o nome Partido Comunista da Alemanha em 1919. Posteriormente, várias seitas oportunistas e ultra-esquerdistas na Alemanha e em outros países usaram esse nome — Trotsky se refere aqui a estas últimas.
[10] Sydney (1859–1947) e Beatrice (1858–1943) Webb: socialistas fabianos ingleses e admiradores da burocracia stalinista.
[11] Em 1977, as Obras Completas de Lênin (edição em inglês) (Moscou, Editora Progresso) totalizavam quarenta e cinco volumes.
[12] Ver a “Plataforma da Oposição” em O Desafio da Oposição de Esquerda (1926-27) (Nova York, Pathfinder Press, 1979).
[13] Liston Oak (1895-1970): jornalista, rompeu com os stalinistas durante a Guerra Civil Espanhola em 1937. Escreveu por um tempo para a imprensa trotskista, mas depois ingressou nos social-democratas. Eduard Bernstein (1850-1932): o principal teórico do revisionismo na social-democracia alemã. Ele argumentava que o marxismo não era mais válido e precisava ser “revisado”: o socialismo não seria produto da luta de classes e da revolução, mas da reforma gradual do capitalismo por meio de métodos parlamentares. Portanto, o movimento operário deveria abandonar a política de classes e adotar a colaboração de classes.
[14] Bordiguistas italianos: um grupo ultra-esquerdista liderado por Amadeo Bordiga (1889–1970), expulso do Partido Comunista Italiano por ser “trotskista” em 1929. Os trotskistas tentaram cooperar com os bordiguistas, mas não conseguiram devido ao sectarismo destes últimos: por exemplo, opunham-se à frente única por razões de princípio.
[15] Emile Vandervelde (1866–1938): líder do Partido Trabalhista Belga e presidente da Segunda Internacional, 1929–1936. Foi ministro durante a Primeira Guerra Mundial e assinou o Tratado de Versalhes em nome da Bélgica. Louis de Brouckere: líder do Partido Trabalhista Belga e belicista durante a Primeira Guerra Mundial. Ele presidiu a Segunda Internacional de 1937 a 1939. Clement Attlee (1883-1967): líder do Partido Trabalhista Britânico desde 1935, ocupou cargos no gabinete de Winston Churchill de 1940 a 1945. Quando o Partido Trabalhista venceu as eleições de 1945, Attlee foi nomeado Primeiro-Ministro e ocupou esse cargo até 1951.


