Há 86 anos, Leon Trotsky foi assassinado por um agente stalinista. Para marcar essa data, republicamos um artigo escrito por Ted Grant em 1990, por ocasião do 50º aniversário do assassinato de Trotsky. Escrito em meio à crise do stalinismo no Leste Europeu — quando muitos dos regimes stalinistas já haviam colapsado —, que culminou na dissolução da União Soviética apenas um ano depois, em 1991, o texto de Ted concentra-se em uma das maiores contribuições teóricas de Trotsky: sua análise da degeneração da Revolução de Outubro e da ascensão do stalinismo.
[Republicado dia 20 de agosto em marxist.com, oferecemos a tradução ao português para nossos leitores. Os vídeos do canal da ICR que acompanham o artigo estão em inglês, porém é possível acionar as legendas em português]
Passados 36 anos, as ideias de Trotsky permanecem tão vigentes quanto eram em 1990 e constituem a base sobre a qual construímos a ICR hoje. Temos orgulho de ter republicado muitas das obras clássicas desse gigante revolucionário, com o objetivo de preparar uma nova geração nas ideias de Trotsky. Essas obras podem ser adquiridas em wellred-books.com.
Passaram-se agora 50 anos desde o assassinato de Leon Trotsky por um agente de Stalin e mais de 110 anos desde o seu nascimento, em 26 de outubro de 1879. Esta foi uma época de mudanças e convulsões maiores do que qualquer outro período da história registrada; talvez o século mais conturbado da história da humanidade.
Duas guerras mundiais, a Revolução Russa, a ascensão do stalinismo, a vitória da União Soviética na Segunda Guerra Mundial, a Revolução Chinesa, a transição da dominação militar aberta pelo imperialismo para a dominação neocolonial econômica no Terceiro Mundo — esses foram os grandes acontecimentos deste século que marcaram etapas decisivas na história mundial.
Agora, um terceiro ponto de inflexão — a crise do stalinismo na Rússia e no Leste Europeu — inaugura uma nova etapa da história. Os representantes das potências imperialistas esfregam as mãos de contentamento. Sem disparar um único tiro, eles trouxeram — ou assim acreditam — o Leste Europeu de volta à sua órbita e fizeram recuar a ameaça do “comunismo” — que, na realidade, era o stalinismo. Contudo, a história ainda não deu a sua última palavra. O que presenciamos no Leste Europeu não será nada comparado à crise — política, econômica e social — que se desenvolverá no Ocidente. E, à medida que a crise se aprofundar, as forças de esquerda voltarão ao primeiro plano. O “trotskismo” — a política da revolução social — ganhará então a sua verdadeira dimensão.
Em sua autobiografia, Minha Vida, Trotsky relata como, oito anos antes da Revolução de 1905, um grupo de jovens revolucionários produziu um panfleto de ataque ao czarismo utilizando um hectógrafo (uma copiadora manual). Esse foi o início da atividade revolucionária de Leon Trotsky. As forças da revolução eram muito mais fracas naquela época do que o são hoje. No entanto, oito anos depois, ocorreu a Revolução de 1905 e, vinte anos mais tarde, em 1917, o império dos czares — que havia perdurado por mil anos — foi derrubado.
Os social-democratas russos estavam organizados em um partido centralizado. Houve uma cisão em 1903 que, embora acidental — ocorrendo em torno de uma questão secundária —, revelava os caminhos distintos que mencheviques e bolcheviques seguiriam nos anos seguintes. Ela evidenciava a diferença, como Trotsky explicaria mais tarde, entre os “duros” e os “brandos”. O próprio Trotsky permaneceu com os mencheviques por cerca de um ano e, depois, rompeu com eles, situando-se a meio caminho entre as posições bolchevique e menchevique. No entanto, como Krupskaya, viúva de Lênin, escreveria a Trotsky poucos dias após a morte de Lênin, este manteve a mesma atitude em relação a Trotsky ao longo de toda a sua vida. Ele compreendia o papel que Trotsky poderia desempenhar.
A cisão de 1903 não foi uma questão simples — como os stalinistas mais tarde tentariam fazer crer — de uma separação imediata entre as duas frações da social-democracia. Houve o Congresso de Unificação — o Congresso de Estocolmo de 1906 — no qual, por um período temporário, bolcheviques e mencheviques voltaram a se unir. Foi apenas em 1912 que Lênin chegou à conclusão definitiva de que não poderia mais haver unidade para fins revolucionários. Somente então os bolcheviques se constituíram como um partido independente.
Após 1904, Trotsky havia permanecido à margem de ambas as facções. Mas, em 1917, ele marchou lado a lado com os bolcheviques. Em março de 1917, quando Trotsky estava em Nova York e Lênin na Suíça, ambos adotaram, de forma independente, exatamente a mesma posição em relação ao Governo Provisório. Após a Revolução de Fevereiro, os dirigentes bolcheviques na Rússia, incluindo Stalin e Kamenev, defendiam a união com os mencheviques. Trotsky opunha-se a isso de forma intransigente, assim como Lênin, obviamente. Contudo, naquela época, como explicou Trotsky, “o movimento que encontrara seu símbolo em Kerensky parecia onipotente… O bolchevismo parecia não passar de um ‘grupo insignificante’… O próprio partido não se dava conta do poder que viria a exercer logo em seguida, mas Lênin o conduziu com firmeza rumo às suas maiores tarefas. Dediquei-me ao trabalho e o auxiliei”. (Minha Vida, p. 332)
Em 7 de setembro de 1917, Trotsky escreveu no Pravda: “Para nós, o internacionalismo não é uma ideia abstrata que existe apenas para ser traída em toda oportunidade propícia — como é para Tsereteli e Chernov [líderes mencheviques e socialistas-revolucionários – EG] —, mas sim um princípio real, norteador e inteiramente prático. Um êxito duradouro e decisivo é inconcebível para nós sem uma revolução na Europa… revolução permanente contra carnificina permanente: eis a luta em que está em jogo o futuro da humanidade.”
Como comenta Trotsky, enquanto “nos anos de reação era necessária a clarividência teórica para manter firme a perspectiva da revolução permanente, provavelmente não se precisava de mais do que senso político para lançar a palavra de ordem de luta pelo poder em março de 1917”. No entanto, “nenhum dos dirigentes atuais demonstrou tal clarividência ou tal senso… Nenhum deles resistiu à prova da história” (Minha Vida, p. 330). Em consequência, Lênin declarou que, depois de Trotsky se convencer da impossibilidade de uma união com os mencheviques, “não houve melhor bolchevique”.
Em Minha Vida, Trotsky também descreve como o Exército Vermelho foi organizado e como ocorreram as batalhas que decidiram o destino da Revolução, em Kazan e em outras regiões. “O primeiro requisito para o êxito”, explicou ele, “era não ocultar nada — e, menos ainda, nossas fraquezas; não brincar com as massas, mas chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome”. Essa foi a política que Trotsky manteve por toda a sua vida, jamais tentando esconder a verdade da classe trabalhadora.
Trotsky realizou feitos notáveis na Revolução de 1905, como presidente do Soviete de Petrogrado, e em 1917, como presidente do Comitê Militar Revolucionário, que organizou a Revolução de Outubro. Isso, somado à organização do Exército Vermelho, teria bastado para colocá-lo no “hall da fama” da história. Mas, além disso, Trotsky foi, juntamente com Lênin, o organizador da Internacional Comunista — que ambos consideravam mais importante do que a própria Revolução Russa. A Internacional Comunista reuniu em suas fileiras os trabalhadores revolucionários de todo o mundo. Ela mobilizou massas humanas ainda maiores do que aquelas organizadas durante a ascensão das religiões mundiais. Ofereceu uma direção consciente ao movimento inevitável da classe trabalhadora. Não podia criar esses movimentos, mas podia aproveitá-los e preparar o caminho para a revolução mundial.

Essa era a intenção de Lênin e Trotsky ao fundarem a Internacional. A Internacional Comunista visava preparar a derrubada do capitalismo e abrir caminho para a nova sociedade socialista. Sua principal tarefa era educar as novas camadas e os novos quadros — surgidos da experiência da luta de classes em todo o mundo — que seriam capazes de levar a cabo essa missão. Esse foi o sentido do trabalho dos quatro primeiros congressos da Internacional Comunista. Suas deliberações, com suas teses e manifestos, muitos deles redigidos por Trotsky, constituem um manual inestimável para a revolução.
Mas o reformismo salvou o capitalismo nos eventos revolucionários que se seguiram imediatamente à Primeira Guerra Mundial. A Revolução Alemã foi traída pela social-democracia, que rejeitou o “caminho sangrento do bolchevismo” em favor de uma transformação gradual, lenta e pacífica do capitalismo. Quinze anos depois, Hitler chegou ao poder!
Nessa fase inicial, os dirigentes operários da Internacional Comunista ainda eram jovens e teoricamente pouco amadurecidos. Mas podiam aprender — e estavam aprendendo — no decorrer dos grandes acontecimentos que se desenrolavam. A derrota da revolução na Alemanha ensinou aos trabalhadores muitas lições amargas, e o Partido Comunista cresceu, com base nessa luta entre revolução e contrarrevolução, até se tornar um partido de milhões.
Em janeiro de 1923, após a Alemanha deixar de pagar as reparações de guerra, o imperialismo francês invadiu o Ruhr. Esse fato, somado à crise do capitalismo alemão, levou ao colapso da moeda. A cotação do marco em relação à libra chegou à casa dos bilhões. Uma crise revolucionária desenvolveu-se na Alemanha. No entanto, as hesitações da direção do Partido Comunista, aliadas aos maus conselhos de Stalin e Zinoviev, fizeram com que uma grande oportunidade revolucionária fosse perdida.
A derrota de 1923 na Alemanha fortaleceu a reação que se desenvolvia na Rússia, motivada pela decepção com o isolamento da revolução e pela terrível situação econômica das massas. A “troika” formada por Zinoviev, Kamenev e Stalin assumiu o controle da direção do Partido Comunista da União Soviética (PCUS) e iniciou uma luta contra o “trotskysmo”. Na realidade, tratava-se de uma luta contra as ideias fundamentais de Lênin e contra a própria revolução.
A reação que se desenvolvia na Rússia refletiu-se na apresentação, por Stalin, da teoria do “socialismo em um só país” em 1924. Em fevereiro de 1924, Stalin publicou o livro Os Fundamentos do Leninismo, que refletia a ideia marxista ortodoxa de Lênin sobre a impossibilidade de se construir o “socialismo em um só país”, especialmente em um país atrasado como a Rússia. No entanto, seis meses depois, em uma nova edição, ele publicou a ideia oposta: a de que a Rússia possuía recursos suficientes para construir o socialismo! Isso deveria servir de consolo para as massas, decepcionadas com o fracasso da revolução mundial. Na realidade, tal posição refletia os interesses da nova casta burocrática que buscava o controle na União Soviética, aproveitando-se do refluxo da atividade das massas.
Trotsky fez um alerta e uma previsão brilhante: Stalin era um empirista que, naquela fase, não se dava conta do que estava fazendo nem de onde a teoria do “socialismo em um só país” iria parar — na degeneração nacionalista e reformista de todos os partidos comunistas do mundo. Foi uma previsão notável, brilhantemente confirmada pelos acontecimentos.
A fração de Trotsky no Partido Comunista Russo liderou uma luta contra a via burocrática entre 1923 e 1927. Eles adotaram o programa de industrialização massiva, combatido por Stalin e Bukharin, mas hoje exaltado pelos apoiadores tardios de Gorbachev, ao passo que seus oponentes queriam “construir o socialismo a passo de tartaruga”. Em sua brilhante obra A Terceira Internacional depois de Lênin, Trotsky explicou a impossibilidade de se construir o socialismo em um único país, particularmente em um país atrasado como a Rússia. Ele defendeu uma linha internacionalista na política externa e a restauração da democracia operária na União Soviética, a regeneração dos sovietes e a devolução do poder às massas trabalhadoras.
Ele combateu a orientação de Stalin e Bukharin — e, até certo ponto, de Zinoviev — em relação à Revolução Britânica, prevendo a greve geral de 1926. Conduziu uma campanha contra a política suicida da Internacional Comunista de apoio a Chiang Kai-shek na Revolução Chinesa de 1925-1927, a qual resultou no massacre dos comunistas.
No entanto, a maior contribuição de Trotsky para o socialismo mundial e para o movimento da classe trabalhadora foi sua análise do stalinismo na Rússia. Sem o seu trabalho, o movimento teria permanecido cego. Ele analisou implacavelmente as oscilações do “socialismo em um só país”, que transformaram o Comintern de um instrumento da revolução mundial em uma “guarda fronteiriça” da União Soviética. Em resposta, em 1927, os trotskistas foram expulsos do PCUS e exilados na Sibéria.
Naqueles anos, Trotsky travou uma luta contra o que chamava de “centrismo burocrático”. Foi um período em que Stalin e outros dirigentes da Revolução Russa desejavam genuinamente a vitória da revolução em outros países, mas — primeiro com políticas oportunistas e depois com a loucura do esquerdismo radical, com a teoria insana do “social-fascismo” (segundo a qual a social-democracia e o fascismo não eram inimigos, mas gêmeos) — prepararam o caminho para a vitória de Hitler em 1933. A trajetória da Internacional Comunista (Comintern) até 1933 foi marcada por oscilações entre o esquerdismo radical e o oportunismo. Em uma série de escritos, Trotsky abordou as políticas criminosas da Comintern e alertou para o perigo representado por Hitler, bem como para as consequências que a vitória do fascismo teria para a classe trabalhadora alemã e mundial. Ele defendeu a formação de uma frente única entre social-democratas e comunistas para impedir a ascensão de Hitler ao poder.
No entanto, a Comintern não aprendeu nada com a derrota desastrosa na Alemanha e chegou a afirmar que a ascensão de Hitler ao poder era um passo rumo à vitória da revolução! Mesmo em fevereiro de 1934, quando os fascistas realizaram manifestações contra o governo liberal de Daladier, na França, o Partido Comunista chegou a manifestar-se ao lado dos fascistas. Se tivessem obtido êxito, o fascismo poderia ter chegado ao poder na França em 1934. Felizmente, os trabalhadores franceses perceberam o que estava acontecendo do outro lado do Reno e forçaram os dirigentes sindicais a organizar uma greve geral. Embora apenas um milhão de trabalhadores estivessem sindicalizados, quatro milhões participaram da greve geral como um aviso aos fascistas.
Trotsky, que havia defendido a reforma da Internacional Comunista e do Partido Comunista da União Soviética, passou então a defender a ideia de uma revolução política na Rússia e o colapso inevitável da Comintern como força revolucionária.
Posteriormente, a Comintern adotou a tática da “frente popular”, que exigia a subordinação do proletariado aos liberais. Trotsky abordou essa questão em seus escritos sobre a Espanha e a França. O Comintern tentou distinguir entre capitalistas “bons” e “maus”. Ao não utilizar um critério de classe — nem aproveitar a crise do sistema para derrubar o capitalismo —, mas sim forçar os trabalhadores a apoiar os “liberais”, a organização gerou desilusão entre o operariado e, assim, preparou o terreno para a reação. Na França, certos dirigentes, levando essa ideia reacionária a uma conclusão absurda, exigiram uma Frente Nacional com os “bons” fascistas franceses e Mussolini contra os “maus” nazi fascistas alemães! As derrotas da classe trabalhadora abriram caminho para a guerra. Trotsky acreditava que a Segunda Guerra Mundial seria um teste decisivo para o capitalismo, resultando em revoluções no Ocidente. E, de fato, houve uma onda revolucionária no pós-guerra por toda a Europa Ocidental. Na Grã-Bretanha, ela levou o Partido Trabalhista ao poder. Na França, na Itália e em outros países, levou ao poder coalizões que incluíam partidos socialistas e stalinistas.
Mas essa nova onda revolucionária foi traída por Stalin. Ele temia que os efeitos de uma vitória dos trabalhadores em outros países resultassem no colapso da burocracia dentro da União Soviética. Da mesma forma, em 1936, temendo os efeitos da Revolução Espanhola no interior da União Soviética, Stalin iniciou seus expurgos sanguinários e preparou o terreno para os monstruosos julgamentos forjados contra os “velhos bolcheviques” e Trotsky.
Assim, o capitalismo foi salvo dessa situação crítica pelas políticas dos partidos comunistas e, naturalmente, dos reformistas, que deram continuidade às mesmas políticas adotadas após a Primeira Guerra Mundial. No entanto, isso não gerou as mesmas consequências, pois a situação diferia, em certa medida, daquela que se seguiu à Primeira Guerra Mundial. O que abriu o caminho para a longa expansão econômica do período de 1950 a 1973 foi a hegemonia do imperialismo americano no mundo capitalista do pós-guerra. Naquela época, os Estados Unidos detinham 50% da produção mundial. O país utilizou sua hegemonia para forçar a abertura dos mercados globais às exportações. Houve uma enorme expansão do comércio mundial, impulsionada pela redução de tarifas e de outras barreiras comerciais. Essa expansão do comércio mundial proporcionou uma sobrevida temporária ao capitalismo, mas, por outro lado, também trouxe consequências mais progressistas. Ela resultou no crescimento numérico, na coesão e no poder do proletariado em todos os países capitalistas avançados e, até certo ponto, também no mundo subdesenvolvido.
As políticas dos partidos comunistas e socialistas prepararam a base política para uma relativa estabilização do capitalismo. No entanto, o stalinismo também emergiu fortalecido da Segunda Guerra Mundial. Apenas os marxistas compreenderam a mudança de situação que havia ocorrido, explicando as consequências da vitória do Exército Vermelho e a guinada em direção a políticas de bonapartismo proletário nos países do Leste Europeu. Tratava-se de uma situação nova, que só poderia ser explicada mediante o uso do método de Lênin e Trotsky, e não apenas pela repetição de suas ideias sem levar em conta as mudanças fundamentais que haviam ocorrido.
Hoje em dia, Stalin foi completamente repudiado pela burocracia, que o amaldiçoa como o responsável por todos os males que afligem a Rússia atual. Mas Stalin era uma expressão do aparelho, o representante da burocracia. Foi isso que deu força a Stalin e possibilitou sua vitória sobre Trotsky na batalha entre a Oposição de Esquerda e a burocracia.
Trotsky explicou a degeneração dos bolcheviques, ocorrida entre 1917 e 1924, pelas mudanças nas condições de existência em que viviam. No capítulo sobre “A morte de Lênin e a mudança de poder”, em Minha Vida, ele descreve os processos envolvidos:
“Assimilar uma certa concepção filosófica de modo que ela se torne parte integrante da própria existência, fazê-la dominar a consciência e harmonizar com ela o mundo sensorial — isso não é dado a todos, mas apenas a alguns. Nas massas trabalhadoras, encontra-se um substituto no instinto de classe… há muitos revolucionários no partido e no Estado que vieram das massas, mas há muito se desligaram delas.” (p. 503)
Com a mudança das circunstâncias, sobretudo na situação econômica e na série de derrotas da revolução em escala internacional, eles ficaram expostos “à fácil penetração de influências ideológicas alheias e hostis”. O stalinismo, conclui Trotsky, foi “antes de tudo a obra automática do aparelho impessoal no declínio da revolução” (p. 506). Tratava-se da ditadura do aparelho sobre o partido.
Trotsky aprofundou e desenvolveu ainda mais sua análise do stalinismo em toda uma série de obras. Uma de suas últimas obras, Em Defesa do Marxismo, foi escrita no contexto da batalha contra aqueles que queriam mudar a atitude dos marxistas em relação à União Soviética durante a Segunda Guerra Mundial.
Trotsky sustentava que a URSS era um Estado operário deformado enquanto houvesse propriedade estatal dos meios de produção, distribuição e troca. Essa é a característica fundamental de um Estado operário. Sem ela, não se pode cogitar uma transição para o socialismo. Mas, sem a necessária democracia operária e o controle e a gestão da indústria e do Estado pelos trabalhadores, não pode haver um Estado operário saudável. A burocracia tornou-se uma casta privilegiada, que se impunha sobre a sociedade e a classe trabalhadora. Incapaz de dar qualquer passo em direção a uma sociedade mais livre e igualitária, ela tentou preservar o status quo, manter uma sociedade hierárquica e aumentar seu próprio poder, privilégios, prestígio e renda, governando os trabalhadores por meio do terror totalitário. Foram necessárias cinco décadas para que essas características, que Trotsky observara em 1940, se desenvolvessem em toda a sua plenitude.
No cerne da disputa sobre a “defesa da URSS” estava a natureza de classe da União Soviética. “A ‘defesa da URSS’, tal como interpretada pela Internacional Comunista”, argumentava Trotsky, “assim como a ‘luta contra o fascismo’ de ontem, baseia-se na renúncia a uma política de classe independente. O proletariado é transformado — por razões diversas e em circunstâncias variadas, mas sempre e invariavelmente — em uma força auxiliar de um campo burguês contra outro…”
“Para nós, o critério político primordial não é a transformação das relações de propriedade nesta ou naquela área, por mais importantes que estas sejam em si mesmas, mas sim a mudança na consciência e na organização do proletariado mundial, elevando sua capacidade de defender conquistas anteriores e de alcançar novas…”
“Devemos formular nossas palavras de ordem de tal maneira que os trabalhadores vejam claramente o que estamos defendendo na URSS (a propriedade estatal e a economia planificada) e contra quem travamos uma luta implacável (a burocracia parasitária e seu Comintern). Não devemos perder de vista, nem por um instante, o fato de que a questão da derrubada da burocracia soviética é, para nós, subordinada à questão da preservação da propriedade estatal dos meios de produção na URSS; de que a questão da preservação da propriedade estatal dos meios de produção na URSS é, para nós, subordinada à questão da revolução proletária mundial.” (Em Defesa do Marxismo, pp. 17-21)
Em Defesa do Marxismo responde a todo tipo de ideias de “pseudo-marxistas” que ficaram desorientados com o desenvolvimento do stalinismo, como Isaac Deutscher, autor de uma biografia de Trotsky. Deutscher imaginava que a burocracia poderia caminhar na direção do socialismo, que ela poderia se dissolver e deixar de existir! Os acontecimentos atuais demonstram que isso é fundamentalmente falso. Por outro lado, há pessoas como Tony Cliff, que propuseram a ideia de “capitalismo de Estado” — a de que a burocracia constituía uma nova formação social. Isso também está completamente errado.
A economia de um Estado com propriedade integral é totalmente diferente da economia do capitalismo. As leis econômicas de movimento de tal sociedade são inteiramente distintas das do capitalismo. Por exemplo, não pode haver crise de superprodução e recessão como no capitalismo. A crise na União Soviética e no Leste Europeu é de natureza diferente.
Além disso, o capitalismo não pode funcionar sem que os capitalistas sejam, nas palavras de Marx, os “depositários dos meios de produção”. Em uma economia de propriedade estatal, o Estado é o depositário dos meios de produção. Os burocratas não são empresários. Como funcionários econômicos e gestores, eles não têm direito a mais do que salários de supervisão. Na medida em que recebem mais, o fazem como puros parasitas, e não como consequência de sua função econômica. Um Estado operário só pode funcionar adequadamente sob o controle democrático dos trabalhadores. Caso contrário, todos os fenômenos negativos da Rússia e do Leste Europeu são inevitáveis. Ou, nas palavras de Trotsky: “se a corja bonapartista [isto é, a burocracia soviética – EG] é uma classe, isso significa que ela não é um aborto, mas um filho viável da história”. (p. 19)
Por um lado, a propriedade estatal demonstrou ser possível aproveitar as enormes vantagens proporcionadas por um plano de produção. Por outro, a burocracia chegou aos seus limites e já não consegue sequer alcançar os resultados obtidos sob o capitalismo em períodos de expansão! Como explicou Trotsky: “O objetivo a ser alcançado com a derrubada da burocracia é o restabelecimento do poder dos sovietes, expulsando deles a burocracia atual… cabe aos sovietes regenerados colaborar com a revolução mundial e com a construção de uma sociedade socialista. A derrubada da burocracia pressupõe, portanto, a preservação da propriedade estatal e da economia planificada. Aí reside o cerne de todo o problema”. Trata-se de um programa conciso que mantém sua validade até os dias de hoje, mais de 50 anos depois de ter sido escrito por Trotsky.
Trotsky, utilizando o método do marxismo, colocou a questão: “A burocracia representa um crescimento temporário em um organismo social ou esse crescimento realmente se transformou em um órgão historicamente indispensável?” Ele respondeu explicando que uma “excrescência social pode ser produto de uma combinação ‘acidental’ (isto é, temporária e extraordinária) de circunstâncias históricas. Um órgão social (e tal é toda classe, inclusive uma classe exploradora) só pode tomar forma como resultado das necessidades internas mais profundamente enraizadas da própria produção… a justificativa histórica de toda classe dominante consiste nisto: o sistema de exploração que ela chefiava elevava o desenvolvimento das forças produtivas a um novo patamar. Sem sombra de dúvida, o regime soviético deu um poderoso impulso à economia. Mas a fonte desse impulso foi a nacionalização dos meios de produção e os princípios de planejamento, e de forma alguma o fato de a burocracia ter usurpado o comando da economia. Pelo contrário, o burocratismo, como sistema, tornou-se o pior entrave ao desenvolvimento técnico e cultural do país.” (Em Defesa do Marxismo, p. 6).
A burocracia encontra-se agora numa posição em que já não pode desenvolver as forças produtivas. Já não constitui um entrave relativo ao desenvolvimento da sociedade, mas sim um freio absoluto.
Isso, explicou Trotsky, “ficou oculto por certo tempo pelo fato de que a economia soviética esteve ocupada, durante duas décadas, em transplantar e assimilar a tecnologia e os métodos de produção dos países capitalistas avançados. O período de assimilação e imitação ainda podia, para o bem ou para o mal, acomodar-se ao automatismo burocrático — isto é, ao sufocamento de toda iniciativa e de todo impulso criativo. Mas, à medida que a economia se elevava e suas exigências se tornavam mais complexas, mais insuportáveis se tornavam os obstáculos do regime burocrático… a burocracia… entrou em contradição irreconciliável com as exigências do desenvolvimento. A explicação para isso reside precisamente no fato de que a burocracia não é a portadora de um novo sistema econômico que lhe seja próprio e que não pudesse existir sem ela, mas sim um crescimento parasitário sobre o Estado operário”. (p. 7) Essa análise foi brilhantemente confirmada pelo impasse atual.
Trotsky prossegue explicando:
“A oligarquia soviética possui todos os vícios das antigas classes dominantes, mas carece de sua missão histórica. Na degeneração burocrática do Estado soviético, não são as leis gerais da sociedade moderna — da transição do capitalismo ao socialismo — que encontram expressão, mas sim a refração especial, excepcional e temporária dessas leis, decorrente das condições de um país revolucionário atrasado situado em um ambiente capitalista.” (p. 7)
“A Revolução de Outubro não foi um acidente. Foi prevista com muita antecedência. Os acontecimentos confirmaram essa previsão. A degeneração não refuta a previsão, pois os marxistas nunca acreditaram que um Estado operário isolado na Rússia pudesse manter-se indefinidamente. É verdade que esperávamos a ruína do Estado soviético, e não a sua degeneração; ou, para sermos mais precisos, não diferenciávamos nitidamente essas duas possibilidades. Mas elas não se contradizem de forma alguma. A degeneração deve, inevitavelmente, culminar — em certo estágio — na derrocada… Vinte e cinco anos, na balança da história — quando se trata das mais profundas transformações nos sistemas econômicos e culturais —, pesam menos do que uma hora na vida de um homem.” (p. 13-15)
A burocracia conseguiu manter-se por mais tempo do que se poderia prever. Isso se deveu à vitória na guerra — pela qual ela não foi responsável, mas que refletiu a determinação das massas da União Soviética de não serem escravizadas pelo fascismo hitlerista. Contudo, como Trotsky afirmou então — fato que, mais uma vez, tem sido demonstrado de forma contundente nos dias de hoje: “na URSS, a derrubada da burocracia é indispensável para a preservação da propriedade estatal”. (p. 15)
As políticas de coalizão dos “comunistas” na Europa, ao final da Segunda Guerra Mundial, constituíram uma traição vergonhosa a todas as ideias de Marx e Lênin sobre a luta contra o capitalismo. Elas salvaram o capitalismo naquele período e proporcionaram o fôlego necessário para preparar as condições políticas para a retomada econômica. Agora, o colapso do stalinismo no Leste Europeu — ou, como os capitalistas preferem fingir, do “comunismo” — concedeu aos capitalistas um aparente fôlego adicional, ainda mais reforçado pela crise do stalinismo na Rússia.
Mas essa crise do stalinismo, prevista pelos marxistas, é apenas um prenúncio de uma crise do capitalismo na Europa Ocidental e em todo o mundo. A próxima década também será de turbulência nos países capitalistas. A França de 1968 não foi um acidente. Foi um reflexo do movimento inevitável da classe trabalhadora em condições de crise.
O jornal The Guardian, em 22 de junho, retratou a situação que se desenvolveu nos Estados Unidos: “O eleitor comum despertou para o fato de que a renda de seu domicílio não apresenta melhoria há 20 anos”. Citando um livro recente, The Politics of Rich and Poor (A Política dos Ricos e Pobres), de Kevin Phillips — estrategista do Partido Republicano em 1968 —, o jornalista do The Guardian comenta: “Agora que os dados estão sendo divulgados, podemos perceber o quanto os anos Reagan deslocaram o pêndulo em direção à plutocracia. Em 1980, quando Reagan foi eleito, o 1% mais rico dos EUA detinha apenas 8% da riqueza nacional. Em 1988, essa parcela havia quase dobrado, chegando a 14,9%”.
“Há quase dois milhões de milionários americanos, mais de 150 mil deca-milionários (com patrimônio de 10 milhões de dólares) e 51 bilionários. O patrimônio líquido dos integrantes da lista da Forbes dos 400 americanos mais ricos quase triplicou na década de 1980. Os executivos-chefes de grandes empresas, que ganhavam, em média, 40 vezes mais do que os trabalhadores em 1980, agora ganham 93 vezes mais.”
Esta é a sombra de acontecimentos futuros. Exatamente o mesmo processo ocorreu entre 1920 e 1930, preparando a depressão de 1929-1933. Trotsky, em sua introdução a O Pensamento Vivo de Karl Marx, observou que: “De fato, a contradição econômica entre o proletariado e a burguesia agravou-se durante os períodos mais prósperos do desenvolvimento capitalista, quando a elevação do padrão de vida de certas camadas de trabalhadores — por vezes bastante amplas — ocultava a diminuição da parcela do proletariado na renda nacional. Assim, pouco antes de cair em colapso, a produção industrial dos EUA, por exemplo, cresceu 50% entre 1920 e 1930, ao passo que o montante pago em salários aumentou apenas 30%, o que significou uma enorme redução da participação do trabalho na renda nacional” (p. 25).
A história se repete em um nível mais elevado. Pelo menos naquele período, a participação do proletariado na renda nacional aumentou. No entanto, nos últimos 20 anos, essa participação diminuiu. Isso significa que as contradições na economia atingiram uma dimensão ainda maior do que a observada no período de 1929-1933. Naturalmente, não é possível determinar com absoluta precisão, de antemão, quando a crise ocorrerá. Pode levar alguns anos, ou um colapso pode acontecer ainda em 1991. Mas o que é certo é que as mesmas causas econômicas produzem os mesmos efeitos econômicos.
A ironia da história pode residir no fato de que a burocracia soviética se prepara para capitular diante do capitalismo, possivelmente às vésperas de novas convulsões econômicas e sociais capitalistas. Os “fogos de artifício” do capitalismo ocidental prepararão um colapso inevitável em uma etapa posterior. A crise ocorrida no Leste Europeu e na Rússia é um prenúncio de uma crise semelhante do capitalismo no Ocidente na próxima etapa — na Europa, na América do Norte e na Ásia. Haverá uma decadência do capitalismo em escala mundial.
O pavor da burguesia mundial diante da revolução ocorrida na Romênia demonstrou quão superficial e frágil é a atual estabilização econômica e política do capitalismo. Houve até apelos das potências capitalistas ocidentais — motivados pelo receio dos efeitos da revolução — para que Gorbachev “interviesse” contra o movimento revolucionário na Romênia. A campanha na imprensa sobre a defesa do governo Iliescu por parte dos operários fabris e dos mineiros foi mais um indício disso.
Haverá enormes dificuldades no caminho da contrarrevolução na Rússia e na Europa Oriental. Uma explosão está sendo preparada na Polônia. Esse é o temor da classe dominante. Eles agora se agarram a qualquer esperança, cometendo erros em conjunto com Gorbachev, em vez de agirem contra o regime stalinista.
A teoria reacionária do socialismo em um só país revelou toda a sua futilidade e estupidez. Stalin acreditava ter estabelecido um regime que duraria mil anos. Ele não fazia ideia da crise que afetaria o seu sistema em poucas décadas. Os líderes da Internacional Comunista também não se deram conta do que aconteceria quando adotaram essa teoria reacionária.
Hoje, muitas das conquistas da Revolução de Outubro — incluindo o desenvolvimento da Internacional Comunista por toda a Europa e pelo mundo — foram destruídas. De instrumentos da revolução internacional, os partidos comunistas transformaram-se em remanescentes de organizações reformistas nacionais nos diversos países. Um é mais reacionário que o outro! Na Grécia, formaram uma coalizão com um governo conservador — justamente as forças que os haviam esmagado na guerra civil de 1944-1947. Na Espanha, fragmentaram-se. Mesmo onde os partidos comunistas permanecem como uma força relevante, como na Itália e na França, tornaram-se agentes não do stalinismo, mas dos capitalistas. Sofreram merecidamente esse destino, previsto por Trotsky.
Os seguidores internacionais de Stalin, e de todos os seus sucessores, foram um instrumento da política externa da burocracia. Mesmo agora, eles apoiam Gorbachev cegamente, embora ele esteja caminhando para a restauração do capitalismo. Na esteira do boom econômico capitalista, as alas de esquerda dos partidos socialistas foram incapazes de se orientar. Seguiram os stalinistas com extrema ingenuidade, propagando a ideia de que o “socialismo” havia sido estabelecido na Rússia e no Leste Europeu. Agora, sofrem o mesmo destino dos stalinistas.
Neste momento, com a ascensão do capitalismo, os reformistas de direita estão em alta. Eles são instrumentos degenerados do capitalismo. Abandonaram qualquer pretensão de “socialismo”. Onde estão no governo — na França, Espanha, Suécia, Austrália e Nova Zelândia —, os governos “socialistas” implementam políticas capitalistas conservadoras. Na Nova Zelândia e na Austrália, chegaram a recorrer à desnacionalização. Na Alemanha, abandonaram há muito tempo a pretensão de um programa socialista. São ainda mais degenerados, tanto na teoria quanto na prática política, do que seus predecessores da República de Weimar.
No entanto, é da natureza das coisas que elas se comportem dessa maneira, pois também estão sob o domínio do mercado mundial — da interpenetração das forças produtivas em escala internacional. Já não é possível conduzir uma política puramente “nacional”. Essa é a explicação para o movimento em direção à unificação econômica — que não terá êxito — na Comunidade Econômica Europeia, e para o fato de as demais potências capitalistas europeias terem entrado na órbita da CEE (Comunidade Econômica Europeia).
Esse desenvolvimento relativamente progressista das forças produtivas resultou do fato de os capitalistas terem superado parcialmente a crise em que se encontravam — manifestada na depressão de 1929-1933 e em duas guerras mundiais — ao transcenderem os limites nacionais de cada economia capitalista. A economia superou as restrições da propriedade privada e do Estado nacional. Isso ficará ainda mais evidente, de forma avassaladora, no futuro.
De fato, o mundo capitalista baseia-se na exploração dos povos coloniais e ex-coloniais. Ao longo da década de 1980, 50 bilhões de dólares foram extraídos anualmente dos povos mais pobres do globo. A hipocrisia repugnante dos capitalistas reside no fato de que eles derramam lágrimas de crocodilo, fingindo piamente oferecer ajuda enquanto utilizam as relações de troca para sangrar esses países: dão com a mão esquerda, mas retiram muito mais com a direita.
A obra de Trotsky sobre a revolução permanente, voltada para os países atrasados do mundo, mantém toda a sua força na atualidade, embora a aberração do stalinismo — também nesse campo — tenha criado novas dificuldades teóricas e de perspectiva. A Revolução Chinesa, a Revolução Cubana e outras começaram como Estados operários deformados e inevitavelmente acabarão no mesmo beco sem saída em que se encontra atualmente a burocracia russa. No entanto, foram imensamente progressistas, na medida em que desenvolveram — ao longo de todo um período histórico — as forças produtivas que não podiam ser desenvolvidas nos países atrasados sob o capitalismo. Nos três setores do mundo — o mundo stalinista, o mundo capitalista e o mundo colonial —, as ideias de Trotsky constituem um guia inestimável para as novas forças da classe trabalhadora que virão a se desenvolver.
A história ainda não disse a sua última palavra em relação ao Leste Europeu. A situação do Leste Europeu e da Rússia permanece indefinida. No Leste Europeu, o programa do “socialismo em um só país” foi levado a extremos absurdos. Não se alcançou o nível de integração econômica da CEE, muito menos o dos Estados Unidos da América. Cada país foi empurrado para um beco sem saída particular, após um período inicial de enorme progresso no desenvolvimento das forças produtivas. Não havia o controle do “mercado” que existe, pelo menos parcialmente, no capitalismo, mas também não havia qualquer controle por parte dos trabalhadores — um elemento concomitante necessário para preparar o caminho rumo ao socialismo. Esse impasse refletiu-se no colapso total do stalinismo, começando pela Polônia e pela Hungria. No caso da Hungria, os próprios stalinistas iniciaram o processo, provavelmente com o incentivo de Gorbachev.
Nas primeiras décadas após a Segunda Guerra Mundial, a burocracia demonstrava enorme satisfação e autoconfiança. Em 1960, Khrushchev disse às potências capitalistas: “Nós vamos enterrá-los!” Do ponto de vista técnico, econômico e social — particularmente com o auxílio da China e do Leste Europeu —, isso teria sido inteiramente possível. Se o ritmo de crescimento alcançado até aquele momento tivesse sido mantido, eles teriam ultrapassado os EUA por volta de 1980. No entanto, a burocracia voraz, a corrupção, a incompetência e a impossibilidade de desenvolver uma economia de propriedade estatal sem a participação e o controle diretos da massa de trabalhadores inviabilizaram qualquer avanço nessa direção.
No entanto, todos os teóricos burgueses e os políticos reformistas imaginavam que o sistema stalinista poderia manter-se para sempre! Agora, a fundação de granito totalitária que deveria ter sido construída demonstrou sua inépcia e incapacidade de conter a classe trabalhadora.
A burocracia está dividida. Uma ala quer retornar ao beco sem saída do controle burocrático. Outra ala deseja avançar na direção do capitalismo. Com a ascensão temporária do capitalismo — que já dura décadas —, elas querem voltar ao capitalismo ou, melhor dizendo, utilizar o seu pseudônimo: a “economia de mercado”. Haverá uma reação inevitável a isso.
O que mais chama a atenção em todos os países do Leste Europeu — e, sobretudo, na própria União Soviética — é o medo que a burocracia tem da classe trabalhadora. Não existe, nas fileiras da burocracia, nenhuma corrente coerente e aberta que defenda o retorno ao controle da classe trabalhadora tal como existia nos tempos de Lênin e Trotsky. Contudo, os trabalhadores russos e do Leste Europeu ainda não disseram a sua última palavra. Nas batalhas que se avizinham no Leste Europeu, na Europa Ocidental e no mundo, haverá inúmeras oportunidades para desenvolver o programa da revolução socialista internacional.
Os trabalhadores russos passaram por um processo de desenvolvimento ao longo de três gerações, desde a revolução. O operariado industrial foi diluído pela incorporação de um grande número de camponeses que, naturalmente, tornaram-se proletários. No entanto, em grande medida, com o massacre dos velhos bolcheviques e dos “trotskistas”, a consciência dos trabalhadores russos se perdeu. Contudo, os novos regimes que entrarão em vigor ainda precisam ser postos à prova pelos acontecimentos e pela história. Muito rapidamente, os trabalhadores russos e os do Leste Europeu podem recuperar e revitalizar as ideias do marxismo e de seu equivalente moderno, o “trotskismo”.
Mesmo na pior das hipóteses, se a burocracia conseguisse instaurar o capitalismo, uma nova Revolução de Outubro seria inevitável, porém em um nível econômico e social mais elevado. Dos dez milhões de trabalhadores de outrora, passou-se a 140 ou 150 milhões. O regime que se estabeleceria ver-se-ia diante de novas contradições, particularmente à medida que a crise do capitalismo se desenvolve em escala mundial.
A Revolução Russa encontra-se historicamente justificada, quaisquer que sejam as adversidades pelas quais a Rússia possa passar no próximo período. A obra de Lênin e Trotsky é imperecível. Armado com as ideias e os métodos organizacionais de Lênin e Trotsky, o proletariado será invencível. Sua revolta é absolutamente inevitável. As melhorias no padrão de vida na Europa, na América e no Japão são, na verdade, bem-vindas sob essa ótica. Elas fortaleceram imensamente o proletariado em comparação com o período anterior à guerra.
O processo de organização do mercado internacional e de integração da economia mundial — que conduziu a uma superação parcial da crise do capitalismo durante um período histórico temporário — acabará, por outro lado, por exacerbar enormemente essa crise numa fase posterior. O desenvolvimento das forças produtivas proporcionou uma trégua ao capitalismo. Mas isso se transformará inevitavelmente, de forma dialética, no seu oposto. Novas barreiras e novas tarifas serão erguidas. Desenha-se a configuração de novos blocos e potências: a Alemanha unificada e a CEE; o Japão e a Ásia; os Estados Unidos, o Canadá e a América Latina. Novas e ainda maiores rivalidades surgirão entre as potências capitalistas.
O desenvolvimento progressivo da interdependência da economia mundial entrará em colapso em determinada etapa. Inevitavelmente, o desenvolvimento ulterior das forças produtivas — seguindo a trajetória que Trotsky aborda em O Pensamento Vivo de Karl Marx, isto é, a concentração e a centralização do capitalismo a um nível jamais alcançado no passado — preparará o terreno para novas e ainda maiores recessões. A análise de Marx, Engels, Lênin e Trotsky sobre o “mercado” estava correta. No fato de que o capitalismo depende do trabalho não pago da classe trabalhadora reside o germe da crise que se desenvolverá no futuro. O próprio processo de acumulação — ou, nas palavras de Marx, de “sobreacumulação” — constitui, por si só, uma garantia de crise futura.
Ao evitar crises, criaram-se novas e enormes contradições. A atual “prosperidade” é muito frágil. Por meio do crédito, dos gastos com armamentos — que geram capital fictício — e da concentração e centralização de capitais via aquisições parasitárias, a classe dominante prepara crises futuras.
No entanto, o desenvolvimento da economia mundial — com a informática, a microeletrônica e a automação — lança as bases para o socialismo internacional. Hoje, é perfeitamente possível, tanto nos principais países capitalistas quanto na União Soviética, implementar uma jornada de seis horas e uma semana de quatro dias de trabalho, sem redução salarial. Isso proporcionaria ao proletariado o tempo necessário para administrar a indústria e o Estado.
As bases materiais, políticas e sociais do socialismo foram lançadas. O que tem faltado é a consciência e a compreensão do proletariado, bem como uma vanguarda revolucionária de massas capaz de canalizar o movimento inevitável da classe trabalhadora.
Trotsky explicou repetidamente que o internacionalismo não se baseia em razões sentimentais, mas sim na integração da economia mundial — tarefa historicamente progressista do capitalismo. Esse processo atingiu uma dimensão que Marx, Engels, Lenin e Trotsky sequer poderiam ter imaginado. Atualmente, a economia mundial constitui uma unidade. Isso, por sua vez, abrirá caminho para enormes movimentos internacionais da classe trabalhadora.
Hoje, nem mesmo a União Soviética ou os EUA podem se sustentar isoladamente. Eles fazem parte de uma economia mundial. Brejnev teve de abandonar, a contragosto, o preceito de Stalin sobre uma economia “autossuficiente”. Gorbachev levou isso ainda mais longe. No entanto, não o fizeram com o objetivo de preparar a revolução socialista; pelo contrário, buscaram cair nas graças das potências capitalistas. A inclinação de Gorbachev em direção às potências imperialistas — recorrendo a Kohl, Mitterrand, Bush e Thatcher em busca de ajuda — é uma confirmação contundente do processo delineado por Trotsky em Em Defesa do Marxismo: “a crescente independência da burocracia em relação ao proletariado soviético e o aumento de sua dependência de outras classes e grupos, tanto dentro quanto fora do país” (p. 119). Uma superpotência com recursos imensos e, ainda assim, Gorbachev é forçado a estender a mão pedindo ajuda! Ele só pode esperar auxílio porque, confrontado com contradições insolúveis, enveredou pelo caminho da contrarrevolução e da restauração do mercado — isto é, do capitalismo.
Trotsky, desenvolvendo as ideias de Marx e Lênin, explicou que a atuação de homens e mulheres é decisiva. “A compreensão marxista da necessidade histórica”, escreveu ele em Em Defesa do Marxismo, “nada tem em comum com o fatalismo. O socialismo não se realiza ‘por si só’, mas é o resultado da luta de forças vivas, das classes e de seus partidos.” (p. 30) A atuação dos marxistas é absolutamente vital. Sem ela, a revolta inevitável do proletariado jamais seria levada a um desfecho bem-sucedido.
Kinnock, Mitterrand, Lafontaine, Craxi, González, Hawke e outros líderes da ala direita da social-democracia julgam-se “realistas”. Na realidade, não estão acima das condições econômicas vigentes. Em última análise, permanecem como instrumentos do grande capital, sob o domínio de forças que escapam ao seu controle. Com a próxima reviravolta — à medida que as economias se transformarem —, eles serão esmagados.
Toda a história dos últimos 70 anos demonstrou a justeza das ideias de Trotsky. Repetidamente, as massas enveredarão pelo caminho da luta. O ano de 1968 na França foi um prenúncio de eventos em escala internacional. Inevitavelmente, as ideias de Trotsky e Lênin — de tomada do poder pela classe trabalhadora — ganharão maior credibilidade entre as camadas ativas da classe operária e entre os intelectuais conscientes que buscam uma saída para a crise do capitalismo e do stalinismo, a qual se desenrolará nos próximos anos.

A face “liberal” do capitalismo no Ocidente ganhou destaque nas últimas décadas, com o controle “esclarecido” exercido pelas grandes empresas sobre a liberdade de expressão, de imprensa e de organização. A democracia nos países capitalistas avançados, explicou Trotsky, baseava-se na “espoliação das colônias”, da mesma forma que a “democracia antiga se baseava na escravidão”. A democracia é, sem dúvida, o método de dominação mais conveniente e flexível para os capitalistas. Mas, inevitavelmente, assim que ocorrer a revolta das massas, as grandes empresas mudarão suas táticas, tal como fizeram no período entre guerras. É totalmente superficial imaginar que a democracia sobre uma base capitalista possa ser mantida.
Caso uma nova onda de revoluções fracasse, será inevitável que se recorra aos métodos reacionários do passado. Já na Hungria e na Polônia, ideólogos da classe capitalista falam da necessidade de uma ditadura — uma ditadura capitalista. Wałęsa, na Polônia — que iniciou sua atuação lutando contra o totalitarismo stalinista —, agora defende o que seria, na prática, um sistema totalitário no país: uma ditadura completa do capital, destinada a impor as mudanças necessárias para consolidar o sistema capitalista polonês. Na realidade, o capitalismo revelará seu impasse no próximo período. Simultaneamente, observamos o impasse na URSS. Tanto o stalinismo quanto o capitalismo estão condenados. Uma nova onda de revoluções é inevitável e irresistível.
A característica marcante de Marx, Engels, Lênin e Trotsky era a fé na capacidade e na compreensão da classe trabalhadora para levar a cabo a transformação da sociedade. Eles compreendiam que a classe trabalhadora é a única classe genuinamente progressista capaz de preparar o caminho para o socialismo.
Apenas o programa e o método de Lênin e Trotsky atenderão às necessidades e aos interesses da classe trabalhadora. A juventude revolucionária deve estudar as ideias de Marx, Engels, Lênin e, especialmente, de Trotsky — particularmente as obras do período entre guerras, que conservam grande atualidade — para se preparar para as tarefas de luta que o futuro lhe reserva.
Como teórico, Trotsky provavelmente ocupa uma posição ainda mais elevada do que Lênin. Ele se apoiou nos ombros de Lênin, sustentando as ideias do marxismo durante a época da reação stalinista. Os internacionalistas reunidos em muitos países do mundo não devem se preocupar com a escassez de suas forças no momento atual. Os acontecimentos ensinarão as massas. Tivemos uma demonstração recente disso na campanha contra o imposto territorial urbano per capita (poll tax). Com o método de Lênin e Trotsky, formar-se-ão forças capazes de resistir à prova dos acontecimentos. Neste ano em que se celebra o aniversário de Leon Trotsky, podemos dizer ao “Velho”: saudamo-lo; em escala internacional, a corrente marxista dá continuidade à sua obra.
Devemos gratidão a esse grande homem, Trotsky. Mártir da contrarrevolução stalinista, inspirador e pensador, ele viverá para sempre na memória da classe trabalhadora quando esta alcançar o socialismo.


