Andy Burnham certamente mudou o clima dentro do Partido Trabalhista desde que mudou-se para o número 10 de Downing Street (ou seria o “Número 10 do Norte“?), há quase um mês.
[Publicado originalmente em Communist.red]
Com seu charme típico do norte, sua retórica otimista e suas postagens peculiares nas redes sociais, o novo primeiro-ministro da Grã-Bretanha parece representar uma mudança revigorante — pelo menos na superfície — em relação ao tom monótono e sombrio do mandato de Keir Starmer.
“Há nele um calor humano que não víamos há algum tempo”, comentou um eleitor durante uma reunião organizada por Lord Ashcroft. “Ele não é aquele típico ‘filhinho de papai’ da elite”, observou outro.
Isso contribuiu para um “impulso Burnham” para o Partido Trabalhista, que agora lidera as pesquisas de intenção de voto pela primeira vez em mais de um ano.
As pesquisas mais recentes estimam o apoio ao Partido Trabalhista na casa dos 25%, uma recuperação em relação à mínima de cerca de 19% registrada na época do anúncio da renúncia de Starmer. Um levantamento da Ipsos chega a apontar 28% para os trabalhistas, três pontos à frente do Reform UK, que ocupa o segundo lugar.
Isso, por sua vez, elevou o moral e as expectativas dos parlamentares trabalhistas. Quem sabe — comentam eles, em voz baixa, pelos corredores de Westminster — seus cargos não serão salvos pelo Messias de Manchester? Afinal, quem melhor para resgatar suas carreiras se não o maior carreirista de todos!
O campo minado do Partido Trabalhista
Na realidade, a lua de mel entre Burnham e seu partido não durará muito.
No momento, o Parlamento está em recesso. Assim, os líderes trabalhistas podem se safar fazendo promessas vagas e declarações tranquilizadoras — como oferecer aos eleitores comuns um “respiro” em meio à crise do custo de vida.
Mais cedo ou mais tarde, porém, o novo primeiro-ministro e seu governo serão forçados a enfrentar concretamente uma série de “decisões difíceis” — termo que seu antecessor gostava de usar como eufemismo. E é aí que a situação começará a desandar para Burnham e o Partido Trabalhista.

“Neste momento, ele está apenas apresentando suas propostas — ‘aqui estão todas as coisas boas que gostaria de fazer’”, afirma Anthony Wells, chefe de pesquisas políticas da YouGov, ao comentar a superficialidade da popularidade de Burnham. “É só quando os detalhes vêm à tona que se começa a desagradar as pessoas.”
John Healey, o responsável pelas finanças na equipe de Burnham, começará em breve a elaborar o próximo Orçamento de Outono, por exemplo. Isso envolverá definir exatamente onde serão feitos os cortes necessários para equilibrar as contas e acalmar o mercado de títulos.
Enquanto isso, o ministro da Defesa da ala Blairista, Wes Streeting, sem dúvida aproveitará com entusiasmo a oportunidade de retomar o ímpeto militarista do establishment britânico — atendendo aos interesses dos imperialistas e das empresas de armamentos às custas dos trabalhadores e dos beneficiários da assistência social.
Já Shabana Mahmood, mantendo o cargo de ministra do Interior, dará continuidade aos seus esforços para acompanhar Farage e companhia — situados à direita do Partido Trabalhista — no que diz respeito a atacar imigrantes e exigir deportações.
Durante todo esse tempo, a sombra de Donald Trump — o presidente americano errático e de temperamento explosivo — pairará sobre Burnham. Será que o primeiro-ministro britânico tentará apaziguar seu homólogo americano e se curvar diante dele, como fez Starmer? Ou será que ele fará um teatro para o público na Grã-Bretanha, adotando uma postura superficial e correndo o risco de provocar a ira de seu “chefe” em Washington?
Esse é, entre outros, o campo minado de dilemas impossíveis que Burnham e seu gabinete terão de atravessar ao retornarem do recesso parlamentar. E não demorará muito para que deem um passo em falso e os estilhaços comecem a voar.
A queda de Farage
No entanto, Andy Burnham não pode reivindicar todo o mérito pela liderança do Partido Trabalhista nas pesquisas. Afinal, mais impressionante do que o “impulso Burnham” é a “queda de Farage”.
O Reform UK tem sofrido um declínio contínuo e notável no apoio popular desde o início do ano, se não antes.
Em seu auge, o partido de Farage registrava mais de 30% nas pesquisas, com alguns sugerindo que o Reform poderia até estar a caminho de formar um governo de maioria nas próximas eleições gerais.
Por um lado, isso refletiu o ódio em relação aos partidos políticos tradicionais — tanto o Partido Trabalhista de Starmer quanto os Conservadores. Por outro, demonstrou o apelo da demagogia antissistema de Farage, com o líder do Reform UK prometendo acabar com o limite de dois filhos para o recebimento de benefícios, nacionalizar partes dos setores de saneamento e siderurgia e consertar a “Grã-Bretanha quebrada“.
Desde então, no entanto, Farage e o Reform mudaram de rumo.

Uma série de desertores de alto perfil — e detestáveis — deixou o Partido Conservador para se juntar ao Reform UK. Enquanto isso, à medida que Farage e seus aliados reacionários se aproximavam do poder, eles abandonaram grande parte de sua retórica e de suas promessas antissistema. A oposição à austeridade ficou para trás; agora, a ordem do dia são os cortes ao estilo Thatcher e as medidas favoráveis às empresas.
Além disso, o êxito eleitoral em diversas administrações locais pelo país colocou o Reform e seus representantes em evidência. À frente de municípios como os de Kent e Warwickshire, entre outros, o partido gerenciou uma deterioração ainda maior dos serviços públicos, gerando desilusão e indignação entre os moradores locais.
Por outro lado, o escrutínio em torno de uma doação de 5 milhões de libras feita por um bilionário de criptomoedas radicado na Tailândia não ajudou Farage a reforçar a imagem de “homem comum” ou as credenciais de “defensor do povo” que ele cultiva.
Simultaneamente, o partido de Farage perde apoio para a direita, à medida que o deputado Rupert Lowe — figura de racismo virulento e apoiado por Elon Musk — atrai eleitores de sua antiga legenda para o seu próprio grupo político, o Restore Britain.
Farage pode até superar o desafio imposto por Count Binface e manter sua cadeira na eleição suplementar de Clacton, nesta semana. No entanto, seu futuro político a longo prazo não parece tão garantido.
O tropeço dos Verdes
Por último, mas não menos importante, ao buscar entender o “impulso Burnham” (Burnham bounce), deve-se considerar o desempenho fraco do Partido Verde.
No início deste ano, os Verdes estavam tanto se beneficiando quanto contribuindo para o declínio prolongado de Starmer. Ao se posicionarem claramente à esquerda do Partido Trabalhista — com uma postura de oposição à guerra e ao genocídio, além de críticas contundentes a bilionários e proprietários de imóveis —, Zack Polanski e seu partido viram um crescimento expressivo em seu número de filiados e no apoio recebido.
O auge dessa ascensão foi a eleição suplementar em Gorton & Denton, realizada em fevereiro, na qual a candidata verde Hannah Spencer derrotou tanto o Partido Trabalhista quanto o Reform.
Isso acendeu um sinal de alerta na sede do Partido Trabalhista, sugerindo que a legenda de Starmer poderia perder uma quantidade significativa de votos para a esquerda nas eleições seguintes, à medida que o cenário político britânico se fragmentava e o antigo sistema bipartidário ruía.

Em certo momento, algumas pesquisas chegaram a indicar que o Partido Verde havia ultrapassado os trabalhistas na preferência do eleitorado.
No entanto, a recente mudança de comando em Downing Street acabou prejudicando os Verdes.
Mesmo na eleição suplementar de Makerfield, no mês passado, o partido estava dividido sobre abrir mão ou não da disputa em favor de Burnham, de modo a facilitar a sua consagração. E, desde então, os líderes do Partido Verde não conseguiram marcar uma distinção clara entre si e o Partido Trabalhista de Burnham.
Em vez de desmascarar Burnham como o camaleão cínico e o político capitalista de duas caras que ele é, os líderes verdes adotaram, na melhor das hipóteses, uma postura de “ver para crer”. Na pior das hipóteses, assim como o restante dos líderes sindicais e de esquerda, eles alimentaram ativamente ilusões a respeito desse lobo em pele de cordeiro.
Sem uma alternativa socialista clara a oferecer aos trabalhadores e à juventude, não é de surpreender que os Verdes tenham tropeçado e não conseguido tirar proveito do declínio de Starmer: caindo nas pesquisas em nível nacional e ficando em terceiro lugar na recente eleição para a prefeitura de Manchester — atrás do Partido Trabalhista e do Reform —, com apenas 12% dos votos.
Governo de crise
Muita coisa acontecerá para alterar o cenário político entre o momento atual e a próxima eleição geral. O impacto avassalador dos acontecimentos não deixará pedra sobre pedra.
Não temos uma bola de cristal para fazer previsões precisas. A instabilidade e a volatilidade são as únicas certezas nesta época turbulenta e caótica.
No entanto, munidos de uma perspectiva marxista, podemos afirmar com segurança que não haverá recuperação para o capitalismo britânico e, consequentemente, não haverá apoio sustentado a Burnham. Pelo contrário: assim como os outros seis primeiros-ministros que o antecederam na última década, ele chefiará mais um governo de crise.
Portanto, o único lugar para onde Burnham está sendo impulsionado a longo prazo é diretamente para um abismo.
Por sua vez, quaisquer ilusões que possam existir atualmente em relação a Burnham serão rapidamente dissipadas, à medida que o aprofundamento da crise do capitalismo — na Grã-Bretanha e internacionalmente — força os líderes trabalhistas a implementar cortes e ataques cada vez mais severos contra os trabalhadores, os pobres e os vulneráveis.
Isso abrirá caminho para turbulências ainda maiores na política britânica; para mais polarização e radicalização; para batalhas de classe mais agudas e explosões sociais.
A tarefa dos comunistas é manter a serenidade; compreender com sobriedade os rumos dos acontecimentos; e preparar-se para esses eventos titânicos construindo a direção revolucionária que é tão urgentemente necessária.


