O texto a seguir baseia-se em um discurso proferido por Jorge Martín em uma reunião recente da direção internacional da Internacional Comunista Revolucionária. Nele, Jorge Martín analisa a crise existencial do capitalismo europeu e o impacto que isso terá na luta de classes.
O capitalismo europeu enfrenta uma crise existencial. Ultimamente, dedicamos muito tempo a discutir as relações mundiais, concentrando-nos principalmente na questão dos Estados Unidos, da Rússia e da China. Mas, obviamente, o declínio relativo do imperialismo norte-americano e a ascensão da China e da Rússia colocam a Europa em uma situação muito particular.
Essa crise, na verdade, não é um fenômeno novo. Ela vem se desenvolvendo há muito tempo. De fato, é possível remontar às suas origens no pós-Segunda Guerra Mundial, com a emergência dos Estados Unidos como potência imperialista mundial dominante e da União Soviética como sua única contraparte.
Agora, o declínio relativo do imperialismo norte-americano trouxe à tona a crise do capitalismo europeu, tornando-a evidente para todos.
Ao mesmo tempo, a ascensão do imperialismo chinês — um processo que já dura 30 anos — também desempenha agora um papel muito importante nesta crise.
A crise de 2008 foi um dos vários pontos de inflexão na crise do capitalismo europeu.
Antes da crise de 2008, as economias combinadas da União Europeia — incluindo a Grã-Bretanha, que na época fazia parte do bloco — eram 23% maiores do que a economia dos Estados Unidos. Hoje, a economia dos Estados Unidos é 18% maior do que as economias combinadas da União Europeia e da Grã-Bretanha.
Tanto os Estados Unidos quanto a Europa foram igualmente afetados pela crise de 2008, mas saíram dela de maneiras ligeiramente diferentes. Naquele momento, houve uma divergência entre ambos.
Desde 2008, o crescimento do PIB dos Estados Unidos foi de 123%. O crescimento do PIB da China foi de 453%. No entanto, o crescimento combinado da União Europeia e da Grã-Bretanha foi de apenas 53%. Isso representa menos da metade do registrado pelos Estados Unidos e menos de um décimo do crescimento econômico da China. É isso que coloca o capitalismo europeu em uma posição de enorme desvantagem.
Tudo isso ocorre em um momento de profunda transformação na natureza da economia mundial: a transição da globalização e do livre comércio para um cenário de fragmentação da economia global em blocos comerciais rivais e antagônicos.
Integração europeia
O que está em questão é o processo de declínio de longo prazo do capitalismo europeu.
Já na década de 1970, houve uma crise mundial do capitalismo — a primeira após o prolongado período de expansão do pós-guerra. A classe dominante reagiu por meio daquilo que é comumente chamado de neoliberalismo, o que, basicamente, equivale a um ataque ao Estado de bem-estar social e à abertura, para o lucro privado, de uma série de setores da economia que anteriormente estavam sob controle estatal.
Foi mais ou menos após esse período que surgiu um forte impulso em direção à integração europeia, culminando na introdução do euro como moeda única da União Europeia.
As razões para a criação da União Europeia, sob uma forma ou outra, já existiam há muitas décadas. Foi um longo processo, mas tratava-se, fundamentalmente, de uma tentativa de as potências capitalistas europeias — individualmente fracas — unirem forças para tentar obter alguma vantagem na competição no mercado mundial.
Diversos fatores convergiram ao longo de muitas décadas antes disso. Os EUA foram um dos primeiros a promover a integração europeia sob a sua própria hegemonia. No entanto, a iniciativa também representava uma tentativa de estabelecer um acordo entre as burguesias da França e da Alemanha — um pacto econômico destinado a evitar a guerra em solo europeu.

Mas a verdade é que, quando o euro foi finalmente introduzido, ele o foi sob o firme domínio do capital alemão, que era o mais forte entre esse conjunto de diferentes potências capitalistas.
Foi também introduzido com base em políticas de austeridade permanente obrigatórias. Se você se lembra, os critérios do Tratado de Maastricht — que, na prática, ninguém jamais cumpriu — estabeleciam que os países não deveriam ter uma relação dívida/PIB superior a 60% nem um déficit fiscal orçamentário acima de 3%.
Naquela época, para a maioria dos países, isso não parecia ser algo de grande importância. Para se ter uma ideia, antes da crise de 2008, a relação dívida/PIB da Espanha era de cerca de 30%. Mas, mesmo naquela ocasião, esses critérios já implicavam políticas de austeridade.
Como mencionei, tudo isso ocorreu sob a dominação da Alemanha. O capital alemão beneficiou-se enormemente da introdução do euro. Esse processo veio acompanhado, na Alemanha, de uma série de contrarreformas trabalhistas que aumentaram a competitividade dos produtos alemães.
Houve uma transferência maciça de recursos da UE para os países do sul da Europa, destinada a projetos de infraestrutura e outras iniciativas, o que, por sua vez, criou um mercado cativo para as exportações alemãs.
Naquela época, havia muito dinheiro barato e taxas de juros muito baixas. E isso levou a um certo crescimento da economia.
Naquele momento, explicamos que era impossível unir economias que tinham necessidades diferentes e que seguiam direções distintas. Recomendo que os camaradas releiam o documento escrito por Alan Woods em 1997, intitulado “Uma Alternativa Socialista à União Europeia“, que analisa esse processo.
Temos de admitir que a classe capitalista europeia foi além do que imaginávamos ser possível nesse processo de integração europeia.
No entanto, a contradição fundamental que havíamos apontado permaneceu no cerne da União Europeia: a impossibilidade de unir as diferentes economias de países que se moviam em diferentes direções.
Suponhamos, por exemplo, que a economia grega entre em crise. O país não pode desvalorizar sua moeda porque não possui uma moeda própria. É, portanto, forçado a uma “desvalorização interna” mediante a destruição em massa do padrão de vida dos trabalhadores. É a única maneira de recuperar a competitividade naquele estágio do ciclo econômico.
A classe dominante europeia também tem lidado com esse problema desde então, por meio de tentativas de alcançar a unidade política para sustentar essa unidade econômica. Unidade política sob a hegemonia da Alemanha, diga-se.
Mas a verdade é que, tantos anos depois, isso jamais foi alcançado. Não há nada de comum na política comum europeia. E agora, sob os golpes da crise econômica e das mudanças nas relações mundiais, ela se desintegra ainda mais.
Em vez de buscar maior unidade, o que se discute agora é a abolição do veto — o sistema de consenso para a tomada de decisões —, pois ele não está funcionando. O sistema de veto permite que Orbán, da Hungria, pressione a UE em questões de seu interesse.
Depois veio, como mencionei, a crise de 2008, seguida por um enorme resgate bancário que, por sua vez, levou à crise da dívida de 2011-2015.
Isso realmente levou a UE ao limite e provocou movimentos de massa contra a austeridade em todos os países, sendo a Grécia a principal vítima.
Na sequência, houve o choque da COVID-19. Mais uma vez, isso resultou em um enorme acúmulo de dívidas. A dívida total da UE saltou de 58% antes de 2008 para 88% no geral. Esse patamar está muito acima do limite estabelecido pelo Tratado de Maastricht.
Esse índice geral de 88% não reflete a situação real. A dívida alemã ainda gira em torno de 60%. Trata-se da maior economia da UE.
No entanto, as economias do Reino Unido (que não faz mais parte da UE), da Bélgica, da Itália, da França e da Espanha apresentam, todas, uma relação dívida/PIB superior a 100%. Em alguns casos, o índice chega a 130% ou 120%, o que é totalmente insustentável. Esse é um dos principais motivos de suas crises políticas.
Esgotando as reservas
Como se isso não bastasse, houve a Guerra da Ucrânia em 2022. As sanções contra a Rússia entrarão para a história como um dos maiores exemplos de “tiro no próprio pé” por parte dos capitalistas europeus. Isso se aplica particularmente à Alemanha.
A Europa cortou seu acesso ao petróleo e ao gás russos, que eram baratos. O petróleo russo representava anteriormente 27% das importações de petróleo da Europa. Esse índice caiu para 2% (referindo-se a importações diretas; parte do petróleo russo ainda chega via Índia). A participação do gás russo no total das importações europeias caiu de 45% para 13%.
A situação varia entre os diferentes países. Alguns foram muito mais afetados, enquanto outros dispõem de fontes de abastecimento alternativas ou nacionais. O país mais duramente atingido é a Alemanha.
Isso impulsionou uma ofensiva dos Estados Unidos para conquistar o mercado de energia na Europa.

A disputa pelo domínio dos mercados globais de energia é uma parte fundamental da luta inter-imperialista em escala mundial. Evidentemente, a China detém a vantagem no setor de energias renováveis — abrangendo desde painéis solares e baterias elétricas até a instalação de usinas nucleares. Os Estados Unidos não possuem vantagem nessa área.
Nas últimas décadas, os Estados Unidos deixaram de ser importadores líquidos de energia para se tornarem exportadores líquidos. O desenvolvimento do fracking desempenha um papel importante nessa mudança.
As importações europeias de gás dos EUA saltaram de 2% para 28%. No caso do GNL (gás natural liquefeito) transportado por via marítima, a participação dos EUA nas importações totais subiu de 25% para 66%. Já o petróleo norte-americano passou a representar de 8% a 15% das importações europeias.
Este é um indicador — digamos assim — da crescente dominação dos Estados Unidos sobre o capitalismo europeu em decorrência da Guerra da Ucrânia.
Fica claro que a Guerra da Ucrânia não atendia aos interesses nacionais da classe dominante alemã. E isso explica a relutância inicial dela em se envolver.
Agora, os Estados Unidos tentam tirar o máximo proveito dessa situação em benefício próprio. Trata-se de um processo que teve início há dois ou três anos, mas que se acelerou no último ano e, mais ainda, nos últimos seis meses.
Os EUA buscam desenvolver, na Europa, uma série de gasodutos e terminais de gás sob seu controle, visando vincular diversos países — especialmente nos Bálcãs e no Leste Europeu — ao abastecimento proveniente dos Estados Unidos.
Há três instalações fundamentais para toda essa infraestrutura. Uma delas é o terminal na Croácia, na ilha de Krk, que agora vincula a Croácia ao fornecimento de gás dos Estados Unidos. Embora ainda não tenha sido construído, existe um acordo para a construção de um gasoduto ligando a Croácia à Bósnia e Herzegovina. Trata-se de um negócio bastante nebuloso que, aparentemente, viola as normas europeias de licitação. Isso faz parte da disputa entre a União Europeia e os Estados Unidos.
Há também o terminal FSRU na Grécia, igualmente dominado pelos EUA, e o terminal de Świnoujście, na Polônia.
A ideia é construir uma série de gasodutos que conectem todas essas instalações, formando uma linha vertical que vá da Polônia até esses terminais no sul da Europa.
Alguns desses projetos já existem. Parte deles já está parcialmente construída. Mas o objetivo é claro: substituir, de forma mais permanente, o acesso ao fornecimento de gás e energia da Rússia.
Houve uma série de reuniões e cúpulas. O Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, tem viajado da Bósnia para a Croácia, para a Grécia e para todos esses países. Há a Iniciativa dos Três Mares, destinada a conectar os mares Adriático, Báltico e Negro — um cenário de intensa disputa entre a União Europeia e os Estados Unidos.
Além disso, há a Cúpula Transatlântica de Segurança do Gás, que envolve 12 países — Grécia, Bulgária, Hungria, Polônia, Romênia, Eslováquia, Moldávia, Ucrânia, Croácia, Lituânia, Sérvia e Bósnia e Herzegovina — sob a égide dos Estados Unidos.
O que estamos presenciando é uma disputa extremamente acirrada entre o imperialismo norte-americano e o capitalismo europeu pelo controle dos mercados de energia.
No entanto, o impacto mais significativo da perda do fornecimento de energia barata proveniente da Rússia recaiu sobre a Alemanha.
Não quero apresentar muitos números, mas acredito que os camaradas precisam compreender a real dimensão dessa questão.
O volume da produção industrial alemã caiu 9,5% desde o período anterior à Guerra da Ucrânia. Certos setores são mais intensivos em energia — como a indústria química, que constitui um elemento central do capital industrial alemão; nesse setor, a produção recuou 20%. Nas indústrias metalúrgica e de papel, 8% e 9% de todos os postos de trabalho foram eliminados nesse período.
Estamos falando de um choque muito brusco em um intervalo de tempo muito curto.
No último ano, a indústria alemã eliminou 15 mil empregos por mês, ou seja, 180 mil em um ano. E há mais por vir, é óbvio.
A perda de energia barata não é o único fator, mas certamente representou um choque enorme que acelerou drasticamente esse processo.
A verdade é que a indústria alemã — o núcleo do poder industrial europeu — já havia se tornado, até certo ponto, obsoleta. Ela estava ficando para trás em relação a outras potências industriais mais dinâmicas, principalmente a China.
Hamid levantou um ponto muito interessante em um dos episódios do podcast Against the Stream: durante muitas décadas, a Alemanha construiu sua vantagem na economia mundial principalmente em um setor: a indústria automobilística, em torno da qual se organizou toda uma série de indústrias auxiliares. E eles se tornaram muito bons nisso.
Entretanto, eles se acomodaram. Devido ao enorme peso da indústria de veículos a combustão interna na economia como um todo, tiveram mais dificuldade para inovar quando surgiu a transição dos motores a combustão para os veículos elétricos a bateria.
A China, por assim dizer, teve a vantagem do atraso inicial. Não havia uma indústria automobilística de grande porte no país anteriormente; o que existia era, em grande parte, de propriedade estrangeira — como empresas alemãs que utilizavam mão de obra chinesa barata para produzir carros projetados para motores a combustão.
Por conta disso, foi relativamente mais fácil para a China dar o salto em direção aos veículos elétricos. De fato, se observarmos bem, algumas das principais empresas chinesas de veículos elétricos que dominam o mercado mundial hoje começaram como fabricantes de baterias para celulares — afinal, trata-se basicamente da mesma tecnologia.
Esmagada entre a América…
Então, além de todos esses choques, Trump retornou ao poder. Ele decidiu que não tinha mais interesse em manter a aliança transatlântica em sua forma anterior. Esse foi mais um grande choque para os capitalistas europeus.
Isso ficou evidente em duas reuniões.
A primeira ocorreu quando JD Vance compareceu à Conferência de Segurança de Munique, no início do ano passado. Basicamente, ele lançou um ataque à Europa nos seguintes termos: ‘Os Estados Unidos vêm bancando a segurança da Europa há décadas. Vocês têm vivido às nossas custas. Chegou a hora de vocês pagarem a conta’.
Essa não é apenas uma ideia de Trump. Já existiam conflitos comerciais entre a Europa e os Estados Unidos durante a administração Biden e, antes disso, na primeira administração Trump, envolvendo diversas questões: aço, tarifas, empresas de tecnologia, vinho francês, uísque escocês. Mas isso representou, sem dúvida, um salto qualitativo nesse conflito.
Houve então a reunião em julho do ano passado, enquanto Donald Trump jogava golfe na Escócia. Os líderes europeus, liderados por von der Leyen, foram até lá prestar deferência. Eles chegaram a um acordo humilhante para a Europa, no qual se comprometeram a comprar volumes enormes de energia dos Estados Unidos.
O montante total girava em torno de 750 bilhões de euros em energia americana. Não está claro se isso está realmente se concretizando, mas essa é a direção geral das coisas. Tratava-se de um compromisso geral para agradar a Trump.
Cada vez mais, os capitalistas europeus percebem que os Estados Unidos não podem mais ser considerados aliados.
Ainda assim, a relação comercial entre a Europa e os EUA continua sendo a maior do mundo. Mas já não é uma relação conduzida com mais ou menos boa-fé. Agora, existe uma competição feroz entre ambos. Ou melhor, um ataque implacável — uma ofensiva dos Estados Unidos contra a Europa e seus mercados.
Temos visto isso em diversos âmbitos: nas regulamentações para empresas de tecnologia, na questão energética e na questão da Groenlândia.
Além disso, os Estados Unidos declararam abertamente que travam uma guerra total contra o establishment político da Europa. Sua intenção é instalar governos aliados em diversos países, e eles apoiam abertamente partidos populistas de direita em diferentes lugares.
Trata-se de uma relação — e esta é a palavra do momento — transacional. Isso significa, basicamente, que os Estados Unidos utilizarão todos os meios ao seu alcance para atingir seus objetivos. Se não alcançarem a meta completa de imediato, conquistarão parte dela e continuarão pressionando na direção desejada.
Tudo isso está registrado no famoso documento de Estratégia de Segurança Nacional.
O objetivo também é abordar os países um a um, para verificar sobre quais deles é possível exercer maior influência.
Obviamente, isso nem sempre funcionou como pretendiam. Os Estados Unidos apoiaram de forma muito aberta e intensa a reeleição de Orbán na Hungria. E perderam.
Mas a intenção geral e a direção dessa relação são muito claras.

Isso não significa necessariamente que a intenção dos Estados Unidos seja destruir a OTAN, por exemplo. Mas o que eles basicamente buscam — independentemente de isso envolver ou não a destruição da OTAN — é uma relação da qual possam tirar maior proveito.
Eles querem que os países europeus gastem mais com defesa — o que, naturalmente, implica gastos com armamentos fabricados nos EUA. Eles consideram que os países europeus devem apoiar os Estados Unidos sempre que estes assim o exigirem, sem ter voz ativa nem serem consultados sobre as decisões tomadas pelos EUA — como, por exemplo, em relação ao Irã.
Nessa questão, os Estados Unidos mostram-se muito sérios e determinados.
Na última sexta-feira, iniciou-se uma revisão geral da postura da OTAN na Europa, o que implica a retirada de tropas da Alemanha — processo que já começou. Parte dessas tropas foi deslocada para a Polônia ou para outros locais, mas há uma direção geral sendo seguida.
Vale ressaltar que os Estados Unidos não estão se retirando militarmente da Alemanha. Eles ainda desejam manter o controle de bases militares norte-americanas de grande importância no país, as quais desempenharam um papel decisivo nas guerras na Ucrânia e no Irã.
No entanto, temos presenciado situações que seriam impensáveis há apenas 24 meses. Um exemplo é o governo espanhol ter negado aos EUA o uso de suas bases militares na Espanha para operações relacionadas ao Irã. Conflitos semelhantes, embora em menor escala, ocorreram na França e na Itália em torno do uso de bases aéreas norte-americanas — envolvendo questões sobre a solicitação de autorizações e o transporte de armamentos para Israel.
Os governos de alguns desses países negaram parcialmente o acesso aos Estados Unidos para fins de consumo público — para propaganda. Mas não é só isso. Existe um conflito sério entre as potências capitalistas europeias e os Estados Unidos, o qual também se reflete nessas questões.
…e a China
A ofensiva dos Estados Unidos é apenas um aspecto do problema que o capitalismo europeu enfrenta. O outro é a ascensão da China.
A China foi parcialmente excluída do mercado norte-americano devido a sanções e à guerra comercial. O país possui uma enorme capacidade ociosa em praticamente todos os setores e precisa de um mercado para escoar esses produtos.
Essa é a lógica do imperialismo em sua essência pura. E isso gera um impacto negativo na economia europeia, que não consegue competir com a economia chinesa.
Isso já não acontece apenas porque os custos de produção são menores na China, mas também porque o país está, atualmente, mais desenvolvido tecnologicamente do que a Europa.
Houve duas ou três montadoras europeias — principalmente na França — nas quais fabricantes de automóveis chineses entraram e contrataram capacidade ociosa em fábricas europeias existentes para produzir seus próprios veículos, sem qualquer transferência de tecnologia.

Vimos Macron se pronunciar no Fórum Econômico Mundial, em janeiro, dizendo: “Sim, gostaríamos que os chineses investissem na Europa. Mas isso precisa ser feito de forma justa. Eles deveriam transferir parte de sua tecnologia para nós”.
Isso era impensável há 15 anos. A relação era o oposto.
Essa questão — particularmente a que envolve fabricantes de baterias e carros elétricos — está gerando profundas divisões dentro da União Europeia. Alguns países dizem: “Não, precisamos adotar tarifas protecionistas para defender nossas indústrias!”
Outros países estão correndo para atrair investimentos chineses antes que outras nações o façam. Há uma grande disputa entre Espanha, Turquia e Hungria para oferecer as melhores condições para que empresas chinesas invistam.
A empresa chinesa CATL está construindo uma fábrica de baterias elétricas em Zaragoza, na Espanha, ao lado de uma fábrica de automóveis da Stellantis. Essa unidade está sendo erguida em uma pequena cidade de apenas 1.300 habitantes. A empresa trouxe mais de 2.200 trabalhadores chineses para montar a fábrica porque: primeiro, não quer transferir tecnologia ou know-how sobre a instalação da unidade; e segundo, porque não há na Espanha 2.200 engenheiros qualificados capazes de montar esse tipo de fábrica.
Quando a fábrica estiver operando a pleno vapor, haverá 4.000 trabalhadores espanhóis — em comparação com 1.000 chineses —, mas eles realizarão apenas tarefas básicas e de baixa qualificação.
Nas férias de Natal, enquanto eu estava na Espanha, vi esses carros da marca Ebro nas ruas. Perguntei à minha irmã: “Quem fabrica esses carros? O que é isso?” A Ebro era uma antiga marca espanhola que produzia caminhões e veículos do tipo Land Rover.
Então, consultei a IA e descobri que se trata de uma fabricante chinesa que instalou uma fábrica de automóveis onde antes funcionava a unidade da Nissan em Barcelona — fechada há alguns anos. Agora, eles produzem carros na Espanha utilizando a marca espanhola que adquiriram de uma empresa que estava praticamente extinta.
Na verdade, existem várias marcas de automóveis europeias que já não pertencem a empresas europeias e que foram adquiridas por empresas chinesas.
Isso é muito importante. Afeta diversos setores da economia.
Paralelamente, a China ataca o “calcanhar de Aquiles” da Europa — o Leste Europeu —, onde compete diretamente com o capital alemão. Na Hungria, já construíram uma fábrica de baterias elétricas.
Mas o aspecto mais importante dessa questão — a ofensiva chinesa contra o capital europeu — é a Alemanha. A relação entre a China e a Alemanha sofreu uma reviravolta completa.
Em 2022, pela primeira vez, a Alemanha registrou um déficit comercial com a China, em vez de um superávit. E, em 2025, pela primeira vez, a China exportou mais bens de capital para a Alemanha do que a Alemanha exportou para a China.
A Alemanha costumava ter um superávit comercial de € 1,5 bilhão com a China. Agora, registra um déficit de meio bilhão. Em três ou quatro anos, houve uma reversão de € 2 bilhões nessa relação comercial.
O setor empresarial alemão está extremamente preocupado. A situação lembra aquela imagem clássica do animal paralisado diante dos faróis de um carro: estão em choque total e sem saber exatamente o que fazer.
Há empresários alemães que defendem a imposição de tarifas. Outros argumentam que essas tarifas não funcionarão e que é preciso obter a tecnologia. Eles estão completamente divididos.
Sobre essa questão do Leste Europeu, houve um artigo muito interessante no Wall Street Journal que dizia o seguinte a respeito das exportações da China — não de mercadorias, mas de fábricas. O texto dizia:
“Quando uma fabricante no Leste Europeu ou na América do Sul instala uma nova fábrica, ela agora pode comprar todo o ecossistema — máquinas de injeção, braços robóticos, secadores e software de gestão em nuvem — diretamente de um único fornecedor chinês integrado.
“‘A China já devorou grande parte do almoço da indústria alemã e está se preparando para comer o jantar’, afirmou o Centre for European Reform, um think tank sediado em Londres, em um relatório recente.”
Essa é a dinâmica do processo em curso.
Vou dar outro exemplo. Existe uma grande fabricante chinesa de eletrodomésticos chamada Midea. Ela exporta para o mundo todo e tem forte presença no Brasil, na Malásia, no Japão e em outros países.
Suas fábricas precisam de robôs industriais. Então, o que fizeram? Compraram uma empresa alemã chamada Kuka — a terceira maior fabricante de robôs industriais do mundo.
A empresa mantém sua sede em Augsburg, mas, na prática, tornou-se uma companhia chinesa. É essa exportação de capital que confere aos chineses uma enorme vantagem — e que, certamente, está devorando a indústria alemã.
Como se isso não bastasse, como mencionei anteriormente, a economia mundial está agora muito mais fragmentada. As relações comerciais entre os países são muito mais conflituosas, e os capitalistas europeus não conseguem realmente competir nesse cenário.
A principal razão foi destacada no famoso relatório Draghi, de alguns anos atrás. Basicamente, ele apontou que o problema enfrentado pela Europa para competir na economia global, neste contexto específico, é o fato de não ser um país único — com um conjunto unificado de regulamentações e mercados de capitais suficientemente grandes para os investimentos necessários nessas novas tecnologias, como a construção de centros de dados, fábricas de microchips, entre outras.
Além disso, tudo o que a Europa possui — como a ASML (empresa holandesa que fabrica sistemas de fotolitografia para a indústria de semicondutores) — está sob clara dominação política dos Estados Unidos.
Houve outro episódio revelador no início deste ano. Existe uma fábrica chinesa na Holanda, a Nexperia, que produz semicondutores — principalmente para a indústria automotiva, incluindo sistemas de frenagem eletrônica, sistemas de propulsão e sensores veiculares.
Como parte de uma tentativa da União Europeia de fazer frente à China, o governo holandês assumiu o controle dessa empresa. Eles também sofriam pressão dos Estados Unidos para adotar essa política de negar tecnologia à China.
Isso é algo inédito. Basicamente, eles assumiram a administração de uma empresa chinesa que não lhes pertence.
Então, os chineses decidiram interromper a produção desses microchips. No espaço de uma semana ou dez dias, a maioria das fábricas e fabricantes de automóveis da Europa viu-se forçada a paralisar a produção por não dispor dos chips necessários. Por fim, os holandeses foram obrigados a retirar sua intervenção e devolver a fábrica aos seus legítimos proprietários, na China.
Isso revela a verdadeira natureza da relação entre as duas partes.
O limite do capitalismo europeu reside no fato de que ainda existe uma competição nacional entre todos esses diferentes países.
Corrida pelo rearmamento
Isso fica muito claro na tendência em direção ao militarismo.
Os capitalistas europeus agora percebem que precisam caminhar com as próprias pernas. Em primeiro lugar, os Estados Unidos não estão mais dispostos a oferecer-lhes um “guarda-chuva” de segurança e defesa. Em segundo lugar, já não são um aliado confiável para essa função.
Trump tem falado em fornecer caças F-35 à Europa, mas sem alguns dos recursos tecnológicos mais modernos, de modo que a Europa nunca possa, de fato, enfrentar os Estados Unidos em um conflito.
Todo esse cenário não é mais de relações amistosas.
Houve um incidente durante a guerra envolvendo o Irã, no qual a Suíça havia encomendado baterias de defesa aérea Patriot e caças F-35 dos Estados Unidos. As baterias Patriot ou não estavam sendo entregues — ou sofriam grandes atrasos na entrega —, pois os EUA precisavam delas no Oriente Médio. Então, a Suíça disse: “Certo, não recebemos os equipamentos. Não vamos mais pagar por eles”.
Diante disso, os Estados Unidos disseram: “Tudo bem, vamos pegar esse dinheiro — 126 milhões de dólares — que vocês já pagaram pelos F-35 e transferi-lo para a conta dos mísseis Patriot, que ainda não estamos entregando”.
Portanto, não é uma relação amistosa.

A questão fundamental é que os europeus se dão conta de que já não contam com esse “guarda-chuva” de segurança dos Estados Unidos, num momento em que a Rússia emerge como uma poderosa máquina de guerra industrial nas imediações da Europa.
Se quiserem defender os seus interesses — isto é, os interesses imperialistas capitalistas de cada uma das potências capitalistas europeias —, precisam de se armar o mais rapidamente possível.
No entanto, enfrentam sérios obstáculos para o fazer.
O primeiro deles é o dinheiro. A maioria desses países — com exceção da Alemanha, até o momento — está fortemente endividada. Onde irão buscar os recursos para financiar o rearmamento?
Ademais também estão muito, muito atrasados. As forças armadas europeias estão em estado precário. Especialmente a britânica, mas não apenas ela. Esse é o primeiro obstáculo.
O segundo obstáculo é o fato de que se trata de classes capitalistas nacionais individuais competindo entre si, todas tentando fazer exatamente a mesma coisa.
No passado, elas costumavam se unir em alguns projetos: um caça europeu, um sistema de satélites europeu, um tanque europeu. As indústrias militares da Itália, da França e da Alemanha compartilhavam projetos conjuntos.
Mas agora isso não acontece mais. Todos esses acordos estão se desfazendo.
Os alemães querem que a produção ocorra na Alemanha, a cargo de fábricas alemãs, e os franceses querem que ela ocorra na França, a cargo de empresas francesas. E os italianos querem a mesma coisa para si mesmos. Tem havido uma longa série de fracassos nesses acordos.
Cortando no Estado de bem-estar social para construir um Estado voltado para a guerra
Isso obviamente nos leva à próxima questão: essa tendência de aumento dos gastos militares implica, inevitavelmente, um ataque massivo ao sistema de bem-estar social europeu.
Já citamos anteriormente este artigo de um dos editores do Financial Times, Janan Ganesh, intitulado: A Europa deve reduzir seu Estado de bem-estar social para construir um Estado voltado para a guerra.
“Não há como defender o continente sem cortes nos gastos sociais”, diz o texto. “Qualquer pessoa — qualquer pessoa com menos de 80 anos” — ou seja, todos nós aqui — “que tenha passado a vida na Europa pode ser perdoada por considerar um Estado de bem-estar social gigantesco como a ordem natural das coisas.”
Na verdade, o Estado de bem-estar social europeu não é gigantesco. Ele já foi bastante reduzido ao longo dos últimos 30 ou 40 anos. Mas ainda é grande demais para a classe dominante nas atuais condições de crise. Ele diz:
“Na realidade, ele foi produto de circunstâncias históricas peculiares que prevaleceram na segunda metade do século XX e que já não existem mais. Uma delas foi o subsídio americano implícito via OTAN, que permitiu aos governos europeus gastar com manteiga uma quantia que, de outra forma, poderia ter sido destinada a armamentos. Outra foi o fato de que, durante a era de ouro do Estado de bem-estar social, a Europa enfrentava pouca concorrência da China ou mesmo da Índia.”
Ele argumenta que isso chegou ao fim, que isso não é mais possível e que deve ser destruído. Aí reside o ponto central deste artigo. Ele diz:
“Isso é insustentável. A questão é se o público concorda. Passei a duvidar se sociedades ricas e democráticas conseguem realizar reformas difíceis…”
Basicamente, isso quer dizer que seria muito melhor termos uma ditadura, já que não precisaríamos nos dar ao trabalho de passar por eleições para obter o governo capaz de implementar esses cortes!
Essa é, na verdade, a raiz da crise que a França atravessa há um ou dois anos — ou até mais. Eles não conseguem obter uma maioria parlamentar que sustente a aplicação dos cortes necessários de que a classe dominante precisa.

No caso da França, trata-se de cortes de 40 bilhões de euros ou mais. Eles não conseguem obter maioria parlamentar para isso. E assim governos são formados e governos se dissolvem.
Todos esses parlamentares também precisam proteger seus próprios cargos. Eles sabem que, se votarem a favor de certas medidas — como cortes nas pensões ou reduções no Estado de bem-estar social —, não serão reeleitos na próxima eleição.
No caso da Alemanha, recorreu-se a outro artifício para contornar esse problema. Como não dispunham de maioria no novo parlamento — já eleito pela vontade popular — para aprovar as medidas que pretendiam implementar, convocaram uma última sessão do parlamento anterior para aprová-las. Vale ressaltar que essa iniciativa contou com o apoio do partido Die Linke; caso contrário, a medida não teria sido aprovada.
Na Alemanha, também está sendo iniciada agora uma revisão do sistema de bem-estar social, orçada em 30 bilhões de euros. Mas isso vale para todos os países.
E então Ganesh diz:
“É preciso que surja um elemento de medo real — como talvez tenha acontecido agora. Há outra razão para acreditar que cortes de gastos são mais fáceis de justificar quando se trata de defesa.”
Assim, ele praticamente admite que as classes dominantes europeias estão exagerando o perigo de uma invasão da Europa pela Rússia — como se ela fosse ocorrer amanhã de manhã — para justificar os cortes.
Elas não conseguirão realizar o que é necessário: construir um exército moderno e forte o suficiente para defender eficazmente seus interesses imperialistas.
Já expliquei os diversos fatores que limitam o programa de rearmamento da Europa, mas o principal deles é que tal medida provocará uma enorme reação política e social. Isso ocorre em um momento em que a legitimidade de todas as instituições burguesas, dos partidos políticos e da mídia burguesa atingiu seu nível mais baixo na história, como resultado de todos os anos de crise capitalista, escândalos de corrupção, medidas de austeridade, resgates bancários e disparidades de renda e riqueza vividos desde 2008.
Algumas pessoas dizem que a popularidade de Trump caiu drasticamente. Isso é verdade. Mas, em comparação com os líderes europeus, Trump é extremamente popular. O saldo de popularidade (aprovação menos desaprovação) de Starmer, que já deixou o cargo, estava em -51; a de Macron está em -60, e a de Merz, em -64! Merz está no poder há mais ou menos um ano.
Estes são os governos mais impopulares da Europa em muito tempo. E eles estão neste momento tentando implementar as medidas mais impopulares em décadas. E então as pessoas se perguntam por que há uma ascensão do populismo de direita em toda parte: na Grã-Bretanha, na Áustria, na França, na Alemanha.
Na Alemanha, que é o país capitalista mais importante da Europa, apenas um ano após as eleições, a AfD (extrema-direita) está com 29%, a CDU despencou para 22% e o SPD está com 12%, abaixo dos Verdes. Em algumas pesquisas de opinião, os Verdes aparecem com 13% e o Die Linke está agora com 11%, a apenas um ponto do SPD.
Há uma situação semelhante na Áustria. Quantos meses eles passaram tentando formar uma coalizão para impedir que o FPÖ (extrema-direita) chegasse ao poder? Bem, acabaram montando uma coalizão “Frankenstein” reunindo social-democratas, conservadores e liberais. O resultado é que o FPÖ agora aparece com 38% das intenções de voto, uma vantagem de 12 pontos sobre o partido seguinte.
Isso não deveria surpreender ninguém. Quanto mais os liberais burgueses estabelecem cordões sanitários, barreiras de contenção, mais esses partidos conseguem se apresentar como forças antissistema e conquistar mais apoio.
Desunião europeia
Em suma, essa situação deixa o capitalismo europeu em uma posição extremamente frágil e sob pressão de todos os lados: a ascensão da China como uma potência tecnologicamente avançada; a ofensiva dos Estados Unidos; e a ascensão da Rússia como uma potência militar forte nas imediações.
Como resultado, todas as tendências centrífugas dentro da União Europeia são intensificadas drasticamente. Os países europeus são puxados em direções diversas, tentando encontrar uma solução para a crise — um arranjo que atenda aos interesses de cada um deles.
Observamos, por exemplo, a Espanha entrando em conflito com os Estados Unidos e voltando-se para a China. Vale ressaltar que as relações comerciais e financeiras entre a Espanha e os EUA ainda são muito mais importantes do que aquelas com a China. No entanto, a Espanha busca obter alguma vantagem ao estreitar laços com a China e atrair investimentos chineses.
Vários países da Europa Oriental e Central estão sendo atraídos para a órbita dos Estados Unidos ou da Rússia.
E há também a Grã-Bretanha. No passado, o papel da Grã-Bretanha era atuar, mais ou menos, como uma ponte para os interesses dos EUA na Europa. Mas agora, a Grã-Bretanha está fora da União Europeia e já não pode desempenhar esse papel da mesma forma.
Uma parcela da classe dominante britânica gostaria de se realinhar com a UE. Eles reconhecem que o Brexit foi um grande erro do ponto de vista econômico. Ao mesmo tempo, sofrem forte pressão dos Estados Unidos.
A ideia de que eles sairiam do Euro e, em seguida, firmariam acordos comerciais independentes com todos — China, Índia, Estados Unidos — fracassou completamente. Em vez disso, com o afastamento crescente entre a Europa e os Estados Unidos, a Grã-Bretanha está ficando à margem.
No caso da Alemanha que, vale ressaltar, é o país mais importante da Europa do ponto de vista do capital e da luta de classes, essa crise significa o início de uma profunda divisão entre setores da classe dominante. Pôde-se observar os primeiros sinais disso com a presença de alguns empresários alemães no Fórum Econômico de São Petersburgo e a participação de políticos de destaque do AfD no mesmo evento.
Isso é bastante sério. Supõe-se que esses dois países estejam em guerra um com o outro. No entanto, ainda existem empresas alemãs com interesses na Rússia. E há outras que, por diversos motivos (acesso à energia, entre outros), desejam restabelecer essa relação.
Assim, em muitos países, a ascensão de populistas de direita também reflete, até certo ponto, divisões e rupturas no seio da própria classe dominante. Diferentes setores — talvez diferentes indústrias ou interesses distintos — voltam-se para direções diferentes, colocando seus próprios interesses particulares acima do que poderia ser considerado o interesse geral da classe dominante.
Revolução europeia
Tudo isso é muito interessante. Precisamos discutir o assunto em detalhes. Mas, ao mesmo tempo, não devemos esquecer outro aspecto dessa discussão. Se analisarmos todos esses fatores distintos, perceberemos que está sendo preparada uma explosão massiva da luta de classes.
Já vimos sinais disso no continente europeu: as greves massivas que paralisaram tudo na França, em setembro do ano passado; as greves políticas gerais na Itália, em outubro do ano passado, em relação a Gaza; e as greves massivas e prolongadas na Bélgica contra as medidas de austeridade.
Em Portugal, houve duas greves gerais que conseguiram barrar uma contrarreforma trabalhista reacionária que estava sendo proposta. Não tanto porque a segunda greve geral tenha sido extremamente forte — na verdade, não foi; foi uma mobilização um tanto morna —, mas porque o Chega, partido populista de direita, não estava disposto a votar a favor da medida no Parlamento no momento decisivo.
Esses partidos populistas de direita são formações muito instáveis, pois atendem a interesses distintos. Eles precisam manter sua base social fingindo ser antissistema. No entanto, em qualquer país, quanto mais se aproximam do governo, mais moderam suas políticas e, consequentemente, perdem essa base social. Eles vivem essa contradição.
Na Catalunha, houve uma greve de professores há cerca de dois meses. Ela foi convocada pelos principais sindicatos, à exceção das Comissões Operárias — o maior sindicato da Espanha, tradicionalmente ligado ao Partido Comunista. As Comissões Operárias não aderiram à greve até o último instante, quando o movimento já durava algum tempo. Elas aderiram à greve e, no dia seguinte, assinaram um acordo ruim. Aderiram à greve para, deliberadamente, traí-la.

Os professores votaram de forma esmagadora contra esse acordo, e a greve continuou. O principal sindicato à frente da greve era o USTEC — originalmente um sindicato de base de orientação de esquerda que, atualmente, é o sindicato majoritário entre os professores na Catalunha.
Após várias semanas de greve, o USTEC declarou: “Todos estão cansados. Não há mais nada que possamos conseguir. O ano letivo está chegando ao fim. Por isso, propomos este acordo” — uma proposta muito semelhante àquele acordo desvantajoso que já havia sido rejeitado.
Este é o sindicato majoritário do setor. Eles submeteram o acordo à votação. E os professores votaram contra! Resultado: um pequeno sindicato, representando talvez 10% dos professores, acabou liderando todo o movimento!
Mais ou menos na mesma época, houve uma greve geral dos professores em Valência. As condições políticas locais eram ligeiramente diferentes, mas, ainda assim, tratou-se de um movimento massivo da categoria. Foi convocada uma greve geral dos professores na região de Madri para o início do ano letivo, em setembro, novamente com base em assembleias de massa e comitês de base.
Certo. Pode-se argumentar que se trata de servidores públicos — professores —, que possuem condições específicas. Mas, algumas semanas atrás, começou uma greve muito interessante na Airbus, fabricante do setor aeroespacial com grandes investimentos em defesa e que emprega 14 mil trabalhadores na Espanha.
A greve começou porque a empresa estava atacando os direitos dos trabalhadores de diversas maneiras. Os funcionários administrativos, incluindo engenheiros que atuavam na área de projetos, tinham direito a dois dias de trabalho remoto por semana, benefício que foi reduzido para apenas um. Eles podiam tirar férias quando quisessem, mas passaram a ser obrigados a tirá-las em períodos específicos; eram pequenas coisas desse tipo que vinham se acumulando.
A greve teve início. Foi convocada principalmente por um sindicato bastante peculiar — uma espécie de sindicato profissional que representa sobretudo trabalhadores administrativos —, mas ganhou amplo apoio entre todos: operários da fábrica, funcionários do escritório, enfim, todo mundo. Houve assembleias multitudinárias, com milhares de trabalhadores, e piquetes de massa.
Então, as Comissões Operárias aderiram à greve. No dia seguinte, assinaram um acordo ruim… que acabou sendo rejeitado por 80% da força de trabalho. Trabalhadores da Airbus vindos da França vieram conversar com seus colegas espanhóis para entender a situação. A greve durou mais uma semana ou dez dias.
Por fim, o sindicato — aquele que havia convocado a greve originalmente — declarou: “Não há muito mais o que conseguir. Devemos assinar este acordo”. Eles submeteram o acordo à votação. E os trabalhadores votaram contra essa segunda proposta: 49% contra e 44% a favor!
Foi-lhes oferecido um aumento salarial de 12%. Eles afirmaram que isso não bastava, pois, basicamente, apenas cobria a inflação deste ano e do próximo. O que desejam é recuperar o poder de compra perdido nos últimos anos, que é de 18%.
Não está claro o que acontecerá a seguir. Agora estamos no período de férias, e os trabalhadores retornarão em agosto. No entanto, essas situações são muito sintomáticas do tipo de luta de classes que veremos no próximo período.
Se os sindicatos existentes assumirem a direção do movimento, os trabalhadores os seguirão. Mas também haverá circunstâncias em que, caso os sindicatos não estejam preparados para dirigir a luta, os trabalhadores utilizarão quaisquer meios à sua disposição para levar o movimento adiante.
É precisamente neste momento de crise profunda do capitalismo europeu que a esquerda oficial se encontra em seu estado mais fraco e patético. Em toda parte.
Existe um enorme vácuo, que por vezes é preenchido por todo tipo de fenômeno aleatório.
O fenômeno do “Your Party” na Grã-Bretanha, que durou cerca de duas semanas, paralelamente à ascensão do Partido Verde; a ascensão parcial do Die Linke nas eleições de algumas regiões da Alemanha, e assim por diante.
Por fim, o que talvez seja mais importante para nós é o processo de radicalização política da juventude em torno de questões como a Palestina e o militarismo. Muitos desses jovens estão voltando sua atenção para as ideias comunistas.
Vimos, por exemplo, a ascensão do Movimento Socialista na Espanha. Eles convocaram uma manifestação para o Primeiro de Maio sob o lema “Precisamos construir uma alternativa revolucionária”. Com esse lema, mobilizaram milhares de jovens no País Basco, na Catalunha, em Madri e em Valência.
Na França, houve diversas cisões na Juventude Comunista, algumas delas orientadas para o maoísmo. Grupos comunistas locais estão surgindo na Alemanha, organizados por jovens muito novos.
Precisamos ter senso de proporção. Nossas forças em toda a Europa ainda são muito, muito pequenas. Mas as condições são ideais para nós.
Existe uma camada de jovens altamente radicalizados que podemos alcançar diretamente com nossas ideias, recrutá-los, treiná-los e educá-los em nossas fileiras.
Esse é o trabalho preparatório necessário se quisermos ser capazes de intervir nos grandes acontecimentos que certamente se desenrolarão no próximo período.


