O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou, nesta semana, que dobrará a compra de seus próprios títulos. Estas são medidas desesperadas.
O anúncio de Scott Bessent, Secretário do Tesouro, surge em resposta a uma onda de vendas em massa de títulos do Tesouro americano de longo prazo (dívida pública), movimento que elevou os rendimentos (taxas de juros) dos títulos de 30 anos ao seu patamar mais elevado desde 2007 — véspera da crise financeira.
Os rendimentos dos títulos sobem à medida que os preços caem. E os preços dos títulos caem quando os investidores não querem comprar dívida pública.
Para tentar conter a crise em espiral, Bessent anunciou a recompra dos títulos de 30 anos das mãos de investidores que, claramente, já não têm mais interesse neles. O Tesouro passará a, no mínimo, dobrar o volume de recompras por período, passando de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões, podendo chegar a um total de US$ 66 bilhões de recompras em um ano.
De onde Bessent tirará US$ 66 bilhões por ano? Ele planeja emitir mais títulos de curto prazo para recomprar os de longo prazo. Isso equivale a emprestar dinheiro a si mesmo usando o próprio cartão de crédito e, depois, recorrer a agiotas de curto prazo para quitar a dívida do cartão.
Criando mais problemas
Essas medidas não resolverão nada. Pelo contrário, criarão problemas mais graves para as finanças públicas americanas. Elas podem até frear temporariamente a queda livre dos preços dos títulos, reduzindo a diferença entre o excesso de oferta e a demanda em declínio, mas isso não interromperá a tendência geral de aumento do custo de endividamento para o governo americano.
As pessoas compram títulos como investimento — uma forma de aplicar seu dinheiro para acumular juros e obter lucro. Historicamente, os títulos públicos de longo prazo eram a opção mais segura para isso — especialmente os títulos do governo dos EUA, conhecidos como Treasuries.
Isso ocorria porque o governo dos EUA tem sempre capacidade de honrar suas dívidas; independentemente de o título vencer em 2, 10 ou 30 anos — com o devido pagamento do principal e dos juros —, a viabilidade futura do governo americano nunca foi posta em dúvida.
No entanto, aos olhos do mercado global, essa estabilidade já não é mais uma certeza. Os investidores deixaram de considerar os títulos do Tesouro americano de longo prazo um bom investimento, devido a uma convergência caótica de diversos fatores.

Em primeiro lugar, existe a bolha das ações de IA. As gigantes de tecnologia têm um apetite insaciável por empréstimos e passaram até mesmo a emitir seus próprios títulos de dívida, com investidores privados lhes emprestando centenas de bilhões. À medida que os preços das ações continuam subindo, esses papéis tornam-se investimentos mais atraentes do que os títulos públicos para quem busca obter lucro.
Em segundo lugar, os títulos de longo prazo estão se tornando investimentos mais arriscados devido à inflação. À medida que o valor da moeda cai, o valor dos empréstimos também diminui, corroendo a rentabilidade desses títulos de longo prazo.
A economia dos EUA enfrenta uma inflação persistente há meia década. E, apesar de conter a inflação ser a principal prioridade do Federal Reserve, do Tesouro e da Casa Branca — tendo sido, inclusive, uma das principais promessas de campanha de Donald Trump em sua segunda eleição —, eles não conseguiram colocá-la sob controle.
Pelo contrário, a guerra contra o Irã resultou no fechamento do Estreito de Ormuz, deslocando rotas comerciais e gerando inflação nos preços de combustíveis e fertilizantes. É provável que, em breve, os preços dos alimentos e de todos os outros produtos sigam a mesma tendência. Tratou-se de um erro autoinfligido pela administração Trump, o que não aumenta a confiança daqueles que cogitam emprestar dinheiro ao governo.
Em terceiro lugar, o regime político dos EUA parece estar perdendo o controle da situação. A dívida pública está, sem dúvida, fora de controle.
Nesta semana, a dívida pública total ultrapassou a marca de US$ 40 trilhões. Somente no último ano, foram acrescidos US$ 3 trilhões, e 15% das despesas governamentais são destinadas a custear esse “buraco negro supermassivo” em constante expansão — um valor superior aos gastos com assistência social ou defesa.
Políticas como a guerra contra o Irã e, agora, essa medida sem precedentes do Tesouro americano servirão apenas para minar ainda mais a confiança.
Como o Financial Times observou nesta semana:
“Há também quem acredite que a imagem de Bessent intervindo diretamente no mercado de títulos do Tesouro para influenciar os custos de captação poderia, por si só, desencadear uma nova onda de venda de títulos, elevando ainda mais os juros a serem pagos pelos títulos.”
Ao ser questionado se estava preocupado com as implicações, Trump disse: “Não, porque o restante da nossa economia vai muito bem”. Seu novo indicado para o Federal Reserve, Kevin Warsh, também não é visto pelos investidores como alguém que leve a inflação suficientemente a sério. Segundo a Reuters: “a aparente relutância em adotar aumentos nas taxas de juros, com a inflação acima da meta de 2% do Fed há cinco anos, não foi bem recebida”.
A atitude imprudente e indiferente desta administração, bem como sua negação delirante das realidades econômicas, minam ainda mais a confiança dos detentores de títulos.
Uma crise sem solução
Mas essa crise deve-se a algo mais do que apenas à incompetência de Trump.
Trump aumentou a dívida pública mais do que qualquer outro presidente antes dele. No entanto, antes de Trump, o recordista era Obama, que supervisionou grande parte do resgate estatal dos bancos após a crise financeira de 2007-2008. Ao final do segundo mandato de Obama e no início do primeiro mandato de Trump, em 2016, a dívida total do governo dos EUA girava em torno de US$ 20 trilhões. Desde então, ela dobrou em uma década. O presidente que mais aumentou a dívida pública em um único mandato foi Joe Biden.
A questão é clara. Quem quer que esteja no comando — Democrata ou Republicano, e independentemente de suas ideias ou promessas de campanha — vê-se forçado a buscar soluções de curto prazo, na forma de dívidas avassaladoras, para remediar uma crise profunda e insolúvel do capitalismo norte-americano.
O governo dos EUA não pode continuar gastando como gasta sem contrair mais dívidas, e contrair mais dívidas apenas custará mais caro ao governo. É um ciclo vicioso sem saída.
Cortes drásticos nos gastos públicos estão na ordem do dia, mas os americanos comuns já estão no limite da paciência. A atual “rebelião do mercado de títulos” não é nada comparada à rebelião que se gesta no seio da classe trabalhadora americana.


