O governo dos EUA precisa pagar maiores taxas de juros para tomar dinheiro emprestado. Pela primeira vez desde 2007, seus títulos de dívida que vencem em 10 anos atingiram 5% de juros a.a.. A crise nos mercados de títulos reflete as pressões decorrentes da crise no Estreito de Ormuz, do protecionismo e da expansão caótica da IA. Isso revela todas as contradições de uma economia global que caminha para uma crise.
Em agosto, o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou que recompraria US$ 6 bilhões em títulos de 10 e 20 anos, em um esforço para impedir que a taxa de juros (o yield, como é chamada) subisse ainda mais. Depois, ele disse que dobraria o valor. Naquela ocasião, a taxa estava em 4,85%, e subiu mais desde então. Em outras palavras, seus esforços fracassaram. Isso não deveria surpreender ninguém, visto que o governo dos EUA emite US$ 2,7 trilhões em dívidas de vários tipos todos os meses.
A intervenção de Bessent ocorreu após uma ação anterior do Tesouro dos EUA de compra da moeda japonesa. Essas medidas ajudaram o governo japonês a valorizar o iene, que vinha em trajetória de queda desde fevereiro. Em um discurso no mês passado, Bessent chegou a provocar os investidores, afirmando que eles não deveriam apostar contra ele, pois ele detinha informações que eles desconheciam. Tratava-se de uma ameaça velada de que o Banco Central do Japão elevaria as taxas de juros em breve.
A turbulência no mercado de títulos
A intervenção de Bessent foi motivada por uma mudança na situação econômica do Japão, impulsionada pela guerra no Irã. A inflação japonesa acelerou pela primeira vez em décadas, atingindo 1,9%, em 12 meses. Com a taxa básica de juros do banco central em 1%, os investidores começam a retirar seu capital. Isso provoca uma desvalorização da moeda, o que, por sua vez, gera mais inflação.
O banco central do Japão interveio para sustentar sua moeda, mas precisava de recursos para isso. Por isso, vendeu títulos do governo dos EUA. Mesmo com o auxílio do Tesouro americano, estima-se que o governo japonês tenha vendido o equivalente a US$ 90 bilhões em dívida pública americana para manter a cotação do iene. Compare-se esse valor aos US$ 6 bilhões que Bessent estava destinando para enfrentar o problema.
Menos divulgado foi o acordo de Bessent com os Emirados Árabes Unidos, país que também sofre pressões decorrentes da guerra envolvendo o Irã. Ele concedeu aos Emirados uma linha de swap cambial, permitindo-lhes trocar sua própria moeda por dólares. O objetivo é possibilitar que os Emirados defendam o valor de sua moeda sem precisarem vender títulos do Tesouro americano.
Em outras palavras, Bessent está fechando acordos com diversos governos neste momento para evitar que vendam títulos da dívida pública americana, ao mesmo tempo em que utiliza recursos do próprio governo dos EUA para recomprar esses títulos.
Se isso parece uma medida um tanto desesperada, há um motivo para tal. Bessent tenta manter baixo o custo de captação de recursos pelo governo dos EUA. Além disso, especialmente com as eleições de meio de mandato se aproximando, ele busca conter as taxas de juros do financiamento imobiliário nos EUA — taxas que geralmente acompanham o rendimento dos títulos do Tesouro americano de 10 anos (acrescido de uma margem para os bancos).
Bessent está nadando contra a corrente, como provavelmente sabe. As forças econômicas jogam contra ele. O crescimento econômico dos EUA mal chega a 1,5%, enquanto a inflação está em 3,4%. Isso sugeriria que a taxa de juros deveria ficar em torno de 5% — e é exatamente nesse patamar que se encontra o título de 10 anos.

Exigir juros de 5% para emprestar dinheiro por 10 anos sugere que os mercados agora esperam que a inflação permaneça em torno de 3% na próxima década, ou que possa ser ainda mais alta. O Federal Reserve vê-se, portanto, forçado a elevar as taxas na tentativa de conter a inflação. É um erro pensar que os bancos centrais controlam a economia. É justo o contrário, como Ted Grant apontou há muito tempo.
Ironicamente, a única maneira de reduzir a taxa de juros de longo prazo (financiamentos imobiliários, títulos de 10 anos, etc.) é elevar as taxas de curto prazo controladas pelo Federal Reserve para demonstrar, como se costuma dizer, que o órgão está “levando a sério” o combate à inflação. Se o Federal Reserve aumenta as taxas de juros, exerce uma pressão de baixa sobre o crescimento e, consequentemente, as expectativas de inflação diminuem. Alguns comentaristas insistem que apenas uma recessão pode trazer a inflação para a meta. O fato de as taxas não terem caído desde o anúncio forçará o Federal Reserve a realizar novos aumentos em um futuro próximo.
Uma inflação que simplesmente não vai embora
Se as taxas de juros são impulsionadas pela inflação, o que impulsiona a inflação?
Há uma resposta simples: a guerra contra o Irã. Petróleo, gás e diversos outros tipos de commodities — cuja produção e transporte antes não despertavam preocupações específicas — passavam pelo Estreito de Ormuz. Agora que ele está bloqueado, a enorme perda na produção de algumas commodities e a necessidade de redirecionar as cadeias de suprimentos de outras resultaram em um aumento expressivo de custos. E ainda não vimos a extensão total desse impacto.
Os preços do diesel, combustível essencial para todos os setores da economia, foram particularmente afetados, uma vez que as refinarias do Oriente Médio se tornaram inacessíveis. As refinarias restantes estão operando em capacidade máxima e cobrando preços exorbitantes por isso. Enquanto antes uma refinaria recebia entre 20 e 40 dólares para processar um barril de petróleo, agora recebe 100 dólares. Esse é um dos muitos motivos pelos quais as margens de lucro das empresas de energia aumentaram dramaticamente.
Os preços do petróleo bruto voltaram a superar a marca de US$ 100 por barril em setembro. Isso ocorreu após o fechamento do oleoduto saudita que vai até o Mar Vermelho, que transportou cerca de 4 a 5 milhões de barris de petróleo por dia durante os primeiros cinco meses do conflito.
Mesmo antes disso, o índice de preços ao produtor — que mede o custo de bens e serviços em estágios intermediários de produção — havia subido 5,4% em relação ao ano anterior. No caso específico dos bens, houve um aumento de 1,1% apenas em agosto. Isso demonstra que a inflação não deve desaparecer tão cedo.
As sanções contra a Rússia também desempenham um papel importante, isolando grandes partes do mundo de matérias-primas russas de diversos tipos. Além disso, ataques ucranianos a refinarias russas estão exercendo ainda mais pressão sobre os preços dos combustíveis.
Mas não é apenas a guerra convencional que está impulsionando a inflação. As guerras comerciais estão forçando as empresas a depender de fontes mais caras de matérias-primas e componentes, seja porque precisam “comprar produtos americanos”, pagar tarifas adicionais ou transferir sua produção para locais menos vantajosos.
Há também o boom da IA, que está provocando um aumento expressivo nos preços dos componentes. A alta mais drástica ocorre nos chips de memória de computador, cujo preço deve quadruplicar este ano. Itens como a infraestrutura elétrica, bem como a própria eletricidade, também estão ficando mais caros à medida que mais data centers são construídos.
Além disso, temos os gastos militares, que disputam recursos com investimentos em infraestrutura e outras áreas. A produção de material bélico sempre teve um caráter inflacionário, pois redireciona recursos de setores produtivos da economia. Isso é ainda mais acentuado quando tais recursos são utilizados na tentativa de destruir as economias de nações inteiras — seja no Oriente Médio, na Ucrânia ou na Rússia.
A única esperança que resta à burguesia é que, pelo menos, os salários não estejam aumentando. Sempre que sai um relatório sobre a inflação, eles esfregam as mãos, congratulando-se pelo fato de os salários não estarem acompanhando a inflação. Em outras palavras, eles se sentem satisfeitos por terem conseguido transferir o problema da inflação para a classe trabalhadora, por meio de preços mais altos e salários estagnados.
Mas, fundamentalmente, nenhum dos problemas que impulsionam a inflação tem uma solução fácil. Talvez Trump admita a derrota no Irã, ou os europeus e Zelensky admitam a derrota na Ucrânia. Mas isso apenas abriria caminho para outro conflito em algum outro lugar.
A única coisa capaz de causar um impacto real na inflação é uma recessão profunda — cenário que, de fato, está no horizonte.
O novo normal
Antes de abordarmos a questão da recessão, vamos analisar o que essas taxas de juros mais altas significam.
Analistas financeiros declararam com convicção: “isso é apenas um retorno à normalidade“. Em vez de ser um problema, afirmam eles, trata-se de um sinal de uma economia saudável.
Agora, o governo precisa disputar recursos com aqueles que realizam investimentos reais na economia, argumentam. Os investidores podem escolher a quem emprestar seu dinheiro, uma vez que os investimentos impulsionados pela IA nos EUA dependem cada vez mais do endividamento.

Sem dúvida, as taxas de juros baixas no período de 2008 a 2022 foram excepcionais. Mas isso era um sintoma da profundidade da crise naquela época. E parte da razão para a inflação mais alta nos últimos anos tem sido o boom da IA, que representa um investimento na economia.
Deixando de lado, por enquanto, a questão da sustentabilidade dos investimentos em IA, essa posição ignora uma diferença fundamental entre os dias de hoje e 2007: a dívida pública.
Em 2007, a relação entre a dívida pública federal dos EUA e o PIB era de 63%. Hoje, esse índice é de 122%. Em outras palavras, ela quase dobrou em relação ao tamanho da economia americana. Ou, em termos de valor monetário, chegou a US$ 40 trilhões. Em 2007, o déficit orçamentário equivalia a 1% do PIB. Hoje, é de 6%.
Para completar, a transição de um ambiente de taxas de juros baixas para um de taxas elevadas significa que, quando os títulos antigos precisam ser renovados, a renovação não ocorre à taxa de 1% ou 2% — que talvez seja o que os governos pagam atualmente —, mas sim a 5%.
No momento, a taxa média paga pelo governo é de 3,4%, e a cada mês nos aproximamos da marca de 5%. Isso significa que o déficit orçamentário cresce cada vez mais, mesmo sem um novo pacote massivo de gastos militares. Além disso, o pagamento de juros tornou-se a segunda maior despesa do orçamento do governo dos EUA.
Diante desse cenário, os investidores pensam: “Talvez — apenas talvez — investir em dívida pública dos EUA não seja tão seguro quanto já foi um dia. Há algo aqui que não fecha. O governo não pode simplesmente continuar gastando indefinidamente. Chegará um momento em que nem mesmo o governo dos EUA conseguirá sustentar essa situação”.
A situação é ainda pior para o Japão, que apresenta uma relação dívida/PIB superior a 230%. Embora o país também tenha valores elevados a receber (como US$ 1 trilhão do governo dos EUA, por exemplo), a alta das taxas de juros está se tornando uma enorme dor de cabeça para o governo.
A Europa encontra-se em uma situação ainda mais crítica. No Reino Unido, o novo primeiro-ministro, Andy Burnham, herdou uma dívida gigantesca e um grande déficit de seus antecessores. Além disso, a economia britânica praticamente não cresceu desde 2008. Os investidores estão realmente incertos sobre como o governo planeja lidar com o déficit.
Durante o breve governo de Liz Truss, os investidores fizeram uma espécie de greve e exigiram taxas mais altas para continuar emprestando dinheiro ao governo. Por fim, forçaram a renúncia de Truss e de seu gabinete. O governo trabalhista quer evitar um destino semelhante, mas caminha na corda bamba.
A França vive uma situação semelhante. Macron mal tem conseguido manter a coesão do governo ou aprovar um orçamento. Ele certamente não consegue aprovar um orçamento com cortes drásticos — que é o que os mercados exigem e o que a crise do capitalismo demanda.
Para todos nós que não temos um ou dois milhões para emprestar ao governo, a questão central é o impacto que isso terá para além dos mercados de títulos. Trata-se de uma situação inerentemente instável. Ela prepara o terreno para uma crise fiscal e para os consequentes cortes draconianos que levariam ao colapso da economia. Lembremos de quando a austeridade imposta pelo FMI e pela UE à Grécia provocou uma retração de 25% na economia grega.
A crise grega teve repercussões na economia europeia, mas a Grécia é uma economia pequena. Uma crise dessa natureza na França ou na Grã-Bretanha seria uma situação completamente diferente.
Em todos esses países, não se trata tanto de os governos estarem preocupados com o bem-estar de seus cidadãos. O que ocorre é que eles percebem que perderão seus assentos parlamentares. Basta observar o Partido Socialista na França, os Conservadores na Grã-Bretanha ou o PASOK na Grécia para ver como partidos de longa tradição histórica podem ser dizimados ao tentarem executar as tarefas que a classe dominante lhes impôs.
Mas eles também se dão conta do impacto que isso terá na luta de classes: milhões de pessoas nas ruas, greves gerais e assim por diante.
Sair da crise imprimindo dinheiro?
Há pessoas perspicazes na esquerda que insistem que um governo soberano não pode entrar em default, pois tem controle sobre sua própria moeda. E não são poucos os economistas burgueses que, de uma forma ou de outra, dizem a mesma coisa. O que eles sugerem é que o governo pode imprimir dinheiro para financiar seu déficit.
Isso não é apenas teoria: foi o que fizeram durante a pandemia. O Federal Reserve, nos EUA, imprimiu cerca de 5 trilhões de dólares e os repassou ao governo federal. Trump e Biden puderam gastar como se não houvesse amanhã. No entanto, isso também teve uma consequência bastante previsível: elevou a inflação a um patamar não visto desde a década de 1980.
Isso é parte do que os mercados de títulos estão levando em consideração. Se esses déficits saírem do controle, o governo pode não chegar a um calote propriamente dito, mas poderia muito bem passar a considerar que imprimir dinheiro — e a inflação resultante — é o menor dos males. Essa é, no entanto, uma receita para a hiperinflação.
Graças ao dólar, o governo dos EUA desfruta de uma enorme vantagem em relação ao restante do mundo. No entanto, já iniciou o processo de esgotamento das reservas políticas e econômicas que havia acumulado.
Antigamente, bancos centrais e governos compravam grandes quantidades de títulos da dívida pública americana. Essa era uma forma útil de facilitar o comércio internacional e evitar que suas moedas se valorizassem frente ao dólar. Esse cenário mudou.
A decisão do governo dos Países Baixos de transferir suas reservas de ouro para fora dos EUA reflete essa tendência. Pode-se questionar por que consideram Londres um local mais seguro, mas é evidente que já não confiam nos governos dos EUA para custodiar seu ouro. Em uma situação de crise ou conflito, não poderiam os EUA simplesmente confiscar as reservas de ouro holandesas e utilizá-las em benefício próprio? Afinal, medidas desse tipo já foram adotadas contra a Rússia, o Irã e a Venezuela. Por que o mesmo não poderia acontecer com os holandeses?
Os países do BRICS também estão empenhados em promover pequenas mudanças para reduzir sua dependência do dólar, por motivos semelhantes. Embora não disponham de uma alternativa adequada, estão encontrando meios de utilizá-lo menos.
Tudo isso compromete a capacidade dos EUA de aproveitar a força do dólar para amortecer os impactos de suas finanças públicas, que são fundamentalmente insustentáveis.
A alta das taxas de juros também exerce um impacto enorme sobre a classe trabalhadora. Ela obriga essas pessoas a pagar mais pelos financiamentos imobiliários, pelos empréstimos para veículos, pelos financiamentos estudantis e por todas as outras dívidas que somos forçados a assumir para tentar fechar as contas no fim do mês.
E há outro ponto: alguns comentaristas estão preocupados com as consequências do aumento das taxas de juros pelo Fed. O argumento deles é o seguinte: a alta dos juros afetará principalmente os consumidores, mas os investimentos em IA não sofrerão grande impacto. Também não haverá efeito perceptível sobre o preço do petróleo. No entanto, são justamente o preço do petróleo (leia-se: guerras) e os investimentos em IA que estão impulsionando a inflação.
Ao mesmo tempo, o “consumidor” — ou seja, os trabalhadores — teve de recorrer pesadamente às suas economias para manter o nível de gastos diante da disparada dos preços. Em outras palavras, eles não têm condições de arcar com um aumento nas taxas de juros.
O boom que gera mal-estar
Muitos trabalhadores ao redor do mundo devem estar refletindo sobre a situação atual. Eles observam o boom dos mercados de ações, que registram lucros quase sem precedentes, e depois olham para a sua própria realidade. Algo não fecha nessa conta.
Ed Yardeni, um dos gurus do mercado de ações, gosta de cunhar expressões. Ele declarou que a bolsa de valores não é impulsionada pelo medo de ficar de fora — ou seja, não age de forma irracional —, mas sim por “ganhos fabulosos“.
Ele defende uma tese que chama de “Vibrantes Anos 20” (Roaring 20s), uma referência à década de 1920, quando a economia dos EUA cresceu drasticamente e os lucros acompanharam esse ritmo. Foi também uma época de euforia e febre especulativa. Como é sabido, o período terminou com o crash de 1929 — algo sobre o qual ele não comenta. Presumivelmente, porque, independentemente do que possa acontecer daqui a três ou quatro anos, é possível ganhar um bom dinheiro nesse meio-tempo.
O mercado de ações tem estado em euforia devido aos lucros gigantescos obtidos no último ano ou nos últimos dois anos. A Dell triplicou seus lucros, assim como a Broadcom. Os lucros das empresas de energia em geral (petróleo, eletricidade) mais do que dobraram, assim como os lucros dos setores de serviços de comunicação (internet, telecomunicações, mídia) e de consumo discricionário (automóveis, vestuário, fast-food). Foram, de fato, “resultados fabulosos” para milionários e bilionários.
Podemos nos perguntar: como os lucros podem ser fabulosos quando tenho cada vez menos dinheiro na minha conta bancária ao final de cada mês?
Há dois lados nessa explosão de lucros: em parte, são os investimentos em IA que impulsionaram os preços e permitiram às empresas cobrar valores muito acima do que normalmente poderiam (fabricantes de chips, empresas de energia, etc.). No entanto, isso não explica o fato de que esse aumento nos lucros começou há alguns anos e afetou empresas muito além do setor de IA.
A realidade é que, há décadas, a burguesia vem elevando deliberadamente os lucros da maneira que melhor conhece: espremendo a classe trabalhadora. Os trabalhadores têm enfrentado jornadas mais longas, queda nos salários reais (já que os salários não acompanharam a inflação) e a intensificação do trabalho. Tudo isso eleva a taxa de exploração da classe trabalhadora e, consequentemente, os lucros dos capitalistas. O Estado também tem concedido cortes de impostos para grandes empresas e para os ricos, além de aumentar subsídios de toda espécie destinados às corporações.
Não é de estranhar que os lucros tenham disparado, mesmo antes da explosão da IA. E tudo isso foi uma política deliberada para promover a acumulação de capital — para tornar os ricos ainda mais ricos —, de modo que pudessem reinvestir parte dessa riqueza na economia.
Isso criou o que os economistas chamam de “economia em forma de K”. Trata-se de uma economia na qual 10% da sociedade vai bem — ou excepcionalmente bem —, enquanto 90% lutam para fechar as contas. Mas, no fim das contas, há limites para o quanto esses 10% do topo podem consumir.
Essa euforia mascara a realidade da economia, que é extremamente frágil. Fundamentalmente, porque os trabalhadores não têm dinheiro para recomprar os produtos que eles mesmos produzem.
A IA nos salvará?
O boom da IA gerou muito otimismo entre uma parcela da classe dominante. Eles observam os investimentos e afirmam que este é o início de uma fase de grande expansão. A situação vai bem, se comparada ao período anterior.
Durante décadas, os EUA registraram investimentos muito baixos em capital fixo (maquinário, fábricas, infraestrutura, etc.) em comparação com a China. Agora, com a construção desses novos data centers, esse nível está subindo — e subindo rapidamente.
Hoje, a economia dos EUA depende fortemente desses investimentos. No último ano, eles já representavam mais de 10% dos investimentos empresariais em capital fixo (ou 2% do PIB), mas estão crescendo a uma taxa de cerca de 30% ao ano.
Para um país onde o investimento se tornou sinônimo de especulação na bolsa de valores, isso traz um sentimento de otimismo totalmente novo. Isso mascarou muitas das fissuras de uma economia que enfrenta problemas enormes.
No entanto, o investimento não consegue resolver o problema da superprodução, especialmente quando vem acompanhado de ataques aos salários reais. Se a IA cumprisse suas promessas de aumentar a produtividade — e é inegável que ela tem potencial para isso —, isso significaria produzir mais bens (ou serviços) com menos trabalhadores. Nas condições atuais, isso geraria mais desemprego, e não menos, desencadearia um ciclo vicioso de demissões.
Há também dúvidas sobre a sustentabilidade desses investimentos vultosos. O Banco de Compensações Internacionais (o “banco central dos bancos centrais”) alertou sobre os investimentos em IA em seu relatório anual. A instituição não está convencida — e com razão — de que esses investimentos de trilhões de dólares em IA trarão retorno.
Os riscos existem em vários níveis. Há os criadores dos modelos, como a Anthropic e a OpenAI, que enfrentam dificuldades para lucrar. Depois, há os proprietários de data centers, que ganham muito dinheiro vendendo sua capacidade computacional — principalmente para a Anthropic e a OpenAI. Para tornar o cenário ainda mais incerto, esses proprietários de data centers também investem na Anthropic e na OpenAI, permitindo que elas paguem suas contas mesmo quando registram grandes prejuízos.
Por fim, há os fabricantes de hardware: empresas como NVIDIA, Broadcom, SK Hynix, Samsung, entre outras. Elas estão ganhando quantias exorbitantes no momento, podendo definir praticamente qualquer preço que desejem para seus produtos. E, por sua vez, estão investindo em seus clientes e nos clientes de seus clientes. Tudo isso se assemelha muito a um castelo construído na areia.
O castelo é muito vulnerável a choques, sobretudo porque a responsabilidade final recai sobre algumas empresas sem histórico comprovado de lucratividade, que firmaram contratos com fornecedores cujos valores superam em muitas vezes as suas próprias receitas. Quando essa estrutura começar a ruir, haverá repercussões nos EUA e no Leste Asiático.
Uma crise iminente
A situação econômica está à beira do abismo. Há três ameaças graves à economia mundial.
Há a inflação, impulsionada por diversos fatores, mas sobretudo pela escalada dos conflitos imperialistas, que vêm se agravando.
Há a dívida pública e os déficits, que estão piorando em vez de melhorar. A economia mundial depende totalmente desse financiamento estatal via déficit. Cortes, especialmente nos EUA, teriam consequências desastrosas. No entanto, com a alta das taxas de juros, logo deixará de haver boas opções.
Por fim, há o boom da IA, que tem sustentado grande parte da economia mundial, mas que representa uma bomba-relógio sob vários aspectos.
Quando ocorrerá o colapso? Seria preciso uma bola de cristal para fazer tais previsões. Também não podemos saber de antemão qual será o estopim. No entanto, há muito material combustível pronto para incendiar quando o momento chegar.
Após um boom sem nada de bom para os trabalhadores, o capitalismo caminha agora a passos largos para um colapso. Sem dúvida, isso terá um impacto devastador na economia mundial e na classe trabalhadora. Independentemente de onde comece, o colapso intensificará a desintegração da velha ordem econômica.
Entre greves, demissões, guerras e conflitos, teremos — como tantas vezes dissemos — a receita pronta para a luta de classes.


