Embora não se tenha ouvido falar disso na mídia ocidental, a Ucrânia foi abalada, nos últimos dias, por uma série de escândalos de corrupção que atingiram os mais altos escalões das autoridades governamentais com poderes de fiscalização, nos últimos dias.
Na segunda-feira, 14 de setembro, o Procurador-Geral fugiu do país ao mesmo tempo em que apresentava denúncias criminais por corrupção contra os chefes do Gabinete Nacional Anticorrupção (NABU, em sua sigla em inglês) e da Procuradoria Especializada Anticorrupção (SAPO, em sua sigla em inglês). O motivo da fuga? Alegações de que seu gabinete estava no centro de um esquema de extorsão que cobrava taxas de proteção a partir de centenas de centrais telefônicas.
Por trás desses escândalos de corrupção, há uma disputa muito séria pelo poder político entre diferentes frações oligárquicas. Não é de surpreender que a maioria dos ucranianos entrevistados (54%) considere a corrupção uma ameaça maior ao desenvolvimento do país do que a agressão militar russa (39%)!
Rede de extorsão por proteção

No mundo nebuloso em que alegações de corrupção são usadas para promover interesses políticos, é muito difícil separar o joio do trigo. Vamos, pelo menos, tentar acompanhar os desdobramentos dos últimos dez dias.
Na manhã de 4 de setembro, o NABU e a SAPO lançaram publicamente a “Operação Cartago”, uma investigação sobre uma rede de extorsão que cobrava dinheiro a partir de call centers, que organizavam esses golpes telefônicos. Supostamente, centenas de call centers dedicados a esses golpes arrecadavam muito dinheiro em troca de proteção (cerca de 20 mil dólares mensais, cada um) esse dinheiro era repassado a autoridades de alto escalão da polícia, do serviço secreto e do Ministério Público.
Além disso, essa organização criminosa lavava milhões de hryvnias [moeda ucraniana – NdT] provenientes de subornos por meio da compra de imóveis de luxo e joias. Segundo órgãos de combate à corrupção, a operação criminosa controlava e protegia cerca de 500 call centers que organizavam o esquema de extorsão, empregando dezenas de milhares de pessoas, em todo o país. Estima-se que esta operação arrecadava até US$ 3,5 milhões mensais em receitas oriundas de suborno. Os call centers protegidos recebiam avisos prévios sobre operações policiais, enquanto aqueles que se recusavam a pagar tornavam-se alvos das autoridades.
A imprensa ucraniana especula que a tentativa de alguns líderes do esquema de aumentar as taxas de proteção levou certos call centers a repassar ao NABU as informações que agora estão sendo utilizadas contra o Procurador-Geral.
Como parte dessa operação, agentes do NABU e da SAPO realizaram buscas na sede da Procuradoria-Geral e indiciaram Serhii Kropyva, vice-chefe do Departamento de Cooperação Internacional do órgão. Também foram realizadas buscas em locais associados à vice-procuradora-geral Mariia Vdovychenko e a Oleh Kiper, chefe da Administração Militar da região de Odessa.
A acusação era de que a Procuradoria-Geral recebia uma fatia de US$ 7 mil mensais proveniente das taxas de proteção cobradas de cada call center. No entanto, Kropyva não estava no topo da hierarquia do esquema. Em gravações de escutas telefônicas divulgadas pelos órgãos anticorrupção, ele é ouvido mencionando um “chefe”, a quem chama de “Andriiovych”. Fala-se também em reformas em uma mansão custeadas com os lucros do esquema de extorsão.
Ruslan Kravchenko, o Procurador-Geral, mudou-se no início deste ano para uma propriedade de luxo em Kozyn (uma casa recém-reformada) e vejam só, o patronímico dele é Andriiovych! Estava claro para todos que o alvo final da investigação era Kravchenko; no entanto, em momento algum ele foi preso ou formalmente acusado.
Por um período de cerca de 12 horas após a operação de busca em seu escritório, Ruslan estava em paradeiro desconhecido. Ele acabou reaparecendo e reuniu-se com o presidente Zelensky, após o que anunciou que estava apresentando seu pedido de demissão. Enquanto isso, sua esposa deixou o país pela fronteira com a Moldávia.
Corrupção no alto escalão
O NABU e a SAPO estão em uma ofensiva política contra Zelensky. Em vez de atacá-lo diretamente, eles têm como alvo seus colaboradores próximos. Talvez você se lembre de um certo vaso sanitário de ouro encontrado no apartamento de um oligarca ucraniano chamado Timur Mindich. Isso aconteceu em novembro de 2025.
As agências anticorrupção deflagraram a Operação Midas para investigar um esquema de desvio de verbas e pagamento de propinas de 100 milhões de dólares, que drenava recursos da Energoatom, a operadora estatal de energia nuclear da Ucrânia. Durante uma operação de busca e apreensão no apartamento de luxo de Mindich em Kiev, encontraram um banheiro revestido de ouro que continha um vaso sanitário de ouro maciço.
Mindich é um colaborador próximo de Zelensky e proprietário da emissora de TV que produzia o programa do “presidente-humorista” — atração que, inicialmente, projetou Zelensky à fama. O apartamento de Mindich, com seu vaso sanitário de ouro, era utilizado para todo tipo de festas privadas, comemorações e reuniões estratégicas. Zelensky possui um apartamento no mesmo condomínio.
Como resultado dessas revelações, um enorme escândalo político atingiu o gabinete do presidente, forçando a renúncia de seu chefe de gabinete, Yermak, dos ministros de Energia e Justiça, bem como do vice-chefe de gabinete. O ex-vice-primeiro-ministro Chernyshov também foi implicado.
De alguma forma, Zelensky sobreviveu ao escândalo, e Mindich fugiu para Israel, onde continua a exercer forte influência nos negócios e na política da Ucrânia.
O estopim para a Operação Midas parece ter sido uma tentativa de Zelensky de adotar medidas legais para restringir a independência formal do NABU e do SAPO, justamente quando essas agências monitoravam, por meio de escutas, seus colaboradores mais próximos.
Oligarcas disputam o controle
Assim como agora, trava-se uma batalha por influência política por meio de acusações de corrupção.
Então, como foi possível que o Procurador-Geral, Ruslan Kravchenko — supostamente no centro de um enorme escândalo de corrupção que atinge seu próprio órgão —, recebesse permissão para deixar o país rumo a um destino desconhecido?
O que aconteceu é evidente: Zelensky reuniu-se com Kravchenko em meados da semana passada. A conversa deve ter seguido, mais ou menos, esta linha: “Eu lhe garanto salvo-conduto para o exterior — você pode levar seu dinheiro e sua esposa — e, em troca, você me entrega algo que eu possa usar para livrar-me da pressão do NABU e do SAPO “.

Na manhã de 14 de setembro, Kravchenko anunciou em seu canal no Telegram que estava “em viagem de trabalho ao exterior”. Meia hora antes, ele havia publicado cópias de documentos que detalhavam uma notificação oficial de suspeita (um documento jurídico que inicia uma investigação criminal) contra o chefe do NABU, Semen Kryvonos, e a esposa do chefe da SAPO.
Tecnicamente, embora tivesse anunciado publicamente sua renúncia, Kravchenko ainda ocupava o cargo de Procurador-Geral quando emitiu as notificações de suspeita contra seus rivais, uma vez que sua renúncia precisava ser votada pela comissão parlamentar competente.
As acusações que ele lança contra o NABU e a SAPO referem-se a casos antigos — envolvendo suborno, falsidade ideológica e corrupção no setor imobiliário — que remontam a 2014. Surge imediatamente a pergunta: se ele tinha conhecimento desses casos, por que não os denunciou antes?
No mundo de autoridades corruptas, é conveniente guardar algumas cartas na manga — trunfos que podem servir de proteção ou de instrumento de chantagem contra terceiros. Kravchenko também alegou, de um local desconhecido no exterior, que os agentes do NABU e da SAPO, ao realizarem buscas em seu escritório, apreenderam documentos relacionados a processos criminais contra integrantes das próprias agências anticorrupção. Precisamente.
O que esses escândalos revelam é uma disputa de poder entre diferentes frações oligárquicas: cada uma protegendo seus próprios interesses, controlando setores distintos do aparelho estatal, mantendo a seu serviço partidos políticos e figuras públicas específicas, e estando ligada a diferentes grupos de influência dentro e fora da Ucrânia (seja no establishment Democrata dos EUA, na burocracia da União Europeia etc.).
A NABU e a SAPO foram criadas após a derrubada de Yanukovych em 2014, durante os eventos do Maidan, por iniciativa do FMI e da UE. O objetivo declarado era livrar o Estado ucraniano da corrupção. Na realidade, elas se tornaram instrumentos pelos quais o imperialismo ocidental exerce pressão sobre a política ucraniana, tudo isso em nome da defesa da soberania nacional do país.
Relatos da imprensa indicam que a NABU e a SAPO têm cerca de 65 parlamentares na mira. Essa é uma forma de exercer influência sobre as intenções de voto desses legisladores, em um momento em que a UE pressiona intensamente a Ucrânia para aprovar uma série de “reformas” impopulares — às quais Zelensky resiste parcialmente (por motivos de interesse próprio).
Podre até a medula
Não é que o governo Zelensky não seja corrupto. Muito pelo contrário. Todas as frações políticas oligárquicas burguesas na Ucrânia são corruptas. Talvez aquelas que têm acesso direto às alavancas do poder sejam mais corruptas, por disporem de maiores oportunidades.
As operações Cartago e, anteriormente, a Operação Midas são apenas a ponta do iceberg de um regime oligárquico podre. Em 15 de setembro, um dia após a operação contra o Procurador-Geral, o NABU e a SAPO também desmantelaram outro esquema massivo de corrupção de 65 milhões de dólares envolvendo a Ukrnafta, a empresa de petróleo e gás do país. O grupo desviou ilegalmente 100 mil toneladas de derivados de petróleo — o que representava cerca de 20% de todo o combustível vendido nos postos da Ukrnafta. Os recursos obtidos ilegalmente eram lavados por meio de uma rede complexa de empresas de fachada em paraísos fiscais offshore.
Segundo as agências anticorrupção, um alto funcionário do Serviço de Segurança da Ucrânia (SBU) estava repassando informações sobre a investigação para a organização criminosa envolvida. Entre os acusados estavam associados do oligarca ucraniano Ihor Kolomoisky, que outrora ajudou Zelensky a chegar ao poder, mas que, desde então, tornou-se seu adversário.
O regime de Zelensky é corrupto até a medula, assim como seus oponentes. Ele utiliza métodos cada vez mais autoritários para se manter no poder. Um a um, os oponentes políticos de Zelensky estão sendo acusados, sancionados ou forçados ao exílio. O caso mais recente é o de Iulia Mendel, sua ex-secretária de imprensa, que, em 13 de setembro, sofreu sanções severas impostas por Zelensky. O crime dela? Ter denunciado publicamente o presidente e suas políticas.
Nem mesmo mencionamos o confronto armado entre membros da inteligência militar (GUR) e do SBU, ocorrido em 2 de setembro em Kiev. O motivo aparente? O SBU havia sequestrado Stepan Kaplunov, um neonazista integrante do chamado Corpo de Voluntários Russos (uma unidade militar que opera sob a tutela do GUR); por isso, membros armados do GUR apareceram para exigir sua libertação. Desconhece-se a razão pela qual o SBU sequestrou Kaplunov, mas o embate faz parte de uma disputa mais ampla por poder e controle entre diferentes alas do aparelho estatal — algo que, muito provavelmente, está ligado aos demais escândalos de corrupção.
Some-se a tudo isso uma grave crise financeira no orçamento do Estado e uma resistência generalizada à mobilização, e o cenário que se desenha é, no mínimo, alarmante.
Enquanto isso, o público ocidental é mantido no escuro sobre esses escândalos. E com razão. Já é muito difícil para os governos europeus justificarem seu apoio total e o financiamento da guerra na Ucrânia, que acarretam um alto custo para os trabalhadores de seus países. Se a verdadeira situação do que ocorre na Ucrânia viesse à tona, isso se tornaria impossível.
Todo o aparato estatal oligárquico capitalista da Ucrânia está podre até a medula; está sendo financiado por governos europeus desesperados para combater a Rússia até a última gota de sangue ucraniano. Estão fazendo com que os trabalhadores europeus e ucranianos paguem essa conta.


