Desde o retorno de Trump ao poder, temos comentado sobre o declínio acelerado do imperialismo norte-americano. Os pilares da ordem mundial do pós-guerra estão ruindo rapidamente — ou até mesmo entrando em colapso total.
A crise do capitalismo e as mudanças na correlação de forças entre as potências imperialistas estão minando elementos-chave da ordem mundial baseada na hegemonia dos EUA, como o sistema do dólar, a tutela militar norte-americana sobre a Europa e o sistema liberal de relações internacionais “baseado em regras“, sob a égide das Nações Unidas.
Hoje, enquanto o Irã mantém os Estados Unidos sob um aperto sufocante com o bloqueio do Estreito de Ormuz, testemunhamos o colapso de mais um pilar dessa ordem mundial: a hegemonia norte-americana sobre os mares.
Hipocrisia
Em resposta ao ataque imperialista dos EUA e de Israel, o Irã jogou sua carta mais forte ao impor um bloqueio ao Estreito de Ormuz. O Irã agora reivindica o direito de cobrar um pedágio pela travessia do estreito.
Dada a importância dessa rota de trânsito marítimo para o comércio global, as consequências têm sido devastadoras. O bloqueio provocou uma disparada nos preços da gasolina e escassez de combustíveis em vários países, além da falta de produtos essenciais para diversas indústrias, como fertilizantes, enxofre, hélio, entre outros. Se o bloqueio persistir, há o risco de desencadear uma recessão global.
Por enquanto, os Estados Unidos conseguiram evitar os piores efeitos da crise recorrendo às suas reservas de petróleo, mas essa situação não pode durar para sempre. As reservas estratégicas dos EUA estão atualmente em seu nível mais baixo desde 1982. O preço do diesel atingiu recentemente um recorde histórico, pressionando setores como o de transporte rodoviário de cargas e a agricultura.
Os Estados Unidos e seus aliados condenaram o bloqueio iraniano em nome do princípio da liberdade de navegação, conforme estabelecido pelo direito internacional. O Secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, declarou:
“O que está em jogo aqui não é simplesmente a questão do que está acontecendo no Estreito de Ormuz. Trata-se de um princípio fundamental relativo à liberdade de navegação. E, se isso estiver ameaçado, acredito que a economia global também estará ameaçada, assim como as regras que sustentaram 150 anos de comércio internacional.”
Esse tipo de apelo em defesa da liberdade de navegação tem sido repetido à exaustão por todo o establishment político do Ocidente. Em maio, uma resolução assinada por 112 países foi apresentada à ONU, exigindo respeito à liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.
Jean-Noël Barrot, Ministro das Relações Exteriores da França, declarou que a imposição de um pedágio iraniano no estreito seria inaceitável, pois “a liberdade de navegação em águas internacionais é um bem comum — um bem comum da humanidade — que não deve ser impedido por qualquer obstáculo ou direito de passagem”. Além disso, os franceses fizeram um grande alarde sobre o envio de uma força naval conjunta com o Reino Unido para reabrir o estreito… assim que o estreito for reaberto!
Há uma séria dose de hipocrisia nesse tipo de retórica. Apesar de todos os seus apelos sobre a necessidade de defender a liberdade de navegação, nem os Estados Unidos nem seus aliados europeus respeitam esse princípio. Os próprios Estados Unidos estão atualmente impondo um bloqueio ao Irã, com o objetivo explícito de infligir punição coletiva ao povo iraniano.
No início deste ano, como parte de sua campanha para derrubar o governo de Maduro, os Estados Unidos impuseram um bloqueio de petróleo à Venezuela. Apreenderam sete petroleiros venezuelanos no que se configurou como uma campanha de pirataria em grande escala.
Além disso, sob o frágil pretexto de combater o narcotráfico, o governo Trump também empreendeu uma campanha completamente criminosa de bombardeios a embarcações no Caribe e ao longo da costa oeste das Américas. Pelo menos 59 barcos foram atacados, resultando em 200 mortes, muitas das quais de pescadores inocentes. Em pelo menos um caso, o próprio Hegseth ordenou um cruel ataque a mais para eliminar os sobreviventes.
Observamos também esse duplo padrão na campanha liderada pela Europa para apreender navios suspeitos de transportar petróleo da Rússia. Até o momento, dez navios foram apreendidos e centenas de outros foram alvo de sanções, como parte da campanha de sanções dos EUA e da Europa contra a Rússia. A liberdade de navegação, esse “bem comum da humanidade”, aparentemente pode ser deixada de lado quando se trata da Rússia.

A liberdade de navegação em águas internacionais também não é um princípio respeitado por Israel, o cão de guarda dos Estados Unidos. Israel impôs um bloqueio naval criminoso contra Gaza para impedir a entrada de qualquer ajuda humanitária no enclave palestino assolado pela fome.
Em águas internacionais, o Estado sionista atacou e sequestrou as tripulações das flotilhas de solidariedade que tentavam romper esse bloqueio – atos completamente ilegais sob o direito internacional. Curiosamente, nem a França nem o Reino Unido propuseram o envio de uma força naval internacional para romper o bloqueio!
Por trás dessa hipocrisia, reside o fato de que essa liberdade – assim como o restante do “direito internacional” – existe apenas na medida em que serve aos interesses das potências imperialistas, particularmente os Estados Unidos. Quando Rubio fala do “princípio fundamental da liberdade de navegação”, ele se refere ao “princípio fundamental” da dominação americana sobre os mares.
Ao bloquear o Estreito de Ormuz sem que os Estados Unidos possam fazer nada a respeito, o Irã está desafiando essa hegemonia e infligindo uma humilhação contundente à principal potência imperialista do mundo.
Humilhação
Não importa o que Trump diga – ele já declarou a guerra encerrada, ou quase encerrada, pelo menos 32 vezes – as coisas não estão indo bem para os Estados Unidos. A guerra já dura seis meses e não há sinais de que a situação esteja melhorando para os americanos; pelo contrário.
Os americanos sofreram danos significativos em suas bases na região. Segundo uma estimativa do The Washington Post, pelo menos 228 estruturas e equipamentos em 15 bases americanas foram destruídos ou danificados durante a guerra, incluindo um sofisticado sistema de radar crucial para a defesa antiaérea, avaliado em US$ 300 milhões.
A base naval americana no Bahrein ficou inoperante devido a ataques iranianos, forçando a Marinha dos EUA a realocar o centro logístico de suas operações no Oriente Médio para Diego Garcia, uma base remota no Oceano Índico, o que está complicando todas as suas operações.
Enquanto isso, os Estados Unidos parecem impotentes diante do bloqueio do Irã.
Isso fica ainda mais evidente quando consideramos que esta não é a primeira vez que o Irã e os Estados Unidos entram em guerra pelo Estreito de Ormuz. Durante um episódio por vezes referido como a “Guerra dos Petroleiros“, que ocorreu entre 1986 e 1988 durante a Guerra Irã-Iraque, o Irã tentou bloquear o estreito. Mas, na época, os Estados Unidos conseguiram romper o bloqueio iraniano sem muita dificuldade e escoltar petroleiros através dele.
A impotência dos Estados Unidos diante do Irã resulta, em parte, dos avanços na tecnologia militar. A ascensão dos drones como arma indispensável na guerra contemporânea é um fator na “democratização” da guerra, permitindo que Estados mais fracos enfrentem o colosso americano. Até mesmo o pequeno Iêmen é capaz de bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb e fechar o Mar Vermelho graças a um arsenal de drones.
A poderosa marinha convencional dos EUA, com seus grandes navios e porta-aviões, é inadequada para enfrentar uma frota de veículos pilotados remotamente, baratos e produzidos em massa. O baixo custo de produção de drones aéreos e navais permite seu grande número de operações, bloqueando facilmente a passagem de qualquer navio.
Os iranianos não precisam confrontar diretamente as forças americanas para bloquear o estreito – basta representar uma ameaça crível para que navios comerciais não se arrisquem.
Embora as forças convencionais americanas possam escoltar navios e reabrir a passagem naval contra drones, isso tem um custo desproporcional. Os drones custam a partir de US$ 20 mil cada, enquanto os mísseis usados para destruí-los podem custar até US$ 2 milhões.
O Irã não está apenas bloqueando o Estreito de Ormuz – também está expondo as limitações do poder americano, revelando seu declínio. Os drones baratos do Irã estão esgotando o estoque de mísseis interceptores dos Estados Unidos. Três quintos de seus mísseis Patriot e metade de seus mísseis THAAD já foram utilizados – um estoque que pode levar anos para ser reabastecido.
Isso já está tendo efeitos tangíveis, pois os americanos são forçados a retirar esses mísseis da frente ucraniana para reforçar a frente iraniana, resultando em pesadas perdas para os ucranianos. Segundo autoridades americanas, a escassez na Europa agora é “mais do que crítica”. Da mesma forma, os americanos tiveram que recorrer aos seus estoques de interceptores na Coreia do Sul.
A guerra também está minando o moral das tropas americanas, como revela a crise no porta-aviões USS Abraham Lincoln. Incapaz de atracar no Bahrein devido aos ataques iranianos, ele permaneceu em missão por quase nove meses, com apenas uma escala de um dia em um porto. Os marinheiros ficaram presos no mar em condições tão deploráveis (como a falta de comida ou água potável, e chuveiros e banheiros cobertos de mofo) que alguns teriam tentado pular no mar.
Sob pressão das famílias dos marinheiros, o porta-aviões foi finalmente trazido de volta ao porto na Tailândia. Mas precisava ser substituído. No papel, os Estados Unidos possuem 11 porta-aviões – quase tantos quanto todos os outros países juntos. Na realidade, um deles, o USS Nimitz, está programado para ser desativado, e outros seis estão passando por reparos. Além do Abraham Lincoln, isso deixa apenas três porta-aviões operacionais.
Para concluir essa missão, o USS George Washington, posicionado perto do Japão no Pacífico, foi enviado para substituir o Lincoln. Como resultado, essa região – crucial para os Estados Unidos, visto que consideram a China seu principal rival – agora está exposta.
Declínio do poder
Mas a humilhação dos Estados Unidos no Irã é apenas uma expressão de um processo mais amplo: o domínio naval incontestável dos EUA terminou. Isso fica evidente quando comparado à China.

A Marinha dos EUA vem declinando ao longo do tempo. Seu tamanho foi reduzido à metade desde a década de 1980 e agora conta com pouco mais de 300 navios. Isso sem levar em conta a taxa de desgaste da frota, que deve resultar no descomissionamento de 213 navios até 2040.
Atualmente, a Marinha Chinesa é maior que a Marinha dos EUA em número de navios.
A Marinha dos EUA segue sendo a mais poderosa em termos de tonelagem – ou seja, os navios americanos são em menor número, porém maiores e mais poderosos. A tonelagem de um navio é significativa porque determina seu alcance efetivo e seu poder de fogo potencial.
A enorme tonelagem da frota americana permite que ela projete poder para o outro lado do globo. Esse é um pré-requisito indispensável para a hegemonia global dos EUA.
Mas a China não precisa ir tão longe. Seus objetivos, pelo menos por enquanto, são mais limitados. Além disso, esse fator está se tornando menos importante na era da guerra com drones e mísseis. Em um possível confronto direto, a China dependeria muito mais de seus mísseis supersônicos para afundar a Marinha dos EUA do que de sua própria frota.
Ao mesmo tempo, o poder naval da China está crescendo muito mais rápido do que o dos Estados Unidos. A Marinha dos EUA permaneceu com pouco menos de 300 navios nos últimos 20 anos, enquanto a Marinha chinesa cresceu de pouco mais de 200 para 330 navios durante o mesmo período. Em 2023, enquanto a China adicionou 30 navios à sua frota, os Estados Unidos adicionaram dois.
Isso ocorre porque a indústria naval da China supera em muito a dos Estados Unidos. Sua capacidade de construção naval é talvez 200 vezes maior.
Como testemunhou um analista de política externa dos EUA perante o Subcomitê da Ásia Oriental e do Pacífico da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes dos EUA:
“Um único conglomerado estatal, a China State Shipbuilding Corporation (CSSC), constrói mais navios comerciais em tonelagem a cada ano do que toda a indústria naval dos EUA produziu desde o fim da Segunda Guerra Mundial.”
Dos 307 estaleiros da China, grande parte tem dupla utilização, servindo tanto para fins civis quanto militares. Dessa forma, a China pode utilizar sua vasta indústria naval civil para a construção de navios militares.
Em comparação, os Estados Unidos possuem sete estaleiros militares utilizados para construção e quatro para manutenção e reparo.
Esclerose
Esses são, em grande parte, problemas do capitalismo em sua fase imperialista decadente. A indústria naval é notoriamente instável, dependente de contratos massivos que surgem e desaparecem. Os estaleiros privados são, portanto, altamente vulneráveis ao caos do mercado capitalista, o que levou ao fechamento gradual de estaleiros americanos.
O número de estaleiros capazes de construir grandes embarcações marítimas diminuiu em 80% desde 1950. Alguns dos estaleiros sobreviventes datam do século XIX, e muitos foram construídos durante o boom da construção naval na Segunda Guerra Mundial.
E esse não é o único problema que a indústria naval americana enfrenta. Em particular, ela sofre com uma escassez crônica de mão de obra qualificada – com aproximadamente 140 mil vagas de emprego atualmente em aberto – e taxas de rotatividade de até 30% em funções como soldagem. Isso se deve, em parte, aos baixos salários (frequentemente em torno de US$ 24 por hora), que não refletem a natureza desafiadora do trabalho.
A indústria também enfrenta uma grave e persistente escassez de peças de reposição, o que, por sua vez, reflete o declínio mais amplo do setor manufatureiro. Isso resulta em atrasos na produção, reduzindo ainda mais a produtividade.
A baixa produtividade da indústria naval dos EUA também afeta a manutenção e os reparos da frota. De acordo com um relatório do Centro de Estratégia Marítima, a Marinha dos EUA enfrenta um enorme acúmulo de reparos:
“Os atrasos na manutenção de porta-aviões e submarinos entre 2015 e 2019 resultaram em um total de 7.424 dias em que essas embarcações ficaram indisponíveis para operações – o equivalente a perder metade de um porta-aviões e três submarinos a cada ano. Aproximadamente um terço dos submarinos americanos está fora de serviço devido a manutenção ou reparos a qualquer momento.”
Ao transferir suas indústrias para países com mão de obra mais barata, o imperialismo norte-americano efetivamente deu um tiro no pé – a poderosa indústria naval da qual seu poderio militar dependia. E a corrida dos patrões por lucros, que constantemente pressiona os salários para baixo, destruiu as condições de vida de uma força de trabalho qualificada, capaz de construir e manter seus navios.
Isso, aliás, explica por que os Estados Unidos abandonaram recentemente sua política de mais de um século de construir navios de guerra internamente. Agora, consideram a possibilidade de construir navios na Coreia do Sul, no Japão ou na Turquia.
Porém, a China – graças a investimentos estatais e aos elementos de planejamento econômico que ainda existem – conseguiu investir e desenvolver conscientemente sua indústria naval ao longo de décadas. A participação da China na produção global de construção naval comercial aumentou de 5% para 53% entre 2000 e 2025. Atualmente, o país lidera o mundo na construção naval comercial. Essas capacidades civis estão sendo aplicadas às forças armadas.
De forma semelhante, no passado, o domínio militar dos EUA dependia em grande parte de uma enorme defasagem tecnológica em relação aos seus adversários – particularmente em telecomunicações, radares e tecnologias de geolocalização, entre outras. Essa defasagem está diminuindo rapidamente.
Por exemplo, a China é agora o segundo país a possuir um sistema eletromagnético de lançamento de aeronaves (EMALS) para porta-aviões. Nos últimos anos, a China desenvolveu caças furtivos de quinta geração, o J-20 e o J-35, semelhantes ao famoso F-35, considerado o estado da arte em aeronaves militares. Parece que os radares fornecidos pela China ao Irã desempenharam um papel importante na defesa aérea iraniana durante a guerra e impediram os Estados Unidos de estabelecer a superioridade aérea total com a qual contavam.
Nesse sentido, o declínio do poder naval dos EUA é resultado do declínio do imperialismo americano. Os adversários dos Estados Unidos estão alcançando-os – em alguns campos, superando-os – particularmente no que diz respeito à indústria e à tecnologia. A China agora está em pé de igualdade ou à frente dos Estados Unidos em uma ampla gama de setores, como inteligência artificial, veículos elétricos, minerais críticos e outras tecnologias de ponta. Isso se reflete na esfera militar.
América, a polícia do mundo
Este desenvolvimento é ainda mais significativo dado que o domínio dos EUA sobre os mares foi um dos pilares da ordem mundial do pós-guerra.

Antes da Segunda Guerra Mundial, os mares eram palco de confrontos frequentes entre potências imperialistas rivais. A maior potência imperialista até o início do século XX foi o Império Britânico, que possuía a maior marinha do mundo. Mas, à medida que entrava em declínio, as grandes potências iniciaram uma corrida armamentista naval.
Durante a Primeira Guerra Mundial, os mares foram um importante campo de batalha. A Grã-Bretanha buscava manter um bloqueio contra a Alemanha, que, por sua vez, tentava rompê-lo utilizando seus famosos submarinos U-boat.
Com a derrota da Alemanha, os Estados Unidos se tornaram o principal rival do Reino Unido. Uma série de tratados (o Tratado Naval de Washington e, posteriormente, os Tratados Navais de Londres) foram adotados em um esforço para limitar a corrida armamentista entre os dois países.
Mas, ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos haviam se tornado a potência imperialista dominante. A economia americana era de longe a maior do mundo na época, representando cerca de 50% do PIB global. Produtos americanos inundavam o mercado mundial. O imperialismo americano se empenhou em estabelecer uma nova ordem mundial que lhe fosse vantajosa.
Essa dominância era sustentada por seu poderio militar supremo, particularmente no mar. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a Marinha dos EUA era de longe a mais forte do mundo, operando quase 6.800 navios de guerra, incluindo 88 porta-aviões. Embora o tamanho da frota tenha sido reduzido imediatamente após a guerra – de 6.800 para 842 navios em 1947 – e continuado a declinar ao longo do tempo, ela permaneceu de longe a marinha dominante durante todo o período do pós-guerra.
Essa supremacia naval, combinada com centenas de bases militares ao redor do mundo, foi uma condição necessária para que os Estados Unidos se tornassem uma potência verdadeiramente global, capaz de projetar sua influência nos quatro cantos do planeta.
Os EUA usaram sua marinha para estabelecer seu domínio como a principal potência imperialista e para esmagar países que se aproximassem demais da URSS ou se recusassem a se curvar aos ditames dos Estados Unidos. Isso pode ser visto em operações navais infames, como o desembarque decisivo em Incheon durante a Guerra da Coreia, o bloqueio de Cuba durante a crise dos mísseis de 1962 e a sabotagem de portos vietnamitas em 1972.
Nas décadas de 1970 e 1980, a URSS começou a desenvolver armamentos navais capazes de rivalizar com os dos Estados Unidos. Mas esse desenvolvimento foi interrompido por seu colapso. Após a queda da União Soviética, os Estados Unidos tornaram-se praticamente incontestáveis nos mares.
Esse domínio sobre os mares pôs fim à situação anárquica que existia na era da competição inter-imperialista.
Com uma única potência mundial protegendo as vias navegáveis do planeta, o comércio pôde se desenvolver livremente a um nível sem precedentes. Assim como o sistema do dólar, baseado no Acordo de Bretton Woods, proporcionou ao mercado mundial uma base financeira estável, o poder naval incontestável dos Estados Unidos garantiu a estabilidade do comércio marítimo. Juntos, esses fatores lançaram as bases para a globalização e o boom econômico do pós-guerra. O renomado historiador naval Geoffrey Till afirmou:
“A globalização depende absolutamente do livre fluxo do comércio – e este ocorre em grande parte por via marítima. Só por essa razão, o poder naval está no cerne do processo de globalização, de uma forma que o poder terrestre e aéreo não estão.”
Sob a supervisão dos Estados Unidos, o volume de mercadorias exportadas por via marítima aumentou de aproximadamente um bilhão de toneladas métricas em 1955 para 11 bilhões de toneladas métricas em 2021. Os mares continuam sendo cruciais para o comércio global. Hoje, aproximadamente 80% do volume e 50% do valor do comércio global passam pelos mares.
Para ilustrar esse ponto, considere-se a pergunta que algumas pessoas fizeram em resposta ao bloqueio do Estreito de Ormuz: por que o estreito não foi simplesmente contornado por terra?
A resposta é que o volume de mercadorias que pode ser transportado por via marítima é incomparável ao de outros meios de transporte. Um caminhão-tanque pode transportar algumas centenas de barris de petróleo. Um trem-tanque pode transportar entre 50 mil e 90 mil barris. Um VLCC (Very Large Crude Carrier), como os que passam pelo Estreito de Ormuz, tem capacidade para aproximadamente 2 milhões de barris de petróleo.
Os Estados Unidos – no centro do comércio global, com seus bens e seu capital inundando o mercado mundial – foram os principais beneficiários desse processo. Garantir a estabilidade do comércio marítimo era, portanto, um dos principais interesses dos Estados Unidos no período pós-guerra.
E assim como impuseram acordos de “livre comércio” e desmantelaram barreiras comerciais para obter acesso a mercados em todo o mundo – sob a mira de armas, se necessário – os americanos garantiram a liberdade de navegação (para si mesmos) com a ajuda de navios de guerra.
Por exemplo, desde 1979, o imperialismo norte-americano realiza rotineiramente o que chama de “Operações de Afirmação da Liberdade de Navegação” (FONA, na sigla em inglês) para afirmar o direito de seus navios de ir a qualquer lugar.
Essas operações envolvem o envio de navios de guerra para intimidar um país quando este impõe o que os Estados Unidos consideram restrições à liberdade de navegação. Os EUA normalmente realizam de cinco a 15 dessas operações por ano, inclusive contra seus aliados. Em alguns anos, chegaram a realizar até 40.
Os Estados Unidos justificam as operações FONA alegando que elas visam proteger o direito internacional, incluindo a Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar. Na realidade, os Estados Unidos nunca assinaram essa convenção. São, na verdade, os maiores violadores do direito internacional. Essas operações equivalem, na prática, a impor seu direito de navegar livremente por todo o planeta sem restrições.
Diversos países, como as Maldivas e a Malásia, por exemplo, exigiram que navios de guerra solicitassem permissão antes de entrar em suas águas territoriais. Em todas as ocasiões, os Estados Unidos responderam enviando navios de guerra para afirmar sua presença, como um policial corrupto fazendo ronda, cassetete em punho.
Nas palavras de um ex-Juiz-Advogado Geral da Marinha, essas operações de Liberdade de Navegação (FONA, na sigla em inglês) são “uma operação ‘na cara’, ‘esfregada na nossa cara’, que deixa claro quem manda. Pelo menos quando se trata de FONA, os EUA realmente atuam como a polícia do mundo.”
Isso não significa que a ordem pós-guerra imposta pelos EUA representasse verdadeira liberdade de navegação: como vimos, os Estados Unidos e seus aliados não hesitaram em impor seus interesses imperialistas à força. Mas as potências europeias, juntamente com o Japão – que anteriormente estavam em guerra entre si – uniram-se em uma aliança inter-imperialista sob os auspícios dos Estados Unidos, o que teve o efeito de estabilizar a situação nos mares.
Mas hoje, com o declínio do imperialismo americano e o surgimento de potências rivais como a China e a Rússia, estamos retornando a uma situação em que os mares são o foco de uma luta cada vez mais intensa.
Como resultado, um dos pilares do comércio global – e, portanto, da economia global – está ruindo perigosamente. A pandemia, seguida pela guerra comercial, já havia desencadeado uma mudança em direção à repatriação das cadeias de suprimentos – em direção à “relocalização” e à “alocação de recursos para países amigos”. A fragmentação do controle sobre os mares em esferas de influência de potências imperialistas concorrentes reforçará ainda mais essa tendência.
Um precedente perigoso
Uma das principais reivindicações do Irã é o direito de cobrar pedágio pela travessia do Estreito de Ormuz. Segundo o direito internacional, tais pedágios não podem ser cobrados pela passagem por vias navegáveis naturais (enquanto são permitidos para passagens marítimas artificiais, como os canais de Suez e do Panamá). Os iranianos se protegeram legalmente alegando que pretendem cobrar “taxas ambientais”, e não pedágios, mas a diferença é semântica.

Como resultado, muitos países manifestaram preocupação com o fato de uma taxa para atravessar o Estreito de Ormuz poder criar um precedente perigoso. Estados costeiros localizados perto de passagens estratégicas – como o Estreito de Gibraltar, que dá acesso ao Mediterrâneo; o Cabo da Boa Esperança, na ponta da África; ou o Estreito de Øresund, entre a Dinamarca e a Suécia – poderiam, hipoteticamente, ser incentivados a também exigir pedágios. De fato, a abolição dos pedágios para a travessia do Estreito de Øresund em 1857 é considerada um dos momentos-chave na emergência do princípio da liberdade de navegação.
Pouco depois do início do bloqueio do Estreito de Ormuz, em abril, o ministro das Finanças da Indonésia levantou a possibilidade de impor uma taxa no Estreito de Malaca, antes de se retratar. Este estreito, gerido conjuntamente pela Indonésia, Malásia e Singapura, é um ponto de estrangulamento particularmente importante para o comércio global. Cerca de 30% do comércio mundial de petróleo passa por ele.
Em uma carta enviada ao Secretário-Geral da ONU por oito das maiores associações de transporte marítimo do mundo, os grupos expressaram preocupação com o precedente que seria criado caso o Irã recebesse o direito de impor uma taxa. Eles escreveram:
“Uma vez estabelecido tal precedente, torna-se cada vez mais difícil resistir a medidas semelhantes em outros lugares, criando incerteza para o transporte marítimo internacional e o comércio global.”
É difícil prever com exatidão o efeito que tal desenvolvimento teria, e este continua sendo um cenário hipotético. Contudo, se a prática de impor pedágios se tornasse generalizada, aumentaria a pressão sobre o custo do transporte internacional de cargas, o que pressionaria a inflação que persiste há vários anos. Em um momento de crescente protecionismo e interrupções nas cadeias de suprimentos, isso representaria mais um golpe para a globalização e o comércio internacional.
Pontos de estrangulamento
Mas a crise no Estreito de Ormuz já estabeleceu um precedente muito mais significativo do que meras taxas de pedágio. O Irã demonstrou o quão poderosa pode ser a ação de fechar um ponto de estrangulamento do comércio global.
Existem 11 pontos de estrangulamento marítimos por onde passa mais de 5% do comércio global, que poderiam, teoricamente, ser bloqueados. Por sete deles passam mais de 10% do comércio mundial. À medida que as mudanças na correlação de forças entre as potências imperialistas provocam o deslocamento das placas tectônicas geopolíticas, as tensões aumentam e as guerras tornam-se cada vez mais frequentes.
O risco de outro ponto de estrangulamento ser bloqueado não é improvável. Mesmo agora, o Estreito de Ormuz não é o único ponto de estrangulamento bloqueado em consequência da guerra. O Iémen impede a passagem de navios sauditas pelo Estreito de Bab el-Mandeb, no Mar Vermelho, para se defender da agressão saudita. A Ucrânia tentou impor um bloqueio à Rússia no Mar Negro, o que levou a um bloqueio recíproco por parte da Rússia. As consequências serão graves: a Ucrânia e a Rússia são grandes exportadoras de diversos tipos de grãos, e 90% das exportações de grãos da Ucrânia passam pelo Mar Negro.
Isso significa que três importantes rotas comerciais globais estão agora bloqueadas, o que já está causando escassez e aumento dos preços de combustíveis e alimentos em diversas regiões. A ONU alertou recentemente que a fome causada por conflitos está atingindo níveis recordes.
Outras rotas de trânsito ainda podem se tornar foco de um impasse. Recentemente, a China e os Estados Unidos têm travado uma disputa legal pelo controle do Canal do Panamá. No início deste ano, uma empresa sediada em Hong Kong, proprietária de um terminal portuário no canal, foi obrigada a vendê-lo para uma empresa americana. Em resposta, a China começou a deter e inspecionar navios com bandeira panamenha que atracavam em seus portos em uma frequência muito acima do normal – claramente um ato de retaliação. Este episódio esteve longe de ser um confronto direto, mas é indicativo das crescentes tensões em torno deste ponto de estrangulamento vital para o comércio global.
Além disso, os Estados Unidos assinaram recentemente um acordo militar com a Indonésia, um desenvolvimento que alguns interpretaram como uma manobra contra a China. De fato, a Indonésia estaria em posição de bloquear o Estreito de Malaca, o que poderia representar um duro golpe para Pequim. Dois terços do comércio marítimo chinês passam por esse ponto estratégico. Tal ação equivaleria a uma declaração de guerra.
A necessidade de encontrar uma rota alternativa ao Estreito de Malaca é certamente um fator no crescente interesse da China pelo Ártico. A China possui atualmente cinco quebra-gelos e planeja construir mais. Uma empresa chinesa de transporte marítimo de contêineres está lançando a “Rota da Seda de Gelo“, enviando um navio da costa leste da China para o Reino Unido, navegando ao longo da costa norte da Rússia.
Com as mudanças climáticas e o derretimento das calotas polares, novas rotas de navegação estão se abrindo no Ártico, e o interesse dos imperialistas na região está crescendo. A crescente instabilidade no mar e os riscos ao longo das rotas comerciais tradicionais alimentarão ainda mais esse interesse.

Poderíamos nos estender longamente sobre outras regiões e vias navegáveis que são alvo de crescentes tensões ou que têm potencial para serem usadas como armas, como o Estreito de Taiwan ou os Estreitos Dinamarqueses. Mas a questão é que, à medida que as tensões aumentam entre os blocos imperialistas dos Estados Unidos e seus aliados, de um lado, e a China, a Rússia e seus aliados, de outro, a importância estratégica dos mares e dos principais pontos de estrangulamento também cresce.
Os tambores da guerra
Os tambores da guerra têm soado cada vez mais alto nos últimos anos. Estamos testemunhando uma corrida armamentista, e um país após o outro está reconstruindo suas forças armadas.
Em particular, os aliados tradicionais dos Estados Unidos – como o Canadá, a Europa e o Japão – podem ver claramente que seu padrinho já não é tão forte ou confiável como antes, e que não podem mais contar com ele para defender seus interesses imperialistas.
Entretanto, por outro lado, a Rússia já provou ser uma adversária formidável na Ucrânia, a China está construindo uma marinha que rivaliza com a dos Estados Unidos, e o Irã está infligindo uma humilhação histórica aos americanos.
Os acontecimentos do ano passado, portanto, terão convencido ainda mais as classes dominantes ocidentais da necessidade de reconstruir rapidamente seus navios e de exercer controle sobre recursos críticos, acumular estoques dispendiosos e se preparar para outras contingências econômicas.
Essa tendência só irá se acelerar, e os políticos a serviço da classe capitalista usarão os argumentos da segurança marítima e da necessidade de salvaguardar o comércio para justificar o aumento dos gastos militares.
Embora os governos já estejam atolados em dívidas, será a classe trabalhadora que arcará com a conta desses novos navios de guerra, por meio de medidas de austeridade e ataques aos trabalhadores do setor público.
E quando esses agentes da morte recorrem às armas, são os trabalhadores e os pobres que pagam o preço, seja através do aumento do custo da vida provocado pela guerra ou com suas próprias vidas, sob a explosão das bombas.


