As recentes eleições de meio de mandato desferiram um golpe devastador em Trump e no movimento MAGA. A classe trabalhadora norte-americana busca, desesperadamente, soluções de classe para os seus problemas de classe.
Dois anos após derrotar de forma avassaladora Kamala Harris, o próprio Donald Trump sofreu um golpe eleitoral devastador. A “onda azul” prevista revelou-se um “tsunami azul”. Dezenas de milhões de pessoas votaram contra Trump e a favor da única outra opção aparente: o Partido Democrata.
[Publicado originalmente em Communistusa.org]
Esta é a reviravolta eleitoral mais impressionante desde 1976. No momento em que este texto é escrito, a apuração dos votos ainda está em andamento. No entanto, os democratas parecem ter vencido no voto popular por uma margem de 12 pontos percentuais, em uma eleição que registrou níveis recordes de comparecimento às urnas. Sete em cada dez jovens que compareceram para votar escolheram os democratas. Com 34% de aprovação, o índice de Trump foi menor do que o de qualquer outro presidente às vésperas de uma eleição de meio de mandato nos últimos 80 anos.
Até o momento, os democratas conquistaram 35 cadeiras na Câmara, que antes pertenciam aos republicanos. No Senado, os democratas conquistaram pelo menos sete cadeiras. Isso lhes confere controle total do Congresso, com cerca de 250 das 435 cadeiras na Câmara e um mínimo de 54 das 100 cadeiras no Senado — sendo que outras duas ainda estão em disputa.
Ao que tudo indica, esta eleição constitui uma rejeição contundente a Trump, ao movimento MAGA e a Musk — que investiram centenas de milhões de dólares para sustentar candidatos republicanos derrotados. É uma condenação da guerra no Irã, dos preços exorbitantes da energia, das tarifas desastrosas, da disparada no custo de vida, bem como do sionismo.
No entanto, devemos ser claros: apesar das comemorações por parte dos democratas e de seus porta-vozes, esta eleição não representa um aval ao Partido Democrata capitalista, que, há apenas um ano e meio, atingiu o fundo do poço.
Pelo contrário, o imenso “tsunami azul” é um sinal de que a classe trabalhadora norte-americana busca, de forma frenética, soluções de classe para os seus problemas de classe.
Os resultados
Ohio, Maine, Michigan e Carolina do Norte — todos estados nos quais Trump venceu por uma margem substancial há dois anos — passaram para o lado dos democratas. Os democratas conseguiram, inclusive, conquistar redutos do Partido Republicano, como Carolina do Sul, Kansas, Iowa e Texas.
Na Carolina do Sul, Annie Andrews derrotou a titular Darline Graham — irmã do falecido Lindsey Graham, que era um bajulador servil de Trump e um neoconservador belicista. No Kansas, um estado predominantemente rural, alguns condados registraram uma mudança de até 54 pontos em favor dos democratas. Muitos desses condados possuem maioria de população latina, um grupo que, em 2024, votou majoritariamente em Trump.
No Texas, o governador Greg Abbott e o senador Ken Paxton foram derrotados, sinalizando o fim de uma semi-dinastia política. Esses dois republicanos ultrarreacionários dominaram a política do Texas por bem mais de uma década.
O democrata James Talarico derrotou Paxton com uma margem de dois dígitos em um estado que, há mais de 30 anos, não elegia um democrata para um cargo de abrangência estadual. Talarico conduziu uma campanha populista que recorreu a um sentimento antielite bastante difundido. Um de seus principais slogans era: “A maior divisão neste país não é entre esquerda e direita. É entre os de cima e os de baixo”.
Até mesmo o Mississippi pode eleger um senador democrata. Embora a apuração dos votos ainda esteja em andamento, caso Scott Colom vença a disputa, ele se tornará o primeiro senador negro eleito pelo Mississippi desde 1875 — período da “Reconstrução Radical” que antecedeu a segregação racial da era Jim Crow.
Na Flórida, um estado profundamente conservador e com o eleitorado de maior idade média no país, Angie Nixon, integrante da DSA (Socialistas Democráticos da América), obteve 3,9 milhões de votos (48%), sendo derrotada por uma margem bastante estreita.
Já em Michigan, Abdul El-Sayed venceu a disputa para o Senado com uma plataforma populista e crítica a Israel, tornando-se o primeiro senador muçulmano na história dos EUA — a despeito dos bilhões de dólares investidos na campanha para financiar anúncios de ataques de cunho racista. Em um gesto de desespero, a democrata do establishment Haley Stevens — que havia sido rejeitada pelos eleitores nas primárias do partido — declarou apoio ao oponente republicano de El-Sayed apenas duas noites antes da eleição.
Democracia para quem?
A única maneira de centenas de milhões de trabalhadores expressarem sua insatisfação na arena eleitoral é votando em um dos dois partidos burgueses que dominam a política norte-americana há mais de um século e meio. Ou, então, podem simplesmente se abster de votar.
Mesmo com o recorde de participação em números absolutos, estima-se que 127 milhões de pessoas — mais da metade de todos os eleitores aptos — não tenham votado. Além disso, dezenas de milhões de imigrantes residentes, pessoas com condenações criminais e habitantes das colônias dos Estados Unidos estão totalmente excluídos do processo eleitoral federal.
Devido à ausência de um partido de massas dos trabalhadores, independente de classe, 170 milhões de assalariados, 56 milhões de aposentados e 20 milhões de estudantes — a vasta maioria dos quais faz, fez ou fará parte da classe trabalhadora dos Estados Unidos — não contam com um partido eleitoral viável que possam chamar de seu.
Enquanto tal partido não for construído, a insatisfação dos trabalhadores se manifestará, inevitavelmente, de forma distorcida, polarizada e contraditória nas urnas. Os trabalhadores só conseguem expressar sua indignação votando em um dos dois partidos capitalistas. Para milhões deles, isso significa votar contra o partido que está no poder, na esperança de qualquer coisa que não seja o status quo.
No dia seguinte às eleições, o conselho editorial do The New York Times escreveu: “Os americanos mostraram que o poder de escolher seus líderes lhes pertence”. É provável que a maioria dos trabalhadores americanos considere que sua própria posição está mais próxima da de Lênin, em 1917, do que da do The New York Times, em 2026. Quando ele afirmou:
Aos oprimidos é permitido, uma vez a cada poucos anos, decidir quais representantes específicos da classe opressora deverão representá-los — e reprimi-los — no parlamento.

Os Estados Unidos são uma democracia dos, pelos e para os bilionários. As quantias astronômicas provenientes de bilionários — canalizadas por meio de super-PACs nas eleições de meio de mandato de 2026 — deixam isso mais do que evidente. Só Elon Musk destinou quase meio bilhão de dólares ao Partido Republicano, tornando-se o maior doador individual na história eleitoral. Apenas na disputa para o Senado pelo Texas, Musk gastou 212 milhões de dólares para apoiar seu aliado Ken Paxton — e perdeu.
Este foi o ciclo eleitoral mais caro da história dos Estados Unidos. Mais de 16 bilhões de dólares foram injetados no processo. Mais de 11 bilhões de dólares foram gastos em publicidade e outras campanhas de mobilização. Bilhões em “dinheiro obscuro” circularam por meio de PACs e super-PACs — mecanismos acionados para permitir que a classe dominante penda a balança a favor de seus próprios candidatos.
Embora a reação eleitoral contra Trump seja um sintoma claro da revolta de classe que fervilha, nada de fundamental mudou. Um grupo de candidatos apoiados por bilionários foi simplesmente substituído por outro — e nenhum deles representa, de fato, a classe trabalhadora.
Por que o MAGA era atraente para os trabalhadores?
No dia das eleições de 2024, o ímpeto do MAGA parecia imparável. Trump e os republicanos obtiveram uma vitória avassaladora, conquistando o controle de ambas as casas do Congresso e da Casa Branca. Ele acreditava que os americanos lhe haviam conferido um mandato para remodelar o país à sua própria imagem extravagante.
No dia seguinte às eleições, o The New York Times — principal porta-voz do Partido Democrata — adotou um tom sombrio: “A América encontra-se à beira de um estilo de governo autoritário, jamais visto em seus 248 anos de história.”
Enquanto liberais e reformistas se acovardavam diante da suposta invencibilidade do trumpismo, os RCA explicavam que a classe trabalhadora dos EUA não estava “se deslocando para a direita”. Tampouco havia caído nas garras de um ditador autoritário. Pelo contrário, o voto em Trump foi uma revolta eleitoral contra o status quo. Os trabalhadores americanos estavam fartos de uma inflação sem precedentes, de décadas de queda no padrão de vida e de guerras intermináveis. Os democratas estiveram no poder durante 12 dos 16 anos anteriores. Milhões de pessoas os enxergavam como o que realmente são: o principal partido de Wall Street.
Como explicamos na ocasião:
Os democratas, defensores do capitalismo, fracassaram mais uma vez, em administrar a crise inadministrável de seu próprio sistema. Na ausência de uma alternativa viável e de massas da classe trabalhadora, “o outro” partido capitalista receberá mais uma chance… a maioria daqueles que votaram nele provavelmente encarou o gesto, simplesmente, como um voto contra o establishment. Um voto em Trump foi um voto por algum tipo de mudança; não foi, necessariamente, um voto “a favor” da direita.
Às vésperas de sua vitória, Trump afirmou: “Se eu vencer, vocês estarão a apenas três dias dos melhores empregos, dos maiores salários e do futuro econômico mais brilhante que o mundo já viu”. Não é de surpreender que os trabalhadores que votaram nele esperassem resultados.
Contudo, existem forças muito mais poderosas do que a sua variante específica de populismo de direita. Como também explicamos em 2024:
Trump pode até ser uma força da natureza, mas o Estado-nação, a economia de mercado, a propriedade privada dos meios de produção e as placas tectônicas em constante movimento das relações mundiais são forças ainda maiores… Trump prometeu mais do que poderia cumprir e, dada a crise do sistema, ele acabará entregando menos do que prometeu.
Dois anos de Trump 2.0
Era praticamente inevitável que a mesma “maldição do incumbente” que selou o destino de Biden recaísse sobre Trump. Trump é, ao mesmo tempo, causa e efeito. Sua abordagem desastrada e destrutiva à presidência intensificou e acelerou todas as contradições de um sistema que já se encontra em decadência senil.
Suas tarifas, que elevaram os preços, não fizeram mais do que agravar a inflação. A tão alardeada “era de ouro” dos empregos na indústria não passou de demagogia fantasiosa. Um mês antes das eleições de meio de mandato, 58% dos eleitores — incluindo 39% dos republicanos — atribuíam a Trump e às suas tarifas a responsabilidade pela alta da inflação.
Trump prometeu: “Não vou começar guerras, vou acabar com elas”. Em um ano e meio, ele não conseguiu resolver as questões entre a Ucrânia e a Rússia, bombardeou outros sete países e mergulhou em um atoleiro desastroso no Irã. Além de representar a maior derrota estratégica na história dos EUA, a guerra no Irã levou a economia mundial à beira do abismo, com os preços de fertilizantes, gasolina e diesel disparando.
Trump culpou Biden e Harris por terem iniciado uma “Guerra contra a energia”. No entanto, em novembro deste ano, o preço da gasolina estava, em média, a US$ 4,26 por galão, um valor mais alto do que qualquer patamar registrado durante o governo Biden. O aumento dos custos de fertilizantes e diesel atingiu de forma particularmente severa os agricultores americanos. Não é de surpreender que Trump tenha sofrido derrotas tão contundentes em Iowa e no Kansas, dois estados situados no coração agrícola dos Estados Unidos.

Em uma pesquisa de boca de urna da NBC na noite da eleição, quase nove em cada dez eleitores afirmaram que o custo de vida foi um “fator crucial ou importante” em seu voto. Da mesma forma, o portal The Hill relata que apenas 28% dos americanos aprovam a condução da economia por Trump. Em uma entrevista após a eleição, um Trump abatido refletiu sobre as possíveis causas de sua derrota: “Eles não se importam com o Irã, mas provavelmente não ficaram satisfeitos — não ficaram satisfeitos com o preço do petróleo. Então, sabe, são coisas que acontecem”.
Mas as pessoas, certamente, “se importam com o Irã”. A mesma pesquisa de boca de urna da NBC revelou que 74% dos eleitores consideram a guerra no Irã “um fator crucial ou importante” em seu voto, e 63% acreditam que a decisão de realizar uma ação militar no Irã foi “errada”.
A guerra no Irã também intensificou o sentimento anti-Israel já existente, que ganhou força sob o governo do genocida Joe. 39% dos americanos acreditam que a AIPAC e os lobbies sionistas exercem influência excessiva na política dos EUA. Até mesmo 49% dos jovens republicanos afirmaram que apoiariam um candidato que defendesse a redução ou o fim da ajuda militar a Israel. Numa cartada desesperada às vésperas do dia da eleição, Trump anunciou que, até o próximo ano, interromperia o envio de US$ 4 bilhões em ajuda anual a Israel. Isso é tão crível quanto a sua promessa de entregar um cheque de US$ 5 mil a cada adulto americano, sob a condição, contudo, de que os republicanos vencessem as eleições de meio de mandato.
Por último, mas não menos importante, as operações de choque e intimidação do ICE — agência de imigração dos EUA —, concebidas para desviar a atenção de seus outros fracassos, acabaram saindo pela culatra. A intensificação das ações do ICE provocou revoltas em massa em Los Angeles e Chicago, além de uma greve geral de fato em Minneapolis. Agora, impressionantes 57% dos eleitores afirmam desaprovar suas políticas de imigração.
A fragmentação do movimento MAGA e o desespero dos republicanos
Em quase todas as eleições de meio de mandato, o partido do presidente em exercício perde cadeiras. Desta vez, contudo, esse efeito foi amplificado pela corrupção flagrante de Trump e pelo seu desprezo pelos cidadãos americanos comuns. Como resultado, o movimento MAGA encontra-se fragmentado e mais fraco do que nunca. Figuras que se distanciaram da linha central do MAGA — como Marjorie Taylor Greene, Tucker Carlson, Joe Kent e Thomas Massie — têm se manifestado abertamente contra a guerra no Irã, o genocídio em Gaza e a crise do custo de vida. Isso contribuiu para disseminar a desilusão entre muitos trabalhadores comuns que votaram em Trump em 2024.
Em um comício recente em Clarksville, no Tennessee, Trump soou desesperado:
Republicanos, vocês precisam sair de casa. Por favor, saiam e votem… Olhem, se não vencermos as eleições de meio de mandato, vão me culpar… Estou me matando de trabalhar. É melhor vocês saírem e votarem. Acham que isso é fácil? Acham que é fácil lá do outro lado?
Em janeiro, Trump zombou da “crise de acessibilidade” (o alto custo de vida). Em comícios recentes, ele abandonou o populismo antissistema que marcou sua campanha de 2024 e adotou um negacionismo totalmente desconectado da realidade, algo que lembra os momentos finais da campanha de Biden e Harris:
Estamos ganhando centenas e centenas de bilhões, trilhões de dólares. Mas o pessoal da minha equipe disse: “Por favor, não mencione isso, senhor, porque as pessoas estão pagando um pouco mais”… Vocês ainda estão pagando menos do que na época de Biden e Obama, e [os iranianos] não têm armas nucleares… Já consigo até imaginar as manchetes falsas: “Presidente Trump fala sobre todo o dinheiro que estão ganhando, enquanto as pessoas sofrem nos postos de gasolina”. Essa seria a manchete. Mas eu respondi: “Eu não dou a mínima! Estamos ganhando uma fortuna, caramba!”
Não é de surpreender que candidatos republicanos à Câmara e ao Senado tenham implorado a Trump que não fizesse campanha em seus estados. Após uma década sem resultados, as credenciais de Trump como figura “antissistema” perderam o brilho. Um pesquisador do Marist Institute for Public Opinion, ao comentar sobre a base do movimento MAGA que desejava mudanças, observou: “Eles votaram em um ‘Trump 2.0’, mas alguns sentem que acabaram recebendo um ‘Biden 2.0’”.
O jogo de culpas já começou. O vice-presidente JD Vance, que espera se distanciar de Trump visando uma provável candidatura presidencial em 2028, agora atribui a responsabilidade à guerra no Irã e ao alto custo de vida.
Os democratas se beneficiam do voto anti-Trump
Como não existe um partido operário de massas nos EUA, milhões de pessoas viram no voto para o “outro” partido burguês a única forma viável de expressar seu descontentamento.
Como resultado, a baixa popularidade de Trump deu um novo fôlego aos democratas. Mas ninguém deve esquecer que, em julho de 2025, uma pesquisa do Gallup revelou que apenas 34% dos americanos tinham uma opinião favorável ao partido. No mês passado, o índice de aprovação subiu para modestos 43% — embora outros institutos de pesquisa, como a NBC, apontem um patamar bem mais baixo, de 29%. Não é de se estranhar que, em janeiro deste ano, 45% dos americanos — a maior parcela — se identifiquem como “independentes”.
Os democratas estão radiantes com estes resultados eleitorais. Mas, se pensam que esta vitória dá ao seu partido carta branca, estão redondamente enganados. Segundo uma pesquisa da PBS News/NPR/Marist realizada no final de outubro:
A oposição ao presidente é o que mantém unida a coalizão democrata. Mais de oito em cada dez democratas e 44% dos eleitores independentes afirmam que seu voto é contra Trump. Apenas 12% dos independentes dizem que estão votando para apoiá-lo. (grifo nosso)
Ambos os partidos e todas as instituições do capitalismo estadunidense são profundamente impopulares. A confiança no governo federal atingiu o nível mais baixo de todos os tempos em 2026. Menos de um terço dos adultos confia nos poderes Executivo e Legislativo. A maioria das pessoas também não confia no Judiciário.
Assim como Trump antes deles, os democratas prometem “uma nova era”. Mas lembremos que os democratas são o partido do genocida Joe e do massacre em Gaza. Eles reprimiram as ocupações estudantis nos campi em 2024; tornaram ilegal uma possível greve dos ferroviários em 2022; provocaram a Rússia, levando-a a invadir a Ucrânia; presidiram anos de inflação; e controlavam a Casa Branca e o Congresso quando a decisão Roe v. Wade foi anulada (uma jurisprudência que permitia o aborto nos primeiros meses de gestação nos EUA).
Os democratas, assim como os republicanos, são um partido do capital financeiro e dos fura-greves. O fato de o Dow Jones ter registrado seu melhor resultado pós-eleição em 44 anos, com uma alta de mais de 1.500 pontos, é bastante revelador. Eles continuarão com as mesmas políticas anti-trabalhador e belicistas quando estiverem no poder, porque o sistema exige isso. Assim como Trump — e Biden, Obama, Clinton e os Bush antes dele —, os democratas atenderão, de forma obediente, às ordens da classe dominante.
A menos que renuncie ou seja removido do cargo, Trump permanecerá na Casa Branca por mais dois anos. Embora um processo de impeachment e uma enxurrada de intimações contra ele ou seus aliados pareçam praticamente certos, os democratas podem, ainda assim, preferir mantê-lo no cargo — um conveniente saco de pancadas enquanto, de maneira cínica, voltam suas atenções para 2028.
No entanto, na hora da verdade, os trabalhadores não se darão por satisfeitos com os espetáculos circenses do Congresso. Eles querem melhorias concretas em seu cotidiano: empregos e salários melhores; moradia, saúde, educação e alimentação de qualidade e a preços mais acessíveis; livrar-se da exploração por parte das operadoras de planos de saúde e dos agiotas que lucram com as dívidas estudantis; e o fim definitivo das “guerras sem fim”.
Os democratas não querem — e nem conseguem — atender, de forma significativa, a essas demandas fundamentais de classe. Como resultado, a abrangência e a profundidade da “onda democrata” podem revelar-se superficiais e de curta duração. Mais cedo ou mais tarde, os trabalhadores buscarão uma nova alternativa. Isso torna ainda mais urgente a necessidade de uma opção independente de classe.
Os DSA e o potencial para um partido independente de classe
Há uma década, Bernie Sanders mobilizou milhões em torno de seu chamado por uma “revolução política contra a classe dos bilionários”. Toda uma geração de jovens norte-americanos depositou nele suas esperanças, apenas para vê-las frustradas quando ele capitulou diante de Hillary Clinton na Convenção Nacional Democrata de 2016.
Se Sanders tivesse concorrido, em vez disso, como um candidato independente dos trabalhadores, ele teria tido chances reais de disputa tanto contra Trump quanto contra Hillary. Mesmo na derrota, ele poderia ter mudado o curso da história dos EUA, caso tivesse lançado as bases para um partido socialista de massas. Dada a trajetória dos últimos dez anos, tal partido poderia, a esta altura, ter se tornado uma organização de massas, com potencial para substituir um — ou ambos — dos partidos capitalistas.
Mesmo com todas as confusões reformistas que inevitavelmente a teriam acompanhado, isso teria representado um enorme avanço para os trabalhadores norte-americanos. Pela primeira vez, eles teriam tido um partido viável que, ao menos ostensivamente, era de sua classe e para a sua classe.
Em vez disso, um momento histórico foi perdido. Em 2020, Sanders desperdiçou uma segunda oportunidade e, desde então, manteve sua submissão ao status quo. A massa de indignação de classe que surgiu após a crise de 2008 acabou sendo canalizada, no plano eleitoral, para o populismo de direita de Trump.
Tempo valioso foi perdido — mas a história não desperdiça nada. Como resultado dessas experiências, a classe trabalhadora aprendeu lições reveladoras sobre a natureza de ambos os partidos da classe dominante. Eles deram uma chance a Trump, e ele não correspondeu — por duas vezes. Após as eleições de 2024, escrevemos:
A falta de resultados concretos e duradouros levará à decepção e a uma nova busca por soluções ainda mais radicais. Com o tempo, as questões de classe virão claramente à tona, e o pêndulo oscilará de forma decisiva para a esquerda.
Estamos presenciando, hoje, o início da oscilação do pêndulo. Pela primeira vez na história do Gallup, o apoio ao socialismo atingiu 43%. Isso representa 116 milhões de pessoas. Entre os jovens de 18 a 34 anos, 57% apoiam o socialismo em detrimento do capitalismo — o que equivale a aproximadamente 33 milhões de pessoas.

O termo “socialismo” tornou-se comum no debate público e já não assusta as pessoas. Pesquisas realizadas com eleitores ao saírem das urnas mostraram que 33% daqueles que votaram nas eleições de meio de mandato de 2026 têm uma opinião favorável ao socialismo.
Uma pesquisa do Times/Siena, de maio, revelou que dois terços dos eleitores afirmam que “o sistema precisa de mudanças profundas ou precisa ser totalmente derrubado”. O levantamento aponta ainda que eleitores profundamente desiludidos “tendem a ver o socialismo de forma positiva… o que sugere que a frustração profunda e crescente dos americanos pode estar levando alguns eleitores a considerar o socialismo”.
Essa mudança significativa na opinião pública encontrou uma expressão eleitoral na organização Democratic Socialists of America (os Socialistas Democráticos da América, ou DSA). Em setembro, o instituto Gallup constatou que 38% dos americanos tinham uma opinião favorável ao DSA.
A DSA conquistou, ao menos, sete cadeiras na Câmara dos Representantes dos EUA. Entre os eleitos estão Claire Valdez e Darializa Avila Chevalier, da cidade de Nova York; Melat Kiros, do Colorado; Chris Rabb, da Pensilvânia; e Donavan McKinney, de Michigan. Em janeiro, eles se juntarão aos membros dos DSA que já integram o Congresso: Alexandria Ocasio-Cortez e Rashida Tlaib. Os DSA também apoiaram o senador eleito Abdul El-Sayed — que afirma não ser socialista, mas cujo programa populista e antissionista está fortemente alinhado a esse novo “bloco” de esquerda.
Embora sete membros na Câmara — de um total de 435 — representem uma minoria ínfima, esse é o maior número de pessoas que se autodeclaram socialistas a ocupar, até hoje, uma cadeira na câmara baixa do governo federal.
Os candidatos dos DSA que venceram as primárias defenderam pautas como a saúde universal — apoiada por dois terços dos americanos — e a extinção do ICE. Adriano Espaillat, o democrata que ocupava o cargo no 13º Distrito de Nova York e acabou derrotado, autodenominava-se “progressista” e afirmava defender “acessibilidade, saúde, justiça e dignidade para todos os nova-iorquinos”. Ao longo de seus cinco mandatos, ele também recebeu US$ 2 milhões de comitês de ação política (PACs) pró-Israel, ocupando a 10ª posição no Congresso entre os que mais receberam verbas do lobby sionista.
Chevalier, que o derrotou, utilizou sua campanha para estabelecer uma conexão entre a pobreza enfrentada pelos trabalhadores de seu distrito e a “ajuda” dos EUA a Israel. Ela aproveitou a oportunidade para levantar a seguinte questão: por que os trabalhadores, que mantêm a cidade de Nova York em funcionamento, deveriam viver na pobreza no país mais rico da história? Ela declarou que o dinheiro utilizado por “nosso governo” para financiar um genocídio na Palestina deveria, em vez disso, ser destinado ao financiamento de habitação e saúde.
O Partido Democrata: um beco sem saída político
Embora a inegável guinada à esquerda seja um sintoma positivo da mudança de humor, a eleição levanta questões estratégicas cruciais que a esquerda norte-americana não está enfrentando de frente.
Como a maioria das campanhas conduzidas ou apoiadas pelos DSA, os candidatos mencionados acima concorreram pelo Partido Democrata, a principal legenda da classe capitalista. Esse é um erro estratégico fatal. Socialistas no Congresso estarão vinculados a políticos e instituições responsáveis por atacar a classe trabalhadora. Independentemente de suas intenções, os representantes dos DSA acabarão sendo forçados a seguir a linha do partido; o resultado é que os DSA se tornam indistinguíveis dos democratas — um partido que é, com razão, desprezado por milhões de trabalhadores.
Os DSA também oferecem aos democratas uma conveniente fachada de esquerda. A cúpula do DNC (Comitê Nacional Democrata) aceitou, a contragosto, as vitórias dos candidatos dos DSA. Eles aproveitaram a energia jovem e de “forasteiros” dos DSA para, de certa forma, rejuvenescer sua própria imagem desgastada.
Muitos dos figurões do Partido Democrata não desejariam nada mais do que expurgar esses “insurgentes perigosos”. Um exemplo disso é Haley Stevens, adversária de El-Sayed nas primárias. Autodenominada uma “democrata orgulhosa de longa data”, Stevens declarou apoio ao candidato republicano. Sendo uma democrata profundamente sionista, ela preferiu apoiar o Partido Republicano (GOP) a ser associada a um “forasteiro” político que critica abertamente Israel. James Carville, estrategista de longa data do DNC — um verdadeiro espécime da velha guarda política —, também afirmou que preferiria uma vitória do Partido Republicano a dar fôlego aos DSA.
Mas outros setores do partido estão agindo com cautela, preparando o terreno para diferentes cenários. Eles percebem para onde o vento sopra e estão dispostos a usar as credenciais progressistas dos DSA — e de candidatos alinhados a ela — para melhorar sua própria imagem, visando a 2028. Obama, por exemplo, fez campanha para El-Sayed. Contudo, mesmo esses elementos cínicos não têm a menor intenção de permitir que o partido se torne algo além de uma ferramenta a serviço dos capitalistas.
Muito se tem especulado sobre uma possível candidatura de AOC à presidência ou ao Senado daqui a dois anos. Embora liberais alinhados ao status quo, como Jon Ossoff ou até mesmo Gavin Newsom, sejam perfis mais prováveis, os Democratas ainda poderiam lançar o nome dela como uma figura capaz de servir de ponte entre os “insurgentes” e a cúpula do partido. Nancy Pelosi — um dos maiores expoentes do establishment — chegou a dizer recentemente que é “um prazer trabalhar” com AOC; algo que, certamente, tornou-se mais evidente nos últimos anos.
A trajetória política de AOC deveria servir de lição para a DSA. Tendo começado como uma figura externa ao sistema em 2018, ela rapidamente se aproximou de Pelosi e do restante da máquina partidária do DNC. Ela se recusou a votar contra o financiamento do sistema “Domo de Ferro” de Israel em 2021 e 2025 e, de forma vergonhosa, votou a favor da proibição de uma greve de trabalhadores ferroviários em 2022. Ao longo de seus oito anos de mandato, ela não fez nada para tornar o socialismo uma referência independente para a classe trabalhadora, em oposição aos partidos da classe dominante.
Não é apenas a falta de disciplina organizacional que torna difícil para os DSA “cobrar responsabilidade de seus eleitos” ou garantir que eles atuem como um bloco coerente. Acima de tudo, isso é resultado de uma abordagem da política a partir de uma perspectiva convencional — isto é, burguesa. Se eles se candidatam como indivíduos por meio de um partido capitalista, inevitavelmente continuarão a atuar dessa mesma maneira durante o exercício de seus mandatos.
Uma estratégia séria deve começar com um objetivo claro: o que estamos tentando alcançar? Se o movimento socialista não definir o que é a vitória, não terá como avaliar se está avançando em direção a ela ou não.
O objetivo dos socialistas deve ser a conquista do socialismo. Isso significa a tomada efetiva do poder político pela classe trabalhadora e o estabelecimento de um Estado operário. Tal objetivo só pode ser alcançado por meio da independência de classe e da luta de classes revolucionárias.
A lógica da arena eleitoral burguesa tem um propósito totalmente diferente: eleger indivíduos para cargos públicos, e nada mais. Jogar segundo as regras desse jogo significa concorrer pela legenda do Partido Democrata, com campanhas “progressistas” limitadas a reformas liberais e a iniciativas orçamentárias, fiscais ou legislativas de menor alcance. Inevitavelmente, esse método conduz à frustração, ao descumprimento de promessas de campanha e à assimilação pelo sistema.
Lançar candidaturas socialistas de forma independente dos dois partidos dominantes não será uma tarefa fácil. Contudo, a independência de classe é o único caminho para avançar rumo ao nosso objetivo. O descontentamento generalizado na sociedade só poderá encontrar um ponto de convergência se os socialistas traçarem uma linha de demarcação clara em relação aos partidos do sistema — aqueles que milhões de pessoas desejam “derrubar”.
Os DSA poderiam utilizar seus recursos e mobilizar sua base para lançar candidaturas socialistas independentes por todo o país. Em 2016, a DSA não contava com nenhum representante no Congresso. O número expressivo de cadeiras conquistadas pelos Democratas tornará difícil que eles “mantenham a presidência da Câmara como refém” ao se recusarem a votar em Hakeem Jeffries. Mas, em vez de recorrer a manobras parlamentares, eles poderiam formar o núcleo de um verdadeiro bloco “antissistema” dentro do Congresso, servindo de complemento às mobilizações de massa nas ruas e às greves nos locais de trabalho.
Isso significaria manter a independência em relação a ambos os partidos dominantes, apresentar um candidato dos trabalhadores para a presidência da Câmara e defender abertamente, a todo momento, um programa socialista. Eles não devem votar com os democratas (ou com os republicanos) nem realizar negociações de bastidores com eles; devem apresentar apenas as suas próprias propostas em defesa dos trabalhadores. Os primeiros passos serão os mais difíceis, mas a recompensa será imensa: pela primeira vez na história dos EUA, um verdadeiro bloco socialista se tornará uma oposição dos trabalhadores dentro do próprio ventre da besta legislativa.
O caminho a seguir
Este ano apresentou vários pontos positivos que indicam o caminho a seguir. Candidatos socialistas independentes obtiveram mais votos do que em qualquer outro momento da história recente. Esses candidatos receberam pouquíssima atenção da mídia, mas, ainda assim, somaram mais de 100 mil votos.
Com base em uma resolução de romper com o Partido Democrata, a seção de Rhode Island dos DSA lançou Brittany Kubicek como candidata socialista independente para a Assembleia Geral do estado. Ela obteve 23% dos votos. Em Ohio, Greg Levy, do Partido pelo Socialismo e Libertação (PSL), conquistou 94 mil votos. Em Massachusetts, Joe Tache, também do PSL, candidatou-se ao Senado dos EUA — enfrentando tanto democratas quanto republicanos — e obteve 2,2% dos votos em todo o estado, totalizando 54 mil votos. Sem financiamento corporativo ou de comitês de ação política (PACs), ele arrecadou mais de 270 mil dólares. Andre Easton, igualmente do PSL, obteve cerca de 8,7% dos votos — aproximadamente 10,6 mil votos — no 15º distrito congressional de Nova York, um resultado quase equivalente ao do candidato republicano.
Estes resultados mostram que candidatos independentes em relação às classes dominantes podem obter muito mais do que apenas uma repercussão simbólica. Imagine só o que seria possível se toda os DSA — que afirma contar com 120 mil membros — concentrasse suas energias no lançamento de uma verdadeira alternativa da classe trabalhadora. E se o movimento sindical organizado mobilizasse seus milhões de membros e seus recursos expressivos em prol de um esforço como esse, os democratas e os republicanos estariam acabados. A formação de um partido operário de massas, independente das classes dominantes, nos EUA, representaria o maior avanço já ocorrido na história do movimento socialista norte-americano.
Contudo, a arena eleitoral não é o único canal para a indignação de massas baseada em questões de classe. Precisamos estudar atentamente e aprender com os acontecimentos recentes na Europa e no Brasil. Diante da enorme quantidade de material inflamável espalhado pela sociedade, uma única faísca pode desencadear uma explosão espontânea de indignação de massas — uma revolta militante de classe que ultrapasse os reformistas e os dirigentes sindicais.

Uma pesquisa de Harvard, realizada algumas semanas antes da eleição, revelou que 68% dos eleitores americanos consideram que os protestos na França foram motivados, principalmente, por problemas econômicos e pela dívida pública, pelo aumento do custo de vida ou pela desconfiança em relação às elites políticas. Três quartos dos entrevistados acreditam ser provável que os EUA enfrentem agitações semelhantes. Sinais e sintomas da revolta de classe — sob forte pressão — que cresce entre os trabalhadores americanos estão por toda parte. Mais cedo ou mais tarde, essa revolta irromperá com a mesma força e paixão observadas entre seus pares de classe na Europa e no Brasil.
Greves gerais em nível nacional, manifestações de rua que reúnam milhões de pessoas e reivindicações pela expropriação das empresas que compõem a lista “Fortune 500” podem tornar-se elementos centrais da luta de classes nos EUA, mais cedo do que imaginamos. Os acontecimentos de 23 de janeiro em Minneapolis foram apenas uma prévia do que está por vir. A tarefa dos comunistas nos EUA é preparar-se, com urgência, para esse cenário.


