A abertura de capital da SpaceX foi vendida como uma oportunidade histórica para pessoas comuns investirem na tecnologia do futuro, o que tornaria Elon Musk (brevemente) o primeiro trilionário do mundo. Mas uma análise mais detalhada da oferta da SpaceX revela contabilidade obscura, uma avaliação quase completamente dissociada da realidade e enormes lacunas na regulamentação financeira.
[Este artigo foi escrito na semana passada, mas os eventos confirmaram sua análise. O preço das ações da SpaceX primeiro subiu para US$ 220 e depois despencou para US$ 160, fazendo com que Musk perdesse seu status de trilionário. Isso desencadeou um pânico generalizado nos mercados de ações, incluindo uma queda de 10% na bolsa de valores coreana. A última rodada de refinanciamento da dívida da SpaceX também obrigou a empresa a pagar juros mais altos sobre seu empréstimo de US$ 25 bilhões, já que os investidores estão apreensivos com as perspectivas da empresa.]
A Anthropic (empresa por trás do Claude) e a OpenAI (criadora do Chat GPT) devem seguir os passos da SpaceX e realizar suas próprias ofertas públicas iniciais (IPOs) com avaliações na casa do trilhão de dólares ainda este ano. Em conjunto, essas operações representam uma enorme transferência de risco. Caso o boom da IA não se concretize como esperado, serão as economias e os fundos de previdência da classe trabalhadora que sustentarão o resgate do sistema.
O que é um IPO?
Quando uma empresa de capital fechado deseja captar recursos para sua expansão, um dos métodos que pode utilizar é a venda de ações ao público por meio de uma Oferta Pública Inicial, ou IPO em sua sigla em inglês. Em teoria, o público investe dinheiro, recebe uma participação na empresa e essa participação se valoriza à medida que a companhia cresce.
Na prática, os IPOs são frequentemente utilizados com o objetivo oposto: permitir que os fundadores e os primeiros investidores da empresa vendam suas próprias ações ao público e embolsem o valor arrecadado. No caso da oferta da SpaceX, 20% das novas ações (cerca de três vezes a alocação habitual) foram reservados para os chamados “investidores de varejo” — pessoas comuns que compram ações por meio de aplicativos como o Robinhood. Isso não é por acaso. Musk usou a mesma estratégia com a Tesla, apostando que pequenos investidores são mais propensos a seguir o entusiasmo do momento do que a analisar minuciosamente um balanço financeiro.
Com a SpaceX, essa mesma estratégia está sendo levada a patamares astronômicos. Para gerar o entusiasmo necessário e captar US$ 80 bilhões com a venda de ações, a SpaceX afirmou que a empresa vale US$ 1,8 trilhão. Isso tornaria a operação o maior IPO da história, com uma larga vantagem, e de tamanho suficiente para figurar entre as dez maiores empresas do mercado de ações dos EUA — valendo mais do que Boeing, Disney e McDonald’s somadas.
Avaliações desconectadas da realidade
A SpaceX realmente vale tudo isso? Sua divisão de foguetes lançou 80% de tudo aquilo que foi enviado à órbita da terra no ano passado… e, ainda assim, registrou um prejuízo de US$ 657 milhões. A Starlink, braço de internet via satélite da empresa, era a única parte do negócio que gerava lucro real — US$ 4,4 bilhões. No entanto, esse lucro foi consumido por uma terceira divisão: a incursão caótica de Musk na área de IA.
Após comprar o Twitter, desmantelá-lo e fundi-lo com sua empresa de IA, a xAI, Musk incorporou todo esse emaranhado à SpaceX em fevereiro passado. A xAI nunca deu lucro, e a empresa resultante da fusão acumulou um prejuízo adicional de US$ 4,3 bilhões apenas no primeiro trimestre deste ano.
Então, como a SpaceX justifica uma avaliação de mercado de US$ 1,8 trilhão? Alegando que seu mercado futuro valerá US$ 28 trilhões, dos quais apenas US$ 2 trilhões virão de foguetes e satélites. Os outros US$ 26 trilhões provêm de uma enorme aposta especulativa: a de que a IA crescerá a ponto de absorver mais de um quinto de toda a economia mundial, com a SpaceX operando uma parcela significativa desse setor por meio de centros de dados em órbita. Deixando de lado os obstáculos físicos e econômicos dessa fantasia, a “empresa de foguetes” apresentada ao público é, segundo os próprios cálculos da companhia, 93% uma aposta em um mercado de IA que, na realidade, ainda não existe.
Tal avaliação é, portanto, claramente fictícia e só pode ser justificada pela intensa atmosfera de euforia em torno da bolha da IA e pelo pequeno exército de especuladores do mercado de ações que apostam no toque de Midas de Musk. É um exemplo de como, no capitalismo moderno, a linha que separa um investimento de um esquema Ponzi tornou-se bastante tênue.
O Grande Golpe do IPO
A narrativa é que esse IPO visa investir no futuro da SpaceX. No entanto, os próprios documentos oficiais da empresa revelam que mais de três quartos dos US$ 80 bilhões arrecadados já têm destino certo: quitar um empréstimo de US$ 20 bilhões contraído para sanear as contas da xAI, repassar uma fatia à Valor Equity Partners (uma importante investidora inicial) e financiar outras aquisições. Sobra menos de um quarto do montante para, de fato, construir algo. O objetivo principal do IPO parece ser permitir que os investidores originais realizem parte de seus lucros.
Isso é ainda mais evidente nas condições oferecidas aos pequenos investidores. Isenções relacionadas a “dark pools” permitem que pessoas ligadas à empresa vendam suas ações discretamente, sem alertar o público, evitando assim a queda abrupta nos preços que uma venda repentina e visível provocaria. Por outro lado, os pequenos investidores são obrigados a abrir mão do direito de participar de ações coletivas na justiça — seu único recurso real caso as alegações da empresa se mostrem falsas.

Mas a manipulação vai além, envolvendo pessoas que sequer escolheram investir. A maior parte das reservas para aposentadoria hoje está alocada em “fundos de índice” — fundos que não selecionam ações individualmente, mas simplesmente compram uma fatia de cada empresa integrante de um índice do mercado de ações. Cerca de 44% dos ativos de investimento globais operam dessa maneira. Assim que uma empresa entra em um grande índice, todos os fundos que o acompanham são obrigados a comprar suas ações automaticamente, independentemente do preço ou de a avaliação ser razoável ou fictícia.
Normalmente, uma empresa recém-listada precisa aguardar de seis a doze meses antes de integrar um índice, a fim de comprovar sua estabilidade e lucratividade. No entanto, devido à intensa pressão de lobby dessas empresas e ao entusiasmo geral em torno da IA, alguns reguladores de índices alteraram as regras para permitir que SpaceX, Anthropic e OpenAI tenham acesso acelerado a índices como o NASDAQ-100, em questão de dias. O resultado é que esses índices gerarão um volume estimado de US$ 16 bilhões em compras compulsórias apenas nas duas primeiras semanas após a listagem da SpaceX.
Os órgãos de fiscalização perceberam a situação. Entidades de fundos de pensão que representam milhões de trabalhadores pediram aos reguladores que investigassem a oferta e eliminassem suas cláusulas mais predatórias. No entanto, é como se estivessem gritando no vazio. A administração Trump esvaziou os órgãos reguladores que, normalmente, fiscalizariam esse tipo de prática. Seus quadros foram “afastados, forçados à aposentadoria, submetidos a reestruturações drásticas e privados de sua missão”. Como disse um investidor experiente: “estamos na era de ouro da fraude”.
Qual é o grau de exposição das pessoas comuns?
A realidade é que a fronteira entre a especulação no mercado de ações e a poupança cotidiana praticamente desapareceu. Desde a década de 1980, empregadores, sindicatos e governos transferiram o risco da aposentadoria — antes baseada em pensões garantidas — para os trabalhadores individuais. Estes agora se veem obrigados a arriscar suas economias no mercado de ações por meio de planos de previdência amplamente investidos em fundos de índice.
Cerca de 60% das famílias americanas e quase 80% dos trabalhadores do Reino Unido têm suas economias vinculadas aos mercados financeiros de uma forma ou de outra. Assim, quando uma empresa sustentada por avaliações fantasiosas — e comandada por um bilionário (ou seria trilionário?) egomaníaco — força fundos de pensão a investir a preços absurdos, o trabalhador cuja aposentadoria depende desse fundo não tem voz nem recurso a que recorrer. E, como as condições impostas pela SpaceX já foram aceitas pelos órgãos reguladores, é provável que elas sirvam de modelo para as futuras aberturas de capital da Anthropic e da OpenAI.
Em outras palavras, nossas economias previdenciárias estão sendo apropriadas por Musk e pelo restante da oligarquia financeira e tecnológica para financiar suas apostas especulativas em IA. Nada disso é exclusividade de Musk ou mesmo do boom da IA. Trata-se apenas de um dos exemplos mais flagrantes de como o capitalismo socializou todo o risco que, em tese, constituía a própria razão de ser do capitalista.
O boom da IA trará retorno?
Mas será que eles estão, pelo menos, fazendo uma boa aposta? A expansão da IA gerou uma verdadeira enxurrada de investimentos. Após décadas sem encontrar investimentos lucrativos nos EUA, de repente os capitalistas acreditam ter encontrado a galinha dos ovos de ouro. No entanto, na ausência de um plano central — e com uma multidão de concorrentes aterrorizados com a possibilidade de ficarem para trás —, o capital fluiu para esse novo setor em volumes que excedem em muito a capacidade de absorção da economia real. E, até o momento, ninguém sabe como torná-lo lucrativo.

As principais empresas de IA, conhecidas como “hyperscalers”, já investiram US$ 1,1 trilhão na construção de data centers e preveem gastar entre US$ 5 trilhões e US$ 7 trilhões adicionais até 2030, recorrendo ao financiamento por meio de dívida. Essa expansão é tão intensa que, na verdade, agrava a falta de investimentos em outros setores da economia, à medida que a classe dominante dos EUA concentra todos os seus recursos em uma única aposta. Todas as empresas correm para ser uma das poucas sobreviventes quando a situação se estabilizar, visando estabelecer um monopólio e passar a cobrar preços monopolistas.
No entanto, embora a IA generativa seja certamente uma tecnologia transformadora, resta saber se o atual modelo de negócios para financiá-la é sustentável. Como observou um analista do Morgan Stanley: “fazer as contas fecharem depende tanto das oportunidades de receita quanto da durabilidade das GPUs — fatores que são altamente incertos nesta fase inicial do ciclo de investimentos em IA”. O Morgan Stanley estima que, em quatro anos, a Oracle precisará gastar 30% de sua receita apenas para substituir hardware obsoleto. Google e Meta não estão muito atrás. Nenhuma outra indústria mantém esse nível de despesas de capital contínuas.
Atualmente, todo o modelo de financiamento baseia-se no fato de empresas como xAI, Anthropic e OpenAI contraírem dívidas enormes para pagar aos proprietários de data centers (Amazon, Meta, Oracle, Microsoft, etc.) pela capacidade computacional. Elas precisariam, de alguma forma, quitar essa dívida e tornar-se lucrativas — algo que só conseguiriam fazer aumentando drasticamente os preços para seus clientes. No entanto, isso levanta sérias dúvidas sobre se valerá a pena, para esses clientes, gastar centenas de milhões na compra de créditos de IA — um problema que muitos dos maiores clientes já começam a questionar.
Uma guerra de preços já está em curso entre Google, Anthropic e OpenAI para conquistar clientes da concorrência, ao mesmo tempo em que modelos chineses de código aberto, muito mais baratos, pressionam fortemente o mercado. Uma expansão massiva e especulativa não garante que qualquer uma dessas empresas sairá vencedora, ou mesmo que haverá um vencedor.
Tudo isso ocorre em um cenário de desaceleração da economia mundial. Os trilhões investidos em IA precisam ser recuperados por meio de lucros futuros reais, os quais dependem, em última análise, do crescimento em outros setores de uma economia global já sobrecarregada por guerras comerciais, dívidas e estagnação salarial. Se esse crescimento não se concretizar, a aposta na IA não apenas deixará de trazer retorno, como também se tornará um enorme dreno para a economia mundial.
Quando a música parar
Quando o boom der lugar à quebra, não serão Musk, os bancos ou os investidores de risco que pagarão a conta. Eles terão vendido suas ações — lentamente o suficiente para evitar o colapso da cotação, mas muito antes de chegar o momento do acerto de contas. Quem corre o risco de ficar na miséria são os pequenos investidores atraídos pelo hype e os milhões de trabalhadores cujos fundos de pensão foram forçados a investir nessas ações devido a regras de índices com as quais jamais concordaram.
Caso ocorra um colapso do setor de IA, já estão sendo preparados os argumentos para resgates públicos nos moldes de 2008. OpenAI, Anthropic e SpaceX tornaram-se empresas “grandes demais para quebrar” sob a ótica da disputa do imperialismo americano contra uma China em ascensão.
Todo esse fenômeno ilustra vividamente como o capitalismo realmente desenvolve novas tecnologias: não por meio de investimentos planejados e voltados para necessidades humanas reais, mas através de uma concorrência anárquica, investimentos excessivos e imprudentes e uma corrida desenfreada pelo monopólio — sendo que os custos, o desperdício e as consequências negativas acabam recaindo sobre a classe trabalhadora.
Já existe uma forte reação contrária à IA em curso. Apenas 16% dos americanos acreditam que a IA terá um impacto positivo na sociedade; essa percepção está cada vez mais associada à revolta contra Wall Street e contra as empresas de tecnologia que utilizam a IA para nos vigiar, degradar e explorar. O ódio à IA funde-se a um amplo sentimento de hostilidade dirigido ao sistema capitalista e aos seus defensores. Se as bolhas especulativas da economia mundial viessem a estourar no atual cenário político, a reação não seria contida como ocorreu após a crise financeira de 2008. Ela atingiria todos os setores das classes trabalhadora e média, segmentos que foram radicalizados por quase duas décadas de crise.


