Hoje marca o 10º aniversário da morte de Hugo Chávez. Para homenagear o legado desse corajoso lutador de classe, republicamos abaixo um obituário, escrito por Alan Woods na ocasião de seu falecimento. O artigo oferece uma análise detalhada do papel do presidente venezuelano na Revolução Bolivariana, bem como de sua relação com as massas. Para uma compreensão mais aprofundada, gostaríamos também de chamar a atenção dos leitores para a obra Permanent Revolution in Latin America (“Revolução Permanente na América Latina”), publicada em 2018 pela Wellred Books. O livro apresenta uma história dos movimentos revolucionários na Venezuela, bem como em Cuba e na Nicarágua, sob uma perspectiva marxista.
Ao fazê-lo, Permanent Revolution in Latin America expõe o papel nefasto da burguesia nacional ao colaborar com o imperialismo. Em última análise, como demonstra a própria trajetória de Chávez, apenas a classe trabalhadora é capaz de realizar as tarefas da revolução e pôr fim à exploração, de uma vez por todas. Permanent Revolution in Latin America pode ser adquirido por meio da Wellred Books, aqui.
Hugo Chávez não está mais entre nós. Sempre um lutador, Chávez passou seus últimos meses em uma batalha de vida ou morte contra um inimigo cruel e implacável: o câncer. Ele lutou bravamente até o fim, mas, por fim, suas forças se esgotaram. Na terça-feira, 5 de março, às 16h25, a causa da liberdade, do socialismo e da humanidade perdeu um grande homem, e o autor destas linhas perdeu um grande amigo.
Embora o governo já tivesse informado sobre a deterioração da saúde de Chávez, com uma nova e grave infecção respiratória, a notícia de sua morte foi um choque. Conheci o presidente como um homem saudável, enérgico e exuberante, tão cheio de vida e de desejo de viver e lutar que sua morte parece ainda mais inacreditável. Aos 58 anos — uma idade prematura demais —, o líder da Revolução Bolivariana nos foi arrebatado.
O pesar dos trabalhadores e das pessoas pobres manifestou-se quando centenas de milhares foram às ruas e praças, aos prantos. Segundo algumas estimativas, dois milhões de pessoas marcharam em Caracas no dia de seu funeral.
A voz dos despossuídos
Independentemente do que se pense sobre Chávez, ele rompeu a represa e abriu as comportas. Ousou enfrentar o poder da oligarquia e desafiar a força do imperialismo americano. Mesmo seus inimigos declarados e críticos não podem negar que ele demonstrou uma coragem colossal. E, ao dar esse exemplo de coragem, despertou forças imensas que permaneceram latentes nas profundezas da sociedade venezuelana por gerações.
Hugo Chávez falou pelos pobres, pelos despossuídos, pelos “malditos da terra”, e deu voz aos milhões que não tinham voz. Eles jamais se esqueceram disso. Ele conquistou um novo e retumbante apoio ao ser triunfalmente reeleito presidente em outubro passado.
A Revolução implementou reformas profundas em benefício dos trabalhadores e das camadas mais pobres da população, especialmente nas áreas de saúde e educação. Mais recentemente, lançou um plano ambicioso de habitação: nos últimos dois anos, foram construídas e entregues 250 mil moradias a famílias que delas necessitavam — um contraste marcante com a Espanha, por exemplo, onde, no mesmo período, ocorreram 250 mil retomadas de imóveis por inadimplência hipotecária.
Enquanto outros governos anunciam cortes drásticos nos gastos com saúde e educação públicas, a Venezuela estabeleceu um sistema de saúde pública gratuito e ampliou significativamente o acesso à educação em todos os níveis, incluindo o ensino superior gratuito. Na Europa — particularmente nos países capitalistas mais fragilizados do sul do continente —, o desemprego atingiu proporções epidêmicas; na Espanha e na Grécia, mais de 60% dos jovens estão desempregados. A Revolução Bolivariana, por sua vez, reduziu de forma expressiva a pobreza e o desemprego. Ainda assim, a mídia capitalista insiste em falar de um “caos econômico” na Venezuela! Trata-se de uma completa inversão da verdade.
No entanto, a conquista mais importante da Revolução possui um caráter intangível — pode-se dizer, moral. Ela conferiu às massas a consciência de sua própria dignidade como seres humanos, incutiu um aguçado senso de justiça, proporcionou-lhes uma nova percepção de seu próprio poder e lhes deu uma nova confiança. Trouxe-lhes esperança no futuro. Do ponto de vista da classe dominante e do imperialismo, isso representa um perigo mortal.
A Revolução Bolivariana de Hugo Chávez constituía uma ameaça direta ao imperialismo norte-americano, devido ao exemplo que oferecia às massas oprimidas no restante da América Latina. Desde a proclamação da Doutrina Monroe, os governantes dos EUA passaram a encarar a América Latina como seu próprio quintal particular. Uma onda revolucionária varria todo o continente latino-americano, e Hugo Chávez atuou como um poderoso catalisador desse movimento revolucionário em toda a região. Isso fez dele o inimigo público número um de Washington.
No início, a oligarquia venezuelana não sabia o que pensar de Chávez. Achavam que ele seria como qualquer outro político venezuelano. Ou seja, que estava à venda. Assim que perceberam que não podiam comprar Chávez, puseram em marcha planos para derrubá-lo. Em 11 de abril de 2002, organizaram um golpe. Por trás dele havia forças poderosas: latifundiários, banqueiros, capitalistas, a mídia, a Igreja, generais, chefes de polícia, líderes sindicais corruptos e a CIA.
Chávez foi preso e levado à força. Os golpistas instalaram-se no Palácio de Miraflores. Mas, em menos de 48 horas, foram derrubados por um levante espontâneo das massas. Unidades do exército leais a Chávez juntaram-se às massas, e o golpe fracassou de forma ignominiosa em 13 de abril. Pela primeira vez na história da Venezuela, as massas derrotaram um golpe. Na realidade, o poder estava em suas mãos, mas, tragicamente, elas não o sabiam. Perdeu-se uma grande oportunidade.
Chávez era um ditador?
O ódio que a classe dominante demonstrava por Chávez era o ódio dos ricos pelos pobres, dos exploradores pelos explorados. Por trás desse ódio, havia medo — medo da perda de suas riquezas, de seu poder e de seus privilégios. Isso refletia a divisão de classe fundamental da sociedade. E essa divisão jamais foi eliminada. Pelo contrário, intensificou-se de forma constante até a sua morte — e continuou após ela.
Não me recordo de uma campanha de tamanha ferocidade na mídia como a que foi desencadeada contra Hugo Chávez durante a sua vida. Jamais houve uma manifestação tão intensa de ódio, malícia, rancor e veneno. Nunca a chamada “imprensa livre” recorreu a tantas distorções, falsificações e mentiras deslavadas. E a avalanche de lama continua a jorrar.
As alegações maldosas dos inimigos da Revolução, segundo as quais Chávez seria um ditador, sempre foram irônicas. Independentemente do que se pense sobre Hugo Chávez, ele certamente não era um ditador. Ele venceu mais eleições e outros processos eleitorais do que qualquer outro líder político no mundo.
Na verdade, a Revolução Bolivariana tem sido extraordinariamente tolerante com seus opositores que, vale lembrar, organizaram um golpe ilegal contra um governo democraticamente eleito em 2002. Eles parecem reclamar bastante de supostos maus-tratos, mas não vejo fundamento para essas queixas.
Durante anos, a mídia de oposição pôde difamar o Presidente da maneira mais escandalosa, defendendo sua derrubada e até mesmo seu assassinato. Você acha que isso seria permitido nos Estados Unidos? A RCTV, a Globovisión e a Venevisión — todas emissoras de televisão privadas — desempenharam um papel muito ativo na organização do golpe de 2002. Se qualquer emissora de televisão britânica tivesse feito um décimo do que elas fizeram, teria sua licença cassada antes mesmo de conseguir dizer “David Cameron”, e seus proprietários estariam sendo julgados com base nas leis antiterrorismo. Na Venezuela, foram necessários mais de quatro anos para que alguma medida fosse tomada contra elas: a RCTV teve a renovação de sua licença para transmissão em sinal aberto negada, mas pôde continuar operando por meio da TV a cabo.
Ainda assim, a oposição tem reclamado que a eleição presidencial de 14 de abril foi convocada cedo demais. Mas, se o governo não tivesse convocado as eleições — como era seu dever, segundo a Constituição —, estariam reclamando de ditadura. Ninguém impediu a oposição de participar do pleito. O problema é que eles perderam. Mas é isso a democracia! A oposição, se pretende ser verdadeiramente democrática, deve começar respeitando a vontade da maioria da população, em vez de utilizar seu poder econômico e o controle dos meios de comunicação para sabotar a vontade democrática do povo.
O papel do indivíduo na história
O marxismo não nega o papel do indivíduo na história. Ele apenas afirma que os indivíduos, por mais capazes que sejam, nunca são agentes totalmente livres. Seu papel é sempre limitado e condicionado por circunstâncias que fogem ao seu controle. Contudo, quando surge uma determinada conjunção de circunstâncias, faz-se necessária a presença de homens e mulheres com um perfil específico, capazes de aproveitá-las para mobilizar milhões de pessoas.
Sem dois homens — Lênin e Trotsky —, a Revolução Russa de 1917 jamais teria triunfado. E, no entanto, durante a maior parte de suas vidas, esses mesmos homens integraram uma minoria ínfima, isolados das massas e incapazes de influenciar os acontecimentos de maneira decisiva. Sem o “Caracazo“, em fevereiro de 1989, é bem possível que Hugo Chávez tivesse permanecido como um oficial do exército, seguindo uma carreira militar convencional e permanecendo desconhecido do grande público.
Mas há um outro lado da questão. Sem as suas ações, é também possível que esses eventos trágicos tivessem passado para a história como uma mera nota de rodapé. A sociedade e a política venezuelanas teriam retornado àquela rotina monótona determinada pela tradição e pela inércia do hábito. O papel pessoal de Chávez foi decisivo. Ele atuou como um catalisador que, quando todas as condições estão presentes, produz uma mudança drástica.
Perto do fim de sua vida, Friedrich Engels escreveu:
“Os homens fazem a sua própria história, mas ainda não com uma vontade coletiva, segundo um plano coletivo ou mesmo dentro de uma sociedade definida e delimitada. Suas aspirações chocam-se e, justamente por isso, todas essas sociedades são regidas pela necessidade, cujo complemento e forma de manifestação é o acaso. A necessidade que, aqui, se impõe em meio a todos os acasos é, em última análise, uma necessidade econômica. É nesse ponto que entram em cena os chamados ‘grandes homens’. O fato de um determinado indivíduo — e precisamente esse indivíduo — surgir em um dado momento e em um dado país é, naturalmente, puro acaso. Contudo, se o retirarmos, surgirá a demanda por um substituto; e esse substituto acabará sendo encontrado — bom ou mau, mas, a longo prazo, ele será encontrado.” (Engels, Carta a Borgius, 25 de janeiro de 1894, Correspondência de Marx e Engels, pp. 467-468)
As palavras importantes aqui são: “bom ou mau”. A qualidade dos líderes individuais é extremamente importante. Se eu tenho um bom dentista e ele adoece, não tenho dúvidas de que um substituto será encontrado — “bom ou mau”. Mas não me é indiferente se o substituto é um dentista competente ou não. A situação é ainda mais grave no caso de uma guerra.
Se Napoleão não estivesse presente na Batalha de Austerlitz, os franceses teriam encontrado um substituto, é claro. Mas se esse substituto teria sido capaz de vencer a batalha é uma questão totalmente diferente. O mesmo ocorre com as revoluções. Se Lênin e Trotsky não estivessem presentes em novembro de 1917, sabemos quem os teria substituído: Stalin, Zinoviev e Kamenev. Sabemos também que, sob a liderança deles, a Revolução Russa jamais teria triunfado. “Bom ou mau” faz toda a diferença.
A personalidade de um indivíduo pode exercer influência sobre os processos históricos. Para mim, o que é interessante é a relação dialética entre sujeito e objeto — ou, como Hegel a teria definido, entre o Particular e o Universal. Seria muito instrutivo escrever um livro sobre a relação exata entre Hugo Chávez e a Revolução Venezuelana. A existência dessa relação é inquestionável. Se ela é positiva ou negativa, isso dependerá da perspectiva de classe que se defende.
Do ponto de vista das massas, dos pobres e dos oprimidos, Hugo Chávez foi o homem que os colocou de pé e que, por meio de sua inegável coragem pessoal, os inspirou a realizar atos de heroísmo inigualável.
Chávez e as massas
Há alguns anos, quando eu estava na Itália participando de uma série de palestras, um jornalista de esquerda do Il Manifesto me perguntou, em tom perplexo: “Mas, Alan, o que a situação na Venezuela tem em comum com o modelo clássico de revolução proletária?”. Em resposta, citei as palavras de Lênin: “Quem quiser ver uma revolução ‘pura’ jamais a verá. Essa pessoa fala de revolução, mas não sabe o que é uma revolução”.
Uma revolução é, em essência, uma situação em que as massas passam a participar ativamente da política e a tomar o seu destino nas próprias mãos. Leon Trotsky — que, afinal, entendia um pouco sobre revoluções — responde da seguinte maneira:
“A característica mais inquestionável de uma revolução é a interferência direta das massas nos acontecimentos históricos. Em tempos normais, o Estado — seja monárquico ou democrático — eleva-se acima da nação, e a história é feita por especialistas nesse ramo: reis, ministros, burocratas, parlamentares, jornalistas. Mas, nos momentos cruciais em que a velha ordem se torna insuportável para as massas, estas rompem as barreiras que as excluem da arena política, afastam seus representantes tradicionais e, por meio de sua própria intervenção, lançam as bases para um novo regime. Se isso é bom ou mau, deixamos ao juízo dos moralistas. Nós, por nossa vez, tomamos os fatos tal como se apresentam no curso objetivo do desenvolvimento. Para nós, a história de uma revolução é, antes de tudo, a história da entrada impetuosa das massas no domínio do controle sobre o seu próprio destino.” (L. Trotsky, História da Revolução Russa, Prefácio)
Esse é, certamente, o caso na Venezuela. O despertar das massas e sua participação ativa na política constituem a característica mais decisiva da Revolução Venezuelana e o segredo de seu sucesso.
A relação entre Hugo Chávez e as massas era muito complexa e dialética. Tive a oportunidade de constatar isso pessoalmente, por diversas vezes, ao comparecer a comícios de massas nos quais ele se dirigia ao povo. Ele despertava um entusiasmo e uma devoção colossais. Vimos essas mesmas emoções nas ruas de Caracas, nos dias que antecederam e sucederam seu funeral.
Quando Chávez falava aos trabalhadores e camponeses, o efeito era sempre eletrizante. Nessas ocasiões, podia-se sentir uma espécie de reação química entre Chávez e as massas. Era inegável a intensa lealdade que as massas pobres e oprimidas nutriam por esse homem. Pela primeira vez, Hugo Chávez deu aos pobres e oprimidos uma voz e um pouco de esperança. Esse é o segredo da extraordinária devoção e lealdade que sempre lhe demonstraram. Ele os despertou para a vida, e eles se veem nele.
Os inimigos de Chávez à direita jamais conseguiram compreender a razão disso. Não podiam compreendê-la porque são organicamente incapazes de entender a dinâmica da própria revolução. A classe dominante e suas prostitutas intelectuais jamais podem aceitar que as massas possuam mente e personalidade próprias — que sejam uma força tremendamente criativa, capaz não apenas de transformar a sociedade, mas também de administrá-la. Jamais podem admitir tal coisa, pois fazê-lo seria reconhecer a sua própria falência e confessar que não constituem um agente social necessário e indispensável, dotado de um direito divino de governar, mas sim uma classe supérflua e parasitária, um obstáculo reacionário ao progresso.
Mas não foram apenas os burgueses que se mostraram incapazes de compreender o que estava acontecendo na Venezuela. Muitos, à esquerda, foram igualmente incapazes de entender esse fenômeno. Incapazes de adotar a perspectiva das massas, assumiram uma postura arrogante, como se as massas — em cujo nome viviam falando — fossem crianças ignorantes que precisavam ser educadas por eles. Para infelicidade desses “esquerdistas”, as massas não demonstraram o menor interesse por esses pretensos educadores ou por suas lições.
Como podemos explicar a química peculiar que existia entre Hugo Chávez e as massas? É verdade que ele possuía dons singulares como comunicador: uma personalidade poderosa, um intelecto penetrante e uma compreensão profunda da psicologia e das aspirações das massas. No entanto, o verdadeiro segredo não reside no campo da psicologia, mas sim nas relações entre as classes.
As massas viam a si mesmas refletidas em Chávez. Identificavam-se com ele como o homem que, pela primeira vez, as despertou para a vida política e deu voz às suas aspirações. Elas personificavam a Revolução nele. Para elas, Hugo Chávez e a Revolução eram uma coisa só. Escrevi sobre as minhas impressões quando presenciei isso pela primeira vez, em abril de 2004:
“Enquanto ele falava, pude observar a reação das massas no telão atrás do presidente. Idosos e jovens, homens e mulheres — em sua esmagadora maioria, pertencentes à classe trabalhadora — ouviam atentamente, absorvendo cada palavra. Aplaudiam, vibravam, riam e até choravam, ali mesmo, onde estavam. Esse era o rosto de um povo despertado, um povo que tomou consciência de si mesmo como participante ativo do processo histórico — o rosto de uma revolução.”
O processo funcionava em ambas as direções. Chávez extraía sua força do apoio das massas, com as quais se identificava plenamente. Ele estabelecia uma conexão com elas por meio de sua maneira de falar — espontânea e totalmente desprovida da formalidade rígida do político profissional. Se, por vezes, havia falta de clareza, até mesmo isso refletia o estágio em que se encontrava o movimento de massas. A identificação era total.
Minhas relações com Chávez
Conheci Hugo Chávez por quase uma década e mantive excelentes relações com ele desde o nosso primeiro encontro, em abril de 2004. Ele me causou uma impressão muito profunda e, sempre que se referia a mim, fazia-o de forma afetuosa, chamando-me de amigo. Ele lia meus livros e teve a gentileza de elogiá-los e recomendá-los publicamente em diversas ocasiões.
Nossa relação era, portanto, de natureza política e ideológica. Contudo, as tentativas da oposição de me descrever como seu conselheiro — ou até mesmo como seu “guru” político — eram inteiramente falsas. Tratava-se de uma tentativa mal dissimulada de inventar algum tipo de influência estrangeira nefasta sobre o presidente. Na verdade, não era nada fácil influenciar o presidente Chávez; ele era um homem muito inteligente, independente e dotado de uma vontade muito forte.
Hugo Chávez possuía uma energia inesgotável. Ele parecia estar sempre transbordando de energia e falando sem parar sobre os mais variados assuntos. Isso não tornava fácil trabalhar com ele, como me contou sua secretária pessoal: “Eu faria qualquer coisa por ele, mas não há um momento de paz. Às vezes, não consigo nem ir ao banheiro. Começo a caminhar naquela direção e alguém grita: ‘O presidente quer falar com você!’”. Ele próprio não era um homem que se cansasse facilmente. Tinha reservas imensas de energia; começava a trabalhar todos os dias antes das 8 horas e seguia até por volta das três da manhã. Perguntei-lhe se, depois disso, ele ia dormir. Ele respondeu: “Não. Então, eu leio”.

Conheci Chávez pela primeira vez em abril de 2004, quando participei do Segundo Encontro Internacional de Solidariedade com a Revolução Venezuelana, realizado no segundo aniversário da derrota da tentativa de contrarrevolução de abril de 2002. Poucas pessoas que conheci ao longo da vida deixaram em mim uma impressão tão profunda e duradoura.
Segurando firmemente a minha mão estendida, ele olhou para mim com curiosidade: “Que livro você disse?”
“Reason in Revolt”.
Um sorriso largo iluminou seu rosto. “Esse é um livro fantástico! Meus parabéns.”
Então, olhando ao seu redor, ele anunciou: “Todos vocês precisam ler este livro!”
Eu estava prestes a sair, para permitir que outros conhecessem o Presidente, quando ele me deteve. Parecia, naquele momento, alheio a tudo ao seu redor e falou com evidente entusiasmo: “Sabe, mantenho esse livro na minha cabeceira e leio um pouco todas as noites. Já cheguei ao capítulo sobre ‘O processo molecular da revolução’. Sabe, aquele em que você escreve sobre a energia de Gibbs”. Ao que parece, esse trecho causou-lhe um impacto considerável, já que ele o cita constantemente em seus discursos. Provavelmente, o Sr. Gibbs nunca foi tão famoso antes.
Mais tarde, fui convidado a encontrar o presidente no Palácio de Miraflores. Disseram-me que eu teria quinze ou, no máximo, vinte minutos. Na verdade, conversamos durante uma hora e meia. Ao entrar em seu gabinete, ele estava sentado à sua mesa, com um enorme retrato de Simón Bolívar atrás de si. Sobre a mesa, notei um exemplar de Reason in Revolt e uma carta que eu lhe havia enviado. A carta estava bastante sublinhada em azul.
Chávez me recebeu de forma muito calorosa. Não havia ali protocolo algum, apenas abertura e franqueza. Ele começou perguntando sobre o País de Gales e a origem da minha família. Expliquei que vinha de uma família da classe trabalhadora, ao que ele respondeu que vinha de uma família de camponeses. “Bem, Alan, o que você tem a dizer?”, perguntou ele. Na verdade, eu estava mais interessado no que ele tinha a dizer — o que, por sinal, foi muito interessante.
Primeiro, presenteei-o com dois livros: a minha história do Partido Bolchevique (Bolchevismo: o caminho para a revolução) e Rússia – da Revolução à Contrarrevolução, de Ted Grant. Ele pareceu extremamente satisfeito. “Adoro livros”, disse-me ele. “Se forem bons livros, adoro-os ainda mais. Mas, mesmo que sejam livros ruins, continuo a adorá-los.”
Agitação no meio militar
Ao abrir o livro sobre o bolchevismo, ele leu a dedicatória que eu havia escrito, que dizia: “Ao presidente Hugo Chávez, com meus melhores votos. O caminho para a revolução passa pelas ideias, pelo programa e pelas tradições do marxismo. Rumo à vitória!”. Ele comentou: “Essa é uma dedicatória maravilhosa. Obrigado, Alan”. Ele começou a folhear o livro e parou.
“Vejo que você escreve sobre Plekhanov.”
“Exatamente.”
“Li um livro de Plekhanov há muito tempo, e ele me marcou profundamente. Chamava-se *O Papel do Indivíduo na História*. Você o conhece?”
“Claro.”
“O papel do indivíduo na história…”, refletiu ele. “Bem, sei que nenhum de nós é, de fato, indispensável”, disse.
“Isso não é exatamente correto”, respondi. “Há momentos na história em que um indivíduo pode fazer uma diferença fundamental.”
“Sim, fiquei satisfeito ao ver que, em Razão em Revolta, você afirma que o marxismo não pode ser reduzido a fatores econômicos.”
“Exatamente. Isso é uma caricatura vulgar do marxismo.”
“Sabe quando li o livro de Plekhanov, O Papel do Indivíduo na História?”, perguntou ele.
“Não faço ideia.”
“Li quando era oficial na ativa em uma unidade antiguerrilha nas montanhas. Sabe, davam-nos material de leitura para que pudéssemos entender a subversão. Li que os subversivos atuam junto ao povo, defendem seus interesses e conquistam seus corações e mentes. Pareceu-me uma ideia muito boa!”
“Então, comecei a ler o livro de Plekhanov, e ele me causou uma profunda impressão. Lembro-me de que era uma bela noite estrelada nas montanhas; eu estava em minha tenda, lendo à luz de uma lanterna. O que li me fez refletir, e comecei a questionar o que eu estava fazendo no exército. Fiquei muito infeliz.
“Sabe, para nós não havia problema algum — movermo-nos pelas montanhas com fuzis nas mãos. Os guerrilheiros também não tinham problemas; faziam exatamente o mesmo que nós. Mas quem sofria eram os camponeses comuns. Eles estavam indefesos e passavam por momentos muito difíceis. Lembro-me de que, certo dia, entramos em um vilarejo e vi alguns soldados torturando dois camponeses. Exigi que parassem imediatamente, deixando claro que, enquanto eu estivesse no comando, nada daquilo aconteceria.”
“Bem, isso realmente me meteu em apuros. Chegaram a querer me levar a julgamento por insubordinação militar. [Ele deu ênfase especial às duas últimas palavras]. Depois disso, decidi que o exército não era lugar para mim. Eu queria sair, mas fui impedido por um velho comunista que me disse: ‘Você é mais útil à Revolução dentro do exército do que dez sindicalistas’. Então, fiquei. Hoje, acho que foi a decisão certa.
“Sabe de uma coisa? Eu cheguei a formar um exército naquelas montanhas. Era um exército de cinco homens. Mas tínhamos um nome bem comprido. Chamávamos a nós mesmos de ‘Exército de Libertação Nacional Popular Simón Bolívar’.” Ele riu com vontade.
“Quando foi isso?”, perguntei.
“Em 1974. Veja bem, pensei comigo mesmo: esta é a terra de Simón Bolívar. Deve haver algo do espírito dele ainda vivo — algo em nossos genes, suponho. Então, começamos a tentar reavivá-lo.”
Chávez continuou, como se estivesse pensando em voz alta:
“Dois anos atrás, na época do golpe, quando fui preso e estava sendo levado, pensei que seria fuzilado. Perguntei a mim mesmo: será que os últimos 25 anos da minha vida foram desperdiçados? Será que tudo foi em vão? Mas não foi em vão, como demonstrou a revolta do regimento de paraquedistas.”
Chávez relembra o golpe
Chávez falou comigo extensamente sobre o golpe. Ele relatou como foi mantido em completo isolamento. Os rebeldes queriam pressioná-lo a assinar um documento renunciando ao cargo. Depois, permitiriam que ele partisse para o exílio em Cuba ou em outro lugar. Queriam fazer o que fizeram recentemente com Aristide, no Haiti. A intenção não era matá-lo fisicamente, mas moralmente — desacreditá-lo aos olhos de seus seguidores. Mas ele se recusou a assinar.
Os conspiradores recorreram a todo tipo de artimanha para levá-lo a renunciar. Chegaram até a usar a Igreja (sobre a qual Chávez falava de maneira muito cáustica).
“Sim, chegaram a enviar o cardeal para me convencer. Ele me contou um monte de mentiras: que eu não tinha apoio, que todos haviam me abandonado; que o exército apoiava firmemente o golpe. Eu não tinha informações e estava completamente isolado do mundo exterior. Mas, ainda assim, recusei-me a assinar.
“Meus captores estavam ficando muito nervosos. Recebiam inúmeras ligações de Washington exigindo saber onde estava a carta de renúncia assinada. Quando viram que a carta não saía, ficaram desesperados. O cardeal insistiu para que eu assinasse, a fim de evitar uma guerra civil e derramamento de sangue. Mas, então, notei uma mudança repentina em seu tom. Ele se tornou cortês e conciliador. Pensei comigo mesmo: se ele está falando assim, alguma coisa deve ter acontecido.
“Foi então que o telefone tocou. Um dos meus captores disse: ‘É o ministro da Defesa. Ele quer falar com o senhor’. Eu disse que não falaria com nenhum golpista. Ele então retrucou: ‘Mas é o seu ministro da Defesa’. Arranquei o telefone da mão dele e ouvi uma voz que soava como o sol. Não sei se dá para dizer isso, mas, de qualquer forma, foi exatamente essa a impressão que tive.”
A partir dessa conversa, pude formar uma impressão sobre Chávez como pessoa. A primeira coisa que chama a atenção é que ele era de uma honestidade transparente. Sua sinceridade era absolutamente evidente, assim como sua dedicação à causa da Revolução e seu ódio à injustiça e à opressão. É claro que essas qualidades, por si sós, não bastam para garantir a vitória da revolução, mas certamente explicam sua enorme popularidade junto às massas.
O chicote da contrarrevolução
Após a derrota do golpe, teria sido possível realizar uma revolução socialista de forma rápida e indolor. Infelizmente, a oportunidade foi perdida, e permitiu-se que os reacionários se reagrupassem e organizassem uma nova tentativa — a chamada “greve” (que, na realidade, foi um locaute patronal) —, a qual causou sérios danos à economia. Essa nova investida foi derrotada pelos trabalhadores, que assumiram o controle das fábricas e das instalações petrolíferas, expulsando os reacionários. Mais uma vez, surgiu a possibilidade de uma transformação radical sem a eclosão de uma guerra civil. E, mais uma vez, a oportunidade foi perdida.
A luta pelo socialismo
Em nosso primeiro encontro, ele me perguntou o que eu achava do movimento na Venezuela. Respondi que era algo muito impressionante, que as massas eram, claramente, a principal força motriz e que todos os ingredientes estavam presentes para levar a revolução até o fim, mas que faltava algo. Ele perguntou o que seria. Respondi que a fraqueza do movimento residia na ausência de uma ideologia claramente definida e de quadros. Ele concordou.
“Sabe, não me considero marxista porque não li livros marxistas o suficiente”, disse ele.
Dessa conversa, fiquei com a nítida impressão de que Hugo Chávez buscava ideias, que estava genuinamente interessado nas ideias do marxismo e ansioso por aprender. Na época, escrevi: “Isso está relacionado à etapa que a Revolução Venezuelana alcançou. Mais cedo do que muitos esperam, ela se deparará com uma escolha decisiva: ou liquidar o poder econômico da oligarquia ou caminhar rapidamente para a derrota”. Os acontecimentos posteriores demonstraram que minhas primeiras impressões eram fundamentadas.
Hugo Chávez desempenhou um papel muito importante ao reabrir o debate sobre o socialismo, num momento em que muitos já o haviam descartado. O presidente recomendava frequentemente a leitura das obras de Marx, Lênin e Trotsky. Isso foi extremamente positivo.
O desenvolvimento das ideias políticas de Hugo Chávez representou uma evolução, na qual muitos fatores estiveram envolvidos. Ele se desenvolveu e ganhou estatura juntamente com a Revolução. A Revolução, por si só, é uma grande escola na qual milhões de homens e mulheres aprendem por meio de sua própria experiência. Lênin, um dos maiores teóricos marxistas, disse certa vez que, para as massas, uma grama de prática vale mais do que uma tonelada de teoria.
Essa curva de aprendizado da Revolução não é uma linha reta. Há momentos em que a Revolução avança, arrebatando tudo o que encontra pelo caminho. Mas há também momentos de cansaço, desapontamento e até mesmo desespero. Podem ocorrer todo tipo de contratempos, confusões, recuos e erros. Contudo, após cada contratempo, as massas aprendem com seus erros, tiram conclusões e alcançam um patamar superior. O propósito de um partido e de uma liderança revolucionários é ajudar a manter o número de erros no nível mínimo possível.
Seria possível apontar toda uma série de contradições, hesitações e inconsistências na evolução política de Chávez ao longo dos últimos quatorze anos. Contudo, a orientação geral manteve-se sempre à esquerda. A razão para essas contradições deve ser buscada nas pressões exercidas sobre o Movimento Bolivariano por forças de classe antagônicas.
Havia a pressão da burguesia e do imperialismo — refletida pela ala direita do Movimento Bolivariano e pela burocracia contrarrevolucionária — e a pressão dos trabalhadores e camponeses, que se manifestava com força na base do PSUV. Tais pressões, por vezes, empurravam o Movimento para a direita, mas esse movimento era contrabalançado pela pressão vinda da base.
Em janeiro de 2005, o presidente Chávez proferiu um discurso no estádio Gigantinho, durante a sessão de encerramento do Fórum Social Mundial em Porto Alegre, Brasil. Nesse discurso, ele afirmou: “A cada dia estou mais convencido — não tenho a menor dúvida — de que, como muitos intelectuais já disseram, é necessário transcender o capitalismo. Mas o capitalismo não pode ser transcendido a partir de dentro dele mesmo; isso deve ocorrer por meio do socialismo — o verdadeiro socialismo, pautado pela igualdade e pela justiça. Estou também convencido de que é possível realizar isso no âmbito da democracia, mas não no tipo de democracia que vem sendo imposta por Washington. […] É impossível, dentro da estrutura do sistema capitalista, resolver os graves problemas de pobreza que afetam a maior parte da população mundial. Precisamos transcender o capitalismo. Contudo, não podemos recorrer ao capitalismo de Estado, o que representaria a mesma perversão que ocorreu na União Soviética”.
Eu estava presente em um comício em Caracas quando Chávez fez, pela primeira vez, a declaração dramática de que era socialista. Se não me engano, foi em dezembro de 2004. Ele falava no Teatro Teresa Carreño, em Caracas, que estava repleto de trabalhadores e jovens vestindo camisas vermelhas. Após falar por um bom tempo, ele subitamente jogou seus papéis de lado e disse:
“Agora, quero dizer algo a vocês, da minha própria parte. Nos últimos anos, tenho refletido muito. Tive muitas experiências. Li bastante. Participei de muitas discussões. E cheguei à seguinte conclusão: EU SOU SOCIALISTA!”
Nesse momento, o salão explodiu em aplausos entusiasmados e gritos de comemoração. Eram as palavras que as pessoas queriam ouvir. Mas notei algo bastante estranho. Eu estava sentado na parte da frente do salão, com Adan Chávez, irmão do presidente, cercado por ministros do governo. Percebi que nem todos os ministros estavam aplaudindo.
Chávez disse: “Eu estava aprendendo, na realidade (…) especialmente após o golpe de abril de 2002, após a investida imperialista — aquela ação desenfreada, com sabotagem econômica e terrorismo —, percebi que a única maneira de sermos livres, de a Venezuela ser um país livre e independente — o único estado no qual o povo pode desfrutar dos benefícios da igualdade e da justiça social —, é o socialismo.”
Não sei dizer, com certeza, que papel meus escritos desempenharam nessa evolução. Mas houve um episódio que talvez lance alguma luz sobre essa questão. Durante o Festival Mundial da Juventude, em 2005, fui convidado para participar de uma mesa-redonda em Caracas, na qual o presidente falou, proferindo um discurso bastante radical, no qual citou Marx, Trotsky e Rosa Luxemburgo. Ao final, apertei sua mão e o parabenizei pelo discurso. Ele continuou segurando minha mão e disse, olhando-me diretamente nos olhos: “Não, apenas algumas reflexões sobre ideias que aprendi com você”.
Mais tarde, no programa Aló Presidente (domingo, 27 de julho de 2008), ele mencionou meu livro Reformismo ou Revolução: Marxismo e Socialismo do Século XXI da seguinte forma: “Vejam, Alan Woods, ‘Reformismo ou Revolução’; reformismo, até quando? Estou lendo-o com muita atenção; estou fazendo anotações sobre este livro”. Em outra ocasião, ele afirmou: “A Revolução tem aliados em todo o mundo. Um desses aliados é a Corrente Marxista Internacional. Marx retornou, e com ele, suas ideias, que são uma parte insubstituível das ideias desta revolução”.
O câncer da burocracia
Uma revolução bem-sucedida sempre tem muitos “amigos”. Aqueles elementos da classe média atraídos pelo poder como moscas a um pote de mel, prontos para exaltar a revolução enquanto ela se mantém no poder, que nada fazem de útil para salvá-la de seus inimigos, que derramam algumas lágrimas de crocodilo quando ela é derrubada e, no dia seguinte, passam para o próximo item da agenda da vida — tais “amigos” não valem nada. Um amigo de verdade não é aquele que sempre lhe diz que você tem razão. Um amigo de verdade é aquele que não tem medo de olhar nos seus olhos e dizer que você está enganado.
Os melhores amigos da Revolução Venezuelana — na verdade, seus únicos amigos de verdade — são a classe trabalhadora mundial e seus representantes mais conscientes: os marxistas revolucionários. São eles que moverão céus e terra para defender a Revolução Venezuelana contra seus inimigos. Ao mesmo tempo, os verdadeiros amigos da Revolução — amigos honestos e leais — sempre dirão o que pensam, sem medo. Quando considerarmos que o caminho correto está sendo seguido, elogiaremos. Quando acharmos que erros estão sendo cometidos, faremos críticas fraternas, porém firmes. Que outro tipo de comportamento se poderia esperar de verdadeiros revolucionários e internacionalistas?
A Revolução enfrenta muitos perigos, não apenas externos, mas também internos. Há alguns anos, o presidente Chávez me disse: “Há governadores e prefeitos demais que, depois de eleitos, cercam-se de homens ricos e mulheres bonitas, esquecendo-se do povo”. Em mais de uma ocasião, ele se referiu à burocracia contrarrevolucionária. Ela existe e constitui uma espécie de “quinta-coluna” dentro da Revolução.
As massas aprendiam rapidamente na escola da revolução e tiravam suas próprias conclusões. A principal conclusão era a de que o processo revolucionário precisava avançar, enfrentar seus inimigos e varrer todos os obstáculos. Esse desejo ardente das massas, contudo, chocava-se constantemente com a resistência de elementos conservadores e reformistas que, a todo momento, pregam cautela e que, na prática, querem frear a Revolução. O destino da Revolução depende da resolução dessa contradição.
O instinto de Chávez sempre foi o de estar ao lado dos trabalhadores e camponeses. Contudo, ele enfrentou uma burocracia hostil que, continuamente, frustrava seus planos, anulava seus decretos e sabotava a Revolução. Se ele merece alguma crítica, é a de ter sido tolerante demais com esses elementos por tempo excessivo. Acredito que ele agiu assim por temer divisões no Movimento que pudessem comprometer a Revolução. Foi um erro. O que realmente compromete a Revolução é a corrupção e o carreirismo. A burocracia é um câncer que corrói as entranhas da Revolução e a destrói por dentro.
Infelizmente, dentro do PSUV e do movimento bolivariano, há ocupantes de cargos públicos — governadores, prefeitos, etc. — que invocam o nome de Chávez a cada instante e vestem camisas vermelhas, mas que, na realidade, não passam de oportunistas, carreiristas e burgueses corruptos que nada têm a ver com a Revolução. Tais elementos têm bloqueado a iniciativa revolucionária das massas e, inclusive, minado os decretos do presidente Chávez.
Os trabalhadores e camponeses da base devem pegar uma vassoura grande, varrer todo esse lixo para fora do Movimento e assumir o controle. Enquanto isso não for feito, não podemos falar em socialismo genuíno na Venezuela.
O internacionalismo de Chávez
Chávez sempre falou de forma inequívoca sobre seu compromisso com o socialismo, não apenas na Venezuela e na América Latina, mas em escala mundial. Por exemplo, quando lançou, em 2009, a ideia de formar uma Quinta Internacional — iniciativa posteriormente sabotada pela burocracia e pelos stalinistas —, ele disse: “Vamos salvar o mundo: vamos derrotar o imperialismo; vamos salvar o mundo, vamos derrotar o capitalismo. Vamos resgatar as palavras de Rosa Luxemburgo: ‘Socialismo ou Barbárie'”.
Ele denunciou os crimes do imperialismo norte-americano nos termos mais contundentes. No discurso nas Nações Unidas de que todos se lembram, ele se referiu ao então presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, como o “Diabo”.
“O Diabo está em casa. O Diabo, o próprio Diabo, está dentro de casa.
“E o Diabo esteve aqui ontem. Ontem, o Diabo esteve aqui. Bem aqui. [faz o sinal da cruz] E ainda hoje cheira a enxofre.
“Ontem, senhoras e senhores, desta tribuna, o presidente dos Estados Unidos — o senhor a quem me refiro como o Diabo — esteve aqui, falando como se fosse o dono do mundo. É verdade. Como o dono do mundo.”
Como marxista, não acredito no Diabo; mas é um fato inegável que as ações daquele presidente — o mais cristão de todos — George W. Bush, e de seu comparsa igualmente piedoso, Tony Blair, transformaram o Iraque e o Afeganistão em um verdadeiro inferno para milhões de pessoas. Já era hora de alguém se manifestar de forma contundente para denunciar os crimes deles — e fazê-lo não por meio da linguagem hipócrita e ambígua da diplomacia, mas com uma firmeza adequada. Os hipócritas fingiram estar chocados, mas o resto do mundo aplaudiu.
Sobre George W. Bush, Chávez expressou-se com o mais profundo desprezo. Ele me disse:
“Pessoalmente, ele é um covarde. Ele atacou Fidel Castro em uma reunião da Organização dos Estados Americanos (OEA) quando Fidel não estava presente. Se ele estivesse lá, não teria ousado fazer isso. Dizem que ele tem medo de me encontrar, e eu acredito. Ele tenta me evitar. Mas, certa vez, estivemos juntos em uma cúpula da OEA e ele estava sentado bem perto de mim.”
Chavez riu baixinho, para si mesmo.
“Eu estava em uma daquelas cadeiras giratórias, de costas para ele. Depois de um tempo, girei a cadeira e fiquei de frente para ele. ‘Olá, senhor presidente!’, eu disse. O rosto dele mudou de cor — passou de vermelho para roxo, depois para azul. Dá para perceber que o homem é um amontoado de complexos. Isso o torna perigoso — por causa do poder que ele tem nas mãos.”
Havia, naturalmente, alguns elementos nas políticas da República Bolivariana com os quais os marxistas discordariam. Suas maiores fragilidades residiam no campo da política externa. Na tentativa de superar o isolamento diplomático que estava sendo articulado pelo imperialismo norte-americano, o governo buscou aliados em lugares bastante inusitados. Eles tentaram formar um bloco — composto, em particular, por países produtores de petróleo — contra o imperialismo dos EUA.
Em princípio, isso não era incorreto. Para romper seu próprio isolamento, a jovem República Soviética estabeleceu relações com países como a Turquia de Kemal Atatürk. Contudo, tal política era complementada pelas atividades da Internacional Comunista. Por outro lado, cultivar relações com líderes como os do Irã constituiu um erro grave, que prejudicou a reputação da Revolução Bolivariana tanto no Irã quanto no Oriente Médio.
Mas Chávez era um verdadeiro internacionalista. Ao denunciar os crimes do imperialismo norte-americano, ele sempre fazia uma distinção cuidadosa entre a classe dominante e o povo comum dos Estados Unidos — por quem não nutria qualquer sentimento de hostilidade; muito pelo contrário. Por ocasião de seu famoso discurso na ONU, ele tomou a iniciativa inédita de visitar o South Bronx, um bairro de Nova York habitado por pessoas pobres e pertencentes à classe trabalhadora. Essa visita ainda é lembrada pelas pessoas. Que outro líder mundial faria algo assim?
Quando falava de socialismo, ele sempre se referia à necessidade de um socialismo mundial. Essa era uma ideia que ele compartilhava com a corrente que represento. Em muitas ocasiões, Hugo Chávez expressou seu firme apoio à campanha “Mãos fora da Venezuela” (Hands off Venezuela).
Tarefas inacabadas
Chávez morreu antes de concluir a grande tarefa a que se propusera: a realização da revolução socialista na Venezuela. Cabe agora aos trabalhadores e camponeses — a verdadeira força motriz da Revolução Bolivariana — levar essa tarefa até o fim. Não o fazer seria uma traição ao seu legado.
O presidente Nicolás Maduro prometeu manter o legado revolucionário, anti-imperialista e socialista de Chávez. O Movimento Bolivariano deve defender o legado revolucionário de Chávez e levar a Revolução até o fim. Caso contrário, corre o risco de sofrer um retrocesso. Contudo, dentro do Movimento Bolivariano, existem diferentes correntes e tendências.
A ala esquerda, refletindo as aspirações revolucionárias das massas, deseja avançar com a Revolução, superar a resistência da oligarquia e armar o povo. A ala direita (reformistas e social-democratas), na prática, deseja interromper a Revolução — ou, ao menos, desacelerá-la — e chegar a um compromisso com a oligarquia e o imperialismo.
Na realidade, essa última opção não existe. Não é possível qualquer compromisso com os inimigos da Revolução, assim como não é possível misturar óleo com água. Toda a lógica da situação aponta para um confronto aberto entre as classes. Do desfecho desse conflito depende o destino da Revolução.
As conquistas da Revolução só podem ser garantidas se ela der um passo ousado à frente, tornando-se verdadeiramente irreversível. Estou certo de que era isso que o presidente Chávez pretendia fazer, mas ele foi impedido de concretizar esse plano por sua morte prematura. Reconheço que existem muitos problemas, mas tenho a convicção de que a causa principal é o fato de que uma economia planejada genuína é impossível enquanto setores-chave da economia permanecerem em mãos privadas. É possível ter uma economia de mercado capitalista ou uma economia planejada socialista, mas não é possível ter ambas. Não se pode planejar o que não se controla, e não se pode controlar o que não se possui.
Para avançar rumo ao socialismo, é preciso, primeiramente, quebrar o poder econômico da oligarquia, que o utiliza para sabotar o processo revolucionário. Isso significa adotar uma postura firme contra a sabotagem econômica, o açambarcamento de produtos, a fuga de capitais e a especulação. A única maneira de resolver os problemas econômicos é por meio da estatização das terras, dos bancos e das grandes indústrias, sob o controle dos trabalhadores.
Assim que a notícia da doença do Presidente tornou-se pública, surgiram vozes defendendo uma “transição” — o que, na prática, significava abandonar os objetivos socialistas da Revolução e buscar um acordo com a burguesia e a oposição. Chávez respondeu a isso afirmando que a “única transição que se coloca, e que deve ser acelerada, é a transição do capitalismo para o socialismo”. Isso está cem por cento correto. A Revolução deve avançar no sentido de substituir o antigo Estado burguês por novas instituições, fundamentadas em conselhos de trabalhadores — de caráter democrático e socialista revolucionário —, conselhos comunitários, entre outras formas de organização.
Há muitos desafios, tanto externos quanto internos. A Revolução enfrenta uma campanha constante de sabotagem por parte da oligarquia e do imperialismo, que se recusam a reconhecer a vontade da maioria — expressa democraticamente e manifestada de forma clara em inúmeras ocasiões. Para enfrentar esses desafios, serão necessárias medidas sérias.
As mesmas forças que organizaram o golpe de 2002, a sabotagem patronal de 2002-2003 e as guarimbas de 2004, e que introduziram os paramilitares colombianos, são as mesmas que, nos últimos dois meses, organizaram uma campanha de boatos maldosos, insinuações, especulações e açambarcamento. Nada mudou.
Dê continuidade ao legado de Chávez!
Em agosto de 2009, o jornal Público reproduziu uma entrevista com Chávez, na qual lemos o seguinte:
P: “Hugo Chávez é necessário para a consolidação da Revolução Bolivariana?”
R: “Bertolt Brecht dizia que são indispensáveis aqueles que lutam a vida inteira. Sob esse ponto de vista, sou um lutador de toda a vida. Portanto, eu seria um desses indispensáveis. Mas não sou. Agora, olhando para além do indivíduo, ao falar sobre o que é indispensável, poderíamos encontrar um termo mais adequado à política. Prefiro falar em condições necessárias e suficientes. Karl Marx falava em condições objetivas e subjetivas. Eu já disse isso. Não tenho nada de especial que vocês não tenham. O que sou é produto de circunstâncias históricas: um conjunto de condições objetivas e subjetivas que foram criadas na Venezuela.”
“Atribuir a Hugo Chávez — a criança que nasceu, há 55 anos, na choupana de um camponês e que se tornou soldado — todo o ‘sopro do mal’, como disse certa vez Bolívar, é impossível. Isso me conferiria uma importância que não mereço. Fui levado pelas circunstâncias e desempenho um papel — o meu papel. A existência de Chávez é necessária, mas não suficiente. Para que haja uma revolução, é preciso um povo consciente e unido, um projeto e uma consciência. Na Venezuela, essas condições tornaram-se realidade.”
O Presidente foi, sem dúvida, modesto demais ao descrever seu próprio papel. Ninguém pode duvidar de que ele foi um produto de seu tempo e das condições peculiares que existiam em seu país. Contudo, houve muitos outros que também foram produto dessas mesmas condições — incluindo aqueles que se autodenominavam revolucionários e comunistas —, mas que não foram capazes de desempenhar o papel que ele desempenhou.
Não havia ninguém como Chávez enquanto ele estava vivo, e não existe uma única pessoa capaz de substituí-lo agora que ele faleceu. Nem é preciso dizer que apoiaremos a eleição de Nicolás Maduro em abril. Mas precisamos questionar seriamente a ideia de que um único homem pode conduzir a Revolução à vitória. Essa era uma fragilidade da qual o Presidente Chávez estava plenamente ciente, e sobre a qual conversamos mais de uma vez.
Eu admirava e respeitava o Presidente, a quem via como um homem muito honesto e corajoso e um líder excepcional. Mas uma Revolução não pode depender de um só homem. Chávez sabia muito bem disso. Em 3 de julho de 2008, ele me convidou para acompanhá-lo em seu carro durante uma campanha eleitoral na ilha de Margarita. Ele apontou para as multidões de pessoas entusiasmadas, vestindo camisas vermelhas, que aclamavam à beira da estrada. Voltou-se para mim e disse: “São essas as pessoas que devem assumir o controle desta Revolução”.
No dia de sua morte, essas palavras não paravam de ecoar em minha mente. Agora que Hugo Chávez se foi, o futuro da Revolução Bolivariana e seu avanço rumo ao socialismo dependerão dos trabalhadores, dos pobres, dos camponeses e da juventude revolucionária, que foram a força motriz da revolução e a defenderam em todos os momentos decisivos. Tudo depende disso.
Após a morte de Chávez, a Revolução Venezuelana encontra-se em uma encruzilhada. As massas derrotaram a reação em muitas ocasiões. Elas demonstraram, repetidamente, sua vontade de transformar a sociedade. Contudo, as forças reacionárias não foram derrotadas de forma decisiva. A oligarquia continua a controlar pontos-chave da economia e conspira constantemente contra a Revolução. Washington participa de tramas contrarrevolucionárias.
Hugo Chávez já não está entre nós. Mas a história da Revolução Venezuelana ainda não chegou ao fim. Diferentes desfechos são possíveis — nem todos agradáveis de se imaginar. As massas ainda estão em processo de aprendizado, e o Movimento Bolivariano continua a se desenvolver. A intensa polarização entre as classes culminará em um confronto decisivo, no qual todos os partidos, tendências, programas e indivíduos serão postos à prova.
Repito o que escrevi pouco depois do meu primeiro encontro com o presidente Chávez:
“O que é necessário? Ideias claras, uma compreensão científica, um programa, políticas e perspectivas consistentemente revolucionários.
“A única garantia para o futuro da Revolução Bolivariana reside no movimento que vem de baixo — o movimento de massas que, liderado pela classe trabalhadora, deve tomar o poder em suas próprias mãos. Isso exige a rápida construção da Corrente Marxista Revolucionária, o setor mais consistentemente revolucionário do movimento.
“Acredito que um número crescente de pessoas no Movimento Bolivariano está em busca das ideias do marxismo. Tenho certeza de que isso se aplica a muitos de seus líderes. E Hugo Chávez? Ele me disse que não era marxista porque não tinha lido livros marxistas o suficiente. Mas ele está lendo agora. E, em uma revolução, as pessoas aprendem mais em 24 horas do que em 20 anos de existência normal. No fim das contas, o marxismo atrairá para si os melhores elementos da sociedade venezuelana e os fundirá em uma força de combate invencível. É nesse caminho que reside a possibilidade da vitória.”
Estas linhas foram escritas há nove anos. Não vejo motivo para mudar uma única palavra hoje.
Londres, 11 de abril de 2013


