Em 2005, a editora cubana Ciências Sociais publicou o livro Rússia: Do Socialismo Real ao Capitalismo Real, que analisa as razões da queda da União Soviética. Seus autores, Ariel Dacal Díaz (Universidade de Havana) e Francisco Brown Infante (Instituto Superior de Relações Internacionais, ISRI), convidaram Alan Woods para escrever o prefácio. Acreditamos que este texto seja útil no contexto das discussões atuais sobre como defender a Revolução Cubana e a importância das últimas propostas econômicas adotadas.
Publicamos aqui o prólogo de Alan Woods ao livro “Rússia: Do Socialismo Real ao Capitalismo Real“, de Ariel Dacal e Francisco Brown Infante, publicado em Cuba pela Editorial Ciencias Sociales em 2006. O livro é uma análise perspicaz das razões e consequências da queda da URSS. A obra de Ariel Dacal Díaz e Francisco Brown Infante é de considerável interesse, não apenas para os leitores cubanos, mas também para o público em geral. Abrange um amplo espectro, desde a usurpação do poder pela burocracia stalinista após a morte de Lênin, passando pela evolução da economia soviética, a crise do sistema burocrático, a chamada perestroika e a destruição da União Soviética. Essas são questões-chave de nosso tempo, e é impossível compreender o que acontece no mundo hoje sem entendê-las. (2011)
Para os inimigos do socialismo, o colapso da União Soviética representa a prova definitiva do colapso do marxismo e da impossibilidade do socialismo. Falam do fim do socialismo, do comunismo e até do fim da história. Contudo, a euforia da burguesia após a queda do Muro de Berlim foi prematura. Os acontecimentos dos últimos dez anos são prova suficiente de que a história não terminou. Em todo o mundo, testemunhamos uma profunda crise do sistema capitalista, caracterizada por guerras, revoluções e contrarrevoluções. Este é o período mais instável desde o fim da Segunda Guerra Mundial.
Os autores chegam à conclusão de que o marxismo não é o culpado. As ideias marxistas nunca foram tão relevantes quanto hoje. O documento mais moderno disponível é O Manifesto Comunista de Marx e Engels, escrito há mais de 150 anos. Os autores demonstram, com uma vasta gama de citações e evidências, que o que fracassou na União Soviética não foi o socialismo ou o comunismo, mas uma caricatura burocrática e totalitária do socialismo.
Para os marxistas a Revolução de Outubro de 1917 é o evento mais importante de toda a história. Nela, pela primeira vez — se excluirmos aquele glorioso, porém breve, episódio da Comuna de Paris — as massas conseguiram derrubar o antigo regime de servidão e iniciar — pelo menos iniciar — a transformação socialista da sociedade. Trata-se de uma conquista monumental!
A Revolução Russa demonstra que a revolução socialista é possível mesmo em um país extremamente atrasado, como era a Rússia czarista. Não se deve esquecer que, antes de 1917, aquele país contava com apenas cerca de quatro milhões de trabalhadores industriais em uma população de 150 milhões, a maioria analfabeta. Em outras palavras, a Rússia czarista era um país consideravelmente mais atrasado do que a Bolívia ou o Peru são hoje.
A transformação da União Soviética, de um país profundamente atrasado à segunda superpotência mundial depois dos Estados Unidos, é um dos fenômenos mais extraordinários da história mundial. Apesar de todas as mentiras, distorções e calúnias da burguesia, que tenta por todos os meios subestimar e negar as impressionantes conquistas da União Soviética, essa transformação sem precedentes demonstra a superioridade de uma economia nacionalizada e planificada sobre a anarquia capitalista. Em apenas algumas décadas, a União Soviética construiu uma base industrial muito forte, que permitiu o florescimento da educação, da ciência e da cultura. As conquistas do país nas áreas da saúde e da medicina foram igualmente inegáveis. A Segunda Guerra Mundial demonstrou a esmagadora superioridade militar da União Soviética. A guerra na Europa se reduziu a uma luta titânica entre a União Soviética e a Alemanha de Hitler, apoiada pelos recursos de toda a Europa. Os americanos e britânicos, até o fim, foram meros espectadores.
Após a guerra, a União Soviética, que sofreu a morte de 27 milhões de cidadãos (metade do total das baixas globais) e a destruição de grande parte da capacidade produtiva arduamente desenvolvida pela classe trabalhadora soviética, conseguiu reconstruir sua economia em poucos anos. Nas décadas de 1950 e 1960, a Agência Central de Inteligência americana reconheceu a superioridade da União Soviética em muitas áreas, incluindo a exploração espacial.
Nas palavras de Leon Trotsky, o homem que, juntamente com Vladimir Ilyich Lênin, foi um dos dois principais arquitetos da Revolução de Outubro, o socialismo demonstrou sua superioridade não na linguagem da dialética, mas na linguagem do aço, do cimento e da eletricidade. Isso é extremamente importante e devemos explicá-lo à nova geração, combatendo as calúnias e mentiras da burguesia que quer enterrar a Revolução de Outubro, assim como a burguesia inglesa enterrou a memória de Oliver Cromwell sob uma montanha de cachorros mortos.
No entanto, a questão da União Soviética é um tanto contraditória. Hoje, as pessoas têm o direito de perguntar: se havia socialismo na União Soviética, por que ela entrou em colapso? Para essa pergunta, os stalinistas e os autoproclamados “amigos da União Soviética” não têm resposta. E, de fato, a pergunta não tem resposta se aceitarmos que o regime naquele país era verdadeiramente socialista. Na realidade, o problema foi resolvido há muito tempo por Lênin, que explicou diversas vezes que o que existia na Rússia não era socialismo, mas um regime de transição, um regime entre o capitalismo e o socialismo.
Lênin afirmou que a Rússia era um Estado operário (“a ditadura do proletariado”) e, em resposta a Bukharin, acrescentou honestamente: “um Estado operário com deformações burocráticas”. Não cabe aqui aprofundar esse assunto. Basta dizer que Lênin e o Partido Bolchevique compreendiam plenamente a impossibilidade de construir o socialismo em um só país, muito menos em um país atrasado como a Rússia naquela época. Lênin e Trotsky jamais conceberam a Revolução de Outubro como um ato isolado, um “caminho russo para o socialismo”, mas sim como o primeiro ato de uma revolução mundial. Lênin repetiu essa ideia inúmeras vezes em centenas de artigos e discursos.
A derrota da revolução na Alemanha e em outros países condenou a Revolução Russa ao isolamento. A ascensão da burocracia stalinista foi uma consequência do isolamento da Revolução em meio a condições deploráveis de atraso. A derrota da ala leninista (“trotskista”) do Partido Bolchevique e o triunfo da fração burocrática, liderada por Stalin, refletiram a mudança no equilíbrio de forças entre as classes na Rússia como resultado desse isolamento (o esgotamento e a desorientação da classe trabalhadora e a crescente confiança dos burocratas que se sentiam no controle). Gradualmente, a burocracia se sobrepôs à classe trabalhadora e reivindicou uma série de privilégios que romperam com as tradições igualitárias e democráticas de Outubro. O estágio final foi a liquidação do partido de Lênin em uma guerra civil unilateral: os famosos expurgos de Stalin.
Como os autores explicam acertadamente: o socialismo soviético pós-leninista, matriz do socialismo real, nunca foi uma alternativa válida, articulada e viável frente ao seu sistema predecessor. A mudança cultural nunca se materializou, visto que o socialismo é, acima de tudo, um projeto baseado em uma nova cultura, já que a nova sociedade é concebida como criadora das condições para pensar de forma diferente da maneira de pensar historicamente dominante. Portanto, o resultado não foi “uma sociedade socialista (nem capitalista, é verdade), mas uma nova forma — estatista, burocratizada — de dominação e exploração, oposta à natureza emancipadora, justa e libertária do socialismo”.
Já na década de 1930, nada restava das tradições democráticas do bolchevismo. A burocracia havia liquidado a democracia operária. Mas não estavam satisfeitos; não se sentiam seguros. Tinham consciência da flagrante contradição entre os ideais socialistas da Revolução e seus privilégios — tanto legais quanto ilegais. Marx já havia explicado que a única renda devida aos funcionários em um Estado operário seria o salário normal da administração. A burocracia soviética, e especialmente seus escalões superiores, gozava de privilégios e regalias escandalosos: altos salários, apartamentos luxuosos e limusines com motoristas, lojas exclusivas e assim por diante. Viviam completamente separados da classe trabalhadora; e a disparidade entre as condições de vida dos funcionários e da classe trabalhadora, longe de diminuir, tendia a aumentar continuamente.
Trotsky explicou que a burocracia não se contentaria com seus privilégios, mas que seus membros eventualmente se tornariam capitalistas privados. Apesar de seus privilégios e poder, eles não poderiam transmiti-los a seus filhos. Para garantir o direito à herança, era necessário converter a propriedade estatal em propriedade privada. No fim, a Revolução Russa não foi derrotada por inimigos externos, mas por internos: a ala pró-capitalista da própria burocracia.
Para muitos, é chocante que a vasta maioria dos líderes do antigo Partido Comunista da União Soviética tenha se tornado capitalista e empresário da noite para o dia. E não é para menos! Comparada a isso, a traição dos dirigentes da Segunda Internacional em 1914 foi brincadeira de criança. Mas aqueles que continuam a insistir que o regime na União Soviética era “socialismo de verdade” precisam responder à seguinte pergunta: se havia socialismo de verdade na União Soviética, se o Partido Comunista era um partido comunista de verdade, como é possível que, da noite para o dia, a esmagadora maioria de seus dirigentes tenha se convertido ao capitalismo, com a mesma facilidade com que um homem passa de um vagão de fumantes para um vagão de não fumantes em um trem? A verdadeira razão é apresentada pelos autores do livro, que explicam que o colapso da União Soviética não foi um mero acidente, como um relâmpago em céu azul. Foi um longo processo de degeneração burocrática que distanciou a revolução de suas autênticas tradições proletárias, democráticas e internacionalistas. Quem não entender isso jamais conseguirá responder à pergunta mais fundamental: por que o “socialismo real” fracassou?
Em última análise, a burocracia minou e destruiu a economia nacionalizada e planificada. Leon Trotsky certa vez explicou que uma economia nacionalizada e planificada precisa de democracia como o corpo humano precisa de oxigênio. É claro que Trotsky não se referia à caricatura de democracia que existe no Ocidente, na qual uma pequena minoria de parasitas ricos detém as terras, os bancos e os monopólios. Ele se referia à genuína democracia soviética estabelecida na Rússia após a vitória de 1917.
Em A Revolução Traída, Trotsky adverte: “A queda da atual ditadura burocrática, se não for substituída por um novo poder socialista, significaria também um retorno ao sistema capitalista com um colapso catastrófico da economia e da cultura.”
Essas palavras foram corroboradas pelos eventos da última década. O período de transição para o capitalismo na Rússia (a chamada “reforma de mercado”) é caracterizado pelo colapso mais assustador das forças produtivas em toda a história. Em apenas seis anos, a economia russa sofreu uma queda de mais de 60%. Esse número é inédito na história da economia política. Se quisermos traçar um paralelo histórico, devemos olhar não para as crises econômicas, mas para uma derrota catastrófica em uma guerra.
Os autores comentam: Os aspectos distintivos da primeira fase da transição (1991-1999) foram o caos, a desordem, a incoerência nas transformações, o saque dos bens do Estado, o roubo, a concentração dos meios de produção nas mãos de poucos, a instabilidade política (constantes mudanças de governo), as crises permanentes entre o presidente e o Parlamento, a deterioração progressiva das condições de vida das grandes massas e uma luta desmedida contra qualquer vestígio da sociedade anterior.
Mas a introdução do capitalismo na União Soviética não significa o fim da história. Marx explicou há muito tempo que a viabilidade de qualquer sistema socioeconômico depende, em última análise, de sua capacidade de desenvolver as forças produtivas. A restauração do capitalismo na Rússia, longe de ser um progresso, representa uma terrível regressão histórica em todos os sentidos da palavra. Esse fato significa que o capitalismo russo é tão instável quanto a cabana com patas de galinha do folclore russo.
A aparente estabilidade do presidente Vladimir Putin é uma ilusão, produto de condições econômicas favoráveis (preços altos do petróleo) e da inércia temporária da classe trabalhadora. Enquanto não houver um partido genuinamente marxista-leninista capaz de oferecer uma alternativa revolucionária, os trabalhadores russos baixarão a cabeça e aguardarão tempos melhores. Trata-se, portanto, de um equilíbrio instável que pode ruir a qualquer momento.
Seguindo cegamente a “lógica do livre mercado”, o governo pretende eliminar progressivamente todas as conquistas sociais do passado. Isso inevitavelmente levará a explosões em algum momento. Nas últimas semanas, vimos manifestações impressionantes de aposentados na Rússia protestando contra uma lei injusta que busca cortar suas já modestas aposentadorias. Isso é um alerta do que está se gestando sob a superfície.
A contraofensiva das massas é inevitável. Ocorreria mais cedo e de forma muito mais organizada e eficaz se o Partido Comunista lutasse sob a bandeira de Outubro e baseasse suas ações nas ideias de Lênin. Mas, com ou sem direção adequada, as massas lutarão e, mais cedo ou mais tarde, redescobrirão as tradições e ideias autênticas do bolchevismo, as ideias revolucionárias de Lênin e Trotsky.
O que aconteceu na Rússia traz lições claras para o povo cubano. Após o colapso da União Soviética, o mundo se encontra sob o domínio de uma superpotência sem paralelo na história mundial, mas essa superpotência é um colosso com pés de barro. Apesar de seu imenso poderio militar e vastas reservas de riqueza, o imperialismo americano está atolado no Iraque. A ocupação criminosa desse país custa pelo menos um bilhão de dólares por semana, além de um número crescente de vítimas em ambos os lados.
O imperialismo americano está determinado a destruir a Revolução Cubana porque sua existência representa uma séria ameaça aos seus interesses na América Latina. Essa é a mesma razão pela qual deseja destruir a Revolução Venezuelana. Mas os estrategistas de Washington sabem muito bem que não podem intervir militarmente — pelo menos não diretamente — neste momento. São obrigados a recorrer a outros métodos.
A ameaça de contrarrevolução em Cuba é real. Mas o maior perigo não vem de pressões externas, e sim de contradições internas. O exemplo da Rússia demonstra que o maior perigo reside em setores do próprio aparelho estatal que desejam a restauração do capitalismo, especialmente entre os setores em contato direto com o capital externo.
Esses setores, de maneira mais ou menos velada, nutrem ambições de se tornarem donos dos meios de produção; esse é o maior perigo. Mas os elementos pró-burgueses encontram um obstáculo formidável na pessoa de Fidel Castro, que se opõe firmemente ao capitalismo e se ergue como um baluarte contra as tendências contrarrevolucionárias, constantemente apoiado pelas massas.
Para defender a Revolução Cubana, é absolutamente necessário unir as forças revolucionárias em uma frente anticapitalista comum. Dentro dessa frente, as correntes comunistas podem debater livremente suas diferentes ideias e programas, lutando lado a lado para defender as conquistas da revolução contra os elementos burgueses.
É necessário combater a burocracia e a corrupção, o terreno fértil onde tendências pró-burguesas podem criar raízes e crescer. Devemos fortalecer a vanguarda proletária e confiar nos instintos revolucionários das massas. A burocracia não se combate com métodos burocráticos.
Em todo o mundo, a Revolução Cubana tem sido uma tremenda fonte de inspiração para a classe trabalhadora e a juventude. Defender a Revolução Cubana é o dever fundamental de todo trabalhador ou jovem consciente. Devemos mobilizar a opinião pública mundial contra as tentativas escandalosas do imperialismo de intimidar, isolar e sufocar a Revolução.
O principal problema da Revolução Cubana reside em seu isolamento. Em última análise, o destino da Revolução Cubana depende de sua disseminação para o resto do mundo, a começar pela América Latina. Os grandes avanços da Revolução Venezuelana representam um farol de esperança. À medida que essa revolução se consolidar e se tornar uma revolução socialista, ela repercutirá por todo o continente. A visão de Che Guevara de uma revolução internacional estaria então ao nosso alcance.
Apesar de tudo, o colapso da União Soviética não significou o desaparecimento do socialismo, que é hoje mais necessário do que nunca. O capitalismo — esse sistema corrupto, injusto e ultrapassado — oferece à humanidade apenas um futuro de guerras, miséria, fome e degradação. A Revolução Cubana — assim como a Revolução de Outubro — abriu uma nova perspectiva para a humanidade: um mundo de harmonia, fraternidade e liberdade sob o socialismo. Esta continua sendo a nossa perspectiva e a nossa bandeira, a única causa pela qual vale a pena lutar e morrer na primeira década do século XXI.
O filósofo americano George Santayana escreveu certa vez: “Aqueles que não aprendem com a história estão condenados a repeti-la”. Este livro é uma tentativa de transmitir algumas das lições mais importantes da história contemporânea para a nova geração. Merece ser lido pelo maior número possível de pessoas. Afinal, não queremos repetir a história, mas sim escrevê-la.
Alan Woods
Londres, 4 de março de 2005


