Ontem, centenas de milhares de trabalhadores e jovens mobilizaram-se por toda a França na mais recente manifestação da onda de protestos liderados por estudantes que varre o país. Ontem, com 90% das universidades francesas e centenas de escolas fechadas, fica claro que esse movimento liderado pela juventude não se deixou intimidar nem perdeu força, apesar da brutal repressão policial.
Publicamos abaixo um artigo de Jérôme Métellus, originalmente publicado em francês no site marxiste.org, que elenca as tarefas a serem cumpridas para transformar o sucesso dos protestos de ontem em uma luta capaz de desferir um golpe mortal no odiado governo Macron.
Em 13 de outubro, estudantes universitários e do ensino médio mobilizaram-se novamente em massa. Eles repetiram a demonstração de força de 6 de outubro. Isso confirma a profundidade do movimento, suas enormes reservas de espírito de luta — e seu potencial revolucionário.
Todas as atenções estão voltadas agora para o dia 17 de outubro. A ideia foi lançada antes do início da magnífica mobilização dos estudantes do ensino médio. Mas eles, assim como os universitários, naturalmente a abraçaram. Eles transformaram o dia 17 de outubro em um passo importante na luta contra o desmantelamento do sistema nacional de ensino. Muitos trabalhadores também entrarão em ação neste sábado.
Todos estão falando agora sobre o dia 17 de outubro — ou, mais precisamente, todos, exceto as direções nacionais dos sindicatos. Até o momento, não houve uma única menção ao dia 17 de outubro em seus comunicados oficiais nas últimas seis semanas. Em 12 de outubro, ao responder à pergunta de um jornalista sobre a participação da CGT nas manifestações de 17 de outubro, Sophie Binet não aproveitou a oportunidade para fazer uma convocação à ação.
Ela simplesmente fez uma declaração enigmática: “Onde as condições forem propícias, a CGT estará presente”. O que isso poderia significar? Afinal, não é uma das funções da CGT garantir que as condições sejam favoráveis a uma mobilização social poderosa, como a que se espera para o dia 17 de outubro?
Temos enfatizado isso dezenas de vezes nos últimos anos: o maior temor das direções das confederações sindicais — incluindo a da CGT — é um movimento social explosivo que escape ao seu controle. Daí a convocação para a mobilização apenas em 5 de novembro, que pretende neutralizar o impacto potencial do dia 17 de outubro. Vimos o mesmo cenário em setembro de 2025 com o movimento “bloquear tudo”, que também surgiu nas redes sociais — ou seja, independentemente das grandes organizações sindicais.
13 meses depois…
No entanto, assim como em 10 de setembro de 2025, os jovens se mobilizarão em grande número no sábado — e, provavelmente, em número ainda muito maior do que há 13 meses.
O dia 10 de setembro de 2025 caiu numa quarta-feira: entre os muitos trabalhadores que apoiavam o movimento, a maioria não aderiu à greve e, portanto, não pôde participar das manifestações. Isso era ainda mais compreensível, visto que — como acabamos de mencionar — a direção sindical havia feito todo o possível para neutralizar o potencial explosivo do 10 de setembro. Apenas as estruturas sindicais federais e locais, assim como partidos políticos, haviam convocado a mobilização.
O dia 17 de outubro, um sábado, ocorrerá em um contexto ligeiramente diferente. Muitos trabalhadores de todas as idades poderão se mobilizar sem precisar entrar em greve. Haverá, portanto, grandes concentrações nas ruas reunindo estudantes do ensino médio e universitários, trabalhadores, mas também desempregados, aposentados — e até mesmo, sem dúvida, uma parcela da pequena classe média: comerciantes, artesãos, agricultores, profissionais liberais, etc.
Acima de tudo, as condições de vida das massas continuaram a se deteriorar desde setembro de 2025, e particularmente desde a agressão imperialista contra o Irã em fevereiro passado. A inflação disparou. Os preços dos combustíveis subiram vertiginosamente e não dão sinais de queda, enquanto os chefes da multinacional petrolífera francesa TotalEnergies acumulam lucros enormes. Neste verão, a crise climática e a negligência do governo deixaram marcas nos corpos e nas mentes das pessoas, matando milhares de idosos, queimando 76 mil hectares de floresta e devastando o setor agrícola.

Os jovens encaram o futuro com pavor e se perguntam em que tipo de mundo viverão — ou no qual sobreviverão. Quando se mobilizam para exigir condições dignas de aprendizado, o governo responde com insultos, brutalidade policial e uma repressão judicial sem precedentes.
Milhões de cidadãos comuns estão chocados com as imagens que circulam nas redes sociais. A deflagração da violência policial, as surras, as mutilações e as humilhações infligidas pelas “forças da ordem” à juventude mobilizada. A maneira como restringem o acesso às manifestações e confiscam cartazes que lhes desagradam. A forma como provocam sistematicamente os manifestantes, inclusive por meio de métodos de infiltração mais ou menos flagrantes e grotescos. Tudo isso alimenta constantemente a revolta e o desejo de vingança entre um número crescente de explorados e oprimidos. Assim, as condições para uma explosão revolucionária amadurecem rapidamente no coração de milhões.
“Que os ricos paguem pela sua crise!”
É nesse contexto geral que o governo quer impor novos cortes drásticos nos gastos sociais — e que a imprensa anuncia diariamente uma deterioração contínua da situação econômica.
Este é um elemento da equação que, por vezes, é negligenciado pela esquerda. As massas não se mobilizam apenas sob a pressão insuportável do sofrimento acumulado; a esse fator fundamental soma-se o das perspectivas imediatas, incluindo aquelas relacionadas à situação econômica.
Quando o copo já está transbordando, a perspectiva de mais sofrimento, novos cortes e um aumento ainda maior do desemprego e da pobreza pode desempenhar um papel fundamental na deflagração de um poderoso movimento social. Em maio de 1968, por exemplo, o início de uma deterioração da situação econômica desempenhou certo papel ao precipitar a crise revolucionária.
Jornalistas e políticos burgueses fazem de tudo para convencer a população de que um novo orçamento de austeridade é uma necessidade absoluta. Eles afirmam que as pessoas precisam apertar o cinto para o seu próprio bem, que se trata de um “mal necessário” e que a crise da dívida pública (que é muito real) não deixa ao governo qualquer margem de manobra orçamentária. Dizem que Lecornu precisa tentar tranquilizar os mercados financeiros impondo dezenas de bilhões de euros em cortes adicionais — e que a única alternativa a essa política reacionária é o mergulho da economia francesa no inferno.
Mas o inferno já existe para um número crescente de jovens, trabalhadores, desempregados e aposentados que, a cada dia, afundam mais no abismo. E um número cada vez maior dessas pessoas se recusa a arcar com o peso de uma crise econômica pela qual não são responsáveis. De maneira mais ou menos confusa, elas exigem que os verdadeiros culpados — os ricos e poderosos — assumam, eles próprios, a responsabilidade pelas consequências de seu colapso econômico.
Uma expressão muito clara dessa mentalidade, no plano político, é o extraordinário impulso em torno da campanha eleitoral de Jean-Luc Mélenchon, mais de seis meses antes da eleição presidencial. Mas mesmo entre o eleitorado de classe trabalhadora de Marine Le Pen — ainda que de forma mais confusa —, é possível encontrar essa aspiração simples e clara: “Os ricos devem pagar pela crise deles!”
As implicações revolucionárias dessa ideia são óbvias: em última análise, apenas a expropriação dos mais ricos — isto é, da burguesia — porá fim à agitação social em curso. É verdade que a maioria dos trabalhadores ainda está longe de chegar a essa conclusão. Mas ela vem ganhando terreno e avançando um pouco mais a cada dia, particularmente entre os jovens.
Como vencer?
Estão, portanto, dadas as condições gerais para uma mobilização de massa em 17 de outubro. A contribuição mínima — ou melhor, negativa — da direção sindical conferirá, paradoxalmente, um significado muito particular à dimensão dessa mobilização. Se milhões de pessoas se mobilizarem apesar da sabotagem deliberada da direção sindical nacional, o país dará mais um passo em direção a uma crise revolucionária.
Até lá, naturalmente, os sindicalistas mais combativos, as estruturas sindicais não paralisadas pelo conservadorismo e, de modo geral, todos os militantes dedicados à causa da nossa classe devem multiplicar suas iniciativas para promover uma mobilização massiva em 17 de outubro.
No entanto, eles também precisam se preparar para o que vem a seguir. Qualquer que seja a dimensão do 17 de outubro, ele será um passo em um movimento cujas reservas de energia, indignação e espírito de luta são consideráveis. Como garantir que essas reservas não se esgotem em vão, sob a orientação de dirigentes sindicais cuja única ambição é o “retorno à calma”, a desmobilização e, em suma, a derrota do movimento?
Uma repetição de junho de 1936 ou maio de 1968 na França — quando movimentos grevistas eclodiram e se propagaram febrilmente tanto no setor privado quanto no público — é uma possibilidade que, hoje em dia, assombra os pesadelos da burguesia… e da direção sindical. Se o 17 de outubro for poderoso, essa possibilidade se tornará muito real.
O papel dos ativistas mais militantes, no entanto, não é, claramente, confiar na espontaneidade e nas tradições revolucionárias da classe trabalhadora francesa. O papel deles é fazer todo o possível para garantir o início de um movimento de greves sucessivas, abrangendo um número crescente de empresas e serviços públicos. Em suma, o movimento deve levar à paralisação do país, tal como ocorreu em junho de 1936 e em maio de 1968.
Sabemos muito bem que é mais fácil falar do que fazer. Mas, para trilhar esse caminho, devemos começar explicando a todos os trabalhadores que apenas um movimento dessa magnitude lhes oferecerá a perspectiva de uma vitória decisiva. Em outras palavras, precisamos lançar uma ampla campanha de agitação no maior número possível de locais de trabalho, com base em um programa militante que incorpore todas as reivindicações da juventude mobilizada — e a elas acrescentar demandas como um aumento salarial substancial, a indexação dos salários à inflação, a expropriação da TotalEnergies e a revogação de todas as contrarreformas da última década.
Sob a pressão crescente dos mercados financeiros, o governo Lecornu preferiria enforcar-se a atender a qualquer uma dessas reivindicações. Consequentemente, o programa do movimento deve culminar em uma palavra de ordem que seja, ao mesmo tempo, geral e, fundamentalmente, muito concreta: “Abaixo o governo dos ricos! Por um governo dos trabalhadores!”
Se um movimento poderoso de greves se desenvolver em todo o país nas próximas semanas, isso demonstrará concretamente à classe trabalhadora que ela cria toda a riqueza. A classe trabalhadora é a força decisiva na sociedade moderna — e, portanto, cabe a ela liderá-la, isto é, expropriar a grande burguesia, repudiar a dívida pública e reorganizar a economia com base em princípios socialistas.


