Após uma pausa durante o verão, o Partido do Povo Barata (CJP, Cockroach Janata Party) está de volta para retomar o que ficou inacabado: uma luta sem tréguas contra o primeiro-ministro Narendra Modi, contra o partido governista, o Partido do Povo Indiano (BJP, em sua sigla em inglês) e o aparato estatal repressivo que os sustenta.
Modi não quis correr riscos e implementou as medidas mais draconianas e autoritárias desde o período de Emergência decretado por Indira Gandhi em 1975. Milhares de pessoas foram presas, espancadas, hostilizadas e detidas, incluindo todo o comitê central do Partido Comunista da Índia (Marxista).
Essa brutalidade foi perpetrada para proteger Gyanesh Kumar, membro da Comissão Eleitoral da Índia — apontado pelo jornal Indian Express como um fantoche de Modi —, responsável por excluir milhões de indianos (desproporcionalmente muçulmanos e integrantes de outras minorias) do cadastro eleitoral a fim de manipular as eleições em favor de seu partido.
Após a revelação, o CJP convocou um protesto nacional para o sábado, 10 de outubro, em Jantar Mantar, Nova Délhi — local de uma vitória anterior do grupo naquele verão, quando o detestado Ministro da Educação, Dharmendra Pradhan, foi forçado a renunciar.
Mas, desta vez, todos os principais dirigentes da CJP — Abijeet Dipke, Ashtosh Ranka e Saurav Das — foram presos de forma teatral dentro do avião, logo após a aterrissagem em Délhi. Desde então, foram libertados sob condições de fiança que exigem o compromisso de não perturbar a ordem pública pelo período de um ano.
A revolta na sociedade, a pressão para retomar os protestos das “Baratas” e a repressão preventiva de Modi levaram a direção do CJP a adotar um tom desafiador. Eles chamaram Modi de covarde, juraram não se curvar à repressão e convocaram as “Baratas” a “irem às ruas novamente!”
As “Baratas” precisam se lembrar da lição mais importante daquele verão: não pode haver conciliação com esses gângsteres. Para que este segundo ato tenha êxito, é preciso convocar uma luta por tempo indeterminado até que caiam não apenas Kumar, mas o próprio Narendra Modi e o “Raj dos Bilionários” que o sustenta.
Para se inspirar, a juventude indiana só precisa olhar para as batalhas em curso na Europa, onde estudantes e jovens estão se unindo à classe trabalhadora em geral, conectando suas reivindicações por educação e moradia à convocação de greves gerais na França e na Espanha.
Vale lembrar que, quando Modi recuou anteriormente, foi precisamente porque outras camadas sociais — trabalhadores e, em particular, agricultores — estavam prestes a se unir ao CJP em sua luta.
Os acontecimentos em Délhi fazem parte de um processo internacional, impulsionado pela crise histórica do capitalismo, que está despertando a fúria de toda uma nova geração de combatentes de classe. Os “Baratas” foram uma continuação da Revolução da Geração Z que varreu a Ásia em 2025 e anteciparam a revolta da juventude radical no continente europeu nas últimas semanas.
Agora, a juventude indiana deve retomar a luta e concluir o que começou.
Delhi sob confinamento
Delhi, uma cidade com mais de 20 milhões de habitantes, vivenciou no último sábado uma das maiores operações de repressão desde a independência da Índia. Foram mobilizados 40 mil agentes de segurança, inclusive vindos de áreas de fronteira sensíveis. Duas linhas de barricadas bloquearam Jantar Mantar. Cinquenta e sete estações de metrô foram fechadas. Trens com destino a Delhi foram cancelados. O acesso à internet foi interrompido. Jornalistas que faziam transmissões pelo celular foram presos.
Atores como Imran Khan foram detidos em Mumbai, e o conhecido YouTuber Dhruv Rathee foi levado à força no meio da noite. Três repórteres do Newslaundry foram presos, juntamente com pelo menos outros 35 profissionais de imprensa.
Entre os detidos estão figuras de quase todos os principais partidos de oposição, incluindo Rahul Gandhi, Arvind Kejriwal, Mamta Banerjee e até mesmo membros do Shiv Sena, partido de ideologia Hindutva de Maharashtra!
Uma brutalidade particular foi exercida contra o Partido Comunista da Índia (Marxista) e sua ala estudantil; John Brittas, parlamentar do CPI(M) na Rajya Sabha, foi agredido pelas forças de segurança.
Não apenas figuras de destaque, mas também jovens comuns que seguiam com suas atividades cotidianas foram detidos e levados em ônibus. A BBC relatou ter visto mulheres sendo espancadas. Capangas do RSS foram vistos agredindo manifestantes diante da Polícia de Délhi, que permaneceu inerte e nada fez.
Até o momento, os dirigentes do CJP, Saurav Das e Ashutosh Ranka, foram presos novamente por hastearem a bandeira nacional da Índia em Jantar Mantar.
A repressão de Modi
Essa repressão abrangente à dissidência é o mais próximo que a Índia chegou de uma ditadura desde os tempos do Estado de Emergência de Indira Gandhi, entre 1975 e 1977. No entanto, longe de demonstrarem força, essas medidas revelam uma posição de extrema fraqueza e paranoia por parte de Modi.
Fissuras sérias começaram a surgir na fachada de “invencibilidade” de Modi. O BJP teve um desempenho abaixo do esperado nas eleições gerais de 2024; logo depois, a Comissão Eleitoral iniciou uma depuração das listas de eleitores, começando por Bihar no ano anterior. Em seguida, Donald Trump repreendeu Modi publicamente, após reivindicar o mérito pela mediação da paz no breve conflito entre a Índia e o Paquistão em 2025.
Agora, a guerra envolvendo o Irã deixou a economia em uma situação frágil, interrompendo a maior parte das importações de petróleo e gás natural da Índia provenientes do Golfo. Só neste ano, o governo desferiu ataques massivos contra os direitos e as proteções dos trabalhadores. Dezenas de milhões estão desempregados. A inflação corrói o padrão de vida. A rupia caiu a mínimos históricos. A IA ameaça a posição crucial da Índia como o “back office do mundo”. Tudo isso é uma receita pronta e acabada para a luta de classes.
A classe dominante indiana sabe que a situação não melhorará tão cedo. O crescente sentimento de ressentimento e frustração na sociedade já começa a vir à tona, de forma mais visível através do fenômeno inesperado das “Baratas”.
Modi e o Ministro do Interior, Amit Shah, agem da única maneira que conhecem: centralizando o aparato repressivo do Estado indiano, mobilizando seus capangas do RSS, paralisando a capital, mobilizando seus aliados na mídia, disseminando desinformação e incitando o ódio entre hindus e muçulmanos.
Sem dúvida, Modi se tornará mais implacável à medida que sua posição se tornar mais precária. Podemos esperar uma repressão intensificada e ataques aos direitos democráticos no futuro, e ele poderá recorrer a medidas cada vez mais bonapartistas em seu desespero para se manter no poder. Mas isso se voltará contra ele, como vimos no verão.
A imensa revolta da juventude, expressa por meio do CJP, fez com que, em vez de recuarem diante da severa repressão policial, os jovens se tornassem ainda mais determinados. A violência das forças estatais também indignou camadas mais amplas da sociedade, gerando uma onda de solidariedade ao movimento “Barata” (Cockroach movement) — um movimento que ameaçava seguir o caminho das revoluções ocorridas no Sri Lanka e em Bangladesh em 2022 e 2024, ou das Revoluções da Geração Z de 2025. Isso abalou a classe dominante indiana e levou Modi, pela primeira vez, a ceder publicamente às exigências do CJP.
Modi sentiu-se humilhado e, por isso, jamais poderá perdoar o CJP nem o tolerar como uma ameaça iminente. O desejo de retaliação explica a crueldade e a tortura psicológica infligidas a Dipke. Ele soube, às 3h30 da manhã, em sua cela, que sua avó havia falecido, e foi instruído a ligar para o pai para dizer que “ficaria preso por muito tempo”.
Modi está tomando todas as medidas possíveis para conter o ímpeto das “Baratas”. No entanto, ele sabe que essa situação pode rapidamente sair de controle.
Isso também explica suas recentes manobras desesperadas, como a comemoração de um mês inteiro pelo seu aniversário no mês passado e a decisão, tomada no fim de semana, de renomear o aeroporto de Noida com o seu próprio nome. Ele está determinado a reafirmar seu poder e sua importância, mas suas ações estão produzindo o efeito contrário.
O biógrafo de Modi, Nilanjan Mukhopadhyay, observou que ele perdeu sua aura desde o verão e que, “nos últimos dois meses e pouco, o Sr. Modi não conseguiu se reinventar”.
Na realidade, a explicação para o fato de Modi permanecer no poder há 12 anos — e parecer tão inabalável por tanto tempo — reside na oposição fraca e corrupta da Índia, liderada pelo burguês Congresso Nacional Indiano.
Seu histórico de corrupção, burocracia e ataques aos trabalhadores abriu caminho, desde o início, para a ascensão de Modi ao poder. Não nos esqueçamos também de que, apesar de todo o discurso sobre a “defesa da democracia”, o período ditatorial da “Emergência”, na década de 1970, ocorreu sob o governo do Congresso — e a ditadora era a avó de Rahul Gandhi!
Os dirigentes sindicais e dos partidos comunistas também desempenharam um papel lamentável. Em vez de canalizar a indignação da sociedade para uma luta séria visando derrubar Modi, eles convocam greves gerais de um dia apenas para aliviar a tensão e semear ilusões no Congresso como uma alternativa ao “fascismo” de Modi.
Tudo isso contribuiu para fazer com que Modi pareça mais forte do que realmente é. Não é de surpreender que jovens furiosos estejam novamente recorrendo à CJP como o único meio comprovado de desferir golpes contra ele. Afinal, na perspectiva deles, as “Baratas” conquistaram mais em poucas semanas do que o Congresso e as organizações de massa da classe trabalhadora conseguiram em 12 anos.
Lutar até o fim
O principal obstáculo, como sempre, é a questão da direção. As limitações dos dirigentes do CJP ficaram evidentes durante o verão. Não foi a repressão que permitiu a Modi reestabilizar a situação, mas sim a ingenuidade de Dipke e seus aliados.
Após a vitória parcial, cometeram o erro de suspender os protestos em um gesto de “boa-fé” para com Modi: depositaram sua confiança nesse gângster burguês e acreditaram que os parágrafos da constituição indiana os salvariam.
Dipke admitiu abertamente ser uma figura surgida por acaso, alguém que jamais havia organizado um protesto antes de maio. A direção do CJP não é composta por revolucionários veteranos, mas por graduados de situação financeira relativamente confortável e imbuídos de ideias liberais. Resta saber se eles têm a fibra necessária para levar essa luta adiante.
No entanto, como compreenderam tanto Marx quanto Trotsky, o chicote da contrarrevolução é frequentemente necessário para impulsionar a revolução. O CJP tem sofrido pressão da base para retomar os protestos desde que foram suspensos. Por onde quer que passassem, os jovens perguntavam: “Quando começa a segunda temporada?”
Ao mesmo tempo, os dirigentes do CJP sofrem pressão dos “democratas” burgueses do Congresso, que tentam cooptá-los para a aliança I.N.D.I.A. (Indian National Developmental Inclusive Alliance, Aliança Nacional Indiana para o Desenvolvimento Inclusivo, em tradução livre ao português). Uma mistura heterogênea de forças de oposição a Modi, reunindo desde partidos comunistas até grupos rivais adeptos da Hindutva e conhecidos por sua violência, como o Shiv Sena.
É provável que os dirigentes do CJP tenham considerado a questão da Comissão Eleitoral um terreno “mais seguro” do que temas econômicos ou sociais — como habitação e pobreza —, uma vez que o Congresso (de orientação liberal) e outros partidos da aliança I.N.D.I.A. já defendiam essa pauta. No entanto, a dinâmica da situação fez com que a tensão explodisse mais uma vez.
Modi não estava disposto a um debate “polido” sobre democracia e o cadastro eleitoral. E a juventude da Índia também não.
Embora sintam repulsa pela privação de direitos de muçulmanos e outros grupos oprimidos promovida por Modi — uma medida antidemocrática —, eles também enxergam uma oportunidade de derrubar mais um dos aliados de Modi. Eles querem combater o BJP e veem a CJP como a melhor arma para essa tarefa.
A força da CJP reside justamente em sua capacidade de canalizar a revolta e o ódio da juventude indiana contra todos os partidos políticos: contra todo o establishment apodrecido.
Se seus dirigentes forem atraídos para uma frente popular com os liberais burgueses em defesa da “democracia”, o movimento será neutralizado e destruído. Essa é uma ameaça real, visto que Rahul Gandhi tem convidado a CJP e todos os outros partidos desacreditados para reuniões em sua casa, na tentativa de colocá-los sob sua direção.
Aceitar essas investidas equivaleria a adotar a mesma estratégia fracassada que a chamada esquerda indiana vem seguindo há anos.
Em vez disso, uma luta séria para defender direitos democráticos básicos e promover os interesses dos trabalhadores contra um BJP cada vez mais reacionário e cruel deve mobilizar todas as forças sociais exploradas e oprimidas para uma batalha contra seu inimigo comum: Modi e os bilionários que ele representa. As condições para tal luta não estão apenas maduras; estão passando do ponto.
A Índia é um barril de pólvora prestes a explodir. Já houve sinais disso. Há algumas semanas, ocorreram grandes protestos de mulheres contra o estupro e o abuso de meninas em Delhi. Houve mobilizações intensas contra a destruição de uma mesquita histórica em Ujjain. Houve um descrédito generalizado em relação aos dados econômicos que apontavam um crescimento acelerado da economia indiana.
E o que mais chama a atenção é quantas pessoas ainda saíram às ruas no sábado para lutar, apesar de conhecerem os riscos de prisão e espancamento. As pessoas estão perdendo o medo do aparato repressivo do Estado, e esse é um sinal importante de para onde as coisas estão caminhando. Dezenas de milhares estão prontas para lutar.
Por fim, é preciso lembrar que, após a renúncia do Ministro da Educação, ele foi substituído por alguém pior: Prahlad Joshi, um membro de longa data e figura central do RSS. Se Gyanesh Kumar renunciar, por quem ele será substituído?
Na última vez, os protestos terminaram prematuramente, e Modi lançou uma ofensiva de desinformação e prisões, fazendo dos manifestantes — especialmente as mulheres — exemplos para intimidar os demais. O CJP deixou Jantar Mantar; agora, o local é uma área proibida. Desta vez, Modi começou com a repressão, que só se intensificará se o movimento recuar.
Não pode haver meio-termo. Em última análise, para que o CJP possa reivindicar a vitória, precisa unir forças com a poderosa classe trabalhadora e os agricultores indianos que, por ora, permanecem como meros espectadores desses acontecimentos. Isso transformaria toda a situação e colocaria Modi contra as cordas.
- Não à “Emergência de Modi”!
- Gyanesh Kumar deve renunciar!
- Luta por tempo indeterminado até a queda de Modi!
- Nenhum acordo com o BJP!
- Luta por tempo indeterminado para derrubar o “domínio dos bilionários”!


