Em seu ápice, o movimento deste fim de semana testemunhou as massas francesas lutarem contra a polícia a 300 metros dos degraus do Palácio do Eliseu (sede da presidência). Somente podemos imaginar o grau de tensão no gabinete do Presidente. Por todo o país, um milhão, talvez dois milhões de pessoas se manifestaram. A classe dominante foi abalada até os seus fundamentos.
Imagens da câmara municipal em chamas, em Limoges, foram transmitidas pelas TVs em um looping interminável, e um grande clamor de solidariedade levantou-se pelos seus tijolos carbonizados e vidros partidos. Enquanto isso, nem uma palavra sobre a polícia lançando gás lacrimogêneo sobre protestos pacíficos, naquela mesma manhã, para arquitetar seu discurso; nada se falou, nas últimas semanas, sobre as mandíbulas, dentes, olhos e mãos de jovens adolescentes que foram despedaçados por uma polícia militarizada.
Houve uma tentativa de alimentar uma guerra cultural, de culpar os muçulmanos e os chamados “recém-chegados”. Não, isto não tem nada a ver com os “recém-chegados”. Esta é a fúria de uma classe nativa de sans-culottes modernos que foram humilhados e degradados toda a sua vida.
Novos grafites em Paris capturam décadas de sentimento acumulado nas palavras infames de presidentes passados e presentes: “Chirac chamou-nos de ‘o barulho e o cheiro’; Sarkozy disse que precisávamos de uma limpeza com uma ‘máquina de pressão’ [ou seja, canhão de água]; Hollande chamou-nos de ‘pessoas sem dentes’; Macron chama-nos de ‘zé-ninguéns’ – que se dane o desprezo deles!”
A classe dominante foi totalmente apanhada de surpresa pela magnitude do fenômeno. 1.000 policiais do batalhão de choque ficaram feridos. “Perdemos o controle”, admitiu o Ministro do Interior, Laurent Nuñez. Em alguns locais, os policiais tiraram os capacetes de exaustão, sinalizando derrota. Mas isto é apenas o começo.
As revoluções da Geração Z chegam à Europa
Prevíamos que as revoluções da Geração Z chegariam à Europa mais cedo ou mais tarde. Agora elas estão aqui. A França está na vanguarda, fazendo jus à sua tradição revolucionária. É talvez rivalizada pela Albânia, onde Tirana tem assistido batalhas campais durante dias entre multidões enormes de jovens e a polícia.
Mas toda a Europa está em chamas, e muitos países estão apenas a um ou dois passos atrás.
No Estado espanhol, protestos massivos varreram o país semana após semana. Assim como o Estado francês espanca crianças, na Espanha, vários camburões da polícia de choque e um helicóptero policial foram usados para despejar e matar uma idosa pensionista, Maricarmen, de 87 anos, que estava violando os direitos de propriedade de um fundo abutre que agora tem a posse da casa onde ela vivia há 70 anos.
Estes são os valores liberais, “democráticos”, ocidentais em defesa dos quais a Europa está se armando até aos dentes e despejando armas no banho de sangue ucraniano.
Na Espanha, foi convocada uma greve geral para 11 de novembro. Na França, um dia de ação foi convocado, com muita hesitação, pelos sindicatos para 5 de novembro. Mais tarde neste mês, os estivadores entrarão em greve contra o militarismo, em 30 de outubro. Uma greve europeia de jovens contra o militarismo foi convocada para 20 de novembro. Na Itália, os dirigentes da CGIL convocaram uma greve geral para 20 de novembro.
Este será um outono muito quente, com ares de 1968. Na França, Espanha, Portugal, Bélgica, Grécia, Itália, Irlanda, Sérvia, Albânia e outros lugares, os movimentos já irromperam. O mesmo material inflamável existe em abundância em todos os outros lugares.
Iniciada por várias questões, uma confluência de fatores está agora fundindo-se em um único fluxo: o custo de vida, os preços dos aluguéis, o militarismo, a Palestina, o meio ambiente, a austeridade, a habitação, a educação, o bode expiatório racista, o ódio à direita e ao fascismo. Há uma fúria contra a violência policial, que mesmo longe de ter conseguido reprimir o movimento, dissipou as ilusões no Estado “democrático” mantidas por camadas mais atrasadas.
A Europa expressa de forma aguda todas as contradições do sistema. Recomendamos aos nossos leitores que leiam este artigo. Sendo o berço do capitalismo, é provavelmente aqui que o sistema progrediu mais em sua degeneração senil, onde a classe capitalista se tornou mais parasitária, onde os limites do Estado Nação são mais sufocantes para as forças produtivas. A derrota na Ucrânia está dando ao continente o seu empurrão final para o precipício.
Mas a Europa apenas nos oferece uma expressão aguda de um processo que se desenvolve por todos os cantos. Estes fazem parte de uma cadeia de eventos revolucionários que se estende do Sri Lanka a Bangladesh, Quênia, Indonésia, Nepal, Madagáscar.
Neste momento, esses eventos revolucionários que começaram no sul da Ásia chegaram à Índia, onde o regime de Modi, recorrendo à repressão, está se tornando frágil e seguindo o caminho do regime de Hasina em Bangladesh.
No Brasil, milhões de jovens estão se mobilizando contra a extrema-direita. Há grandes movimentos em curso atualmente no Chile, na Argentina, uma greve geral poucas semanas após o início do mandato de um governo de extrema-direita na Colômbia.
Em todos os cantos do globo, vemos eventos revolucionários irrompendo, refletindo muitos sintomas da mesma doença: a agonia mortal do capitalismo.
Um salto enorme
À medida que os jovens ocupam mais uma vez a Puerta del Sol na Espanha e a Praça Syntagma em Atenas, há ecos dos movimentos de 2011. Lembro-me de assistir na TV as massas egípcias lutando bravamente contra os capangas do regime de Mubarak na Praça Tahrir no ‘Dia da Fúria’ em 25 de janeiro de 2011. Isso espalhou-se rapidamente pela Europa, numa onda massiva de greves e ocupações de praças contra a austeridade. Chegou até mesmo aos Estados Unidos, com o movimento Occupy Wall Street.
O movimento atual tem alguma semelhança com aquele, mas está num nível qualitativamente superior. Houve um salto enorme na consciência.
Em 2011, o clima não era apenas apolítico, era antipolítico e confuso. Naturalmente. Na maioria dos lugares – com exceção dos protestos contra a Guerra do Iraque – estas foram as primeiras mobilizações de massa em décadas.

O debate naquele momento não era sobre “esquerda versus direita”, mas sim sobre “os de cima e os de baixo”. O Podemos, o partido que deu expressão política a esta atmosfera na Espanha, dizia que nós, la gente (“o povo”, não a classe trabalhadora), estávamos lutando contra la casta (“a casta”) – quem quer que fossem.
Havia suspeita não apenas em relação aos partidos políticos, mas à direção em geral. Lembro-me da minha universidade ter sido ocupada em 2011, e foi uma ocupação bastante grande. Levei alguns jovens trabalhadores a essa ocupação, e eles saíram num estado de perplexidade. “O que estes estudantes vão alcançar se passarem o tempo todo debatendo se é antidemocrático votar ou eleger uma direção?” Boa pergunta.
Em contraste, hoje, vemos bandeiras vermelhas por toda a parte. Em todo o lado, os jovens estão claramente na esquerda radical, e as ideias comunistas estão em ascensão. Estão conscientemente colocando a questão de classe na vanguarda.
Desde o início vimos a palavra de ordem Hacia una huelga general (rumo a uma greve geral), levantada espontaneamente pelos jovens no Estado espanhol muito antes de os sindicatos adotarem a ideia. Quando os professores em greve marcharam para o acampamento na Puerta del Sol em Madrid, foram recebidos com cânticos de Esto es lucha de clases, no podemos hacer las paces (isto é luta de classes, não podemos fazer as pazes).
Na França, é o mesmo. Circulam vídeos e imagens de jovens franceses levantando palavras de ordem revolucionárias como Vive La Commune!, Façamos um novo Maio de 68. Na Praça da República, cantaram o hino dos trabalhadores, A Internacional, em francês. Em vídeos emocionantes que circularam uma semana depois, estudantes secundaristas em Atenas responderam cantando A Internacional em grego. Na Espanha, as canções revolucionárias da Guerra Civil ouvem-se nas ruas pela primeira vez desde a década de 1970. Na Itália, a canção partidária comunista Bella ciao.
Durante anos, a Internacional Comunista Revolucionária (ICR) opôs-se a uma corrente de argumentos dentro da chamada “esquerda” que, olhando apenas para a aparência superficial das coisas (a predominância dos demagogos de direita, da guerra e da histeria anti-imigrantes impulsionada pelos meios de comunicação) proclamou que vivíamos uma era de reação, ou mesmo de um fascismo iminente. Apontavam para os padrões de votação à direita e baixos números de greves, e declaravam que a classe trabalhadora é inerte, retrógrada e racista.
Nós fomos os únicos a dizer que, não, um tremendo clima de raiva estava acumulando-se. Entre os jovens, especialmente, este clima está deslocando-se fortemente para a esquerda, em direção a conclusões revolucionárias. O caminho estava sendo preparado para tempestuosas irrupções revolucionárias.
Os relatórios que estamos recebendo também sugerem outra coisa que é bastante significativa neste salto em frente na consciência. Os jovens viram como se desenrolaram os eventos revolucionários no Sri Lanka, Bangladesh e Nepal. Os governos foram derrubados por números esmagadores nas ruas, depois novos governos chegaram ao poder e governaram da mesma maneira – com as suas políticas ditadas pelo mercado financeiro.
Tendo aprendido que este movimento terá fluxos e refluxos, que não será um drama de ato único, camadas significativas compreenderam que algo só permanecerá no refluxo se nos organizarmos.
Os comunistas revolucionários devem escancarar as portas a estes jovens, devem tratá-los como camaradas que regressam a casa e dar-lhes uma organização, ideias, direção e um papel a desempenhar.
Os sindicatos correm para recuperar o atraso
Em todos os lados, o que se destaca é o abismo entre a consciência avançada e revolucionária de grande parte da juventude e o conservadorismo dos sindicatos e partidos que afirmam representar os trabalhadores – especialmente, mas não exclusivamente, as suas direções.
Os jovens estão saltando por cima destas organizações. Pequenos grupos acidentais, como o Sindicato de Inquilinos na Espanha, conseguem convocar protestos enormes. No Brasil, o Partido dos Trabalhadores (PT) convocou um comício eleitoral muito pálido na sexta-feira imediatamente anterior à votação do primeiro turno, há poucas semanas. Depois de o resultado ter dado 47 por cento a Bolsonaro e 45 por cento a Lula, não foi o PT, mas os DCEs das universidades que convocaram os protestos de massa – aos quais milhões responderam em um protesto raivoso, vibrante e juvenil.
Os dirigentes sindicais encontram-se presos numa situação muito desconfortável. Vêem claramente como seu papel, conter e refrear o movimento. Não têm a perspectiva de uma revolução. Mas se não fizerem alguma coisa, correm o risco de ser ultrapassados pela esquerda e de perder toda a influência, especialmente entre os jovens. E então como poderiam desempenhar o seu papel de conter as coisas?
Assim, na Espanha, no dia em que os jovens ocuparam a Puerta del Sol em Madrid, o pequeno sindicato radical CGT reuniu-se com membros do Sindicato de Inquilinos para discutir a questão de uma greve geral. Foi isto que incitou os líderes das grandes federações sindicais, UGT e CCOO, a convocar rapidamente uma greve geral para 11 de novembro.
Fixaram uma data simpática e distante para sugar o momento político dela e pouco fizeram para mobilizar para a greve desde então. Acenderam o fogo com a mão trémula. Fizeram de tudo para abafar e conter os resultados. Mas tiveram de fazer a convocatória por medo de que outro lhes roubasse a iniciativa se não o fizessem.
No entanto, dado o fato de a Espanha não experimentar uma greve geral há 15 anos, até este ato trêmulo dos líderes sindicais foi agarrado com entusiasmo. Podem receber exatamente o que temem: uma demonstração colossal de força da classe trabalhadora.
Eventos tempestuosos também chegaram à Itália. O sul do país está bloqueado por protestos contra o aumento do combustível. No norte, jovens pobres organizaram-se através do TikTok para enfrentar a polícia em cidades como Milão, e as janelas de algumas lojas de marcas de luxo foram quebradas. Como respondeu a federação sindical CGIL a esta expressão de fúria cega da classe trabalhadora em Milão? Organizando um contra protesto pela “paz”!
No entanto, vendo o que aconteceu na Espanha e lembrando-se de como o pequeno e radical sindicato USB os ultrapassou e convocou uma greve geral pela Palestina em outubro passado, a direção sindical está numa posição delicada. Assim, o secretário-geral Landini anunciou uma greve geral para 20 de novembro, ligando-a explicitamente à greve europeia de jovens contra o militarismo no mesmo dia.
A CGT brinca com o fogo
Mas é, novamente, na França que vemos o papel dos dirigentes sindicais se desenvolvendo de forma mais clara. Ano após ano, os dirigentes da CGT jogam o mesmo papel cínico. Não convocam greves gerais, mas sim “dias de ação” em que todos são convidados a fazer os seus próprios protestos. Estes ocorrem normalmente em dias úteis, quando os trabalhadores – naturalmente, visto que não estão em greve – estão trabalhando.
Em vez de procurarem fortalecer o movimento e lançar verdadeiramente o desafio ao governo e à classe dominante, procuraram conter o ímpeto das mobilizações do fim de semana passado, em 17 de outubro, apelando não a uma greve geral, mas a outro “dia de ação” em 5 de novembro!
Isto gerou uma raiva real dirigida à cúpula sindical – com razão. O timing não podia ter sido mais cínico: longe o suficiente no futuro para deixar as coisas abrandarem um pouco, para drenar o ímpeto, e a meio das férias escolares para afastar os estudantes secundaristas que iniciaram este movimento.
Mas podem ter calculado mal. A amplitude do movimento significa que, haja ou não férias, os jovens estão indo para as ruas. E o sucesso de 17 de outubro significa que haverá agora uma série de mobilizações até 5 de novembro.
Em uma situação em que qualquer orador que não peça a queda imediata de Macron é vaiado, a dirigente da CGT, Sophie Binet, foi forçada a radicalizar a sua retórica para manter o controle da situação. Ao fazê-lo, fez declarações que dão um sabor totalmente novo a este “dia de ação”.
Saindo de negociações orçamentárias com a imprensa, disse o seguinte (a ênfase é minha):
“Chegou o momento de elevar a mobilização ao nível seguinte. A greve deve assumir o batuta. É por isso que a CGT, juntamente com a coligação intersindical, convoca a maior mobilização possível para dia 5 de novembro. Chamamos todos os trabalhadores a criarem assembleias gerais em todos os lugares – em cada local de trabalho, com todos os seus colegas, em cada setor e em cada fábrica – para espalhar e generalizar a greve, tanto em 5 de novembro como para além disso. A greve: é isso que deve ser colocado na ordem do dia. Quando os trabalhadores param de trabalhar, o país para, a economia paralisa. Só assim as nossas reivindicações serão finalmente ouvidas.”
Estas são palavras de que ela poderá facilmente arrepender-se! Para acompanhar o clima radical, ela é agora forçada a apresentar o dia 5 de novembro como um dia de greve, e até a apelar para que os trabalhadores organizem assembleias, insinuando a ideia de que isto dará início a uma onda de greves.
Não esqueçamos que a greve geral revolucionária de maio de 68 começou como um único dia de greve em 13 de maio, que os trabalhadores tomaram como sinal para uma greve geral total, que só podia ser uma luta pelo poder.
Apoiamos cada passo dado pelos dirigentes sindicais, por mais hesitantes que sejam, que empurrem verdadeiramente o movimento para a frente. Mas devemos alertar os trabalhadores de que o seu histórico mostra que não têm uma perspectiva clara. Eles estão quilômetros atrás do movimento, que estão tentando conter conscientemente!
Além disso, este movimento está atraindo diversas camadas: estudantes secundaristas, universitários, coletes amarelos, pensionistas, agricultores, não apenas sindicalizados.
À medida que estes movimentos atingem seu auge por toda a Europa, no seu estado mais avançado colocarão naturalmente a necessidade de organizações mais flexíveis e com o objetivo de dar expressão ao clima genuíno das grandes massas, e às suas reivindicações centrais, e não apenas às migalhas com que os burocratas sindicais se contentariam alegremente.
Esta é a forma de combater a direita!
O que é realmente espantoso é como, por toda a Europa, estes movimentos liderados pela juventude revolucionária furaram o ambiente racista de guerra cultural que a classe dominante tem cultivado. Esta é a forma de combater verdadeiramente a extrema-direita.
Na Espanha, o movimento está apresentando reivindicações muito radicais, incluindo a nacionalização de corporações imobiliárias, contratos de arrendamento por tempo indeterminado e uma redução de 50 por cento nas rendas. As sondagens mostram que 83 por cento da população apoia pelo menos parcialmente as reivindicações do movimento, incluindo 65 por cento dos eleitores tanto do PP como do partido de extrema-direita Vox!
Enquanto isso, no meio disto, o Vox de extrema-direita prepara-se para as eleições e pronunciou-se a favor de cortes na educação e na saúde, e da privatização das pensões. As credenciais antissistema que alegavam possuir estão em frangalhos. Agora, em protesto contra o Vox e o PP, a sua base tradicional, os aposentados, saem às ruas em protesto contra eles!
Que reviravolta! Poucas semanas antes do despejo e o assassinato de Maricarmen, qual era a narrativa política dominante na Espanha? Era uma narrativa reacionária, de alarmismo e racismo depois que dezenas de milhares de imigrantes nadaram para o território espanhol de Ceuta a partir do lado marroquino do enclave.
Agora, os jovens levantam a excelente palavra de ordem: los invasores son los inversores (“os invasores são os investidores”). Os métodos de luta de classe da juventude radical e de esquerda estão a cortar a armadilha da guerra cultural.
Também na França, onde os jovens nas ruas estão impregnados de ódio à direita e à extrema-direita, 55 por cento dos eleitores do Reagrupamento Nacional (RN) são contra os protestos… mas isso deixa de fora outros 45 por cento. E mesmo assim, mais da metade apoia as reivindicações dos estudantes secundaristas. Eles estão divididos ao meio.
O partido de Mélenchon, a França Insubmissa (FI), que, com mérito, se manteve firmemente ao lado dos estudantes secundaristas e dos protestos, está fortemente em ascensão. Enquanto isso, Le Pen, tentando provar a sua respeitabilidade antes das eleições daqui a seis meses, está focada em quê? Em apelos à repressão e em provar a sua “responsabilidade fiscal”, com a promessa de realizar 150 bilhões de euros em cortes – no meio do maior movimento anti-austeridade de uma geração!
Fracasso do reformismo
É assim que se combate a extrema-direita. Quando surge uma liderança de esquerda lutadora e radical, como aconteceu entre os jovens, as camadas mais atrasadas podem ser arrastadas atrás dela. As questões de classe vêm para a vanguarda, as questões relacionadas à guerra cultural recuam. A direita fica exposta e à deriva.
Até os jovens começarem a mobilizar-se, esta liderança era exatamente o que faltava. Os partidos reformistas estabelecidos da chamada “esquerda” tinham um histórico miserável de realizações de ataques exigidos pelos capitalistas.

Assim, temos uma situação irônica. Estes movimentos empurraram o pêndulo fortemente para a esquerda na Europa e muito além. No entanto, o que vemos na frente eleitoral? O Vox na Espanha; a AfD na Alemanha; Le Pen na França; Bolsonaro no Brasil; o Reform UK na Grã-Bretanha; o Chega em Portugal. Demagogos de direita em ascensão, muitos dos quais podem de fato chegar ao poder no próximo período.
A crise do capitalismo está agitando toda a sociedade. Trabalhadores politicamente atrasados e camadas da classe média também estão se agitando. À medida que essas camadas procuram uma alternativa, a direita está a capturar demagogicamente parte dessa raiva antissistema.
Isto deve-se precisamente ao fracasso das lideranças fracas e colaboracionistas de classe da chamada esquerda e dos sindicatos, que deixou um vácuo escancarado. Mas isto não significa que estas camadas sejam irremediavelmente reacionárias e racistas. Elas podem ser atraídas pelo vácuo de uma alternativa verdadeiramente revolucionária.
Mas, na sua ausência, onde figuras reformistas tentam capitalizar sobre o clima na sociedade, vemos o quão fraco é o desempenho que apresentam. Na Espanha, Pedro Sánchez, primeiro-ministro do Partido Socialista, tentou cinicamente passar por amigo do movimento de habitação. Apresentou algumas reformas mínimas ao parlamento, onde foram derrotadas, e convocou agora eleições.
Mas como pode haver algum entusiasmo por Sánchez? O seu governo teve oito anos para fazer algo sobre a questão da habitação e não fez nada até agora.
No Brasil, é ainda mais claro. O movimento de milhões nas ruas é contra Bolsonaro e, portanto, de fato, em apoio a Lula. Mas sob que condições a vida piorou a ponto de Bolsonaro poder agora vencer? No governo Lula.
Assim, o movimento contra Lula desenvolveu-se apesar do papel de Lula e do PT. Como disse um adolescente à imprensa em um protesto: “Estamos lutando pelo Brasil, não pelo Lula”. Entre milhões, isto é visto como um movimento pela democracia, contra a agressão pan-continental do imperialismo norte-americano, contra a direita abertamente reacionária e ligada aos militares.
Mas uma grande parte desta juventude vê muito além de Lula, a quem apenas utilizam para derrotar a direita. Estão a tatear em direção a ideias muito mais radicais, até mesmo comunistas.
Lutar pelo comunismo
Estamos longe de ter visto o auge da atual onda de lutas. A crise, entretanto, avoluma-se diariamente para o capitalismo europeu.
Nesta semana, a taxa de juros dos títulos franceses atingiu cinco por cento ao ano pela primeira vez em 23 anos. A diferença entre a rentabilidade dos títulos franceses e alemães traz ecos da crise do euro de 2011-2015. Exceto que desta vez não estamos apenas falando de economias pequenas como a Grécia que esteve no olho do furacão, mas de economias centrais como a França, a Itália e a própria Alemanha. Isto é um perigo existencial para todo o projeto da União Europeia.

Porque as taxas de juros dos títulos estão disparando? A dívida é impagável, e agora os mercado financeiro olha com medo para estes governos fracos e odiados, e não acreditam que eles possam fazer o que é “necessário” do ponto de vista dos capitalistas: fazer os trabalhadores pagarem através da austeridade.
Nas palavras do Financial Times, a França está encurralada “entre o mercado financeiro e as barricadas”. Os governos estão encurralados entre enormes pilhas de dívida e a raiva revolucionária das massas.
No seu editorial anterior ao 17 de outubro, o Le Monde alertou o governo de Lecornu para não fazer concessões aos jovens, que não podem pagar: “Devem ser estabelecidas prioridades, mesmo que isso signifique fazer escolhas impopulares.”
Após 17 de outubro, em seu editorial alertou o governo para ter cuidado para não confiar excessivamente na repressão. Acusou o governo de “uma escalada desastrosa: usam cada vez mais força, e têm cada vez menos contenção e controle no seu uso”.
Tem razão em ambas as avaliações. Nem as concessões nem a repressão os tirarão desta crise.
O que se abre é um período de intensa luta de classes. A classe dominante está demasiado fraca para desferir um golpe decisivo contra a classe trabalhadora. Fica suspensa no ar, aterrorizada. Fatalisticamente, sabe que tem de atacar a classe trabalhadora para “acalmar os mercados”, mas o que pode fazer contra milhões de trabalhadores uma vez mobilizados?
Mas os trabalhadores e os jovens enfrentam também um problema. Os seus líderes sindicais certamente não pediram este movimento e estão a fazer tudo o que está ao seu alcance para o desarmar. Os próprios jovens apresentaram o embrião da alternativa: uma liderança revolucionária e militante. Mas não estão organizados.
Sem organização, até o movimento mais poderoso falhará em romper decisivamente. Nas eleições que se seguiram a Maio de 68 na França, foi De Gaulle quem ganhou – não por falta de espírito de luta entre os trabalhadores, mas porque os seus partidos tradicionais, o Partido Socialista e o Partido Comunista, não estavam preparados para fazer o que o momento exigia: tomar o poder e realizar uma revolução socialista.
Na situação atual, há apenas uma saída: que os trabalhadores e os jovens tomem o poder nas suas próprias mãos, formem um governo de trabalhadores, realizem a nacionalização das principais indústrias e instituições financeiras, tomando a riqueza para as mãos da classe trabalhadora. Para iniciar a transformação socialista da sociedade. Essa é a tarefa da nossa época.
A única outra opção, aquela defendida pelos líderes reformistas, é “gerir” o sistema capitalista, o que por diversas vezes apenas devolveu a iniciativa à direita.
Portanto, na onda crescente de luta, a nossa mensagem à juventude revolucionária é: organizem-se! Convidamos vocês a se juntarem à Internacional Comunista Revolucionária.


