2026 já caminha para ser o ano mais quente já registrado, superando o recorde de 2024, que, por sua vez, havia ultrapassado o de 2023. A Europa, o continente que se aquece mais rapidamente no mundo, foi atingida por quatro ondas intensas de calor neste verão, período em que foram registradas 35 mil mortes acima da média.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 175 mil pessoas morrem todos os anos na Europa por causas relacionadas ao calor. As 35 mil mortes adicionais, na verdade, subestimam o excesso de mortalidade deste ano, pois os dados abrangem apenas metade da Europa e não incluem o mês de agosto. O número real seria muito maior.
Neste ano, incêndios florestais de grandes proporções já consumiram uma área que chega a ser quase o dobro da média dos últimos 20 anos. Na França, as chamas chegaram pela primeira vez aos arredores de Paris. Em Gironde, ocorreu a maior evacuação desde o fim da Segunda Guerra Mundial, depois que uma área de floresta de pinheiros com quatro vezes o tamanho de Paris foi tomada pelas chamas.
Cientistas estão registrando temperaturas recordes na superfície dos oceanos em todo o mundo, enquanto o gelo derrete em ritmo também recorde. Esses processos aproximam o planeta do “ponto de não retorno”, a partir dos quais ocorrerão mudanças abruptas e irreversíveis no ecossistema da Terra. Os cientistas estão falando do colapso de ecossistemas inteiros.
Esses pontos de não retorno podem interagir entre si e desencadear uns aos outros, provocando um efeito dominó no meio ambiente. Por exemplo, o degelo das regiões de permafrost (regiões que há pouco tempo eram permanentemente congeladas) libera na atmosfera dióxido de carbono e metano antes retidos no solo, o que, por sua vez, intensifica ainda mais o aquecimento.
A esse cenário se soma a chegada do El Niño, fenômeno climático em que as águas do Pacífico Oriental se aquecem ciclicamente, elevando ainda mais as temperaturas em todo o planeta. As mudanças climáticas estão tornando esse fenômeno mais frequente e intenso. O episódio atual já caminha para ser o mais forte já registrado, e os cientistas preveem que, como resultado, 2027 será o ano mais quente da série histórica.
Horror no Nepal
E há ainda o que aconteceu no Nepal. “As enchentes no Nepal pareceram eventos do fim do mundo. Uma muralha de água de cerca de 30 metros simplesmente varrendo tudo.” Um breve comentário nas redes sociais resume bem as cenas apocalípticas registradas no fim de agosto.
Um trecho de uma geleira e da rocha sob ela, com a largura de sete campos de futebol, se desprendeu do alto do pico Langtang Lirung e despencou milhares de metros até o fundo do vale. Água, gelo, lama e rochas se misturaram num turbilhão de concreto líquido, que destruiu equipamentos de medição do nível do rio e as estações meteorológicas que poderiam ter alertado as comunidades rio abaixo sobre a catástrofe que se aproximava.
Era impossível escapar correndo desse tsunami de lama. Mais de 1.400 pessoas morreram, e mais de 6 mil continuam desaparecidas e talvez nunca sejam encontradas, soterradas sob metros de lama ou arrastadas pelas águas até a Índia. O tsunami destruiu usinas hidrelétricas responsáveis por pelo menos 10% da geração total de eletricidade do Nepal — um setor fundamental para a economia do país. Agora, pelo menos 20 mil casas precisam ser reconstruídas.
Milhares de pessoas ficaram sem teto e na miséria, enfrentando tragédias pessoais inimagináveis. “Sinto que a vida não tem mais sentido. Sobreviver é um sofrimento. Não sei onde comer nem para onde ir”, disse um sobrevivente. No entanto, essa tragédia poderia ter sido evitada.
As regiões montanhosas se aquecem mais rapidamente que as áreas mais baixas ao seu redor, e o Himalaia não é exceção: a cordilheira perdeu um terço de sua cobertura de gelo nos últimos 30 anos e está se aquecendo 50% mais rapidamente que o restante do mundo. Isso está acelerando o derretimento das geleiras, muitas delas situadas bem acima de vales de encostas íngremes, cortados por rios e ocupados por comunidades. Na região, 210 lagos glaciais já foram identificados como uma ameaça às comunidades, pois podem transbordar ou ter suas barreiras naturais rompidas, provocando enchentes repentinas. Mas os cientistas afirmam que mais lagos precisam ser incluídos nessa lista.

Em outras palavras: os sinais de alerta eram claros. Era um desastre anunciado, e outros ainda estão por vir.
São as mudanças climáticas transformando o planeta diante dos nossos olhos. E são os países pobres, subordinados aos interesses das potências imperialistas e de instituições financeiras globais predatórias, que estão sendo obrigados a suportar os impactos mais graves dos desastres. A pobreza e o subdesenvolvimento comprometem diretamente as chances de sobrevivência de suas populações.
Muita gente está profundamente indignada com a inércia dos políticos ocidentais, que mal movem um dedo para enfrentar a ameaça existencial que as mudanças climáticas representam para a humanidade. Mas não se engane: isso não acontece simplesmente por falta de informação ou de vontade política para enfrentar o problema.
As classes dominantes vêm se preparando conscientemente para essa nova normalidade, aceitando o destino de milhões de pessoas e das gerações futuras. O que vimos no Nepal não será nenhuma surpresa para eles.
“Há morte por toda parte, e nenhuma ação política”
O Nepal é responsável por menos de 0,1% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas agora enfrenta mais de US$ 5 bilhões em custos de reparação e reconstrução. Enquanto isso, 100 produtores de combustíveis fósseis respondem por 71% das emissões globais de gases de efeito estufa. Os Estados Unidos, sozinhos, são responsáveis por 24% das emissões acumuladas desde a Revolução Industrial, mais do que qualquer outro país.
E como fica o Nepal nessa história? Em tese, o “Fundo de Perdas e Danos” da ONU existe para ajudar. Mas apenas US$ 20 milhões (uma fração do necessário) poderiam ser destinados ao Nepal para lidar com os danos. E, de forma escandalosa, um dos membros do conselho do fundo sugeriu que, em vez disso, o país recorresse a empréstimos do Banco Mundial!
O absurdo é que o Banco Mundial e o Banco Asiático de Desenvolvimento detêm 80% da dívida do Nepal com credores financeiros internacionais. Assim, a “solução” é o Nepal se endividar ainda mais com as mesmas instituições para às quais já deve dinheiro, deixando ainda menos espaço no orçamento para o socorro às vítimas de desastres.
Sob o capitalismo, o povo do Nepal — assim como o de todas as nações dominadas — sofre ainda mais por causa desses parasitas.
Milhões de pessoas serão afetadas pelos efeitos em cascata desses choques ambientais. As secas e a redução das chuvas neste ano já prejudicaram as colheitas, e o El Niño vai agravar o problema, empurrando mais 50 milhões de pessoas para a “fome aguda” em razão da disparada dos preços dos alimentos. De fato, um relatório recente prevê que esse “super” El Niño será responsável por 450 mil mortes em todo o mundo apenas entre setembro de 2026 e fevereiro de 2027.
É difícil expressar o quanto essa situação é devastadora, somando-se a um cenário turbulento de crises econômicas e sociais, no qual os mais pobres já vêm enfrentando dificuldades cada vez maiores. A guerra do Irã, por exemplo, provocou aumentos de preços que, até agora, atingiram com mais força o Sudeste Asiático — justamente a região onde os efeitos deste El Niño vão se concentrar.
O que testemunhamos neste ano, portanto, parecerá menos dramático diante do que nos espera.
As pessoas estão vivendo esses desastres climáticos na própria pele ou acompanhando suas imagens pela internet. A passividade da elite política diante disso alimenta uma revolta crescente e um desejo de vingança. Um adolescente de 17 anos entrevistado na França ainda em julho resumiu esse sentimento, dando voz a milhões de adolescentes e jovens: “Estou com raiva… Há morte por toda parte, e nenhuma ação política”.
Poucos meses depois, esses mesmos adolescentes se cansaram de esperar por uma ação política. Depois de meses assistindo a aulas sob um calor sufocante de 40 °C, em turmas superlotadas, sem professores, sem ar-condicionado, acompanhando as mortes no Nepal e sentindo o cheiro de florestas antigas em chamas para além dos limites das cidades, esses jovens agora decidiram agir por conta própria.
Cálculos cínicos
Enquanto isso, a institucionalidade está mais consciente do que nunca da ameaça que a crise climática representa para a sociedade. Mas, como sabem que ninguém acredita quando fingem fazer algo para conter as mudanças climáticas ou atenuar seus efeitos, deixaram de fingir. Essa encenação ficará no passado: é mais uma camada do verniz das elites liberais que se desfaz. Agora, estão ocupadas se preparando para proteger seus lucros.
Foram alertadas durante décadas e não fizeram nada. Mesmo nas negociações do supostamente “histórico” Acordo de Paris, foi aceita a meta de limitar o aumento da temperatura global a 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais, apesar dos alertas de que esse próprio patamar, por si só, já poderia desencadear múltiplos pontos de não retorno climáticos — riscos que só aumentariam a cada fração de grau adicional! Mas agora praticamente não falam mais sobre isso.
Qualquer aparência de cooperação internacional está sendo abandonada e substituída por uma competição regida pela lei do mais forte, com o capital na dianteira.

A pessoa responsável pela consultoria climática global do JPMorgan — um dos maiores bancos do mundo — resume a mensagem de seu principal artigo no subtítulo: “Os pontos de não retorno climáticos envolvem profundas incertezas, mas podem ter consequências de grande impacto. Como precificá-los melhor na tomada de decisões financeiras?” Essa pergunta, aliás, é ainda mais repugnante quando se considera que o banco é o maior financiador de empresas de combustíveis fósseis.
O Nest, maior fundo de pensão do Reino Unido, está estudando como os pontos de não retorno afetarão a “resiliência da carteira de investimentos”, para reavaliar a alocação de seus ativos. As seguradoras estão agindo para garantir seus lucros: por um lado, aumentam os preços dos seguros; por outro, deixam de cobrir imóveis considerados “de risco” e endurecem as condições contratuais.
O quadro é o mesmo por toda parte: a classe capitalista está preocupada com os transtornos que as mudanças climáticas causarão à economia global e busca se proteger de uma grave instabilidade econômica. É apenas mais uma pedra no sapato, num momento em que tenta proteger seus lucros em meio à profunda instabilidade e desorganização da economia, com uma recessão no horizonte.
Por sua vez, os governos entram em pânico e passam a considerar os efeitos da crise climática como “ameaças à segurança nacional”: migrações em massa, conflitos por recursos, polarização política e o risco de convulsões sociais.
Quem antes chefiava a USAID fala em fronteiras militarizadas:
“Os Estados Unidos estão mais seguros quando o mundo está mais estável… Se o mundo está instável, há mais refugiados tentando cruzar fronteiras e, em algum momento, talvez as nossas. Talvez seja necessário enviar tropas americanas. Por isso, lidar com desastres naturais e causados pela ação humana antes que saiam do controle é do interesse dos Estados Unidos.”
Os serviços de inteligência britânicos divulgaram uma versão com trechos confidenciais de um relatório, meses depois de sua publicação ter sido barrada na última hora. O documento alerta para a vulnerabilidade do abastecimento britânico de alimentos e fertilizantes diante dos mercados globais e aponta que “o Reino Unido não tem terras suficientes para alimentar sua população e criar gado: seria necessária uma mudança radical na alimentação dos consumidores”.
O relatório também explica que, caso a oferta de alimentos se torne mais escassa, aumentará o risco de diferentes Estados intervirem para garantir sua própria segurança alimentar, levando a “uma maior securitização dos alimentos e da água e mais conflitos por esses recursos”. Embora não o diga explicitamente — talvez a versão integral diga —, a mensagem do relatório é clara: as restrições ao abastecimento de alimentos e outros recursos associadas ao clima são uma questão de segurança nacional, e intervenções militares podem ser necessárias:
“Todos os países estão expostos aos riscos de colapso dos ecossistemas dentro e fora de suas fronteiras. Alguns enfrentarão esses riscos antes de outros e provavelmente agirão para assegurar seus interesses, sobretudo a segurança hídrica e alimentar.”
Não são apenas os serviços de inteligência britânicos que pensam assim. Mais de 70% dos países do mundo classificaram as mudanças climáticas como um problema de segurança nacional e, sem dúvida, levam isso em conta em suas estratégias de defesa. De fato, a Estratégia Nacional de Defesa do governo Biden — antes de Trump chegar e voltar a colocar as mudanças climáticas entre aspas — fez exatamente isso:
“A insegurança e a instabilidade relacionadas às mudanças climáticas podem sobrecarregar a capacidade de governança de alguns países, ao mesmo tempo em que acentuam as tensões entre outros, aumentando o risco de novos conflitos armados e a demanda por ações de estabilização.”
Todos esses exemplos revelam a verdadeira postura da classe dominante. Embora muitos de seus representantes políticos falem em enfrentar a crise apenas da boca para fora, a classe dominante tem plena consciência dos impactos da crise climática e está se preparando ativamente para ela. Está se preparando para manter o controle — e assegurar um fluxo constante de lucros — em meio a profundas turbulências econômicas, sociais e políticas, todas agravadas pelas mudanças climáticas.
Mas, à medida que a crise climática se agrava, os políticos terão cada vez menos condições de fingir que se importam, pois sua hipocrisia ficará ainda mais exposta. Por exemplo, diante dos acontecimentos deste verão, o primeiro-ministro britânico Andy Burnham foi obrigado a falar em combater a crise climática, ainda que apenas da boca para fora. Mas ele também está prestes a aprovar um grande projeto de exploração de petróleo no Mar do Norte. Seu ministro da Energia declarou:
“O Mar do Norte continua sendo um ativo nacional vital, sustentando empregos, o crescimento e a segurança energética do Reino Unido. Temos clareza de que o petróleo e o gás continuarão desempenhando um papel importante em nosso sistema energético nas próximas décadas, em paralelo à transição para a energia limpa, para proteger os empregos e enfrentar a crise climática.”
As elites estão na corda bamba. Podem falar à vontade sobre se preparar para o futuro, mas terão dificuldade para manter o controle à medida que a crise se aprofunda.
Destrua o sistema que está destruindo o planeta
A ansiedade climática é um sentimento que ecoa no coração da juventude. 60% dos jovens de 16 a 25 anos estão extremamente preocupados com as mudanças climáticas, e 75% consideram o futuro assustador. Como resumiu um psicoterapeuta especializado em ansiedade climática:
“A geração mais jovem já não consegue imaginar o futuro, imersa em um mundo de crises sucessivas — climáticas, mas também geopolíticas e sociais: é como se tivesse de viver o luto pela perda do futuro.”
Esses temores só aumentarão à medida que ficar mais clara a dimensão da catástrofe que nos espera. Eles também estão ligados a todos os outros problemas que preocupam as pessoas: a crise do custo de vida, a Palestina, a guerra imperialista, os demagogos de direita e assim por diante.
Esse sentimento já veio à tona em outros momentos. O movimento Fridays for Future, impulsionado inicialmente por Greta Thunberg, mobilizou 14 milhões de pessoas. Também surgiram iniciativas de ação direta como o Just Stop Oil e o Extinction Rebellion, reunindo muitas pessoas corajosas sedentas por justiça, que queriam agir por conta própria em vez de depender dos políticos.

Essas iniciativas se esvaziaram porque se limitaram a “conscientizar”, “pressionar os políticos”, exigir a redução no investimento das empresas de combustíveis fósseis e assim por diante. Isso significa fazer apelos morais aos capitalistas e a seus aliados políticos para que aceitem dialogar — justamente as mesmas pessoas que vêm assinando a sentença de morte do planeta.
A raiz do problema é o sistema capitalista, que destrói o planeta para enriquecer uma minoria parasitária, enquanto todos os demais sofrem as consequências devastadoras. A riqueza necessária para evitar toda essa morte e esse sofrimento existe; está guardada nos bancos e nos paraísos fiscais privados da classe dominante.
Essa riqueza poderia reduzir consideravelmente o impacto desses desastres sobre a população. Sistemas mais robustos de alerta precoce e comunicação em massa, equipes especializadas de resposta a desastres e equipamentos melhores para realizar operações de resgate rápidas e bem coordenadas são apenas alguns exemplos do que foi negado ao Nepal.
Ao expropriar essa riqueza nas mãos dos capitalistas, a classe trabalhadora poderia planejar a economia com base nas necessidades da população e começar a enfrentar a catástrofe climática em seu conjunto. É assim que devemos fazer a classe dominante pagar pela destruição que causou: não por meio de apelos morais, mas retirando os recursos de suas mãos. Como já dissemos antes, esses recursos poderiam viabilizar uma revolução energética verde, para eliminar por completo o uso de combustíveis fósseis e atender às necessidades da sociedade sem destruir o meio ambiente.
A luta por um planeta habitável para a humanidade é parte integrante da luta pelo comunismo. Com essa perspectiva, a derrubada do capitalismo permitirá começar a enfrentar o problema.


