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A classe trabalhadora e a juventude venceram uma difícil batalha eleitoral contra o bolsonarismo em 25 de outubro. Um setor da burguesia brasileira e o imperialismo norte-americano foram frustrados nos planos que vinham fazendo desde antes do 1º turno das eleições. A responsabilidade por essa virada histórica foi da mobilização espontânea e extraordinária de milhões de estudantes e trabalhadores por todo o Brasil. Foi uma vitória daqueles que colocaram-se em movimento para barrar a volta do bolsonarismo à presidência.
Acontece que a classe que foi derrotada nas urnas, a classe capitalista, a burguesia brasileira que aqui apelidamos de “Classe Vorcaro”, continua existindo. E não só isso. Um de seus setores faz parte do próprio governo federal, representado já no próprio vice-presidente reeleito Geraldo Alckmin. Trata-se de um representante histórico da burguesia paulista. Sua presença na chapa de Lula funciona como trava de segurança e garantia para a classe dominante nacional e internacional. Em caso de emergência, poderem retirar Lula. Alckmin então exerceria o papel já cumprido antes por Michel Temer.

Classe Vorcaro
O escândalo de Daniel Vorcaro e o Banco Master permitiu um vislumbre da estrutura, do funcionamento e da psicologia de nossa própria classe dominante. Semelhante ao que aconteceu com o escândalo envolvendo Jeffrey Epstein, esse em escala mundial. Em nosso caso, é importante observar que Vorcaro era um peixe pequeno entre os capitalistas brasileiros. Se um player menor como ele detinha a influência exposta até agora, temos o direito de especular o peso dos grandes capitalistas.
Vorcaro está encarcerado e amordaçado desde 4 de março. Situação resultante de uma operação liderada pelo Supremo Tribunal Federal para o manter de boca fechada. Temia-se que se ele comparecesse na CPMI do INSS na época poderia acontecer uma “delação do fim do mundo”. Isso porque, como foi revelado nos meses seguintes pela investigação da Polícia Federal, o banqueiro tinha relações e promovia seus interesses com trânsito entre muitas autoridades de todas as instituições da República e de todos os espectros políticos.
A Classe Vorcaro é composta por aqueles envolvidos no caso Banco Master. Mas é mais do que isso. Diz respeito ao sistema que permite a corrupção, o tráfico de influência e a manipulação. Estamos falando não apenas dos capitalistas, mas também de seus políticos, dos juízes e das instituições desta República. Seus integrantes são os representantes do sistema. Tanto “amigos do peito” do “Dani” como Flávio Bolsonaro, Nikolas Ferreira e Luciano Huck, juízes que estavam em sua folha de pagamento como Alexandre de Moraes, quanto figuras de destaque do PT, como Jacques Wagner, Rui Costa e Guido Mantega.
Pêndulo da polarização
Para as grandes massas de trabalhadores, o escândalo Master alimenta uma correta percepção de que todo o sistema está apodrecido. Falta, entretanto, um partido comunista revolucionário que possa ajudá-los a compreender com clareza a natureza do sistema e os motivos de sua própria condição. Dessa ausência se valem as expressões demagógicas de extrema direita, como Flávio Bolsonaro ou Renan Santos. Apresentam-se como aqueles que compreendem e que são capazes de canalizar a revolta contra as expressões do sistema.
Essa tem sido a dinâmica fundamental do movimento de pêndulo da política na América Latina na última década e especialmente de sua “trumpificação” nos últimos anos. Depois de sofrer nas mãos da direita ou da extrema direita, as massas elegem governos “de esquerda”, “progressistas”, com a expectativa de reverter a situação e alcançar avanços. Uma vez no governo, os reformistas aplicam uma política que busca gerenciar o capitalismo. Isso leva à frustração de suas bases de apoio e alimenta a raiva contra eles mesmos.
Quando chegam as eleições, os reformistas no governo são punidos nas urnas pelos mesmos trabalhadores que os elegeram. Na ausência de uma alternativa comunista, o instrumento dessa punição tem sido os demagogos de direita e extrema direita. Desse modo, elegeram-se presidentes alinhados a Trump, assim como congressistas como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Eduarda Campopiano e Julia Zanatta. Esses indivíduos podem até ser fascistas, mas o movimento que os elegeu foi fundamentalmente de rechaço eleitoral contra o sistema.
Fermentação revolucionária
Os estudantes e os trabalhadores interromperam a dinâmica do pêndulo da polarização no 2º turno da eleição presidencial do Brasil. Já no dia seguinte ao 1º turno, manifestações espontâneas passaram a acontecer convocadas por estudantes universitários, primeiro na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, e na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), em Recife. Grupos de WhatsApp se formaram e passaram a combinar dias e horários para manifestações em cidades por todo o país. Um caráter espontâneo passou a dar o tom da campanha, ao invés do tom institucional de até então.
A coragem e a disposição de combate nas ruas contra o bolsonarismo marcaram as manifestações nos dias seguintes. Jovens que nunca haviam participado da política antes estrearam nas ruas bradando palavras de ordem. As escolas passaram a ser espaço de acirrados debates entre adolescentes e até crianças, reverberando as discussões apaixonadas que presenciavam em suas casas e comunidades. Militantes veteranos foram arrastados para as ruas, dispostos a mais uma vez colocar-se em movimento.
Essa é, justamente, uma característica fundamental de uma revolução. O que é uma revolução? Leon Trotsky explica que uma revolução é uma situação tal onde a massa de homens e mulheres normalmente apática começa a participar de maneira ativa na vida da sociedade, quando adquire consciência de sua força e se move para tomar seu destino em suas mãos. Isso é uma revolução. Se não vivemos uma revolução entre o 1º e o 2º turno, sem sombra de dúvidas vivenciamos elementos revolucionários em estágio embrionário.
Fenômeno Jones Manoel
Outro indicativo claro de fermentação revolucionária em curso na sociedade brasileira pode ser observado na visibilidade e na eleição de Jones Manoel como deputado federal. Em 2022, Jones recebeu 33.931 votos como candidato ao governo de Pernambuco. Este ano de 2026, foram 249 mil votos para deputado federal. O 2º mais votado no estado. Sua vaquinha virtual arrecadou mais de R$ 600 mil. Em 90 dias, mais de um milhão de pessoas começaram a seguir seu perfil no Instagram, que hoje registra 3,3 milhões de seguidores, por exemplo.
Jones tem cumprido um importante papel de difusão de ideias comunistas. Contribui para a politização de amplos setores da classe trabalhadora. Seu sucesso deve-se a uma radicalização cada vez maior de amplos setores das massas brasileiras. Esse processo já havia sido detectado no começo do ano pela pesquisa divulgada pelo ICL, segundo a qual 16% daqueles que votaram em Lula em 2022 queriam mudanças radicais no país. Percentual correspondente a cerca de 10 milhões de pessoas.
Saudamos a eleição de Jones e de outros companheiros da Bancada da Esquerda Radical. Apesar das críticas que fizemos ao programa da Bancada, fomos seus entusiastas apoiadores desde o primeiro momento. Já havíamos apoiado desde o ano passado a proposta de Mano Brown para que Jones fosse candidato a presidente. Não em 2030, mas já em 2026. Em nossa avaliação, uma candidatura de Jones neste ano teria sido um enorme ponto de apoio para ajudar o movimento que ocorreu a ir ainda mais longe.
Necessidade de uma alternativa comunista
Para nós, do Brasil Comunista, necessitamos de uma alternativa comunista urgente para quebrar o pêndulo da polarização. Nossa perspectiva não é esperar 2030. Queremos ajudar o movimento que despertou a se radicalizar agora. Nossa referência é o que os manifestantes da França estão fazendo neste momento nas ruas de Paris. Precisamos ajudar os milhões que se mobilizaram a não se dispersar, a radicalizar-se e a derrubar todo o sistema. Levando o pêndulo para além da extrema esquerda, podemos despedaçá-lo.
Quando falamos de construir uma alternativa comunista, queremos dizer que necessitamos de um partido comunista revolucionário capaz de conduzir a revolução brasileira à vitória. Revoluções estão acontecendo todos os anos, em diversos países do mundo. Neste momento, os estudantes e os trabalhadores da França estão resgatando as melhores tradições revolucionárias de 1968. Em todos esses casos, porém, nossa classe tem sido incapaz de tomar o poder da burguesia e, ao fim, essas revoluções são derrotadas.
Partidos e lideranças têm sido colocados à prova todas essas vezes. E infelizmente têm falhado. Em nossa avaliação, o que tem faltado uma e outra vez é um partido que consiga analisar corretamente a situação e indicar as tarefas corretas para o movimento. Revoluções não são propícias para apostas. Erros e despreparo são pagos com sangue, morte e desperdício de oportunidades históricas. Por isso, necessitamos voltar à grande referência vitoriosa de nossa classe: a Revolução de Outubro de 1917.
Batalha das ideias
Nosso modelo é o Partido Bolchevique de Lênin e Trotsky. Queremos construir um partido no Brasil que seja a expressão em nosso contexto do que foi esse partido para a classe trabalhadora da Rússia czarista. Hoje lutamos contra a austeridade fiscal, como reafirmada pelo Ministro da Fazenda Dario Durigan. Em certo momento, porém, teremos que quebrar a resistência das classes dominantes, tal qual foi necessário para quebrar a resistência da burguesia russa e internacional para impor a União Soviética.
Entretanto, o Partido Bolchevique precisou primeiro vencer a batalha de ideias para conquistar a maioria do proletariado e superar os demais partidos. Nessa etapa, a principal arma de Lênin e de Trotsky foram as ideias da teoria marxista. Ideias essas resultantes do uso correto da filosofia revolucionária do marxismo, isto é: o materialismo dialético. Se quisermos ajudar a revolução brasileira a ser vitoriosa, nossa primeira tarefa deve ser, portanto, conquistar a teoria marxista, começando pelo seu método filosófico.
Participamos de todas as lutas de nossa classe por seus interesses. Nossa principal contribuição hoje está, contudo, em oferecer explicações claras sobre a situação e, a partir disso, apresentar perspectivas que permitam melhor organizar nossas forças. Na medida em que formos vitoriosos nessa batalha de ideias, poderemos mais e mais ajudar setores de nossa classe a levar suas lutas, e em última instância sua revolução, até a vitória. A luta pela vitória da revolução brasileira passa tanto pelas batalhas de rua quanto pela de ideias.
Os manifestantes estão hoje nas ruas de Paris dizendo lutar “Pelo fim da Época Contemporânea!”. Uma alternativa comunista baseada nas genuínas ideias da teoria marxista poderá ajudar o movimento que despertou aqui no Brasil a radicalizar, destruir a Classe Vorcaro e anunciar como palavra de ordem: “Pelo início da Época Comunista!”


