Para a maioria dos apoiadores de Lula, o resultado das urnas do último domingo foi uma amarga surpresa. Nós, que fizemos campanha pelo voto crítico em Lula no 1º turno, já vínhamos alertando há muito tempo que a política aplicada pelo governo Lula fortalecia a oposição bolsonarista e era a receita pronta para a derrota eleitoral em 2026.
Afinal, Lula manteve um “teto de gastos” que serve para apertar o cinto nas áreas sociais em favor de fazer superávit fiscal, enchendo os bolsos do rentismo parasitário. Enquanto isso, seguiram mais privatizações, os preços dos alimentos continuaram a subir e as famílias ficaram mais endividadas. A escala 6×1 não foi abolida e os trabalhadores informais agonizam em jornadas de trabalho ainda mais desumanas. Apesar da retórica de Lula em defesa da soberania nacional, sempre que pôde buscou conciliar com Trump. Se recusou a criar a Terrabras estatal e criou a Lei dos Minerais Críticos que permite a exploração de terras raras brasileiras por empresas estrangeiras. Isso para ficar só em alguns poucos exemplos.
Mas não basta dizermos “nós avisamos”. É preciso analisar e compreender a nova situação que se abre com a vitória bolsonarista no 1º turno para melhor decidir o que fazer até o 2º turno e depois. Afinal, se é verdade que uma possível vitória de Flávio Bolsonaro será responsabilidade do governo Lula, também é certo que será uma derrota para toda a classe trabalhadora. E será a classe trabalhadora a pagar o maior preço.
Dar ouvidos às urnas
As urnas do 1º turno nos dizem muitas coisas. Algumas coisas são mais fáceis de serem captadas. Como se fossem gritadas. Já outras mensagens são quase que sussurradas e é preciso mais atenção para escutá-las e compreendê-las.
A mensagem mais audível é aquela que atordoa nossos ouvidos dizendo que Flávio Bolsonaro terminou quase 3 milhões de votos à frente de Lula. Entretanto é preciso extrair mais desse recado. Lula recebeu agora 3,5 milhões de votos a menos do que no 1º turno de 2022. Por outro lado, Flávio teve 5 milhões de votos a mais que seu pai naquele 1º turno de 2022. O que isso significa?
O governo Lula foi reprovado. Mesmo com um aumento de mais de 2,2 milhões de eleitores no Brasil de 2022 a 2026, cerca de 3,5 milhões de pessoas que apoiaram Lula contra Jair Bolsonaro em 2022, agora decidiram não apoiar Lula, justamente depois de terem vivido 4 anos sob seu governo.
E o aumento de 5 milhões de votos para Flávio em relação a Jair não pode ser atribuído a méritos do Bolsonaro filho. Pelo contrário, podemos dizer que Flávio se esforçou bastante para ser o pior candidato possível. Inclusive houve uma crise na cúpula do bolsonarismo no meio da pré-campanha em que foi cogitado substituir o candidato. Portanto, esse aumento de votos para o clã Bolsonaro de 2022 para 2026 deve também ser interpretado em maior parte como expressão de reprovação do governo Lula.
Há 4 anos, Jair Bolsonaro teve uma vantagem de 7 pontos percentuais sobre Lula no 1º turno em São Paulo, o estado mais populoso do país. Agora, a vantagem de Flávio para Lula em SP foi de 14 pontos percentuais! O dobro da diferença que seu pai conquistou em 2022.
O resultado das urnas também nos diz que houve uma mudança importante de cenário em Minas Gerais. O estado, que é o segundo maior colégio eleitoral do Brasil, é visto como um termômetro nacional das eleições. Historicamente, quem ganha a eleição para presidente em Minas acaba levando nacionalmente. Em 2022, Lula teve 5 pontos de vantagem sobre Jair Bolsonaro em Minas no 1º turno. Agora foi Flávio quem teve 5 pontos de vantagem sobre Lula no estado mineiro.
Mas não foi apenas nos estados mais populosos que Lula perdeu votos. Em todos os estados do Nordeste, por exemplo, Lula teve uma votação menor que em 2022, embora tenha mantido ainda uma boa vantagem na região que tem sido seu bastião.
Tudo isso corrobora a interpretação de que o governo Lula foi reprovado e punido pelas massas que foram votar no domingo passado.
Outra mensagem gritada pelas urnas certamente foi a retumbante vitória da “extrema-direita” no Senado, com o PL (partido de Bolsonaro) acumulando sozinho mais de um terço das cadeiras (28 das 81 vagas). Junto a outros partidos burgueses, o partido de Bolsonaro terá a possibilidade de obter dois terços do Senado, o que lhes permitirá fazer passar mudanças na Constituição, destituições de ministros da Suprema Côrte, etc.
Os novos recordistas de votos para deputado federal, Nicolas Ferreira em Minas Gerais e Lucas Pavanato em São Paulo, com mais de 3 milhões de votos cada, e a nova bancada do PL com mais de 120 deputados federais também soam como um recado ensurdecedor das urnas de que os grandes vencedores deste pleito foram os bolsonaristas. Isso sem falar na eleição de vários familiares de Bolsonaro pelo país.
Entretanto, há recados das urnas que podem ser menos audíveis num primeiro momento, mas que não são menos importantes, pois são indicativos mais do potencial do que está por vir do que de um retrato da sociedade atual.
Um desses recados trata-se do que podemos ouvir ao constatar os resultados extremamente expressivos das candidaturas da chamada “Bancada da Esquerda Radical” para o Congresso Nacional.
A começar por Jones Manoel que, apresentando-se abertamente como comunista e defendendo a “revolução brasileira”, foi eleito deputado federal com mais de 249 mil votos, sendo o segundo candidato mais votado no estado de Pernambuco, ficando pouco atrás da principal candidatura burguesa do estado.
Em São Paulo, outra candidata da Bancada da Esquerda Radical, Sâmia Bomfim, foi reeleita deputada federal com mais de 580 mil votos, sendo a 3ª mais votada do estado e a 4ª mais votada de todo o Brasil. No Rio de Janeiro, o deputado federal Glauber Braga foi reeleito com mais de 86 mil votos, mesmo com uma campanha independente, com poucos recursos e muito atacada. No Rio Grande do Sul, a deputada federal Fernanda Melchionna foi reeleita com mais de 280 mil votos, sendo a segunda mais votada do estado.
Fábio Felix foi eleito deputado federal com a maior votação do Distrito Federal, mais de 224 mil votos, quase o dobro do segundo colocado. E no Paraná, Renato Freitas, que já era deputo estadual, foi eleito agora deputado federal com mais de 115 mil votos, sendo o primeiro deputado federal negro a ser eleito pelo estado do Paraná na história.
A eleição desses 6 membros da Bancada da Esquerda Radical para o parlamento, junto às votações de vários outros membros que acabaram não conseguindo a eleição, somam quase 2 milhões de votos para as candidaturas da Bancada da Esquerda Radical em todo o Brasil.
Este é um excelente ponto de apoio inicial para uma iniciativa que coloca em pauta a questão da revolução brasileira e tem potencial para desenvolver-se como uma nova referência política à esquerda das organizações tradicionais da classe trabalhadora. A Bancada apresentou forte crítica às políticas econômicas do governo Lula, mas sem o sectarismo estéril que leva os pequenos partidos de esquerda radical ao isolamento dentro de sua própria classe. Porém, para avançar neste sentido, a Bancada da Esquerda Radical precisa superar algumas contradições que apontamos em nosso apoio crítico (ver declaração aqui).
Uma outra mensagem das urnas pouco percebida advém do fato de que, apesar da derrota de Lula para Flávio Bolsonaro na corrida pela presidência, os partidos da classe trabalhadora mantiveram seus postos no Senado e tiveram até um leve crescimento na Câmara dos Deputados.
Por um lado, isso mostra que a reprovação do governo Lula ainda carrega um importante fator de consciência de classe. Ou seja, uma parte da classe trabalhadora reprova o governo de conciliação com a burguesia, mas ainda se utiliza ao menos eleitoralmente de candidatos de partidos da classe trabalhadora, mesmo que muitas vezes renovando seus representantes. O PT, por exemplo, teve vários candidatos jovens de primeira viagem eleitos, enquanto alguns velhos deputados petistas não foram reeleitos. Por outro lado, este fenômeno mostra que o crescimento do PL no Senado e na Câmara não se dá em detrimento dos partidos de esquerda, mas sim dos partidos da direita mais tradicional (alguns do vulgarmente chamado “centrão”). Ou seja, trata-se do aprofundamento de uma reconfiguração da representação da burguesia no parlamento e nas esferas de poder que já havia sido iniciada em 2018, na eleição do Bolsonaro pai.
Notem que apenas dois dias após os resultados do 1º turno, uma série de partidos políticos que antes se opunham ao extremismo bolsonarista e até ministros do STF como Alexandre de Moraes já começam a se mover para apoiar um provável futuro governo de Flávio Bolsonaro.
Essa reconfiguração da casta de representantes políticos da burguesia brasileira muito claramente acompanha a reconfiguração de seus amos americanos. Aqueles que antes se subordinavam à ala “democrata” do imperialismo estadunidense agora dão lugar à turma que se subordina à ala trumpista. Mas, como Trump está diante de uma iminente derrota nas eleições legislativas de novembro, essa reconfiguração tende a ter vida curta aqui no Brasil. Apesar de que os capachos do imperialismo nunca tiveram muito problema em fazer giros bruscos para obedecer aos ditames do senhor de plantão em Washington.
E uma outra mensagem sutil das urnas, mas não menos importante, foi a derrota de Flávio Bolsonaro em cidades importantes, como São Paulo (4,5% atrás de Lula). Os centros econômicos mais populosos são geralmente um indicativo do desenvolvimento político futuro. Mesmo que as eleições burguesas expressem de maneira deformada a correlação de forças entre as classes na sociedade. Parte dessa deformação neste caso concreto das eleições brasileiras é o fato de que a classe trabalhadora carece de uma representação política adequada a seus reais interesses históricos. A derrota de Flávio Bolsonaro em cidades como São Paulo indica que um eventual governo bolsonarista já começará com uma forte oposição em importantes centros políticos do país.
De certa forma, isso já vem se expressando logo após o 1º turno, através de uma série de manifestações espontâneas nas ruas, principalmente da juventude, mas não apenas, além da formação espontânea de milhares de grupos nas redes sociais, universidades, bairros buscando organizar iniciativas para combater pela derrota de Flávio Bolsonaro no 2º turno.
Um sentido de urgência percorre toda uma ampla vanguarda da classe trabalhadora e da juventude, que busca se organizar e agir para evitar a derrota eleitoral para a classe inimiga no 2º turno. E talvez o aspecto mais interessante deste fenômeno seja o fato de que esse movimento não está passando por dentro das organizações tradicionais da classe trabalhadora, muito menos pelo PT.
A crise da República burguesa e seu efeito colateral
Muitos estão se colocando as seguintes questões: Como é possível que o escândalo do Banco Master e a crise do STF não abalaram o desempenho de Flávio Bolsonaro nas urnas, mas, pelo contrário, o fortaleceram? E mesmo após reveladas suas trocas de mensagens com Daniel Vorcaro, a partir da investigação da Polícia Federal, por que ele conseguiu superar a votação de Lula, que não foi envolvido diretamente no escândalo? Como compreender o que está acontecendo?
Este aparente paradoxo exige uma análise dialética ou não se compreende nada do que está acontecendo. Para analisarmos este fenômeno, é preciso compreendermos em primeiro lugar em que época política vivemos no Brasil.
Vivemos a época do desmoronamento da República fundada em 1988. Sem ter isso muito claro, tudo pode parecer sem sentido. E é por não ter isso claro que muitos que apoiam Lula o fazem de tal forma a favorecer o bolsonarismo. Expliquemos.
No início da década de 1980, a ditadura militar já não era mais capaz de se sustentar no poder. Havia um questionamento popular enorme. As grandes greves operárias do final dos anos 1970 e início dos anos 1980 foram o ponto de inflexão. Uma efervescência enorme percorria toda a sociedade, o que desembocou no movimento pelas “Diretas já”, com milhões nas ruas por todo o país. Embora derrotado, este movimento levou a um arranjo por cima, uma transição acordada entre os setores “democráticos” da burguesia e o regime militar. Mas isso se desenvolvia sob forte pressão social, com uma agudização da luta de classes (criação do PT e da CUT como organismos políticos independentes da classe trabalhadora, várias greves gerais, criação do MST, etc.).
Então, a Assembleia Constituinte, que formulou o pacto federativo que deu origem à nova República Democrática burguesa brasileira, se viu obrigada a fazer algumas concessões. Os partidos da classe trabalhadora eram então muito minoritários (16 do PT, 5 do PCdoB e 3 do PCB de um total de 559 parlamentares constituintes). Mas a pressão da classe trabalhadora organizada foi capaz de impor ao conjunto da constituinte direitos importantes, como a redução da jornada de trabalho de 48 para 44 horas semanais, 13º salário, férias remuneradas anuais de 30 dias com pelo menos ⅓ a mais do salário mensal, licença maternidade, seguro desemprego, direito de greve, etc – só para ficar em alguns exemplos.
Ainda assim, o PT considerou que a versão final da Constituição elaborada era em seu conjunto reacionária e votou contra sua aprovação. Mas, aceitou assinar a versão final depois de aprovada.
Assim nascia formalmente a nova república burguesa em 1988. Mas além do documento formalmente assinado, havia um pacto tácito contido na formação dessa nova república. Um pacto político e social que foi feito entre os setores “democráticos” da burguesia, a cúpula do regime militar que havia governado o país durante a ditadura e a direção da classe trabalhadora. Este pacto de que essa constituição seria respeitada. De que as disputas se dariam dentro dos limites definidos pelas novas regras.
Ao longo dos anos, esse pacto foi abalado algumas vezes. Todas as vezes que os trabalhadores estiveram com o poder ao alcance das mãos, a burguesia brasileira ameaçou romper o pacto e lançar mão do que fosse necessário para conter a chegada dos trabalhadores ao poder. Foi assim nas eleições de 1989. Foi assim após o impeachment de Collor, por exemplo. Mas, a direção do PT sob o comando de Lula, sempre buscou se mostrar a mais afável possível diante de tais ocasiões, buscando acalmar a burguesia em pânico e evitar o confronto direto entre as classes.
Quando finalmente Lula foi eleito presidente pela primeira vez em 2002, fez questão de jurar total fidelidade à ordem capitalista através de sua “Carta aos Brasileiros”. Ainda assim, a burguesia tentou removê-lo do poder, primeiro com o processo do chamado “Mensalão” em 2005/2006. Depois eleitoralmente diversas vezes. Mesmo que Lula buscasse ampliar suas alianças com setores cada vez mais amplos da burguesia.
O conjunto da burguesia brasileira e seus amos imperialistas toleraram o PT no poder enquanto este foi capaz de se provar um eficaz contentor das lutas populares.
Após junho de 2013, a burguesia constatou que era hora do pacto ser rompido de uma vez por todas. E este foi o início do fim da nova República.
As Jornadas de Junho de 2013, com milhões nas ruas contra a repressão policial e contra o aumento das passagens de ônibus, levou a burguesia nacional ao pânico. A classe burguesa tem pavor do povo nas ruas. Ao constatarem que o PT não era capaz de controlar o movimento de massas, decidiram que era hora de remover o PT do poder.
Alguns meses depois iniciam a operação Lava Jato com o objetivo de criminalizar Lula. Esperavam derrotar Dilma nas urnas em 2014. O candidato da burguesia, Aécio Neves (PSDB), após ser derrotado num segundo turno apertadíssimo, declarou que não reconhecia o resultado das urnas. Logo depois começam as articulações pelo impeachment de Dilma.
Fez parte deste jogo político um outro fator importante: os interesses do imperialismo estadunidense. As relações comerciais do Brasil com a China vinham crescendo rapidamente e os governos Lula e Dilma buscavam conciliar os interesses das diversas potências imperialistas.
Com o impeachment de Dilma, o governo Temer tomou medidas muito claras de favorecimento direto dos EUA em detrimento da China como já analisamos em outros textos.
Mas, nem tudo saiu como a burguesia brasileira planejava. Da crise da república burguesa, surgiu um efeito colateral, totalmente fora dos planos e do controle dos operadores políticos burgueses: o bolsonarismo de massas.
Um descontentamento que havia emergido em junho de 2013 não encontrava uma via para se expressar à esquerda, já que o PT se desgastava tentando sustentar a velha república como chefe do governo e depois foi defenestrado publicamente com o impeachment de Dilma (2016) e a prisão de Lula (2018).
A massa de descontentes encontrou vazão no discurso demagógico de uma figura acidental que pregava “mudar tudo isso o que está aí”. Um parlamentar do “baixo clero” com uma fala destemperada, que era objeto de piadas dos programas humorísticos de repente começou a ser levado a sério por uma camada cada vez maior de indignados.
O bolsonarismo de massas é um subproduto da crise da República burguesa. Um subproduto que só pôde se desenvolver sob condições muito específicas. Em que a via para o desenvolvimento de uma corrente de esquerda de massas estava bloqueada justamente pelo papel que jogava o PT e seu desgaste na sociedade.
Assim, a crise da república burguesa não deu lugar à proposta alternativa de esquerda, a uma proposta de “república socialista”, mas sim a uma alternativa reacionária, sob a liderança de um demagogo de extrema-direita.
Quando a burguesia tenta eliminar esse efeito colateral que é o bolsonarismo de massas para reaver o controle da sociedade, se vê obrigada a tentar reeditar o pacto social que havia rompido com o PT. Afinal, as tentativas de lidar sozinha com o bolsonarismo haviam fracassado. Todos os candidatos burgueses viraram pó diante das hordas de eleitores bolsonaristas. O PT, mesmo com Lula preso, foi o único que pôde fazer frente a Bolsonaro em 2018 com aquela candidatura insossa de Haddad. Só a classe trabalhadora, mesmo que com seu instrumento político desgastado e degenerado, poderia enfrentar o monstro que havia sido despertado.
Por isso, em 2019 eles tomaram a decisão política de anular os processos da Lava Jato e libertar Lula. E então, com Lula à cabeça e Alckmin como vice (Alckmin que havia sido outrora o representante preferido da burguesia nacional contra Lula), conseguiram derrotar Bolsonaro em 2022. Ato seguinte, o STF leva Bolsonaro à prisão.
Efeito colateral contido? Negativo! Esta república burguesa está condenada. As bases materiais que permitiram a formação dessa república em 1988 já não existem mais. Por mais que se refaça o pacto que possibilitou aquele arremedo, hoje não tem mais o mesmo efeito. O principal motivo é que o PT não é mais reconhecido pela maioria da classe trabalhadora como a sua direção.
Agora, o PT se coloca como partido de sustentação da ordem burguesa junto com setores tradicionais da burguesia e não como partido da classe oprimida que luta contra a classe dominante.
O PT é visto por boa parte das massas trabalhadoras como partido do sistema. E os demagogos de extrema-direita, como Bolsonaro, Nicolas Ferreira, Pavanato, Tarcísio, são vistos como “antissistema”.
Hoje uma parte importante da classe trabalhadora não só já não vê o PT como sua representação política como se identifica abertamente como “anti-petista”.
Por isso, quando aprofunda-se a crise da república burguesa com a recente crise do STF a partir de seus ministros envolvidos com o caso do Banco Master, mesmo que Flávio Bolsonaro apareça como envolvido direto, ele é visto como aquele que quer fechar o STF com um soldado e um cabo. Ele é visto como aquele que está “contra o sistema”. Mesmo que isso seja pura demagogia. Enquanto que Lula é visto como aquele que defende o STF e, portanto, o sistema.
Quanto mais escândalos de corrupção forem revelados afundando o conjunto da república burguesa na lama, mais Lula ficará desgastado e mais favorecido sairão os líderes bolsonaristas. Eles “nasceram” da crise da república e se alimentam dela.
Como já dissemos, é preciso uma análise dialética para compreender o que está acontecendo.
O deputado mineiro Janones criou um canal de whatsapp chamado “Exército do Lula” que, em menos de 3 dias, chegou a 2 milhões de seguidores. Parece uma força formidável, mas a linha de Janones é ficar alardeando mais e mais os casos de corrupção que só revelam ainda mais a podridão da república. Ele pensa com isso que poderá atingir os bolsonaristas. Mas o efeito é justamente o contrário. Ele não entendeu nada. Ele só dá mais força ao Flávio Bolsonaro contra Lula.
Milhões de pessoas só conseguem enxergar o seguinte caminho diante de mais uma notícia sobre corrupção envolvendo os poderes da república: “vamos eleger logo o Flávio Bolsonaro e ele vai indicar 4 novos ministros do STF e destituir outros e mudar tudo isso”. Afinal, qual caminho alternativo Janones oferece? A abstrata “reforma do judiciário” que ninguém acredita que poderá mudar algo? Não vai ganhar um voto com isso.
Como derrotar o bolsonarismo nas urnas e em toda a sociedade?
Ficou claro que, para milhões de brasileiros, o que está em questão é mudar radicalmente o sistema. O problema é que uma grande parte dos que estão convictos disto acham que a única maneira de promover uma mudança radical é sob a liderança de Bolsonaro.
Isso ficou nítido numa pesquisa feita pelo ICL no final do ano passado que apontou que 49% dos que votaram em Bolsonaro em 2022 estava a favor de uma mudança radical na sociedade, enquanto que 16% dos que votaram em Lula também.
Muitos dos que querem essa mudança radical não apoiam necessariamente as ideias bolsonaristas. Eles apenas querem apoiar aqueles que acreditam que de fato estejam “contra o sistema”.
Em matéria publicada pelo UOL no dia seguinte às eleições (05/10/2026), foi noticiado que Lula teria dito a aliados que ele estaria “carregando nas costas a promiscuidade do STF”, e que sua campanha teria errado em não deixar claro que ele é o único “candidato antissistema”.
São constatações um tanto tardias. E mesmo assim, não bastaria constatar. Teria sido preciso de fato se portar como um presidente antissistema para que as pessoas acreditassem nisso. Se Lula tivesse revogado o novo teto de gastos e enfrentado o parlamento para ampliar o orçamento para as áreas sociais, por exemplo, provavelmente a percepção popular a seu respeito seria muito diferente.
Talvez se ele tivesse decretado a criação da Terrabras estatal e de fato enfrentado os interesses de Trump sobre as terras raras brasileiras, hoje milhões o vissem como um verdadeiro ponto de apoio para defender a soberania nacional.
Ou se Lula tivesse se colocado em combate pela abolição da escala 6×1 desde 2024, quando o movimento estourou nas ruas e não deixado para falar sobre isso somente durante a campanha eleitoral, talvez ele fosse visto por amplas massas como um verdadeiro aliado antissistema.
Sua escolha por defender o sistema e aplicar a política da burguesia nos trouxe a esta lastimável situação de vermos uma figura execrável como Flávio Bolsonaro posar como grande liderança “antissistema”. Mesmo que saibamos de toda a demagogia que reside nisso, é uma situação tenebrosa.
Mas, enfim, o que fazer? É possível derrotar Flávio Bolsonaro?
Sabemos que é necessário. Não porque seja preciso dar continuidade ao projeto de governo de Lula, que foi justamente o que nos trouxe até aqui, como ficou claro. Mas porque o projeto político de colaboração de classes que Lula representa só pode ser derrotado pela classe trabalhadora para ser substituído por algo melhor. Se Lula é derrotado por uma expressão da burguesia, a classe trabalhadora sai derrotada e isso não ajuda em nada a sua luta.
Com a vitória eleitoral de Flávio Bolsonaro estaremos em um terreno pior para fazer o combate em defesa de nossos direitos e por mudar toda a sociedade para uma sociedade socialista.
Enquanto escrevo este artigo, tomei conhecimento que Jones Manoel está indo a Brasília para encontrar-se com Lula. O jornalista Mauro Lopes anuncia que Jones vai propor que Lula adote uma proposta de 4 pontos:
- Tarifa Zero e expansão dos sistemas metroferroviários urbanos
- Fim da escala 6×1 e da pejotização
- Reindustrialização do país com criação massiva de empregos qualificados
- Fim do Arcabouço Fiscal (“teto de gastos”)
São boas propostas. Mas, será que Lula conseguiria convencer muita gente prometendo isso agora depois de 12 anos como presidente em que não fez nada disso? Isso, se Lula topasse aceitar as propostas de Jones, o que não consideramos factível. Não condiz com a história de Lula.
Aqueles que colocam hoje a possibilidade do Lula virar à esquerda alimentam ilusões no Lula. Não é esse nosso papel agora. Não devemos nutrir ilusões de que Lula irá começar agora ou no próximo mandato a governar para os trabalhadores contra os interesses do capital.
Mas então, como seria possível batalhar pela vitória de Lula sem nutrir ilusões na política de Lula? E, de qualquer forma, é possível virar essa eleição?
Devemos reconhecer que não é tarefa fácil. Desde a fundação da atual república, em 1988, nunca houve uma virada entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial. Mas isso não quer dizer que não possa haver uma primeira vez.
Entretanto, com o atual grau de polarização social, muito dificilmente alguém que votou em Flávio no 1º turno mudará seu voto. Os que votaram nas outras candidaturas burguesas de menor expressão (Augusto Cury, Renan Santos, Caiado, Zema) tendem a votar majoritariamente em Flávio Bolsonaro, o que indica que a vantagem sobre Lula aumentaria.
Resta então buscar convencer aqueles que não foram votar no 1º turno a irem votar desta vez. São mais de 39 milhões de eleitores que não quiseram votar em nenhum candidato no 1º turno. A maioria destes, provavelmente, não querem votar em Lula e nem em Flávio Bolsonaro.
A campanha oficial de Lula tenta convencer essas pessoas de que o governo Lula apresenta os melhores índices, que entregou baixa inflação, baixo nível de desemprego, etc. Mas esses números não convencem quando as pessoas sentem no dia a dia que está mais caro encher o carrinho no supermercado e que estão mais endividadas do que antes.
A melhor maneira de convencer essas pessoas a irem às urnas para derrotar Flávio Bolsonaro é justamente com a nossa linha do voto crítico em Lula para barrar a volta do bolsonarismo.
Não devemos tentar convencer ninguém de que o governo Lula é uma maravilha, porque isso é falso. Devemos explicar que o governo Lula não resolve os problemas da classe trabalhadora, mas que uma derrota de Lula para Flávio Bolsonaro nos trará problemas ainda maiores. É preciso explicar que derrotar o bolsonarismo nas urnas agora é um passo importante para continuarmos nosso combate em seguida em condições menos desfavoráveis.
Seria muito bom que todos os nossos problemas pudessem ser resolvidos apenas apertando um botão verde numa caixinha eletrônica, como num passe de mágica. Não convenceremos ninguém com esse conto de fadas. As eleições burguesas não resolverão todos os nossos problemas. Mas devemos ter claro que travar as lutas que precisamos travar para mudar a sociedade sob o governo Lula não é a mesma coisa que travá-las sob o governo Bolsonaro. A diferença é bastante significativa.
Devemos convencer as pessoas a se colocarem em movimento para mudar toda a sociedade. Por isso, nosso combate é muito mais difícil, mas é legítimo, mais nobre e mais possível. Devemos convencer as pessoas a votar criticamente em Lula e nos ajudar a construir o instrumento necessário para a luta que continua após as eleições.
O surgimento da Bancada da Esquerda Radical apresenta um potencial desenvolvimento que já enche de esperança milhões de jovens e trabalhadores por todo o Brasil, que começam a conversar diariamente sobre comunismo e revolução.
Mas, sem uma organização que seja capaz de analisar os desenvolvimentos em seu movimento e enraizar-se na classe trabalhadora e na juventude, não seremos capazes de levar um processo revolucionário à vitória. Está em nossas mãos construirmos hoje o partido que poderá jogar este papel amanhã. É para isso que convidamos todos a se organizarem junto à Internacional Comunista Revolucionária.
Junte-se a um Comitê por um Brasil Comunista em sua cidade! Participe de nossa plenária “Derrote o Bolsonarismo!”, sábado, 15h, com transmissão online para vários locais do país.


