O primeiro turno das eleições na Colômbia terminou com resultados bastante inesperados. Iván Cepeda, candidato da coligação reformista Pacto Histórico, obteve 41% dos votos, sendo superado por Abelardo de la Espriella, candidato que segundo as pesquisas eleitorais obteria apenas 20% dos votos.
[Publicado originalmente em colombiamarxista.com]

Esses resultados preparam o terreno para um segundo turno altamente polarizado. O programa de reformas pelo qual a classe trabalhadora lutou durante o Estallido social de 2021 está em jogo. Uma presidência liderada por Abelardo de la Espriella (que se inspira em Nayib Bukele e Javier Milei) provavelmente desmantelaria as poucas reformas conquistadas até o momento e implementaria um programa de cortes drásticos.
Esses resultados prenunciam mudanças profundas nas entranhas da sociedade colombiana, mudanças que serão expressas de forma contundente.
Repúdio à institucionalidade
A situação política nacional nos últimos anos tem sido marcada por um alto grau de polarização. Segundo a pesquisa Latinobarômetro de 2024, apenas 9% dos colombianos declararam ter muita ou alguma confiança nos partidos políticos.
Isso ajuda a explicar os resultados políticos destas eleições, em que o Centro Democrático, apesar de ter obtido um grande número de votos nas eleições legislativas, não conseguiu conquistar sequer 7% dos votos. Vale lembrar que o Centro Democrático era o partido tradicional da direita colombiana e contava com 80% de aprovação em 2008, quando Álvaro Uribe concluía seu segundo mandato presidencial.
Acima de tudo, o voto em De La Espriella reflete uma mobilização da direita em torno do candidato populista, já que acreditavam que Paloma Valencia não conseguiria chegar ao segundo turno. É interessante notar que Valencia e Uribe reorientaram deliberadamente o Centro Democrático para o centro, tentando consolidar um voto “amplo”. Essa é provavelmente a causa de sua derrota.
Com esse resultado, De La Espriella emerge como o novo líder da direita. Uribe e Paloma Valencia decidiram apoiá-lo para derrotar Cepeda no segundo turno, mas é evidente que será ele quem ditará as regras.
Contudo, esses resultados não refletem uma guinada à direita na Colômbia. Dos 41 milhões de eleitores, apenas 10 milhões (24,39%) votaram em De La Espriella. Acima de tudo, trata-se de um voto contra as forças políticas tradicionais. Por um lado, Iván Cepeda obteve o maior número de votos já registrado para um candidato presidencial de esquerda com um programa político reformista. Por outro lado, devido à insatisfação com a institucionalidade vigente, os eleitores tradicionais de direita se voltaram para o candidato populista.
Um resultado modesto para os reformistas
A principal palavra de ordem do Pacto Histórico era “Vencer no primeiro turno”. Os reformistas chegaram a alcançar um expressivo 44% nas pesquisas. A aprovação de Petro estava em seu máximo, com 40%. Os 41% dos votos nas urnas reflete uma análise das forças políticas por trás do Pacto Histórico.
Embora Cepeda tenha conseguido a maior votação para um candidato de esquerda no primeiro turno, seus 41% equivalem ao mesmo percentual conquistado por Gustavo Petro em 2022.
Em 2022, Petro conseguiu superar a unidade da oligarquia devido ao impacto do estallido social de 2021 na consciência da classe trabalhadora, que mobilizou centenas de milhares de jovens em 23 cidades e ameaçou derrubar o governo conservador de Iván Duque. Isso não será mais um fator determinante no segundo turno.
O fator mais importante será a luta pelas reformas que entraram na ordem do dia da política do país faz quatro anos, com o estallido social. Nessa luta, os reformistas têm um histórico dual. Por um lado, conseguiram aprovar reformas trabalhistas e previdenciárias no Congresso graças à mobilização social. Por outro lado, não conseguiram implementar reformas na saúde ou no setor agrário devido ao impasse institucional.
A lentidão das reformas, causada pelo impasse institucional, é o terreno fértil para o apoio a De La Espriella. Muitos desses eleitores querem uma solução definitiva para a crise capitalista e perderam a fé de que os reformistas possam alcançá-la. Isso é alimentado pela campanha difamatória da burguesia contra o Pacto Histórico e pela fuga de capitais.
O apoio a De La Espriella não representa uma aprovação completa de todas as suas políticas, mas sim um apoio à possibilidade de uma solução imediata para os problemas de segurança que surgiram devido à política da Paz Total. De La Espriella afirmou que imporá “uma mão de ferro sem precedentes”, alegando ser capaz de “aplicar a lei com mão de ferro aos corruptos e a todos os criminosos”.
Esse apoio provavelmente se dissipará se ele se tornar presidente e tiver que implementar um programa de cortes e ataques à classe trabalhadora.
A tentação para os reformistas pode ser a de moderar (ainda mais) seu programa para forjar uma ampla aliança para derrotar De La Espriella. Isso abrirá caminho para a derrota do Pacto Histórico. A classe trabalhadora e o campesinato buscam uma solução para a atroz desigualdade no país, e os reformistas precisam oferecê-la.
Votar em Cepeda, lutar pelas reformas
A tarefa fundamental do Pacto Histórico é conquistar aqueles que não votaram e mobilizá-los. Isso só pode ser feito com base em um programa político radical que responda às necessidades da classe trabalhadora e proponha uma ruptura total com a oligarquia.
Somente assim será possível inspirar os setores indecisos e aqueles que não se convenceram totalmente pelas limitações das reformas de Petro. Em última análise, o problema para o Pacto Histórico tem sido tentar negociar reformas com um setor político que declarou guerra total ao seu programa de governo e mobilizou todas as ferramentas à sua disposição para isso.
Cada uma das reformas está atolada em um impasse, enquanto 10% da população recebe 60% da riqueza produzida nacionalmente. A reforma da previdência e a reforma trabalhista estão sob ataque de uma classe dominante que não aceita nenhuma perda em meio à crise internacional do capitalismo.
Um programa que represente as aspirações da classe trabalhadora e do campesinato de se libertar da oligarquia seria um farol de esperança, capaz de mobilizar os 43% da população que não foram votar nestas eleições, especialmente se abordar os problemas da desigualdade na economia colombiana.
É necessário conquistar a mais ampla mobilização possível para impedir a vitória de Abelardo de la Espriella no segundo turno. Seu programa político representa um ataque à classe trabalhadora colombiana e às poucas conquistas alcançadas nos últimos cinco anos.
No entanto, é nosso dever ressaltar que as tentativas de governar dentro dos estreitos limites do capitalismo colombiano não podem resolver os problemas da desigualdade, da insegurança e da pobreza. Estes são causados por uma crise do capitalismo que só pode ser resolvida por meio de uma revolução socialista.
A classe trabalhadora, por meio de uma campanha de mobilizações, greves e ocupações de locais de trabalho, poderia atacar diretamente a oligarquia que atualmente arma Abelardo de la Espriella política e economicamente, e impulsionar diretamente as reformas.
As ocupações poderiam levantar a possibilidade de expropriação dos altos escalões da economia. Isso seria um ataque direto aos imperialistas e levaria à sua expulsão do país. Alcançar tal feito serviria de modelo para a classe trabalhadora latino-americana, que se encontra em confronto direto com as ambições dos Estados Unidos de recuperar seu domínio na região.
Em outras palavras, a única maneira das reformas serem implementadas e a direita derrotada é conectando a luta por reformas com a luta pelo socialismo. Paz, terra e pão só serão possíveis com a derrota da classe dominante colombiana.

