Desde que Trump retornou à Casa Branca, os Estados Unidos procura incessantemente assumir o controle da Groenlândia por meio de uma combinação de chantagem, ofertas de compra e ameaças de tarifas punitivas e intervenção militar. Após vários meses de negociações secretas entre as autoridades dinamarquesas, groenlandesas e americanas, Trump anunciou nas redes sociais, em 19 de setembro, que haviam chegado a um acordo sobre um novo pacto de segurança. Este acordo foi posteriormente assinado por todas as partes com grande pompa em Nova York.
[Publicado originalmente em dinamarquês em marxist.dk, em 23 de setembro]
Mas, se olharmos além da cortina de fumaça diplomática, a dura realidade se torna evidente. Na prática, este acordo é uma negociação imperialista na qual um país inteiro — à revelia de seu povo — foi entregue, de fato, à maior potência imperialista do planeta. Isso demonstra que a classe dominante dinamarquesa encara a Groenlândia exatamente da mesma forma que a classe dominante americana: como uma mercadoria. Portanto, a classe dominante dinamarquesa é tão cínica quanto os imperialistas americanos.
Segundo a mídia dinamarquesa, não há praticamente nada de novo no novo acordo, que é apresentado como uma repetição do acordo de bases já existente, de 1951. A mensagem transmitida é a de que os astutos políticos dinamarqueses conseguiram levar vantagem sobre o insensato Trump e seus negociadores ingênuos e que, por isso, o acordo representa uma vitória para a Dinamarca e para a Groenlândia.
Para evitar perder a credibilidade perante os povos dinamarquês e groenlandês — que, com razão, detestam o imperialismo americano —, os políticos dinamarqueses fizeram todo o possível para apresentar o acordo como uma vitória e retratá-lo como se tivessem enfrentado os EUA. O Weekendavisen chega a perguntar retoricamente em um artigo: “A postura não é a de que enfrentamos a superpotência e vencemos?”
No entanto, existe um abismo entre os fatos reais e a imagem de auto-engrandecimento pintada pela mídia e pelos políticos.
O que o acordo significa, na prática?
Nos termos do acordo, a Dinamarca mantém a soberania formal sobre a Groenlândia — ao menos no papel — e, com isso, os políticos dinamarqueses evitaram uma humilhação total e a dissolução do reino. Em contrapartida, Washington passa a ter controle total sobre a Groenlândia e sua população.
O acordo representa uma capitulação completa da liderança dinamarquesa diante de Trump; uma derrota humilhante para o imperialismo dinamarquês e um golpe na narrativa dos políticos que pintam a Dinamarca como uma potência colonial humana e democrática.
Quando o acordo foi anunciado, Mette Frederiksen comentou que reconhece “a soberania e a integridade territorial do reino, bem como o direito do povo groenlandês à autodeterminação”. No entanto, a leitura do texto do acordo revela que a realidade é justamente o oposto.
Aqui está um resumo do que o acordo realmente contém:

Segundo o acordo, nenhum dos rivais dos EUA pode estabelecer bases militares na Groenlândia ou realizar investimentos no território sem a aprovação americana — o que equivale a um poder de veto. Enquanto o antigo acordo de bases de 1951 definia as prerrogativas dos EUA no âmbito da OTAN, o novo acordo estabelece os poderes americanos com base nos próprios interesses de segurança do país. Isso fica evidente, por exemplo, no direito dos EUA de construir na Groenlândia o chamado sistema de defesa antimísseis “Golden Dome”, que não tem qualquer relação com a OTAN.
Aos EUA também se outorga a oportunidade de expandir sua presença militar no país e de contar com poderes militares ampliados. Segundo o acordo, novas instalações militares dos EUA exigem o consentimento das autoridades dinamarquesas e groenlandesas; no entanto, não há dúvidas sobre como o acordo é visto na Casa Branca, onde Trump declarou que o pacto confere aos EUA “controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia” — e os EUA agirão em conformidade. Além disso, o acordo vigora por tempo indeterminado e, mesmo que a Groenlândia se separasse da Dinamarca, o novo Estado independente estaria vinculado ao acordo e obrigado a integrar a OTAN.
É isso que os políticos e a mídia tentam apresentar como um reconhecimento da soberania da Groenlândia!
Segundo o dicionário dinamarquês, a palavra “soberania” significa “a independência jurídica de um Estado em relação a outros Estados e o seu poder de decidir sobre os seus próprios assuntos”.
No entanto, quando outro país pode determinar quem tem permissão para investir na Groenlândia — ao mesmo tempo em que exerce um controle militar praticamente irrestrito sobre o território do país —, é difícil entender como Mette Frederiksen pode afirmar que o acordo reconhece a soberania da Groenlândia.
A alegação de que o acordo reconhece o “direito do povo groenlandês à autodeterminação” também soa extremamente vazia, visto que Washington poderá, no futuro, determinar com quem a Groenlândia pode estabelecer cooperação econômica e de segurança, mesmo que a Groenlândia venha a se tornar um país independente.
A capacidade do povo groenlandês de decidir sobre seus próprios assuntos já era extremamente limitada pelo Estado dinamarquês. Em todos os aspectos, os políticos de Christiansborg ainda tratam a Groenlândia de maneira condescendente e paternalista, como se fosse uma colônia, e as questões mais importantes para a sociedade groenlandesa não são decididas em Nuuk, mas em Copenhague.
No entanto, devido à fraqueza histórica do imperialismo dinamarquês, a elite groenlandesa conseguia, ocasionalmente, obter pequenas concessões de Copenhague. Isso dava à Groenlândia certa margem de manobra para decidir sobre seus próprios assuntos. Essa margem está desaparecendo agora, uma vez que os EUA estarão à frente das decisões mais importantes.
À revelia dos groenlandeses
O acordo foi adotado sem que o povo groenlandês tivesse sequer a oportunidade de apresentar objeções ao seu conteúdo. De fato, o teor do acordo foi mantido em sigilo e só veio a público depois de ter sido assinado.
Mas, se o acordo é realmente tão bom quanto a mídia afirma, por que não realizar um referendo na Groenlândia a esse respeito? Não, essa possibilidade sequer foi cogitada.

Seguindo uma mentalidade colonial clássica, a população não foi consultada. Em vez disso, o futuro de todo o país foi decidido por Trump, Mette Frederiksen e pelo primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen.
O acordo de bastidores agora firmado terá apenas consequências reacionárias para o povo groenlandês. A Groenlândia está agora mais distante do que nunca de controlar o seu próprio futuro. O acordo amplia o domínio imperialista americano sobre a Groenlândia e empurra para um horizonte distante a perspectiva de liberdade em relação à opressão imperialista.
Desde janeiro, quando Trump intensificou a pressão para assumir o controle da Groenlândia, espalhou-se pelo país o receio de que ele concretizasse suas ameaças de invasão. Trump expôs a natureza agressiva e opressiva do imperialismo norte-americano aos povos dinamarquês e groenlandês de forma mais clara possível. Por isso, muitos groenlandeses não se sentem exatamente confortáveis com a perspectiva de que os EUA construam mais bases militares em seu território e que, futuramente, passem a exercer “controle permanente sobre a segurança do país“.
Com sua crescente presença militar, o imperialismo norte-americano aponta uma arma para a cabeça do povo groenlandês. Além dos novos poderes estabelecidos no acordo, os EUA terão, sem dúvida, a palavra final na política da Groenlândia daqui para a frente — e os líderes groenlandeses e dinamarqueses têm demonstrado que farão de tudo para atender a todas as exigências norte-americanas.
Onde está a esquerda?
Enquanto os habitantes da Groenlândia são vendidos por seus “humanitários senhores coloniais”, eles também são decepcionados pela esquerda parlamentar dinamarquesa.
Pelle Dragsted, da Aliança Vermelho-Verde, tem se apresentado como um dos críticos mais vocais de Trump na política dinamarquesa, mas, após o anúncio do acordo, não disse uma só palavra. Será que realmente não havia nada a criticar quando Trump escreveu que a Dinamarca daria aos “Estados Unidos controle permanente sobre a segurança e todas as outras necessidades na Groenlândia”? Ou que os EUA teriam mais bases na Groenlândia? Aparentemente não, segundo Pelle Dragsted.
Em vez de criticar o conteúdo do acordo, Pelle Dragsted e a Aliança Vermelho-Verde o saúdam e agem como apoiadores leais do governo e do Estado dinamarqueses.
Se Pelle Dragsted realmente quisesse combater Trump e o imperialismo dos EUA, ele denunciaria implacavelmente o fato de que o governo cedeu às exigências norte-americanas. Em vez disso, ele está ajudando o governo a apresentar o acordo como uma vitória, embora este reforce o controle do imperialismo americano sobre a Groenlândia.

Ao longo de todo o conflito sobre a Groenlândia, Pelle Dragsted revelou-se um dos mais fervorosos defensores do Reino — o que, na realidade, não passa de uma defesa da hegemonia dinamarquesa sobre a Groenlândia. Em sua declaração após a assinatura do acordo, ele chegou a afirmar: “[…] quando nos mantemos unidos. Na Dinamarca. No Reino. Na Europa. E quando nos mantemos firmes em nossos princípios. No direito internacional. Em uma ordem mundial baseada em regras. Então, podemos vencer.”
Desapareceu qualquer crítica à brutal opressão exercida pela Dinamarca: o caso “Espiral” [no qual o governo dinamarquês impôs a contracepção a milhares de mulheres e meninas groenlandesas] foi esquecido, assim como as adoções forçadas e as condições miseráveis em que os groenlandeses vivem hoje. Em vez disso, a Aliança Vermelho-Verde optou por apoiar plenamente o Reino e as negociações do governo com Trump.
Em outras palavras, eles estão apoiando justamente os governantes que acabaram de entregar a soberania da Groenlândia ao imperialismo americano. É isso que a Aliança Vermelho-Verde chama de “vitória”!
O conflito chegou ao fim?
A notícia do novo acordo foi recebida com grande alívio nos altos escalões da sociedade. Esse alívio foi claramente expresso pelas organizações patronais Dansk Erhverv e Dansk Industri, que reagiram à notícia afirmando: “Isso pode trazer segurança aos investidores que se dirigem à Groenlândia para fortalecer a economia local, bem como para reforçar os investimentos dinamarqueses na região. Portanto, celebrar esse acordo é, sem dúvida, algo positivo.”
Sentimentos semelhantes são ecoados pela mídia, que conclui, com otimismo, que “a maior crise do Reino desde a Segunda Guerra Mundial parece ter chegado ao fim”. No entanto, pode ser que estejam contando com o ovo antes da galinha o pôr.
Os EUA estão profundamente envolvidos na guerra contra o Irã, que se transformou em uma derrota humilhante para o imperialismo americano. A decisão de Washington de chegar a um acordo sobre a Groenlândia é inevitavelmente influenciada pelo desejo de encerrar um conflito, para que toda a atenção do imperialismo americano possa se voltar para o Oriente Médio. Acima de tudo, Trump deseja desesperadamente uma vitória na política externa que possa destacar nas eleições de meio de mandato — o que é precisamente o que ele alcançou com o novo acordo de segurança.
Embora um novo acordo sobre a Groenlândia tenha sido firmado, isso de forma alguma impede que os Estados Unidos apresentem novas exigências no futuro. Foi exatamente isso que aconteceu com o acordo comercial entre os Estados Unidos e o Canadá, que levou à atual guerra comercial entre as duas nações.
Além disso, a agressividade do imperialismo norte-americano em relação à Groenlândia e à Dinamarca não é apenas um capricho de Trump; ela reflete os interesses do imperialismo norte-americano. O imperialismo norte-americano vive um declínio relativo em escala global, e essa fragilidade levou Trump a concentrar-se em garantir o domínio total dos EUA sobre o Hemisfério Ocidental, da Argentina, ao sul, até a Groenlândia, ao norte. Vivemos uma nova era de imperialismo descarado, na qual as grandes potências dividem o mundo inteiro em suas respectivas esferas de influência.

A classe dominante americana não pode tolerar o risco de que seus rivais — a Rússia e, em particular, a China — conquistem uma posição na Groenlândia. Assim, em vez de controlar a Groenlândia como antes, tendo o Estado dinamarquês como intermediário, os EUA necessitam de um controle mais direto sobre o território para assegurar seus interesses de segurança no Ártico, em meio à escalada do conflito entre as grandes potências imperialistas.
O Acordo da Groenlândia reflete, portanto, a mudança na correlação de forças internacional entre as principais potências imperialistas. À medida que esse correlação de forças continua a se alterar, com o enfraquecimento contínuo do imperialismo norte-americano e a crescente influência da China — inclusive no Ártico —, o desejo de obter a posse definitiva da Groenlândia pode muito bem ressurgir.
E, se os EUA decidirem, no futuro, assumir o controle da Groenlândia, isso será mais fácil do que nunca. O novo acordo de segurança ampliou a autoridade legal dos EUA, e os imperialistas americanos estão a caminho de fortalecer sua presença física no território.
Além dos planos para construir duas novas bases militares, os EUA inauguraram, no início deste ano, um enorme consulado de 3 mil metros quadrados no centro de Nuuk. Nos últimos meses, a Groenlândia tem recebido uma enxurrada de empresários americanos, e americanos ricos ligados à administração Trump vêm presenteando a elite de Nuuk com itens avaliados em vários milhões de coroas.
A EXIM, uma agência de crédito à exportação dos EUA, está investindo com entusiasmo centenas de milhões de coroas em projetos na Groenlândia, e a Greenland Energy Company — empresa administrada pelos EUA — iniciou a busca por petróleo no leste da Groenlândia sem aguardar a permissão das autoridades locais.
Embora o nome da Dinamarca ainda conste na escritura, os EUA já agem como os novos proprietários da Groenlândia e estão rapidamente afastando o Estado dinamarquês do país.
Nenhuma confiança nos políticos!
O novo acordo, com suas concessões de grande alcance ao imperialismo norte-americano, representa uma derrota humilhante para o establishment na Dinamarca e no restante da Europa. Ele expõe, mais uma vez, que os europeus podem protestar ruidosamente e se darem ares de importância, mas, na hora da verdade, curvam-se diante do imperialismo norte-americano, tal como sempre fizeram.
Nós, do Partido Comunista Revolucionário, já havíamos alertado que os trabalhadores e a juventude, tanto na Dinamarca quanto na Groenlândia, não podem depositar qualquer confiança de que os políticos dinamarqueses combaterão o imperialismo norte-americano.
Mas como se explica que a classe dominante dinamarquesa ainda se aferre tão fortemente ao imperialismo norte-americano, mesmo que os EUA sejam vistos como aliados por apenas cerca de 7% da população da Dinamarca?
No cenário mundial, a Dinamarca é uma potência imperialista pequena, fraca e totalmente insignificante, que só consegue servir aos seus próprios interesses ao se agarrar ao imperialismo dos EUA como um parasita. Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, as relações com Washington têm norteado a política externa da classe dominante. Nos últimos 30 anos, sucessivos governos dinamarqueses apoiaram incondicionalmente todos os projetos imperialistas dos EUA no Afeganistão, Iraque, Síria, Líbia, Ucrânia e em muitos outros lugares.
Em todas as questões relevantes, a burguesia dinamarquesa compartilha interesses comuns com o imperialismo dos EUA. É por isso que a burguesia dinamarquesa e seus representantes políticos em Christiansborg estão tão desesperados para manter os EUA na OTAN e dispostos a abrir mão de parte de sua própria influência na Groenlândia para satisfazer os EUA. A burguesia dinamarquesa transformou a Dinamarca em um Estado vassalo dos EUA, e prefere que continue assim.
É por isso que, durante a cerimônia de assinatura do acordo, ouvimos Mette Frederiksen cobrir Trump de elogios.
Combata o imperialismo
A burguesia dinamarquesa não deseja nada além de retornar à antiga ordem mundial, na qual os governantes dinamarqueses, como servos leais, obedeciam a todos os caprichos dos Estados Unidos e, em troca, recebiam algumas migalhas que caíam da mesa dos americanos. Mas esse tempo acabou.

Os únicos que têm um interesse real em combater o imperialismo americano são as classes trabalhadoras: a dinamarquesa, a groenlandesa e a americana.
Para combater Trump e o imperialismo americano, devemos combater o sistema capitalista, que é a própria força motriz por trás do imperialismo. Enquanto o capitalismo existir, a força motriz fundamental no mundo será a busca pelo lucro e a competição entre as grandes potências para garantir o controle de mercados, recursos e esferas de influência. Em outras palavras, não pode haver liberdade real para pequenas nações como a Groenlândia (e a Dinamarca, também) enquanto o sistema capitalista existir.
Se queremos combater o imperialismo, devemos, portanto, lutar para que a classe trabalhadora tome o poder — na Dinamarca e em todo o resto do mundo — e para expulsar os capitalistas e seus políticos. Essa é a única maneira de acabar com a opressão imperialista sobre a Groenlândia e garantir uma relação digna e igualitária entre todas as nações.
Em outras palavras, uma revolução socialista é o único caminho para libertar a humanidade do imperialismo, do colonialismo e da opressão, e para dar um fim à opressão de algumas nações por outras.


