O movimento nos EUA contra a Guerra do Vietnã mobilizou milhões de pessoas contra o governo e se tornou um catalisador para as reivindicações de uma grande parcela da população oprimida. Nesse contexto, um poderoso partido revolucionário poderia ter sido formado para desafiar o poder do imperialismo americano por dentro. Neste artigo, Tom Trottier detalha a ascensão do movimento anti-guerra e como essa oportunidade histórica foi perdida.
[Publicado originalmente na edição nº 52 de In Defence of Marxism, a revista teórica da Internacional Comunista Revolucionária, em janeiro de 2026]
Após a Segunda Guerra Mundial, o imperialismo americano se consolidou como uma poderosa força econômica e militar. Esse “colosso” era único. Alguma vez existiu uma potência imperialista com tamanha riqueza e poderio bélico, incluindo a bomba atômica? Os militares americanos proclamavam com orgulho que jamais haviam perdido uma guerra. Tudo isso mudou com a guerra do Vietnã.
O governo americano lançou mão de todos os recursos disponíveis contra o povo vietnamita para manter seu domínio imperialista. Suas ações não conseguiram esmagar a determinação dos vietnamitas, mas contribuíram para impulsionar um amplo movimento contra a guerra bem no coração do conflito. A trajetória da guerra levou à radicalização em massa nos Estados Unidos. A estabilidade do domínio capitalista americano se transformou em seu contrário.
Em seu auge, o movimento contra a guerra levou milhões de pessoas às ruas e se tornou um catalisador para as demais lutas de massa da época. Havia oportunidades incríveis para a construção de um grande partido comunista, capaz de unir todas essas lutas e dotá-las de uma direção revolucionária. Tragicamente, essas oportunidades foram desperdiçadas.
Hoje, em um contexto de crescente sentimento anti-imperialista em todo o mundo, os revolucionários têm muito a aprender ao estudar esse período.
Contenção
A Segunda Guerra Mundial consolidou firmemente a posição dos EUA como a potência imperialista dominante no mundo. Enquanto isso, a União Soviética, tendo vencido a guerra contra a Alemanha nazista, emergiu de forma definitiva como uma potência mundial. Isso, combinado com o estabelecimento de regimes stalinistas em grande parte da Europa Oriental, fortaleceu enormemente a autoridade do stalinismo em grande parte do mundo.
A guerra também colocou a questão das revoluções coloniais firmemente na agenda em grande parte do mundo, com os partidos comunistas stalinistas prontos para desempenhar um papel de direção. O imperialismo americano tentou implementar uma política de ‘contenção’. Queria derrotar as revoluções coloniais e impedir, ou pelo menos limitar, a expansão do stalinismo pelo mundo. Mas o cansaço da guerra entre as tropas americanas limitou as opções dos imperialistas para uma intervenção militar direta nos anos imediatamente posteriores ao conflito.
Após a derrota do imperialismo japonês em 1945, a França buscou recuperar suas colônias na Indochina, o fez com o apoio dos EUA. Após a Revolução Chinesa de 1949 e a Guerra da Coreia de 1950-53, a burguesia americana discutia a “teoria do dominó”, segundo a qual, se supunha que se o capitalismo fosse derrubado em um país, seus vizinhos cairiam rapidamente logo em seguida. Portanto, estavam determinados a manter o capitalismo no Vietnã, que consideravam vital para preservar seus interesses em toda a região.
De 1945 a 1954, o povo vietnamita, sob a direção stalinista de Ho Chi Minh, lutou e derrotou os franceses, culminando na Batalha de Dien Bien Phu. Após a derrota francesa, os EUA intervieram e criaram o Vietnã do Sul. Isso estabeleceu o contexto para uma guerra de libertação nacional contra o imperialismo americano e seu regime fantoche no sul.
O governo corrupto e subserviente do Vietnã do Sul apresentou uma escolha para o imperialismo americano: abandonar o Vietnã e assistir à queda do capitalismo, ou enviar as forças armadas americanas para derrotar as forças de libertação? As tentativas dos imperialistas de sustentar o capitalismo no exterior, contudo, acabariam por desestabilizar seu sistema interno, com a ascensão de um movimento pacifista de massa.
Tremores no ventre da besta
As condições para o desenvolvimento desse movimento foram preparadas ao longo das décadas anteriores.
Por exemplo, houve uma mudança profunda nas relações raciais após a Segunda Guerra Mundial. Tendo arriscado suas vidas durante a guerra, muitos ex-soldados negros não estavam mais dispostos a tolerar a segregação racial Jim Crow no sul quando retornaram para casa.
No norte, embora a segregação não fosse tão explícita quanto no sul, existia, de fato, uma política consciente de segregação habitacional que ditava onde as pessoas podiam morar. Tudo isso era complementado por um sistema de assassinatos racistas, que eram efetivamente tolerados pelo Estado.
Essas condições criaram um enorme movimento pelos direitos civis na década de 1950, que se estendeu até a década de 1960. Os afro-americanos se radicalizaram durante esse período. A violência policial contra os manifestantes pelos direitos civis não derrotou o movimento, e sim o fortaleceu e o tornou mais abrangente.
O movimento pelos direitos civis contribuiu para a radicalização de uma parcela muito maior da juventude no início da década de 1960. Em meados de abril de 1960, segundo uma estimativa, cerca de 50 mil estudantes haviam participado de protestos pacíficos em defesa dos direitos civis [1]. A isso se somava o desenvolvimento da Revolução Cubana e a pobreza gritante no país mais rico do mundo. Assim, muitos estudantes estavam se tornando politicamente ativos, em contraste com a relativa tranquilidade e o conformismo da década de 1950.
A organização Estudantes por uma Sociedade Democrática (Students for a Democratic Society, SDS) divulgou sua “Declaração de Port Huron” em 1962. Embora confrontasse o anticomunismo generalizado da Guerra Fria, esse documento era basicamente uma crítica liberal à sociedade americana, pois não questionava o sistema capitalista. Mesmo assim, no vácuo político existente na década de 1960, a SDS cresceu exponencialmente.
O impacto do recrutamento
De 1954 a agosto de 1964, os EUA limitaram seu papel no Vietnã principalmente a financiar, armar e treinar seu regime fantoche no sul. Quando ficou claro, em 1964, que o Vietnã do Sul estava prestes a entrar em colapso, o dito “incidente do Golfo de Tonkin” foi usado como pretexto para aumentar significativamente a presença militar dos EUA e intervir diretamente.
Milhares de soldados, navios e bombardeiros foram enviados ao Vietnã, chegando a um total de 543 mil militares em janeiro de 1969 [2]. O general do Exército dos EUA, William Westmoreland, veterano da Guerra da Coreia e da Segunda Guerra Mundial, foi encarregado do comando das tropas de 1964 a 1968.
Mais de 1,8 milhão de americanos foram recrutados durante a guerra [3]. Considerando as constantes transferências de tropas, estima-se que cerca de 2,7 milhões de soldados, fuzileiros navais, marinheiros e aviadores americanos tenham sido enviados ao Vietnã em algum momento [4].

O recrutamento militar desempenhou um papel importante na formação da consciência da juventude e no desenvolvimento da oposição à guerra. Sob o pretexto de “combater o comunismo”, toda uma geração de jovens foi submetida ao alistamento forçado nas forças armadas dos EUA, correndo o risco de serem mortos ou incapacitados para o resto da vida nas selvas do sudeste asiático. Essa era uma enorme espada de Dâmocles pairando sobre os jovens — e suas famílias.
A questão de classe também gerou revolta contra o alistamento militar obrigatório. Sempre que há recrutamento militar, as regras para os trabalhadores são diferentes das regras para os ricos. Estudantes universitários podiam adiar o serviço militar até depois da formatura, resultando em um número desproporcional de jovens da classe trabalhadora sendo forçados a ingressar nas forças armadas. Aqueles com conexões com um médico podiam ser dispensados do combate por motivos de saúde.
A questão racial também foi um fator. Americanos não brancos foram designados para as forças de combate de forma desproporcional. Negros e latinos, portanto, representaram uma proporção maior de baixas na guerra do que sua participação na população dos EUA naquela época. [5]
Essas tensões vieram à tona quando o exército americano tentou recrutar o famoso boxeador Muhammad Ali em 1967. Quando Ali resistiu, foi preso, proibido de praticar boxe e sentenciado a cinco anos de prisão. Ao justificar sua decisão, Ali explicou:
“Por que me pediriam para vestir um uniforme e ir a dez mil quilômetros de casa para lançar bombas e balas em pessoas pardas no Vietnã, enquanto os chamados negros em Louisville são tratados como cães e privados de direitos humanos básicos?
“Não vou desonrar minha religião, meu povo ou a mim mesmo me tornando uma ferramenta para escravizar aqueles que lutam por sua própria justiça, liberdade e igualdade.”
Embora Ali tenha sido vilipendiado pela mídia, sua ação sem dúvida ressoou profundamente em muitos jovens negros convocados para lutar. Muitos soldados viviam em meio à discriminação descrita por Ali, e não há dúvida de que a luta pelos direitos civis e o movimento contra a guerra em seus países os atraíram. Mais tarde, esses fatores culminariam em revoltas dentro do próprio exército americano.
A oposição cresce
A Força Aérea dos EUA começou a bombardear alvos no Vietnã do Norte em fevereiro de 1965. O general Curtis LeMay, que havia participado do bombardeio americano ao Japão na Segunda Guerra Mundial, vangloriou-se de que os EUA através dos bombardeios poderiam levar o Vietnã “de volta à Idade da Pedra”. De fato, em termos de tonelagem de bombas, os EUA lançaram mais material explosivo sobre o Vietnã do que todos os países juntos na Segunda Guerra Mundial. [6]
Os imperialistas lançaram o inferno sobre o povo do Vietnã e, posteriormente, sobre o Camboja e o Laos. Mas, pela primeira vez na história, a guerra foi televisionada. O resultado foi que, enquanto assistiam à carnificina de suas salas de estar, muitos trabalhadores e jovens americanos se perguntavam: por que isso está acontecendo?
A mídia televisiva capitalista é um negócio que vende espaço para propaganda. Embora, é claro, apresentasse uma linha pró-EUA, também queria capturar a dura realidade da guerra, que certamente é o maior drama. A televisão, os jornais e as revistas mostraram imagens gráficas e horríveis dessa guerra, de uma forma que não havia sido feita no passado. Lembro-me de ter uns dez anos de idade e ver a contagem diária de corpos relatada no noticiário da TV. Era implacável e teve um grande efeito no pensamento de toda a população.

O povo americano foi informado de que era uma guerra “contra o comunismo”. Mas, na mídia, eles viram a realidade de idosos e crianças sendo mortos ou feridos. Vastas regiões foram submetidas a bombardeios indiscriminados, ou ao lançamento de napalm e do desfolhante “Agente Laranja”. Vilarejos inteiros foram incendiados pelas tropas americanas.
Muitos se deram conta da insanidade da guerra quando foi noticiado que um major americano, comentando a Batalha de Bến Tre, disse: “Foi necessário destruir a cidade para salvá-la”. O público viu como os EUA conquistavam um território, o abandonavam e o retomavam logo em seguida. O que realmente se pretendia alcançar?
Com a expansão da guerra, houve um aumento na atividade contra a guerra em muitos campi universitários, incluindo palestras e debates sobre o conflito. O SDS decidiu convocar uma marcha contra a guerra em Washington, no dia 17 de abril de 1965. Entre 15 mil e 25 mil pessoas compareceram à manifestação, um número muito superior às suas expectativas. [7]
O SDS não foi a única força radical a crescer, mas foi a maior. Diversas coalizões pacifistas também foram organizadas, mobilizando manifestações em massa e reunindo muitos jovens recém-politizados.
Com o crescimento do movimento contra a guerra, sua liderança deslocou-se para a esquerda politicamente. Antes da Marcha sobre Washington, em abril de 1965, o movimento contra a guerra era liderado pela SANE, um grupo liberal anticomunista. Agora, comunistas, socialistas, pacifistas e jovens radicais assumiriam a liderança.
A guerra prolongou-se e o destacamento militar dos EUA aumentou significativamente. Dialeticamente, seu oposto também cresceu: o movimento contra a guerra. As manifestações no final de outubro de 1967 reuniram 300 mil participantes na cidade de Nova York e outros 50 mil em Washington, D.C. Estima-se que até 10 milhões de pessoas fizeram parte do movimento durante a guerra. [8]
O ponto de virada: a Ofensiva do Tet
O imperialismo americano precisava derrotar completamente o movimento de libertação nacional. Qualquer resultado inferior a isso significaria a derrota dos EUA. Os vietnamitas sabiam que, se continuassem lutando, venceriam.
O presidente Johnson aconselhou paciência e afirmou que a vitória estava próxima. Ao longo de 1967 até 30 de janeiro de 1968, o triunvirato formado pelo presidente Johnson, o secretário de Defesa McNamara e o general Westmoreland insistiu na ideia de que os comunistas vietnamitas estavam “perto da derrota”. Ironicamente, isso acabou favorecendo os comunistas, quando lançaram a Ofensiva do Tet em 30 de janeiro de 1968.
O Tet é a celebração do Ano Novo vietnamita e um feriado importante. A escolha dessa data para a ofensiva pegou os imperialistas americanos e o regime do Vietnã do Sul completamente de surpresa. O Exército Popular do Vietnã (PAVN – também conhecido como Exército do Vietnã do Norte) e unidades guerrilheiras no Sul, sob a direção da Frente Nacional de Libertação (FNL), atacaram simultaneamente 100 cidades, vilas e bases militares americanas, incluindo partes da capital do Sul, Saigon.
Superficialmente, a Ofensiva do Tet foi um fracasso. No final, os norte-vietnamitas e a Frente Nacional de Libertação (FNL) perderam 45 mil soldados, e outros 7 mil foram feitos prisioneiros, sem conseguir manter o controle sobre nenhum de seus alvos. Mais de 14 mil civis foram mortos. Os EUA e seus aliados vietnamitas perderam mais de 6 mil soldados e 16 mil ficaram feridos.
Mas esses números não eram o principal. A ofensiva maciça desferiu um golpe psicológico do qual o imperialismo americano jamais se recuperou. Foi chocante para grande parte do povo americano que havia acreditado na propaganda de Johnson. Além disso, ficou claro para todos que os vietnamitas morreram lutando para libertar seu país das garras do imperialismo. Pelo que os soldados americanos morreram?
A reação do General Westmoreland ao Tet foi solicitar mais 200 mil soldados, elevando o total americano para quase 750 mil. Seu pedido vazou para a mídia, o que contribuiu para que o público percebesse que a guerra era impossível de vencer e que as afirmações anteriores do governo sobre uma “quase vitória” eram uma mentira. Muitas pessoas, incluindo soldados, começaram a perceber que a grande maioria da população vietnamita estava do lado dos comunistas e se opunha aos EUA e ao seu regime fantoche. Prevendo a impopularidade dessa medida, o pedido foi rejeitado.
A Ofensiva do Tet foi, portanto, o ponto de virada crucial na guerra e uma verdadeira vitória para os comunistas. O povo americano começou a desconfiar do governo e a se voltar contra a guerra, assim como muitos membros das forças armadas americanas.
1968: um ano revolucionário
Assim como 1848, 1968 foi claramente um ano de revolução. A Ofensiva do Tet ocorreu no início do ano e transmitiu a mensagem de que as pessoas podem se levantar e lutar contra seus governantes.
Em maio, estudantes na França foram às ruas, logo depois foram seguidos por uma greve geral de 10 milhões de trabalhadores. Na Tchecoslováquia stalinista, a União Soviética enviou tanques em agosto para conter a “Primavera de Praga”. No México, de julho a outubro, um movimento estudantil de massa eclodiu, sendo reprimido com violência. O Paquistão também passou por uma revolução, que derrubou o ditador Ayub Khan.
Os Estados Unidos também vivenciaram convulsões e revoltas. Martin Luther King Jr. foi o líder mais influente do movimento pelos direitos civis. Ele se manifestou publicamente contra a Guerra do Vietnã e ajudou a organizar trabalhadores em sindicatos como parte de sua “Campanha dos Pobres”.
King também fez declarações em apoio ao “socialismo democrático”, sinalizando que considerava a possibilidade de se opor publicamente ao sistema capitalista. Ele estava sob constante vigilância do FBI e, mesmo assim, foi assassinado em 4 de abril de 1968.
Houve levantes em mais de 100 cidades quando as pessoas souberam da morte de King, os quais foram brutalmente reprimidos pelo Estado. Esses levantes ocorreram menos de um ano depois de distúrbios terem irrompido em mais de 150 localidades em resposta ao racismo.
A Ofensiva do Tet também criou uma verdadeiro racha no Partido Democrata, então no poder. O senador de Minnesota, Eugene McCarthy, decidiu concorrer contra o presidente Johnson em 1968 e desafiá-lo pela indicação do Partido Democrata, baseando-se na oposição à guerra. A campanha de McCarthy ganhou impulso após o Tet, quando ele teve um desempenho surpreendentemente bom nas primárias de New Hampshire, em fevereiro. Isso incentivou o senador Robert F. Kennedy a entrar na disputa como um candidato “anti-guerra” em 16 de março. Pouco depois, Johnson anunciou que não concorreria à reeleição.
Robert Kennedy foi assassinado em junho de 1968, aumentando a turbulência daquele ano.

Em agosto, uma ala do movimento anti-guerra queria confrontar os Democratas em sua convenção em Chicago. Mas o prefeito de Chicago organizou uma onda de repressão policial para impedir isso. A polícia de Chicago e a Guarda Nacional atacaram brutalmente os manifestantes com gás lacrimogêneo e cassetetes, ferindo centenas de pessoas. A repressão foi transmitida ao vivo pela TV, enquanto os manifestantes gritavam “o mundo inteiro está assistindo”.
O efeito disso em uma camada da população foi chocante. Ron Ferrizzi, comandante de tripulação de um helicóptero americano, ao ver os acontecimentos na TV no Vietnã, relembrou mais tarde:
“Naquele momento, percebi que qualquer pessoa que realmente se importasse com os Estados Unidos estava sendo enviada para o outro lado do mundo, perseguindo algum fantasma na selva, matando a avó de alguém, sem motivo algum. E enquanto isso, meu país estava sendo destruído. Vi alguém parecido com meu pai batendo em alguém parecido comigo. Meu Deus, de que lado eu poderia estar?” [9]
Por fim, oito líderes do movimento anti-guerra, incluindo Bobby Seale, dos Panteras Negras, foram levados a julgamento. Embora cinco tenham sido condenados por “cruzar fronteiras estaduais com a intenção de incitar um motim”, suas condenações foram anuladas na apelação.
Os Democratas indicaram Hubert Humphrey, vice-presidente de Johnson. Mas ele perdeu a eleição para o republicano Richard Nixon, que prometeu acabar com a guerra, mas “com honra”.
1969: O imperialismo recua
Diante de tudo isso, Nixon sabia que precisava retirar as tropas americanas o mais rápido possível. O governo percebeu que não conseguiria alcançar seus objetivos com as forças terrestres americanas e que precisava conter o crescente movimento anti-guerra nos Estados Unidos.
Portanto, iniciaram a redução das tropas em meados de 1969, com Nixon afirmando que substituiriam os soldados americanos por soldados vietnamitas em um processo chamado “vietnamização”. Mas, embora o recrutamento militar tenha sido reduzido, centenas de milhares de soldados permaneceriam no Vietnã, com sua retirada gradual prevista para terminar apenas em novembro de 1972.
Entretanto, em novembro de 1969, foram divulgados os relatos do massacre de civis pelas forças armadas americanas na aldeia de Mỹ Lai, em 1968. Pelo menos 347 aldeões desarmados foram mortos, e diversas mulheres e crianças foram estupradas.
Ao tomarem conhecimento de crimes de guerra como esses, o movimento para pôr fim à guerra continuou a crescer. Entre meio milhão e 750 mil pessoas se manifestaram em Washington, em novembro de 1969, contra a continuidade do conflito por Nixon, naquela que foi, até então, a maior manifestação contra a guerra na história dos Estados Unidos. [10]
Além dos protestos em massa, houve um aumento na evasão do serviço militar obrigatório. Houve protestos de jovens em que os cartões de alistamento foram queimados. Ao longo da guerra, aproximadamente 570 mil homens foram classificados pelo governo como “infratores do serviço militar”. [11]
Em 1970, o chefe de uma força-tarefa governamental para o recrutamento obrigatório relatou que o número de desertores estava “aumentando a um ritmo alarmante” e que o governo era “quase impotente para prendê-los e processá-los”. [12]
A ala esquerda do movimento começou a tirar conclusões revolucionárias. Embora a SDS tivesse surgido como um grupo de esquerda liberal no início da década de 1960, a essa altura a maioria de seus membros se considerava revolucionária. A convenção da SDS de 1969 contou com a presença de cerca de 1.500 jovens, em comparação com apenas 60 em 1962. Com mais de 100 mil membros, o grupo possuía núcleos em muitas faculdades e universidades de todo o país, e em algumas escolas de ensino médio. [13]
Além disso, grupos como os Panteras Negras, o SWP (Partido Socialista dos Trabalhadores Americano) e outros grupos de esquerda estavam crescendo. Um desses grupos era o Young Lords, um grupo radical de porto-riquenhos em Nova York e Chicago, inspirado pelos Panteras Negras e com características semelhantes.
Embora tanto os Panteras Negras quanto os Young Lords se organizassem em torno de questões específicas enfrentadas pela população nos bairros das cidades (más condições de moradia, fome infantil, brutalidade policial), eles se identificavam com movimentos de libertação nacional em todo o mundo, particularmente com a luta vietnamita.
A revolta dos soldados
Tudo isso contribuiu para a revolta dos soldados americanos no Vietnã. Já em 1967, alguns dos soldados, marinheiros e fuzileiros navais dispensados começaram a se juntar a outros veteranos e fundaram uma organização chamada Vietnam Veterans Against the War (Veteranos do Vietnã contra a Guerra).
Os primeiros recrutas podem ter ido para o Vietnã com ilusões sobre o que estavam fazendo, mas a realidade do combate e o horror da guerra os transformaram. Os soldados mais novos, no entanto, tinham menos ilusões desde o início. Muitos chegaram ao Vietnã já com sentimentos anti-guerra, ou pelo menos estavam céticos em relação às perspectivas apresentadas pelo Pentágono.

Em meados de 1969, quando Nixon iniciou a retirada das tropas, o moral e a disciplina nas unidades de combate começaram a ruir completamente. A tática de “perseguir e destruir” foi transformada em “perseguir e evitar”.
A população em casa estava se voltando contra a guerra, e muitos soldados se perguntavam: Por que estou morrendo? Por que devo me sacrificar? Grafites em seus banheiros expressavam a raiva contra o alto comando militar e os políticos americanos. O alcoolismo e o abuso de drogas estavam aumentando.
Eventualmente, a partir de 1969, alguns soldados começaram a “fragmentar” oficiais que consideravam excessivamente ansiosos para o combate. Se os soldados não conseguissem convencer seu comandante a encerrar a “missão”, eles lançavam uma granada de fragmentação na tenda do oficial. O historiador Richard Gabriel sugeriu que pelo menos 1.017 oficiais e sargentos foram mortos por granadas de fragmentação e especulou que até 20% dos oficiais americanos mortos no Vietnã podem ter morrido pelas mãos de seus próprios homens. [14]
O Coronel Robert D. Heinl Jr., historiador do Corpo de Fuzileiros Navais, escreveu sobre o colapso das Forças Armadas dos EUA naquela época:
“O moral, a disciplina e a capacidade de combate das Forças Armadas dos EUA estão, com algumas exceções notáveis, mais baixos e piores do que em qualquer outro momento deste século e possivelmente na história dos Estados Unidos.
“Segundo todos os indicadores imagináveis, nosso Exército que permanece no Vietnã está em um estado próximo ao colapso, com unidades individuais evitando ou se recusando a combater, assassinando seus oficiais e sargentos, assoladas pelas drogas e desmoralizadas, quando não à beira de um motim.
“Em outros lugares além do Vietnã, a situação é quase tão grave…
“…Todos os fatos acima mencionados – e muitos outros indicadores alarmantes do pior tipo de problema militar – apontam para condições generalizadas entre as Forças Americanas no Vietnã que só foram superadas neste século pelos Motins de Nivelle do Exército Francês em 1917 e pelo colapso dos exércitos czaristas em 1916 e 1917.” [15]
Os trabalhadores e a guerra
As pesquisas revelaram que a oposição à guerra prevalecia em todas as faixas etárias, sendo, na verdade, maior entre as gerações mais velhas e as menos escolarizadas. [16] No entanto, a maior parte dos participantes nas manifestações contra a guerra tendia a ser composta por jovens, em particular estudantes.
Para que o movimento realmente atacasse as raízes imperialistas da guerra, era necessário atrair a classe trabalhadora organizada. Isso porque, em última análise, somente os trabalhadores têm a capacidade de tomar as rédeas da economia das mãos dos capitalistas e paralisar a sociedade.
Após a expulsão da esquerda do movimento operário no final da década de 1940 e na década de 1950, a AFL (Federação Americana do Trabalho) e a CIO (Congresso de Organizações Industriais) se fundiram em uma única federação sindical. De modo geral, a direção sindical apoiava a política externa imperialista dos EUA e trabalhava em estreita colaboração com a CIA.
Em 8 de maio de 1970, ocorreu um ataque infame de cerca de 500 operários da construção civil em Nova York contra uma manifestação de estudantes pacifistas. Nenhum dos operários que atacaram os estudantes foi preso pela polícia, embora 70 estudantes tenham ficado feridos.
Cabe ressaltar que muitos dos estudantes de esquerda não se esforçaram para apresentar suas ideias de uma forma que essa camada da classe trabalhadora pudesse compreender. Muitos desses trabalhadores eram veteranos da Segunda Guerra Mundial e estavam revoltados ao ver a bandeira americana sendo queimada ou tratada de forma desrespeitosa.
O sindicato dos trabalhadores da construção civil de Nova York organizou uma manifestação para demonstrar “amor e apoio à bandeira americana” em 20 de maio. Cerca de 50 mil trabalhadores participaram, muitos dos quais foram obrigados pelos sindicatos a comparecer, e alguns receberam pagamento extra para participar. Esse episódio reforçou o estereótipo do “trabalhador americano conservador”.
De fato, havia setores da classe trabalhadora que eram a favor da Guerra do Vietnã. Mas as pesquisas mostravam que quanto menor a renda das pessoas, menor o apoio à guerra. [17]
A indignação de muitos sindicalistas em relação à guerra começou a surtir efeito. Logo após a manifestação dos trabalhadores da construção civil, cerca de doze sindicatos em Nova York organizaram um protesto contra a guerra. Isso incluiu a AFSCME (Federação Americana de Funcionários Estaduais, Municipais e do Condado), trabalhadores da distribuição, trabalhadores de hospitais e trabalhadores têxteis. Embora apenas 25 mil pessoas tenham comparecido, esses trabalhadores não foram pagos para participar e o protesto foi realizado em seu tempo livre.
Anteriormente, em 7 de maio, Walter Reuther, dirigente do sindicato United Auto Workers (UAW, Sindicato dos Trabalhadores da Indústria Automobilística), decidiu se opor publicamente à expansão da guerra para o Camboja. Infelizmente, ele morreu em um acidente de avião dois dias depois, e alguns suspeitam de um crime de sabotagem [18]. O UAW era muito importante, pois era um sindicato industrial grande e poderoso que ditava o ritmo dos contratos sindicais naquele período.
Houve muitas greves durante a Guerra do Vietnã, especialmente se compararmos com os dias de hoje. Estatísticas federais sobre grandes paralisações mostram o seguinte: em 1969, houve 412 greves envolvendo mais de 1,5 milhão de trabalhadores. Em 1970, houve 381 paralisações, envolvendo quase 2,5 milhões de trabalhadores. Em 1971, houve 298 greves realizadas por mais de 2,5 milhões de trabalhadores. Em comparação, em 2023, um ano recente em que muitos trabalhadores entraram em greve, ocorreram apenas 35 greves envolvendo 460. mil trabalhadores. [19]

Essas não foram greves políticas, mas sim greves econômicas, em sua maioria relacionadas a salários. A questão salarial está ligada à inflação, já que o aumento dos preços corrói o padrão de vida dos trabalhadores.
A inflação vinha crescendo nas décadas de 1960 e início de 1970, sendo a Guerra do Vietnã um dos principais motivos. Uma das causas da inflação é o gasto público com as forças armadas e armamentos. Os trabalhadores desses setores recebem salários, mas não produzem bens ou serviços de consumo. Isso aumenta a demanda na economia, mas não a oferta. Os presidentes Johnson e Nixon queriam evitar aumentos de impostos para financiar uma guerra impopular, então recorreram a gastos deficitários para custear “armas e manteiga”. Entre janeiro de 1963 e janeiro de 1971, a inflação subiu 32%. [20]
Medo da revolução
Não há dúvida de que, no início da década de 1970, muitas figuras da classe dominante e do aparato estatal estavam preocupadas. Havia o aumento das greves e os problemas econômicos que as causavam, particularmente a inflação. Além disso, havia o movimento pelos direitos civis e a revolta negra, o movimento feminista e a “contracultura” juvenil em geral. Havia revoltas de prisioneiros e a ascensão do Movimento Indígena Americano.
O país estava chegando a um ponto de ebulição, enquanto no Vietnã, o moral das tropas americanas estava em colapso. O conhecido marxista, Ted Grant, comentou no verão de 1972:
“Este foi o exército mais desmoralizado da história. Se houvesse um forte movimento socialista na América, os capitalistas americanos estariam enfrentando a revolução socialista nessas condições.” [21]
O movimento contra a guerra estava se tornando um ponto focal que unia todas essas diferentes lutas. Foi precisamente por isso que a classe dominante o viu como um risco que ameaçava seu sistema.
Embora obrigado a retirar as tropas terrestres, Nixon mudou sua estratégia para o bombardeio (a princípio secreto) e a invasão do Camboja em 1969-70 e do Laos em 1971. Alegadamente, isso visava impedir o fluxo de suprimentos e reforços pela Trilha Ho Chi Minh, por meio dos quais Nixon acreditava poder forçar o Vietnã do Norte à mesa de negociações.
Isso provocou uma reação interna furiosa. Nixon foi à televisão em 30 de abril de 1970 para anunciar a invasão terrestre do Camboja, o que desencadeou manifestações espontâneas nos dias seguintes.
Em 4 de maio, estudantes se reuniram na Universidade Estadual de Kent, em Ohio, para protestar contra a guerra. A polícia alegou que a manifestação era “ilegal” e a Guarda Nacional foi acionada. Alguns soldados da Guarda Nacional começaram a disparar seus fuzis, matando quatro estudantes e ferindo muitos outros.
Após Kent State, mais de quatro milhões de estudantes e trabalhadores protestaram em alguns dos maiores e mais abrangentes protestos contra a guerra do período, envolvendo pelo menos 883 campi universitários em todo o país. [22], [23] Os assassinatos em Kent State foram mais um ponto de virada na consciência de milhões de pessoas. Toda a premissa da guerra era supostamente “defender a democracia”. Mas ali, estudantes foram mortos e feridos simplesmente por expressarem sua oposição ao conflito.
Se tivesse existido um partido comunista de massas capaz de unir todas as lutas das massas sob um programa socialista, o enorme potencial da classe trabalhadora para transformar a sociedade poderia ter sido realizado. Tragicamente, não havia nenhum partido desse tipo estabelecido na época. Não havia sequer o núcleo de um partido assim.
Como resultado, o movimento começou a entrar em uma fase de declínio após a dramática onda de protestos em torno dos tiroteios em Kent State.
O declínio do movimento
Uma coisa é certa: à medida que o governo dos EUA começou a retirar um número substancial de soldados do Vietnã, houve um declínio drástico no número de pessoas que participavam do movimento contra a guerra.

O movimento contra a guerra nunca teve uma direção centralizada. Sempre foi composto por diferentes alas. Havia liberais, pacifistas, elementos religiosos e a “Velha Esquerda”, bem como a chamada “Nova Esquerda”.
O fracasso histórico tanto do Partido Comunista quanto do Partido Socialista dos Trabalhadores em atrair a classe trabalhadora americana e formar novas camadas (como os Panteras Negras e os Young Lords) deixou um enorme vácuo. Assim, a “esquerda” pequeno-burguesa ocupou esse espaço.
A SDS, uma das maiores organizações de jovens radicalizados, era ela própria uma organização eclética. Sua direção se via como parte da Nova Esquerda, que rejeitava a “velha esquerda” dos stalinistas, trotskistas e social-democratas. Era influenciada pelos acadêmicos pequeno-burgueses da “Escola de Frankfurt”, especialmente Herbert Marcuse, que argumentava que a classe trabalhadora estava corrompida demais pelos bens de consumo e pela propaganda burguesa para desempenhar qualquer papel revolucionário. Nunca houve na SDS uma tendência séria de estudar o marxismo genuíno, nem uma preocupação em aprender com a história.
De modo geral, a Nova Esquerda desconsiderava a classe trabalhadora americana. Consideravam que qualquer revolução viria de estudantes e outras camadas oprimidas, baseadas em raça, sexo, idade e sexualidade. Não viam razão para construir um partido revolucionário. Acreditavam que atos de resistência incitariam partes da população à rebelião e à revolução. Nesse sentido, eram como os Narodniks russos da década de 1880, mas adaptados à América da década de 1960.
Posicionada entre os capitalistas e a classe trabalhadora, a política pequeno-burguesa tende a oscilar entre o oportunismo e o ultra-esquerdismo, e vice-versa. Com seu foco no “indivíduo”, a pequena burguesia tende a olhar para dentro, resultando em movimentos que se dividem, em vez de se concentrarem no que pode uni-los. Buscam artifícios e “êxito instantâneo”, em vez de adotar uma perspectiva de longo prazo. Tendem a substituir suas próprias ações – de uma pequena minoria – pelas de um movimento de massas. Eles se recusam, ou são incapazes, de enxergar que a classe com o poder potencial e o interesse em realmente mudar a sociedade – a classe trabalhadora – é fundamental.
Sem uma base teórica clara para seu programa, a SDS se fragmentou em 1969. No fim, muitos dos membros da SDS se integraram aos inúmeros grupos que compuseram a esquerda sectária da década de 1970.
Os Panteras Negras e os Young Lords se desfizeram devido à brutal repressão estatal, somada às suas próprias fragilidades internas. Esses partidos começaram com poucas pessoas e cresceram rapidamente. A direção era improvisada e incluía uma mistura eclética de ideias. Algumas de suas atividades eram voltadas para a construção do partido, enquanto outras envolviam a execução de programas de assistência social, como o fornecimento de café da manhã gratuito para crianças nas comunidades. Inevitavelmente, surgiram desentendimentos. Estes não foram organizados de forma a promover discussões que elevassem o nível teórico dos membros, levando a brigas e divisões.
O próprio movimento contra a guerra era, em sua maioria, organizado como uma coalizão focada em um único tema. Grande parte disso decorria da análise que os dirigentes faziam da guerra. Eles viam a guerra como o resultado necessário do imperialismo? Ou eram, como muitos liberais, contra a guerra apenas porque os EUA estavam perdendo?
O movimento não tinha laços reais com a classe trabalhadora organizada, exceto nos últimos anos, mas mesmo assim a classe trabalhadora não era sua força principal. Parte disso pode ser atribuída aos dirigentes sindicais. Mas não houve um esforço conjunto real por parte dos dirigentes do movimento anti-guerra para atrair os trabalhadores de base, apoiar greves sindicais e articular as questões de forma integrada, especialmente no que diz respeito à inflação.
Embora tenha sido a juventude da classe trabalhadora que realizou a maior parte dos combates no Vietnã, a Nova Esquerda manteve-se hostil à classe trabalhadora, restringindo severamente o movimento.
Fracasso da direção
Um cessar-fogo entrou em vigor em 28 de janeiro de 1973, momento em que quase todas as tropas de combate americanas já haviam se retirado. Após isso, o regime do Vietnã do Sul continuou a perder apoio, até seu colapso em 1975.
As cenas dos helicópteros no telhado da embaixada americana e as fotos dos helicópteros e outros equipamentos sendo lançados ao mar a partir de porta-aviões americanos deixaram claro que o poderoso colosso do imperialismo americano havia sofrido uma grande derrota. Foi um momento marcante na história, que teve um profundo impacto na sociedade em geral, abalando muitas das ilusões que a população tinha em relação às instituições governamentais.
O período da história americana que começou na fase final da Guerra do Vietnã coincidiu com o fim do boom do pós-guerra. Com a crise mundial do capitalismo em 1973, os trabalhadores americanos passariam a sofrer ataques da classe capitalista a seus salários, benefícios e condições de trabalho pelas décadas seguintes.
Se tivesse havido uma direção revolucionária, o movimento contra a Guerra do Vietnã teria se unido à classe trabalhadora e ao movimento pelos direitos civis, ajudando a forjar um verdadeiro partido operário. Com o fim tanto da guerra quanto do movimento, uma direção revolucionária poderia ter redirecionado a luta para a batalha por empregos e contra concessões aos patrões. Portanto, é necessário considerar porque tal direção nunca emergiu.

O Partido Comunista dos EUA (CPUSA) foi o maior grupo da esquerda americana desde o início da década de 1920. Em 1928, o stalinismo tomou conta do partido. Sob a direção stalinista, o partido adotou, em grande parte, uma política oportunista a partir de 1936. O partido perdeu muitos de seus membros em 1956 devido a dois eventos: a Revolução Húngara de 1956, que foi reprimida por tropas soviéticas; e as revelações de Khrushchev sobre o reinado de terror de Stalin.
Na década de 1960, o CPUSA desempenhou um papel lamentável no movimento contra a guerra. Eles continuaram a seguir os Democratas – pelo menos os Democratas “anti-guerra”. Não exigiam a retirada imediata das tropas americanas, mas sim que o governo dos EUA negociasse com os vietnamitas.
A principal alternativa ao Partido Comunista dos EUA (CPUSA) stalinista era o Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP). Após o exílio de Trotsky da URSS no final da década de 1920, ele se esforçou ao máximo para formar uma nova geração de quadros marxistas. Durante esse período, nenhuma seção da Oposição de Esquerda Internacional (e posteriormente da Quarta Internacional) recebeu mais apoio de Trotsky do que a seção americana, que fundou o SWP em 1938.
Os principais quadros americanos, contudo, jamais conseguiram compreender o método dialético do marxismo e aplicá-lo à sua análise de perspectivas e à construção do partido. Após o assassinato de Trotsky em 1940, não havia ninguém a quem a direção desse ouvidos para guiá-los pelo caminho correto quando cometiam erros.
A abordagem mecânica e, em última análise, não marxista do SWP fez com que perdessem oportunidades durante e após a Segunda Guerra Mundial. O período pós-guerra foi certamente difícil para a esquerda revolucionária em todos os países capitalistas avançados, mas particularmente nos Estados Unidos. A tarefa era educar os quadros e, em seguida, aproveitar as novas oportunidades que surgiriam, como claramente aconteceu na década de 1960.Essas novas oportunidades se desdobraram com o movimento pelos direitos civis e a luta contra a Guerra do Vietnã. O SWP aproveitou essas oportunidades até certo ponto, mas, por falta da bússola teórica necessária, inclinou-se para um caminho oportunista.
Construindo um movimento ou um partido revolucionário?
A estratégia do SWP em relação à Guerra do Vietnã baseava-se fundamentalmente na busca por atalhos para fortalecer o partido e na adoção de uma abordagem reformista para a guerra. O SWP abandonou completamente o senso de proporção. Seus dirigentes viam o papel do partido como o de construir um movimento anti-guerra suficientemente grande para, supostamente, forçar a retirada das forças armadas americanas. Aparentemente, após essa etapa, eles poderiam então se dedicar à luta pelo socialismo.
Parece que presumiam que a construção do partido seria uma consequência automática desse movimento bem-sucedido. Sua ênfase estava na construção do movimento, não na construção do partido e no treinamento de quadros marxistas. O “treinamento” que os novos membros recebiam se resumia a como organizar grandes manifestações.
O SWP foi a força dominante no Comitê de Mobilização Estudantil para o Fim da Guerra do Vietnã, especialmente a partir de 1967. Esse comitê organizou muitas manifestações locais e nacionais. O problema é que o principal objetivo era levar o maior número possível de pessoas às manifestações, usando o denominador comum do “Out Now” (Fora imediatamente).
O líder do SWP, Fred Halstead, justificou a abordagem do partido em seu livro, Out Now:
“O SWP defendeu a autonomia do movimento anti-guerra como uma força de massas. […] O movimento era uma frente única de um tipo especial, não entre organizações de massa da classe trabalhadora por um conjunto concreto de reivindicações, mas entre elementos diversos e multiclassistas cujo único vínculo era a oposição à guerra. Para se manter unido, o movimento precisava se limitar a implementar ações em torno desse propósito central.” [24] (Ênfase nossa)
Mas enquanto seus membros se esforçavam para conseguir grande participação em manifestações, quem, dentro do partido, defendia os argumentos políticos contra o capitalismo em geral? Ou seja, mesmo que a guerra terminasse, a menos que a classe trabalhadora assumisse o poder, o imperialismo americano continuaria existindo e haveria mais guerras como aquela. E que, para os trabalhadores chegarem ao poder, eles precisavam de um partido, e esse partido precisava ser construído.
Embora a direção do SWP pudesse afirmar concordar com tudo isso, não era dessa forma que treinavam e mobilizavam seus membros. A razão para isso era que, se muitos camaradas defendessem a luta operária contra o imperialismo, isso teria prejudicado a coalizão multiclassista – essa “frente única de um tipo especial” – ao afastar os elementos pró-capitalistas.
Toda essa abordagem demonstra o quão poderosos eram o pragmatismo e o empirismo na direção do SWP. Eles queriam se concentrar no aqui e agora: parar a guerra. O foco principal, no entanto, deveria ter sido o de construir o partido da melhor maneira e conquistar uma parcela maior do movimento para uma perspectiva e um programa revolucionários.
Juntamente com esse oportunismo, o SWP adotou uma abordagem sectária em relação a SDS. Por que os comunistas não entrariam na SDS quando ela estava crescendo? Por que não tentar conquistar alguns desses estudantes radicalizados? A SDS estava aberta a jovens em busca de respostas. De fato, o grupo sectário maoísta, o Partido Trabalhista Progressista, acabou conquistando muitos desses estudantes. Mas, dada a incapacidade de seu programa de se conectar com os trabalhadores nos EUA, o potencial desses estudantes foi desperdiçado.
O SWP surgiu de sua intervenção no movimento contra a Guerra do Vietnã, mas a base de recrutamento era bastante baixa. No final, o que foi alcançado? Em 1959, o SWP tinha cerca de 600 militantes em 12 cidades diferentes, com aproximadamente 100 em Nova York e Los Angeles [25]. Em 1977, dezoito anos depois, contava com cerca de 1.760 membros em mais de 50 cidades, com 2 mil em sua organização de juventude, alguns dos quais eram militantes do partido, e muitos outros na franja do partido [26]. Este foi o auge do SWP.
Se tivessem adotado uma abordagem diferente, o SWP poderia ter crescido ainda mais, dadas as oportunidades que surgiram. Logo após 1977, o SWP entrou em um período de estagnação, seguido por um período de declínio acentuado, com uma espiral de cisões e expulsões.
O que fica claro é que eles construíram o partido principalmente com base na mobilização para impedir a guerra e não educaram adequadamente seus novos membros como quadros marxistas. O SWP publicou muitos livros, mas não houve grandes esforços para garantir que os recrutas ou membros mais antigos os lessem de fato. Podemos ver isso na rapidez com que o SWP se desintegrou no início da década de 1980.
A tarefa dos comunistas
Em um movimento amplo como um movimento contra a guerra, é evidente a existência de diversos agrupamentos políticos representando diferentes classes e camadas da sociedade. O papel dos marxistas é intervir nesses movimentos e conectá-los à classe trabalhadora. É também o de levar as questões da guerra à classe trabalhadora. O método de intervenção consiste em lançar luz sobre as causas profundas da guerra e explicar que somente a classe trabalhadora no poder pode conduzir a um mundo socialista, que é a única base para uma paz duradoura.

Assim que a ruptura com o presidente Johnson começou em 1968, os democratas pacifistas tentaram cooptar o movimento. Os comunistas deveriam ter exigido que o movimento pacifista não caísse nessa armadilha e que lançasse candidatos de forma independente. O movimento deveria ter pressionado os sindicatos a romperem com os democratas e a construírem um partido trabalhista. Mesmo que uma ala do movimento pacifista não concordasse com isso, tal abordagem teria aberto mais apoio aos comunistas e ajudado a conectar o movimento com a classe trabalhadora.
Estava claro que a SDS atraiu a maior parte da juventude radicalizada, muitos dos quais buscavam um caminho a seguir e estavam abertos às ideias do comunismo revolucionário. Não se tratava de conquistar toda a SDS, mas de recrutar os melhores elementos.
Era absolutamente correto que os comunistas participassem do movimento contra a guerra e ajudassem a construí-lo. No entanto, isso precisava ser feito sem diluir suas ideias ou esconder sua bandeira. A consciência revolucionária não se desenvolve de forma linear, mas, sob certas condições, pode ganhar força rapidamente. Apresentar as ideias de forma clara e ousada pode render muito mais do que fazê-lo de forma hesitante e tímida.
Em última análise, o SWP não estava em uma condição politicamente saudável para fazer isso. Mas podemos imaginar o que teria sido possível. Uma abordagem correta por parte de um pequeno número de marxistas genuínos em 1964 e posteriormente poderia ter criado uma força muito maior para construir um partido comunista de massas nos EUA hoje.
Nossas tarefas hoje
Não podemos simplesmente repetir mecanicamente as experiências do passado para às condições atuais, mas podemos aprender com o passado e adaptá-lo habilmente ao contexto atual.
A burguesia aprendeu com a experiência do Vietnã. Aboliu o serviço militar obrigatório em 1973 e nunca o reinstaurou, nem mesmo durante as guerras no Iraque e no Afeganistão. Compreendeu que, se o fizesse, poderia haver uma repetição do período de 1965 a 1972, mas em uma escala muito maior.
As guerras continuarão enquanto o capitalismo existir. Inevitavelmente, algumas delas gerarão movimentos de massa contra a guerra, como demonstrou o genocídio de Israel contra os palestinos. Os comunistas associam a opressão dos palestinos ao capitalismo e ao imperialismo americano. O caminho para a libertação palestina passa pela estrada da revolução socialista mundial.
Os jovens mais sérios já começaram a tirar conclusões revolucionárias, e devemos esperar que camadas mais amplas da sociedade se voltem para as ideias comunistas. Os comunistas que aprenderem com as lições do passado estarão mais bem preparados para aproveitar as oportunidades presentes e futuras de construir um partido que se torne uma força de massas capaz de conduzir a classe trabalhadora à vitória mundial.
Referências:
[1] J Miller, Democracy is in the Streets, from Port Huron to the siege of Chicago, Harvard University Press, 1994, pg 34
[2] S Tucker (ed.), The Encyclopedia of the Vietnam War: A Political, Social, and Military History, 2nd Edition, ABC-CLIO, 2011
[3] Selective Service System, ‘Induction Statistics’, sss.gov
[4] US Department of Defense, ‘Vietnam Veterans Memorial’, defense.gov
[5] F Halstead, Out Now, A Participant’s Account of the Movement in the U.S. against the Vietnam War, Pathfinder, 1991, pg 851-852
[6] M Clodfelter, Vietnam in Military Statistics: A History of the Indochina Wars, 1792–1991, McFarland & Company, 1995, pg 225
[7] J Miller, Democracy is in the Streets, from Port Huron to the siege of Chicago, Harvard University Press, 1994, pg 231
[8] N L Zaroulis, G Sullivan, Who spoke up? : American protest against the war in Vietnam, 1963-1975, Doubleday, 1984, pg 271
[9] K Burns, L Novick (dir.), The Vietnam War, Episode 7: ‘Chasing Ghosts’, 2017, Florentine Films
[10] N L Zaroulis, G Sullivan, Who spoke up? : American protest against the war in Vietnam, 1963-1975, Doubleday, 1984, pg 286
[11] D Cortright, Peace: A History of Movements and Ideas, Cambridge University Press, 2008, pg 164-165
[12] ibid., pg 165
[13] T Gitlin, ‘What Was the Protest Group Students for a Democratic Society? Five Questions Answered’, Smithsonian magazine, 4 May 2017
[14] R A Gabriel, P L Savage, Crisis in Command, Hill & Wang, 1978, pg 183
[15] R D Heinl Jr., ‘The Collapse of the Armed Forces’, Armed Forces Journal, 7 June 1971
[16] ‘61% in Poll Assert Entry Into the War Was U.S. ‘Mistake’, The New York Times, 6 June 1971
[17] W L Lunch, P W Sperlich, ‘American Public Opinion and the War in Vietnam’, The Western Political Quarterly, Vol. 32, No. 1, March 1979, pg 40-41
[18] M Parenti, ‘The Wonderful Life and Strange Death of Walter Reuther’, Dirty Truths, City Lights Books, 1996
[19] US Bureau of Labour Statistics, ‘Annual work stoppages involving 1,000 or more workers, 1947 – Present’, bls.gov
[20] US Inflation Calculator, usinflationcalculator.com
[21] T Grant, ‘America doomed in Vietnam’, Militant, 14 July 1972
[22] N L Zaroulis, G Sullivan, Who spoke up? : American protest against the war in Vietnam, 1963-1975, Doubleday, 1984, pg 320
[23] A Miller, ‘May 1970 Student Antiwar Strikes – Mapping American Social Movements’ depts.washington.edu
[24] F Halstead, Out Now, A Participant’s Account of the Movement in the U.S. against the Vietnam War, Pathfinder, 1991, pg 969-970
[25] B Sheppard, The Party, A political memoir: Volume 1, The Sixties, Resistance Books, 2005, pg 29
[26] B Sheppard, The Party, A political memoir: Volume 2, Interregnum, Decline and Collapse, Resistance Books, 2005, pg 123


