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As eleições presidenciais deste ano podem parecer, sob alguns aspectos, uma reprise das de 2022, devido à repetição da polarização entre Lula e Bolsonaro, agora o filho. Se há, sim, semelhanças, há também muitas diferenças que precisam ser bem compreendidas para posicionar corretamente os comunistas. Durante praticamente todo o atual mandato de Lula, fomos oposição de esquerda e combatemos suas medidas quando representavam um ataque à classe trabalhadora. Isso, entretanto, não nos leva à posição apressada de que há um sinal de igualdade entre Lula e Flávio Bolsonaro e que agora podemos lavar as mãos.
Esse modo de analisar a situação política brasileira baseia-se em um silogismo que interpreta a realidade como A (Bolsonaro governou para a burguesia) + B (Lula governou para a burguesia) = C (Lula é politicamente igual a Bolsonaro). Podemos concordar com essas premissas; porém não com essa conclusão. Comecemos por analisar as grandes mudanças de 2022 para cá.
O desgaste do bolsonarismo e o balanço do terceiro mandato de Lula
O bolsonarismo vem de um profundo processo de desgaste desencadeado pela tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023. Sua retórica e demagogia antissistema ficaram expostas pelo que são para amplos setores que acreditaram nelas. Enquanto isso, a reação liderada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) criminalizou setores mais radicalizados e várias figuras de destaque, começando pelo próprio ex-presidente, preso desde agosto de 2025.
Nesse meio-tempo, Lula continuou o essencial da política fiscal de Bolsonaro, expressa pelo Arcabouço Fiscal, aplicado por Fernando Haddad à frente do Ministério da Fazenda. Essa política condicionou todo o conjunto das atividades do Palácio do Planalto. O terceiro mandato de Lula mostrou-se um reformismo sem reformas, de cortes e privatizações. O pouco concedido foi de caráter limitado, incompleto e contraditório, como a isenção do imposto de renda e a PEC do fim da escala 6×1 (ainda por ser aprovada).
Foi um período em que a maioria das lutas dos trabalhadores foi bloqueada e derrotada. Começando pela luta que mobilizou milhares de jovens por todo o país contra a reforma do Novo Ensino Médio. O governo sufocou o movimento e por fim manteve a reforma com algumas modificações. Foram poucos os casos em que o governo foi forçado a recuar, como no caso da privatização dos rios Tapajós e Madeira depois da heroica luta protagonizada pelos povos indígenas.
Luta interimperialista e a influência dos EUA na América Latina
No meio do mandato de Lula, Trump voltou a ocupar a Casa Branca e deu início a uma nova fase da luta interimperialista. Depois da China, o Brasil figurou entre os principais alvos das agressões norte-americanas, com algumas das maiores tarifas impostas. A nova guerra dos EUA e de Israel contra o Irã trouxe ainda mais instabilidade para uma economia capitalista débil. Os planos de Trump passaram a envolver ainda mais o Brasil devido à riqueza do país em relação a terras raras, mas não só. Trump defende os interesses das big techs americanas, pressiona para restringir a atuação comercial e financeira da China e combate alternativas bancárias como o PIX.
A escalada da luta interimperialista foi expressa na retomada da Doutrina Monroe como referência para a orientação dos EUA em relação à América Latina. Trump entende o que chamam de “Hemisfério Ocidental” como sua zona de influência natural. Resultou dessa orientação a operação que prendeu Nicolás Maduro e converteu a Venezuela em nova colônia. Faz parte dela o atual movimento hediondo de cerco e estrangulamento do povo cubano.
Essa nova orientação dos EUA desdobrou-se também na busca por influenciar os processos eleitorais da América Latina em favor daqueles mais alinhados com os EUA e dispostos a combater os investimentos chineses. Isso tem se expressado de diversas maneiras diferentes. É importante observar que Trump tem sido bem-sucedido nesse propósito.
Nayib Bukele tem conseguido manter amplo apoio popular em El Salvador. José Raúl Mulino colaborou com os EUA para posicionar as tropas americanas em território panamenho e expulsar a China do canal. Milei se afirmou na Argentina. Abelardo de la Espriella superou o candidato de Gustavo Petro na Colômbia. Noboa assumiu a frente no Equador. A família Fujimori retornou ao governo no Peru. O Chile viveu a ascensão de Kast. A Bolívia pegou fogo com o governo de Paz. Peña colocou as tropas norte-americanas para andar livremente dentro do Paraguai.
Entreguismo e soberania nacional
No caso do Brasil, as tarifas foram usadas como instrumento de chantagem para tentar libertar Jair Bolsonaro. Além disso, o governo norteamericano definiu o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações narcoterroristas, partindo do mesmo instrumento de pressão usado contra Maduro. Agora utiliza uma nova rodada de tarifas para acusar o Brasil de deslealdade comercial, de não cumprir acordos e de não ser confiável.
Lula tenta apresentar-se nessa situação como o grande defensor da soberania nacional, em contraponto a um Flávio que seria o vende-pátria. Se Flávio pode ser caracterizado como tal, Lula está muito longe de lutar por uma real soberania. A política externa de um governo sempre é a continuidade de sua política interna.
Lula buscou aplicar em nível internacional a mesma política de colaboração com os capitalistas dentro do Brasil. Por isso, foi atrás de capital estrangeiro para investir no Brasil, em especial o chinês e o da União Europeia. Dessa forma, tentou se reconciliar com Trump afirmando que “rolou uma química”, permitiu a venda de empresas de refinamento de terras raras e disse que todos eram bem-vindos para explorar o Brasil. A dita soberania expressa por Lula é o direito de o Estado organizar algum tipo de gerência e competição entre os diversos imperialismos que exploram nosso país.
A resiliência eleitoral da direita e a crise do reformismo
Nesse contexto de onda de vitórias eleitorais da direita na América Latina, o bolsonarismo conseguiu se reerguer e voltar a expressar força. Isso aconteceu, em primeiro lugar, porque a reação à tentativa de golpe foi delegada para o STF. Enquanto isso, o governo Lula, os partidos de esquerda que compõem sua base (PT, PCdoB e PSOL) e os dirigentes sindicais clamaram por “Defesa da democracia” e por respeito ao dito “Estado democrático de direito”.
Um bolsonarismo enfraquecido buscou retomar terreno resgatando um projeto de 2022, pensado inicialmente para os atos de bloqueio de rodovias pós-eleição, para anistiar os condenados pela tentativa de golpe. Já em 2023, os bolsonaristas avançaram a atual Lei da Dosimetria, em vigor desde maio deste ano, apesar do veto de Lula. Essa lei permite uma série de revisões favoráveis aos condenados em relação às punições aplicadas pelo 8 de janeiro de 2023.
Apesar de não conseguir libertar seu líder, o bolsonarismo permanece reunindo força considerável, expressa pela resiliência de Flávio nas pesquisas. Cabe-nos perguntar: que tipo de força é essa? O evento de lançamento da candidatura do Zero Um em Copacabana deu um forte indicativo: um evento esvaziado com cerca de 9 mil participantes, seguido de esvaziamento semelhante em Belo Horizonte. Longe de se tratar de um movimento fascista e militante, como setores da esquerda não cansam de afirmar, a força de Flávio nas pesquisas expressa na verdade um questionamento eleitoral ao governo atual.
Nesse sentido, a vitória de Flávio deve ser considerada uma ameaça real. As massas passaram por um mandato de Lula que entregou um reformismo sem reformas e uma vida percebida e de fato pior do que antes. A tentativa de gerenciar o capitalismo levou Lula aos baixos índices de aprovação e aos índices de rejeição das pesquisas. Por isso, podemos dizer que o maior adversário de Lula nestas eleições é o próprio Lula.
A resiliência de Flávio, apesar da bateria de denúncias e revelações contra ele, evidencia que um setor das massas quer expressar seu veredito não sobre Flávio, mas sim sobre Lula. Em toda a América Latina, as massas estão punindo eleitoralmente os reformistas nos quais acreditaram e apostaram. A onda de vitórias eleitorais da direita está encerrando outro ciclo do reformismo na América Latina. Lula corre um sério risco de também sofrer a mesma punição nestas eleições por entregar mais capitalismo e frustrar as expectativas das massas.
O drama de nossa época é que as massas estão punindo os reformistas por meio da eleição de demagogos de extrema direita, como Flávio. Essa situação é incompreendida pelos reformistas, que concebem o avanço do fascismo em contraponto ao mundo de Alice no País das Maravilhas entregue por Lula. Na verdade, o que as massas estão rejeitando são os próprios reformistas, no Brasil e na América Latina.
Perspectivas para a luta de classes
Por mais que o clã Bolsonaro possa ter aspirações de tipo fascista, um governo de Flávio não seria um governo fascista no Brasil. Não há movimento fascista de massas para corroborar tal perspectiva. Seria uma gestão chamada a aplicar a seu modo o programa da burguesia em um momento de escalada da luta interimperialista, de pressão para um alinhamento servil do Brasil aos EUA e de maior endividamento do Estado e turbulência no comércio global. Ao contrário da tese do fascismo, que prevê o esmagamento das organizações da classe trabalhadora, tal governo seria o prelúdio de um intenso e violento período de luta de classes no Brasil.
O governo Flávio exporia ainda mais o real caráter da “democracia” burguesa e do Estado brasileiro, que como bem explicou Lênin nada mais é do que uma das formas da ditadura do capital. Mas um novo governo Lula estaria assentado sobre as mesmas contradições de Flávio, e chamado a aplicar um programa ainda mais hostil contra os trabalhadores e a pequena burguesia. Basta ver o que se anuncia com a manutenção do novo teto de gastos, no que diz respeito aos pisos da saúde e educação. O reformismo, para ter base de apoio sólida, necessita de alguma margem de concessão dos capitalistas.
O grande problema que Lula e os reformistas enfrentam é que a burguesia está disposta a entregar cada vez menos, e pede cada vez mais. Mesmo as migalhas do passado agora parecem insuportáveis para a classe dominante. As massas farão a experiência com os demagogos da extrema direita, mas logo irão chocar-se com eles e perceber que não são capazes de entregar o que prometeram. Por isso, o pêndulo tende a virar-se de forma ainda mais intensa à esquerda no próximo período.
A época de auge dos reformistas está chegando ao fim, porque o capitalismo está entrando em um novo período de crise, guerras e revoluções. Neste momento, devemos ajudar as camadas mais avançadas da classe trabalhadora a derrotar Flávio, seu inimigo mais perigoso, por meio do voto crítico em Lula. Mas faz-se necessária uma alternativa comunista que corresponda às necessidades dos trabalhadores nesta nova situação e que possa liderar suas lutas futuras à vitória.


