Há exatos 20 anos, Ted Grant faleceu. Republicamos abaixo um artigo de Rob Sewell, escrito em 2013 para marcar o centenário do nascimento de Ted, que detalha sua vida e suas conquistas históricas como revolucionário.
Depois de se tornar comunista aos 14 anos, Ted dedicou o restante de sua vida à luta pela revolução socialista. Ele manteve sozinho a chama do verdadeiro marxismo após a morte de Trotsky, atravessando o mais longo período de expansão econômica na história do capitalismo, a ascensão e a queda do stalinismo, bem como a confusão e a fragmentação do restante do movimento trotskista.
Além de suas análises brilhantes — sobre a ordem do pós-guerra, a natureza de classe do stalinismo e as revoluções coloniais, entre outras — e de seu trabalho indispensável no Partido Comunista Revolucionário e no The Militant, seu legado hoje é esta organização. A Internacional Comunista Revolucionária não existiria se não fosse pela sua defesa, ao longo de décadas, das verdadeiras ideias de Marx, Engels, Lênin e Trotsky.
Entre as suas contribuições de destaque está Lênin e Trotsky: o que realmente defenderam, obra escrita em coautoria com Alan Woods. Voltada para as fileiras do Partido Comunista [da Grã-Bretanha] — então abaladas pela repressão à Primavera de Praga e pela traição do Partido Comunista ao movimento revolucionário de maio de 1968 na França —, a obra responde às calúnias dos stalinistas ao expor a verdadeira trajetória desses dois grandes revolucionários.
Na próxima Escola Mundial de Comunismo — um evento único, com duração de uma semana, dedicado à formação de revolucionários nas ideias marxistas —, lançaremos a nova edição dessa excelente contribuição à teoria marxista e realizaremos uma sessão dedicada a debater as ideias nela contidas.
Para aqueles que o conheceram, Ted Grant foi um gigante político. Ele vivia e respirava as ideias do marxismo e foi, sem dúvida, o mais importante teórico marxista desde a morte de Trotsky. Isso pode ser constatado pela profundidade de seus escritos ao longo de cerca de 70 anos de atividade política, a maior parte dos quais está disponível em tedgrant.org.
Ted Grant só se tornou conhecido por um público mais amplo durante as décadas de 1970 e 1980, quando a Tendência The Militant ganhou destaque na Grã-Bretanha. Ted havia fundado o jornal “Militant” em 1964 — um pequeno jornal mensal de quatro páginas, em preto e branco, sem uma sede e sem um quadro de liberados. No entanto, já em 1972, ele havia se tornado um semanário de quatro páginas e, em meados da década de 1980, a Tendência The Militant havia se tornado amplamente conhecida.
No auge, o The Militant contava com milhares de apoiadores, 200 liberados em tempo integral, centros nacionais e regionais, três membros do Parlamento (deputados federais) e a direção da organização Jovens Socialistas do Partido Trabalhista, além de uma influência crescente nos movimentos sindical e operário. Isso representou o trabalho mais bem-sucedido de qualquer grupo trotskista desde os tempos da Oposição de Esquerda de Trotsky. Sem as ideias e a influência orientadora de Ted Grant, nada disso teria sido possível.
A Quarta Internacional
Ted era originário da África do Sul, mas passou a maior parte de sua vida na Grã-Bretanha. Ele chegou ao país no final de 1934 em busca de novos horizontes políticos, após ter participado da fundação da Oposição de Esquerda em Joanesburgo. Por recomendação de Trotsky, filiou-se ao ILP (Partido Trabalhista Independente) e, posteriormente, ao Partido Trabalhista. No entanto, com a trégua política e o declínio do Partido Trabalhista durante a guerra, Ted desempenhou um papel fundamental na criação da Liga Internacional dos Trabalhadores (Workers’ International League) e, mais tarde, do Partido Comunista Revolucionário.
Foi nesse período que Ted emergiu como o principal teórico do movimento. Após a morte de Trotsky, os dirigentes da Quarta Internacional — como James Cannon, Pierre Frank e Ernest Mandel — mostraram-se incapazes de compreender a nova situação e cometeram uma série de erros. Eles limitavam-se a repetir, de forma mecânica, o que Trotsky havia dito antes da guerra, ignorando a mudança radical do cenário. Enquanto ocorria uma expansão econômica no pós-guerra, eles simplesmente a negavam; em vez disso, falavam em recessão iminente e revolução.
Foi Ted quem explicou que o capitalismo havia se estabilizado (temporariamente) e estava, pelo contrário, vivenciando um boom. De fato, esse boom transformou-se em um período de expansão de vinte e cinco anos — uma duração muito maior do que qualquer um poderia ter previsto. As razões para essa expansão foram apresentadas por Ted em Haverá uma Recessão?, ao passo que os dirigentes da “Quarta” (Internacional), na prática, capitularam diante do keynesianismo.
Ted foi também o primeiro a compreender a vitória do stalinismo na Europa Oriental e na China, onde o capitalismo foi derrubado. Os stalinistas haviam instituído uma economia planificada e nacionalizada, porém sobre a mesma base burocrática existente na URSS. Enquanto Ted identificava corretamente esses regimes como estados operários deformados ou formas de bonapartismo proletário, os dirigentes da chamada Quarta Internacional só conseguiam enxergar capitalismo e capitalismo de Estado. Com o tempo, eles oscilaram violentamente para o extremo oposto, chegando a reconhecer a Iugoslávia de Tito como um “estado operário saudável”. Cometeram um erro crasso após o outro. Na realidade, Trotsky havia semeado dentes de dragão, mas colheu pulgas.
A única exceção foi Ted Grant, que conseguiu compreender a nova situação e reorientar politicamente a organização britânica. Tendo se provado equivocados em toda uma série de questões fundamentais, os “dirigentes” da “Quarta” — incapazes de admitir seus erros — vingaram-se de Ted de forma rancorosa, minando sistematicamente a seção britânica, o que acabou levando à sua destruição. A política de prestígio desempenha um papel extremamente corrosivo.
No início da década de 1950, Ted ficou com um pequeno grupo que conseguiu salvar do colapso do PCR. Foram anos particularmente difíceis, em que cada passo doloroso à frente estava repleto de obstáculos. Objetivamente, o capitalismo vivia um momento de grande expansão, e o governo trabalhista do pós-guerra havia implementado reformas importantes e realizado nacionalizações. O stalinismo havia se fortalecido na Europa Oriental e na China.
Como consequência, as forças do verdadeiro marxismo viram-se reduzidas a um punhado minúsculo, forçadas a nadar contra a corrente. Mesmo que Marx, Engels, Lênin e Trotsky estivessem vivos, isso não teria feito uma diferença fundamental. Ainda assim, Ted manteve o grupo unido e preparou-se para uma futura mudança na situação. A tarefa consistia em conquistar militantes, um a um ou em pequenos grupos, e educá-los nas ideias fundamentais do marxismo.
Foi somente em 1964, com a criação do Militant, que o cenário começou a mudar. Atuávamos na organização Jovens Socialistas (do partido trabalhista) desde a sua fundação, em 1960, mas éramos muito pequenos e enfrentávamos a concorrência de grupos maiores, como a ultraesquerdista Socialist Labour League (SLL) e a International Socialists. Isso nos causava sérios problemas, especialmente devido às ações ultraesquerdistas da SLL, que acabaram levando ao fim da Young Socialists.
Era a época do governo trabalhista de Wilson e das grandes manifestações estudantis contra a Guerra do Vietnã. Logo após a saída da SLL, as demais seitas abandonaram o Partido Trabalhista, declarando que ele havia deixado de existir como partido dos trabalhadores. Nós, no entanto, permanecemos e participamos do grupo de jovens recém-criado, as Juventudes Socialistas do Partido Trabalhista (LPYS).
A Ascensão do Militant
A situação mudou novamente em 1970, com a eleição do governo conservador de Ted Heath. Nessa altura, já havíamos consolidado nossa base de apoio e planejávamos comprar uma impressora, contratar militantes em tempo integral e transformar o Militant em uma publicação quinzenal. Conquistáramos a maioria na LPYS, o que nos permitiu utilizá-la para alcançarmos os trabalhadores e a juventude. Em pouco tempo, o cenário industrial mudou drasticamente, com greves e manifestações generalizadas contra o governo.
Os sindicatos, que antes estavam sob o controle da direita, haviam se deslocado para a esquerda, especialmente com a vitória de Jack Jones e Hugh Scanlon.
Estávamos no lugar certo e na hora certa. Ted sempre nos instruiu sobre a importância das perspectivas e das organizações de massa. Quando os trabalhadores entram em movimento político, eles sempre se voltam para suas organizações de massa. Em contrapartida, as seitas buscam sempre atalhos, o que as leva de uma aventura a outra. Naturalmente, isso não significava ter um fetichismo pelas organizações de massa. “O Partido Trabalhista”, explicava Ted, “proporcionou enorme estabilidade ao capitalismo ao longo dos últimos 70 anos”. Isso, no entanto, mudaria em função dos acontecimentos.
Nossa tarefa era estabelecer uma tendência marxista no seio das organizações de massa, sem nos isolarmos do movimento da classe trabalhadora.
Um complemento essencial a isso foi a formação de quadros marxistas e a ênfase na importância da teoria marxista. Ted sempre foi firme nesse ponto e nos incentivava a adquirir experiência prática — a “nos forjarmos” — com base nos fundamentos do marxismo. Ele recomendava a todos nós a leitura e o estudo das obras dos grandes mestres do marxismo: Marx, Engels, Lênin e Trotsky. Além disso, Ted sempre ressaltava a necessidade de reler todo o material que havíamos produzido no período anterior, o que também contribuía para enriquecer as ideias marxistas. “Devemos proporcionar aos camaradas uma base sólida nessas ideias”, explicava ele. “A teoria precisa ser aprofundada, desenvolvida e ampliada em cada etapa. Nossa tarefa não é simplesmente repetir ideias.” Essa abordagem nos proporcionou os fundamentos teóricos sólidos da tendência.
“Quem tem a juventude, tem o futuro”
Ted também ressaltou a importância da juventude. Eles, enfatizou, constituiriam a verdadeira força motriz de qualquer tendência revolucionária. “Quem tem a juventude”, para citar Lênin, “tem o futuro”. Por meio da juventude, educada no marxismo, poderíamos conquistar os trabalhadores mais velhos do movimento trabalhista e sindical. Essa foi toda a nossa experiência com a LPYS.
“A nossa é uma tendência antiga”, explicou Ted, “no sentido de que é a continuidade das ideias de Marx, Engels, Lênin e Trotsky. É também uma tendência jovem, no que diz respeito à sua composição.”
Por esses meios, conseguimos conquistar politicamente outros pontos de apoio no movimento operário. Nossa tarefa era simples: “Tornar conscientes os desejos, sentimentos e estados de espírito inconscientes da classe trabalhadora em relação às nossas ideias”, explicava Ted.
O que alcançamos, sob a orientação de Ted Grant, foi conectar as ideias genuínas do marxismo ao movimento real da classe. Isso era algo que as “57 variedades” de seitas jamais conseguiriam fazer.
Ted falava em todas as reuniões de leitores do Militant que realizávamos durante as conferências nacionais da LPYS. Partindo de reuniões com algumas dezenas de pessoas, à medida que a YS crescia, passamos a realizar reuniões paralelas que reuniam 2.000 participantes — praticamente toda a conferência. Ted tirava o paletó, arregaçava as mangas, colocava um maço de anotações sobre a mesa e começava a falar, por uma hora, sobre programa e perspectivas.
Esses discursos delineavam a crise do capitalismo mundial e britânico, abordavam os argumentos da burguesia, depois os da direita e, em seguida, os dos reformistas de esquerda. Utilizando uma linguagem baseada em fatos, números e explicações, ele contrapunha a solução marxista para a classe trabalhadora. Eram apresentações magistrais que, como pretendido, serviam para elevar o nível político do jovem público.
Depois, nos bares, Ted era cercado por jovens que lhe faziam todo tipo de pergunta — inclusive sobre filosofia e ciência —, às quais ele respondia com competência. Ele era muito acessível e apreciava as discussões com os jovens camaradas. Ele havia percebido que a geração mais velha estava, em grande parte, esgotada e tornara-se mais cética em relação à revolução socialista; por isso, era essencial formar uma nova geração de futuros dirigentes.
Ted era extremamente culto, não apenas em marxismo, mas em uma grande variedade de assuntos. Ele devorava o Financial Times e outros jornais que, segundo ele, forneciam a matéria-prima para o materialismo histórico contemporâneo.
O colapso do stalinismo
Como principal teórico do nosso movimento, Ted redigiu todos os documentos de perspectivas que serviram de base para as discussões nas conferências nacionais e internacionais. “Deve-se utilizar o método dialético do marxismo”, dizia ele. Ele escreveu documentos analisando a Revolução Colonial, a Revolução Espanhola, a Revolução Portuguesa, a Questão Nacional e outros temas.
O colapso do stalinismo, por meio da contrarrevolução capitalista, representou um grande retrocesso. Ironicamente, aqueles que caracterizavam a União Soviética como “Capitalismo de Estado” — como o SWP na Grã-Bretanha — acabaram descrevendo a contrarrevolução não como um passo atrás, mas como um “passo para o lado”!
“O movimento para restaurar a propriedade individual pegou esses senhores e senhoras completamente de surpresa”, escreveu Ted. “Que alternativa eles poderiam oferecer à desnacionalização da indústria e à abolição do plano? Essa não é apenas uma questão teórica, mas uma questão vital para os interesses da classe trabalhadora russa.” Para Tony Cliff [dirigente fundador do SWP], “a privatização era uma questão irrelevante”.
“Se a nacionalização é ‘irrelevante’ e se o que ocorreu na Rússia foi apenas um ‘passo para o lado, então por que se opor a isso? Certamente deveria ser indiferente se a burguesia mais ‘simpática’ assume o lugar do capitalismo de Estado, não é?” Foi por isso que o SWP acabou apoiando os fundamentalistas apoiados pelos EUA no Afeganistão e os estudantes que exigiam a restauração capitalista na Hungria. Eles apoiavam o que estivesse na moda. Mais recentemente, apoiaram as forças islâmicas de reação obscurantista no Egito como supostos combatentes “anti-imperialistas”! Ted prosseguiu citando Trotsky: “Aqueles que não conseguem defender as velhas posições jamais conquistarão novas.”
Senso de proporção e senso de humor
Ted Grant explicava que sempre precisávamos de senso de proporção, bem como de senso de humor, em nosso trabalho cotidiano. Não devemos cair na histeria, mas sim adotar uma abordagem amigável, inclusive em relação aos nossos oponentes dentro do movimento operário. O fator decisivo era a força das ideias. A imprensa capitalista, assim como os reformistas, sempre tentou nos retratar como intimidadores — algo que nunca fez parte do método de Ted. Eles tentaram usar essa pecha porque não conseguiam nos responder no plano político.
Nosso trabalho consistente no Partido Trabalhista havia nos proporcionado diversos pontos de apoio em diferentes partes do país, mas especialmente em Liverpool. Foi lá, com a guinada geral à esquerda, que conseguimos comprometer a bancada trabalhista local com uma política de não realizar cortes nem aumentar taxas, visando garantir mais empregos, serviços sociais e moradias a preços acessíveis. Quando o Partido Trabalhista foi eleito em Liverpool, em 1983, isso resultou em um confronto direto com o governo Thatcher. Nessa luta, formamos uma frente única com cerca de 30 outras administrações municipais trabalhistas, mas, uma a uma, elas foram se afastando e capitulando, deixando Liverpool isolada.
Nossos êxitos em Liverpool e em outras localidades deram novo ímpeto à caça às bruxas contra o Militant. Ted e os demais membros do conselho editorial foram expulsos do Partido Trabalhista em 1982. A ofensiva contra o grupo foi então intensificada. No entanto, o “Militant” reagiu organizando grandes comícios públicos — reunindo milhares de pessoas — por todo o país.
A Tendência Militant cresceu de forma vertiginosa. Tornamo-nos amplamente conhecidos, à medida que a história do Militant ganhava grande destaque nos jornais e na televisão. De menor grupo da esquerda, passamos a ser o maior. Isso se deveu às ideias e aos métodos de Ted Grant, bem como à sua vasta experiência acumulada. De reuniões públicas realizadas nos fundos de pubs, passamos a organizar comícios nacionais do “Militant” com milhares de participantes no Royal Albert Hall e no Alexandra Palace.
Havíamos conquistado uma posição significativa no meio sindical com a organização do BLOC (Comitê Organizador da Ampla Esquerda). Essa iniciativa promoveu conferências sindicais que reuniram milhares de pessoas na década de 1980. Durante a greve dos mineiros de 1984-1985, recrutamos cerca de 500 mineiros, o que refletia, mais uma vez, nossa crescente influência.
A reeleição de Thatcher em 1987 marcou um ponto de virada. Nessa eleição, enquanto Kinnock levava o Partido Trabalhista à derrota, os marxistas Pat Wall foi eleito, e Terry Fields e Dave Nellist foram reeleitos com maiorias ampliadas. Isso demonstrou na prática o poder de atração de políticas socialistas ousadas. No entanto, após a trágica morte de Pat, isso não impediu que Terry e Dave fossem expulsos por Kinnock em sua tentativa de livrar o partido dos “militantes” (da corrente Militant). O mesmo destino tiveram os principais camaradas de Liverpool, expulsos sob acusações forjadas.
O governo Thatcher avançou com a implementação da Poll Tax (uma espécie de imposto territorial urbano) em 1989, primeiramente na Escócia e, depois, no restante do país. Já em 1986, quando se começou a falar sobre o imposto, Ted havia proposto a ideia de uma campanha de massa de não pagamento. Diante da situação, empenhamos nossas forças no desenvolvimento e na liderança dessa campanha. Por fim, com 14 milhões de pessoas recusando-se a pagar, Thatcher foi forçada a renunciar, e o odiado imposto foi revogado.
Ao longo da década de 1980, houve uma guinada acentuada à direita no Partido Trabalhista e também nos sindicatos, o que nos causou dificuldades. “Bons generais sabem quando recuar”, explicava Ted; “os maus podem transformar um recuo em debandada”. Foi exatamente isso que acabou acontecendo com a maioria da liderança do grupo Militant, chefiada por Peter Taaffe, que deixou o sucesso subir à cabeça.
Um atalho para o precipício
Apesar da oposição de Ted e de um grupo de outros camaradas, a direção decidiu lançar um candidato — após a morte de Eric Heffer — para disputar contra o Partido Trabalhista em Walton (Liverpool). O resultado foi um desastre.
Isso foi seguido pelo lançamento de uma “Nova Virada” na Escócia, na qual a tendência romperia com o Partido Trabalhista e se lançaria como um novo partido. A ideia era que isso impediria a ascensão do nacionalismo escocês! Ted descreveu isso, acertadamente, como um “desvio para o precipício”.
Os acontecimentos posteriores provaram que ele estava certo, especialmente com a destruição do Partido Socialista Escocês e o fim do Militant.
Nossos esforços para combater esse esquerdismo levaram à nossa expulsão do Militant, que logo depois mudou de nome para se tornar o Partido Socialista da Inglaterra e do País de Gales. Eles descartaram o Partido Trabalhista, classificando-o como um partido burguês do qual os sindicatos deveriam se desfiliar — exatamente a mesma política de Tony Blair! Quase tudo o que Ted havia ensinado foi jogado fora na busca por um atalho para o sucesso que, na verdade, não existia.
Em outras palavras, eles acabaram destruindo o Militant, o que Ted havia previsto que seria o destino deles. Nossas bases, outrora poderosas, em Liverpool e na Escócia, foram destroçadas. Eles se transformaram em uma organização de ativistas, saltando de uma campanha para outra. A teoria foi abandonada e o nível político despencou. Isso resultou em uma rotatividade constante de militantes. Toda a sua abordagem resultou em uma mistura de sectarismo e oportunismo grosseiro.
O fio de continuidade
Sem se deixar abater, Ted fundou o Socialist Appeal e a Corrente Marxista Internacional (CMI), que serviram para resgatar as verdadeiras tradições, o programa e os métodos do passado. Era importante dar continuidade à tradição genuína do marxismo — o fio de continuidade.
Ted Grant nos ajudou a nos prepararmos para os eventos revolucionários que se avizinhavam. Claramente, não há saída com base no capitalismo. “A classe dominante encara o futuro com pessimismo e pavor”, explicou Ted em muitas ocasiões.
“Agora Mandel apresenta a ideia de um ciclo de Kondratiev!”, exclamava Ted. “Ontem diziam que não haveria recessão. Mas o que temos não é uma crise cíclica, e sim uma crise orgânica do sistema capitalista. Não é uma crise de ciclos, mas a contradição das forças produtivas frente ao Estado-nação e à propriedade privada.”
Os reformistas, mesmo os de esquerda, tinham memória muito curta. “O marxismo é a memória da classe trabalhadora… O caminho do reformismo significa catástrofe.” Não existe meio-termo. O capitalismo não pode ser salvo; deve ser derrubado.
“A base econômica da sociedade é sempre decisiva. As ideias ficam para trás, mas não para sempre. No final, a política deve entrar em consonância com a economia”, explicou Ted. É por isso que ele sempre enfatizava que eram “os eventos, os eventos, os eventos” que eram essenciais para mudar a perspectiva da classe trabalhadora.
No entanto, ele alertou que o caminho a percorrer era longo, dada a crise de direção. “Estamos engajados em uma longa guerra; haverá derrotas e vitórias inevitáveis.” Contudo, a perspectiva era a de uma agonia prolongada do sistema. Haveria muitas oportunidades para mudar a sociedade.
Hoje, a maior crise econômica da história do capitalismo confirma a validade do marxismo e das ideias de Ted Grant. Precisamos nos preparar para o futuro: a época de revolução e contrarrevolução em escala mundial. Nunca houve um período tão instável na história. No entanto, não devemos nos deixar distrair por questões acessórias, mas sim “olhar para os fundamentos”, como Ted sempre enfatizava.
As condições objetivas para a revolução estão amadurecendo em toda parte. Contudo, a crise que a humanidade enfrenta é uma crise de direção. As velhas organizações tornaram-se um enorme obstáculo para os trabalhadores. “O fator subjetivo é o fator mais importante da história”, explicava Ted. A tarefa fundamental é educar e preparar as forças do marxismo, para que possam desempenhar um papel decisivo quando chegar o momento.
Este mês marca o centenário do nascimento de Ted Grant. Assinalaremos a data da maneira que Ted teria desejado: com um compromisso renovado de construir as forças do marxismo na Grã-Bretanha e internacionalmente. Como Alan Woods explicou em sua recente biografia de Ted: “Ao falar do filósofo Anaxágoras, Aristóteles comparou-o a ‘um homem sóbrio entre uma multidão de bêbados'”. Poder-se-ia dizer o mesmo de Ted Grant. Não havia ninguém como ele quando estava vivo, e ninguém pode substituí-lo agora que se foi.
No entanto, nas fileiras da Corrente Marxista Internacional, há muitos quadros experientes que assimilaram suas ideias e métodos e estão plenamente capacitados para colocá-los em prática. Com base nisso, construiremos e consolidaremos nossas forças e prepararemos o terreno para o surgimento de uma tendência marxista de massas capaz de conduzir a classe trabalhadora ao poder e estabelecer o socialismo na Grã-Bretanha e internacionalmente.


