A história do Partido Comunista Chinês (PCCh) está intimamente ligada à degeneração stalinista da Internacional Comunista. Neste artigo, Kenny Wallace explora a luta pouco conhecida das forças do trotskysmo na China, que lutaram heroicamente para defender as ideias e os métodos do marxismo genuíno contra todas as adversidades.
[Este artigo foi originalmente publicado na edição 51 da revista In Defence of Marxism e em nossa edição brasileira América Socialista nº 27. Você pode adquiri-la entrando em contato consoco]
A história do trotskysmo chinês é uma faceta pouco conhecida da história do movimento operário chinês. Isso claramente se deve, em grande parte, à vitória do Partido Comunista Chinês (PCCh) em 1949 e à derrubada do capitalismo sob a direção de Mao, o que necessariamente coloca as origens e o desenvolvimento do maoísmo no centro de qualquer estudo sobre o marxismo na China. Mas esta não é a única razão.
O domínio da linha oficial da direção do PCCh também foi mantido por uma política de repressão vigilante e implacável, aplicada contra qualquer tendência que pudesse apresentar uma alternativa política para a classe trabalhadora chinesa, e acima de tudo, o trotskysmo.
Essa luta constante para neutralizar até mesmo o potencial de surgimento de uma tendência trotskysta na China remonta aos primeiros anos da Oposição de Esquerda, na década de 1920: esta atingiu seu clímax com a captura e a eliminação de todos os trotskystas conhecidos na China em 1951-52. No decorrer desse expurgo, as forças do trotskysmo chinês foram aniquiladas e seus arquivos destruídos.
No entanto, seria um erro grave presumir que o trotskysmo nunca teve qualquer influência dentro do movimento revolucionário chinês. Na verdade, vários dos fundadores do PCCh se juntaram à Oposição de Esquerda de Trotsky na década de 1920.
Sob condições de repressão cruel, contrarrevolução e guerra, esse pequeno grupo de trotskystas lutou heroicamente para manter as verdadeiras ideias e métodos do bolchevismo na China e para criar uma força organizada capaz de estabelecer laços com os trabalhadores nas cidades. Essa, eles entendiam, era a única maneira de garantir a revolução chinesa sobre bases sólidas.
Essa luta acabou fracassando. Mas a história de como os trotskystas chineses enfrentaram os imensos desafios do período contém muitas lições importantes para os comunistas que lutam hoje pela construção de partidos revolucionários em todo o mundo.
A origem do PCCh
As raízes do trotskysmo na China remontam, na verdade, à fundação do próprio Partido Comunista Chinês. O PCCh foi formado por um pequeno grupo de revolucionários inspirados pela Revolução de Outubro de 1917, tendo Chen Duxiu como seu principal dirigente.
A participação de Chen Duxiu foi vital. Antes de sua conversão ao marxismo, ele já era um renomado intelectual radical: foi uma figura de destaque no histórico “Movimento Quatro de Maio” em 1919, no qual milhares de estudantes em toda a China protestaram contra o imperialismo, o feudalismo e a corrupção.
Ao final dessa experiência, Chen e seus seguidores perceberam que a simples implementação da democracia liberal ocidental não libertaria a China dos grilhões da dominação estrangeira. Eles viam a revolução socialista como o caminho para libertar a China do imperialismo e do atraso, como os bolcheviques estavam demonstrando na Rússia.
Na época de seu congresso de fundação, em julho de 1921, o PCCh tinha cerca de 50 membros no total, todos intelectuais ou estudantes. Os militantes que fundaram o partido o fizeram com base nas ideias de Lenin e Trotsky, os dirigentes reconhecidos da Revolução Russa. Naturalmente, a direção do PCCh era recém chegada ao marxismo e, portanto, necessariamente dependia da orientação da Internacional Comunista (Comintern).
O PCCh cresceu rapidamente, primeiro entre jovens estudantes e intelectuais, e depois entre a classe trabalhadora. De um pequeno grupo de camaradas em seu congresso de fundação em 1921, o PCCh cresceu para mil membros em apenas quatro anos. Dois anos depois, eles já contavam com 57.000 membros no partido e controlavam a vasta maioria dos sindicatos.
O rápido crescimento do PCCh refletiu o enorme apelo que a Revolução de Outubro exerceu entre a vanguarda dos trabalhadores e jovens chineses. Eles a consideraram um exemplo para sua própria libertação. Li Dazhao, outro cofundador do PCCh, resumiu esse sentimento:
“Nossas massas trabalhadoras, sob duplas e até múltiplas camadas de opressão, de repente ouviram o grito da Revolução de Outubro: ‘Derrubem o capitalismo mundial!’ , ‘Derrubem o imperialismo mundial!’ Esse grito ressoou em nossos ouvidos com particular intensidade, particular gravidade e particular significado.”
Mas foi também nessa época que a direção do PCCh começou a receber orientações cada vez mais distorcidas da direção do Comintern, o que refletia a degeneração burocrática que ocorria na URSS. Isso teria consequências graves para o desenvolvimento do partido.
O Kuomintang
Naquela época, a China era mais uma semi colônia que um Estado-nação, dividida entre muitas potências imperialistas com a ajuda de seus representantes entre os senhores da guerra chineses e a burguesia compradora – a classe de capitalistas que atuava como comerciantes e intermediários entre o capital estrangeiro e o mercado chinês.
Uma classe trabalhadora proporcionalmente pequena emergiu nas poucas cidades em que o imperialismo estrangeiro havia investido com afinco, como Xangai, Guangdong e Hong Kong. Os trabalhadores eram submetidos a condições brutais: em alguns casos, cerca de 30 a 40 pessoas dormiam em uma só habitação e eram espancadas por erros em seu trabalho.
A grande maioria da população, no entanto, era composta por camponeses submetidos a condições extremamente precárias, dominados por latifundiários cujos interesses estavam vinculados às classes dominantes nas cidades. Em muitos casos, os camponeses eram semiescravos, viviam na miséria, vestidos com trapos e forçados a pagar impostos exorbitantes sob ameaça de tortura. Estima-se que, em um ano de colheita ruim, uma família de sete pessoas poderia esperar que três ou quatro de seus membros morressem de fome.
Nessas condições, o partido político mais importante na China era o Kuomintang (KMT): o Partido Nacionalista Chinês. Esse partido era dominado principalmente por elementos burgueses, mas também gozava de certo prestígio entre as massas, uma vez que seu líder, Sun Yat-sen, era considerado o líder da Revolução Republicana de 1911, que pôs fim a séculos de monarquia dinástica na China.

O início da década de 1920 viu uma onda de agitação contra o imperialismo entre uma camada das massas chinesas. Um grande número de trabalhadores e camponeses, muitos dos quais estavam se radicalizando à esquerda, aderiram ao KMT devido à falta de uma outra alternativa viável. Isso representou um problema e uma oportunidade para o jovem PCCh. Em particular, o PCCh precisava encontrar uma maneira de alcançar e conquistar essa camada que apoiava o KMT sem semear ilusões na chamada “burguesia nacional progressista”, alinhada a Sun Yat-sen.
Em 1922, a Internacional Comunista e o PCCh progressivamente adotaram uma série de medidas para se orientarem em direção às bases do KMT. Durante o Segundo Congresso do PCCh, foi aprovada uma resolução que incentivava que o PCCh formasse uma frente única com o KMT, mas mantendo-se enquanto partido independente. Em seguida, após a intervenção do representante da Internacional Comunista, Henk Sneevliet (Maring), membros importantes do PCCh foram persuadidos a se juntar ao KMT na tentativa de conquistar suas fileiras para o socialismo.
Isso foi seguido, em 1923, por contatos diretos do governo soviético com Sun Yat-sen. Sun recebeu apoio financeiro, equipamento militar e auxílio para fortalecer as estruturas organizacionais do KMT como partido, na tentativa de conquistá-lo para o marxismo. Assim começou o que viria a ser conhecido como a “Primeira Frente Única”.
A tática da frente única teve uma longa história no desenvolvimento do Partido Bolchevique, no qual aparecia sob a forma de acordos temporários entre os bolcheviques e outras organizações para lutar por ações específicas com base no mote de “marchar separados, atacar juntos”.
A ideia era a de que, com base na atividade conjunta, os comunistas poderiam ganhar os trabalhadores que mantinham ilusões reformistas, comprovando a superioridade de suas ideias e métodos na prática. Este tema foi discutido no Terceiro Congresso da Internacional Comunista, em 1921, no qual Lenin e Trotsky se esforçaram para salientar que uma condição fundamental para qualquer frente única é manter a independência política do partido revolucionário.
A Primeira Frente Única pretendia ser uma aplicação dessa tática às condições da China, um país atrasado e semicolonial, onde grande parte da classe trabalhadora nutria ilusões no KMT burguês-nacionalista. No entanto, em contraste com a concepção leninista de frente única, a Primeira Frente Única começou com importantes concessões tanto na frente política quanto organizacional.
Para obter um acordo com Sun Yat-sen, o representante soviético, Adolphe Joffe, concordou publicamente, no Manifesto Sun-Joffe, assinado em 26 de janeiro de 1923, que “o sistema soviético não pode ser adotado na China”. Isso significou, na prática, que o objetivo final do movimento comunista foi publicamente repudiado, ignorando os comunistas chineses.
O Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC), sob a direção de Grigory Zinoviev, instruiu os comunistas a estabelecer um “bloco” dentro do KMT, unindo-se ao KMT como membros individuais, mas mantendo a “independência” do PCCh. A autoridade da Internacional foi usada para garantir a aceitação de suas instruções no Terceiro Congresso Nacional do PCCh, em junho de 1923, apesar da considerável oposição manifestada em todas as instâncias do partido.
Na prática, as restrições impostas aos membros comunistas pelo KMT significavam que eles tinham que se subordinar à disciplina e aos objetivos da direção por um período indeterminado, sem nenhuma liberdade de crítica.
A direção do CEIC só piorou à medida que Stalin começou a consolidar o poder na União Soviética após a enfermidade de Lenin em 1923. Apoiando-se na burocracia conservadora do Estado e do partido, Stalin apresentou pela primeira vez sua teoria do “socialismo em um só país” no outono de 1924.
Conectado a este evento está o fato de que a política externa da União Soviética começou a se deslocar para a diplomacia e para a acomodação com o capitalismo, em oposição à revolução mundial. Na China, isso significou uma postura cada vez mais favorável à liderança burguesa do Kuomintang.
A maioria do CEIC argumentava que a classe trabalhadora chinesa era fraca demais para dirigir uma revolução, num país predominantemente atrasado e camponês. Portanto, segundo eles, o caráter da revolução que se aproximava só poderia ser democrático-burguês por natureza, e liderada principalmente pela burguesia. Isso contradizia o fato de que, em 1917, o proletariado representava uma pequena parcela da população russa, mas, ainda assim, conseguiu tomar o poder, enquanto a burguesia, débil naquele momento, desempenhava um papel diretamente contrarrevolucionário. Na China, a burguesia era ainda mais fraca e ainda mais dependente do imperialismo estrangeiro.
Os dirigentes da Internacional Comunista tinham ilusões particularmente fortes no líder do KMT, Chiang Kai-shek, que sucedeu Sun Yat-sen como líder do partido após a morte deste. De fato, naquela época, Chiang parecia disposto a cooperar com Moscou em troca de ajuda externa. A maioria do Comitê Executivo da Internacional Comunista tentou conquistar Chiang admitindo o KMT como um “partido associado” da Internacional em 1926, chegando a elegê-lo como “membro honorário” de seu comitê executivo. Apenas Trotsky votou contra.
A posição do CEIC contrariava as Teses sobre a Questão Nacional e Colonial, aprovadas no Segundo Congresso da Internacional Comunista em junho de 1920, que declaravam:
“É necessária uma luta perseverante contra a tentativa de se disfarçar com um manto comunista os movimentos revolucionários de libertação que não são verdadeiramente comunistas nos países atrasados. […] A Internacional Comunista deve acompanhar o movimento revolucionário nas colônias e nos países atrasados em parte do caminho, devendo até mesmo fazer uma aliança com ele; não pode, contudo, fundir-se com ele; pelo contrário, deve manter incondicionalmente o caráter independente do movimento proletário, mesmo que apenas em embrião.”
As ideias antimarxistas vindas de Moscou encontraram forte resistência por parte de Chen Duxiu e da maior parte da direção do PCCh. O CEIC, portanto, recorreu à ameaça de expulsões para subjugar a direção do PCCh. Isso foi amplificado em 1924, quando a Internacional Comunista implementou uma proibição permanente de frações em todos os partidos da Internacional, tornando assim inadmissível a dissidência aberta com a direção.
Foi essa experiência que gerou a oposição aos agentes da Internacional Comunista dentro do PCCh desde o início.
A luta de Trotsky
Trotsky, que assumiu a luta pela defesa das ideias do marxismo genuíno contra a degeneração stalinista da URSS e da Internacional Comunista, acompanhou de perto os acontecimentos na China.
Desde o início, Trotsky se opôs às instruções da Comintern que orientavam o PCCh a colaborar com o Kuomintang (KMT), denunciando o perigo inerente à colaboração de classes. Entre 1923 e 1926, insistiu repetidamente na necessidade de o PCCh romper com o KMT.
Trotsky explicou que na China, assim como na Rússia, a burguesia nacional era incapaz de completar as tarefas da revolução democrático-burguesa.
Por um lado, a burguesia chinesa havia se desenvolvido como nada mais do que uma classe “compradora”, estreitamente ligada aos interesses do imperialismo ocidental. Além disso, a burguesia chinesa estava ligada, e muitas vezes até fazia parte, do pequeno grupo de grandes latifundiários que possuíam 62% das terras aráveis da China.
Essa burguesia débil temeria um movimento revolucionário da classe trabalhadora acima de tudo e, portanto, era organicamente incapaz de travar qualquer tipo de luta determinada contra o imperialismo estrangeiro ou os remanescentes do feudalismo na China — duas das tarefas mais básicas da revolução chinesa.

Por outro lado, Trotsky argumentava que, embora numericamente minoritária em relação à imensa massa camponesa, a classe trabalhadora chinesa possuía um peso econômico e social que a tornava capaz de desempenhar o papel dirigente na revolução.
Ao adotar uma política correta de terras para os camponeses, o proletariado poderia forjar uma aliança poderosa, capaz de expulsar o imperialismo e estabelecer um regime de poder operário, assim como na Rússia em 1917. Mas, para desempenhar esse papel, a classe trabalhadora precisava de seu próprio partido, com independência de classe, que não espalhasse ilusões nos nacionalistas burgueses entre as massas trabalhadoras e camponesas.
Essa análise representava, precisamente, uma aplicação da teoria da revolução permanente formulada por Trotsky. A revolução seria “permanente” porque a classe trabalhadora não deveria limitar-se a auxiliar a burguesia na criação de um regime “democrático”, mas sim assumir a direção do processo revolucionário e conquistar o poder em aliança com os camponeses.
Além disso, uma vez que os trabalhadores tomassem o poder, não se limitariam a realizar as tarefas democrático-burguesas, como a unificação do país e a reforma agrária: a lógica da luta os levaria inevitavelmente a prosseguir com a realização das tarefas socialistas, como a nacionalização da indústria. Por fim, a revolução teria que se espalhar internacionalmente para ter êxito, uma vez que seria impossível construir o socialismo em um único país, especialmente em um país atrasado como a China naquela época.
Entretanto, os stalinistas travavam uma violenta luta de facções contra a Oposição de Esquerda dirigida por Trotsky na URSS. Essa disputa expressava o conflito entre os interesses conservadores da burocracia em ascensão — sustentada e dirigida por Stalin — e as tradições genuínas do leninismo, baseadas na democracia operária e na luta pela revolução mundial. O Comitê Executivo da Internacional Comunista (CEIC), dirigido por Zinoviev em conluio com Stalin, sistematicamente votava contra Trotsky e suas posições.
A burocracia de Moscou temia que as opiniões de Trotsky chegassem aos membros do PCCh, razão pela qual iniciou uma campanha de calúnias contra Trotsky dentro do PCCh. Trabalhando por meio dos agentes do Comintern estacionados em Xangai (chamados de Birô do Extremo Oriente), eles iniciaram essa campanha subitamente propondo uma resolução no Quarto Congresso do PCCh, em 1925. Nela, denunciavam Trotsky sob a vaga acusação de que suas críticas à direção do Comintern na época poderiam ser usadas pelos inimigos do movimento comunista mundial.
Segundo Zheng Chaolin, que estava presente no Congresso e mais tarde se tornou um trotskysta chinês, todos os presentes ficaram perplexos com a resolução, pois parecia ter surgido do nada. Mas eles estavam apenas ouvindo a versão de Zinoviev e Stalin da história e não tinham como acessar os escritos de Trotsky. A resolução foi aprovada, com a ajuda de alguns colaboradores voluntários da direção do PCCh que se juntaram à campanha de difamação contra Trotsky.
Opor-se a tudo o que Trotsky dizia tornou-se, portanto, a linha partidária do PCCh. O mesmo processo se repetiu em partidos comunistas de todo o mundo sob a direção de Zinoviev na Internacional Comunista. Politicamente, isso significou o isolamento — e em muitos casos o expurgo — dos militantes que representavam as ideias e os métodos genuínos do comunismo revolucionário, sob o pretexto de “bolchevização” dos partidos. Essa orientação conduziu a sucessivas derrotas desastrosas.
Mas nenhuma quantidade de mentiras e calúnias poderia resistir ao choque dos acontecimentos.
A Revolução de 1925-27
O rápido crescimento do PCCh coincidiu com uma enorme onda revolucionária que varreu a China entre 1925 e 1927. Ao longo desse período, o PCCh conquistou o apoio de centenas de milhares de trabalhadores, mas a Internacional Comunista insistiu que o PCCh se abstivesse de conquistar a liderança da classe trabalhadora de forma independente. Em vez disso, aos comunistas foi ordenado manter sua submissão à chamada “burguesia progressista” no KMT, enquanto Chiang Kai-shek parecia estar travando uma luta militar contra os senhores da guerra ligados aos interesses imperialistas no que ficou conhecido como a “Expedição do Norte”.
As consequências dessa política revelaram-se catastróficas, sobretudo em Xangai. Em março de 1927, os trabalhadores da cidade, apoiados pelo PCCh, organizaram uma greve geral revolucionária que derrubou o senhor da guerra local e deixou o poder nas mãos dos trabalhadores armados. O partido poderia ter utilizado essa vitória extraordinária para inspirar os operários de outras regiões e abrir caminho para uma revolução socialista em escala nacional.
Mas a Internacional Comunista insistiu que o PCCh ordenasse aos trabalhadores que se desarmassem e se submetessem às forças de Chiang Kai-shek, pois, em sua visão, a Revolução Chinesa estava pronta apenas para sua fase “democrática”. O PCCh, assim, abriu os portões de Xangai para Chiang Kai-shek, que, seguindo seu instinto de classe, massacrou os trabalhadores e comunistas desarmados, afogando a revolução em sangue.
O resultado foi inequívoco: as instruções da Internacional Comunista conduziram o PCCh e a classe trabalhadora chinesa a uma derrota traumática. No entanto, a burocracia de Moscou recusou-se a reconhecer sua própria responsabilidade e lançou toda a culpa sobre o então secretário-geral do partido, Chen Duxiu, que, apesar de suas reservas, havia seguido fielmente a linha da Comintern até o desastre de Xangai.
Novos erros foram cometidos para proteger o prestígio da burocracia soviética, como a desastrosa aventura do “soviete de Cantão”. Essa série de ziguezagues e derrotas, por sua vez, levou a uma burocratização ainda mais rápida do partido.
Os acontecimentos levaram muitos militantes a reavaliar criticamente as orientações vindas de Moscou. Isso ocorreu de maneira independente em diferentes núcleos do partido. Alguns desses grupos eram formados por membros do PCCh que estudavam na URSS, dominavam o idioma russo e tiveram acesso direto aos escritos de Trotsky.
Alguns deles eram líderes mais antigos do PCCh, a quem Moscou responsabilizava pelas derrotas, como o fundador do partido, Chen Duxiu, e Peng Shuzhi. Eles refletiram seriamente sobre as lições aprendidas com as derrotas e adotaram a posição de Trotsky. Como resultado, foram expulsos do PCCh em 1929.
Outros eram pequenos burgueses que não gostavam da burocracia stalinista por suas próprias e confusas razões e, dessa, expressaram interesse na Oposição de Esquerda de Trotsky.
Esses grupos díspares formaram tendências independentes dentro do PCCh que mais tarde se uniriam para se tornar as forças do trotskysmo chinês.
A questão da direção
As primeiras camadas de simpatizantes de Trotsky no PCCh revelavam um enorme potencial revolucionário. Alguns deles — entre os quais Chen Duxiu, fundador e principal dirigente do partido — possuíam grande autoridade entre os militantes de base. Outros, como Wang Fanxi, eram quadros mais jovens que haviam estudado em Moscou e dominavam o idioma russo, o que lhes permitia manter contato direto com a Oposição de Esquerda na União Soviética e em outros países.
Se tivessem conseguido consolidar uma organização disciplinada em tempo hábil, haveria muitas oportunidades, a partir do final da década de 1920, de recrutar membros das fileiras do PCCh, que se encontrava em profunda crise interna. Isso teria sido um passo importante para a reconstrução do marxismo como uma força entre o proletariado chinês.
Infelizmente, isso não ocorreu. Apesar de seu alinhamento político com Trotsky, esses militantes não haviam assimilado plenamente a teoria e os métodos do bolchevismo. Era justamente isso que se fazia necessário para enfrentar o período de dura reação que se abatia sobre a China, onde tanto o Kuomintang (KMT) quanto o PCCh stalinizado se mostravam inimigos ferozes de qualquer tendência revolucionária independente.
A derrota da revolução de 1927 produziu um clima de ceticismo e desmoralização entre certos setores militantes. Esse ambiente se refletiu em métodos e comportamentos sectários em boa parte daqueles que se alinhavam à Oposição de Esquerda — não apenas na China, mas em diversos países. O próprio Trotsky foi, em várias ocasiões, obrigado a intervir pessoalmente para corrigir tais desvios e reafirmar a necessidade de uma política e de uma disciplina genuinamente revolucionárias.

Assim, os trotskystas chineses começaram como quatro pequenos grupos sectários que lutaram entre si por mais de um ano e meio. As fontes das contendas variavam de questões políticas secundárias a disputas interpessoais diretas.
O que era necessário era uma força politicamente unificadora: uma liderança com uma compreensão clara da situação e autoridade suficiente para reunir os melhores elementos com base em princípios. Mas, infelizmente, esse fator era exatamente o que estava ausente.
Chen Duxiu era a única pessoa que poderia ter desempenhado esse papel, mas muitos trotskystas mais jovens se recusaram a trabalhar com ele devido ao fato de ele ter seguido a linha desastrosa da Internacional Comunista até o massacre de Xangai, apesar de suas reservas. E, infelizmente, mesmo ele não possuía um conhecimento profundo da teoria marxista, de modo que, em muitos casos, ficou na retaguarda dos debates e foi incapaz de fornecer a clareza de ideias necessária para tal direção.
Em 8 de janeiro de 1931, Trotsky enviou pessoalmente uma carta a todos os principais grupos da Oposição de Esquerda chinesa. Com base nas informações que havia recebido de diversos lados, concluiu que não existia qualquer motivo substancial para que as cisões persistissem e apelou à unificação das forças.
Do ponto de vista de Trotsky, assim como de muitos outros setores da Oposição de Esquerda Internacional, os diferentes grupos de trotskystas chineses eram, em sua maioria, compostos por revolucionários sinceros, mas politicamente inexperientes. Ele estava disposto a orientá-los pacientemente, mesmo que houvesse muitas diferenças entre eles, desde que todos traçassem uma linha contra quaisquer elementos sem princípios. Assim ele concluiu sua carta: “Trazer grupos sem princípios para a Oposição Internacional significaria envenenar a própria organização”.
O que Trotsky não podia prever era que, de fato, havia elementos profundamente desprovidos de princípios entre vários desses grupos. Havia, é certo, militantes sérios e corajosos, mas misturados a setores pequeno-burgueses cuja principal preocupação era conquistar posições de prestígio e autoridade.
Quando Trotsky falava em “unificação”, referia-se à união dos trotskystas chineses sinceros, que partilhavam, em linhas gerais, as mesmas perspectivas, programas e métodos. Contudo, quando sua carta chegou à China, foi interpretada de modo formal e burocrático: qualquer um que declarasse solidariedade a Trotsky, independentemente de suas motivações ou de seu entendimento político, deveria ser admitido na organização.
O resultado não foi a unidade de princípios que Trotsky esperava, mas um processo de fusão confuso e sem princípios que novamente se arrastou por meio ano, atolado em disputas sobre a representação de cada grupo no Comitê Central (CC).
No Dia do Trabalhador de 1931, realizou-se finalmente o Congresso de Fundação da Oposição de Esquerda Chinesa, que estabeleceu a Liga Comunista da China, com um Comitê Executivo liderado por Chen Duxiu. Mas, pouco tempo depois, um membro chamado Ma Yufu, irritado por não ter sido eleito para o CC, decidiu trair toda a liderança da organização, entregando-a ao KMT.
Assim, logo após o congresso de unificação conquistado com enorme esforço, toda a direção central — com exceção de Chen Duxiu e Peng Shuzhi — foi presa e encarcerada. Chen e Peng também seriam presos no ano seguinte. Dessa forma, os trotskystas chineses ficaram privados de uma direção sólida e experiente desde os primeiros passos de sua formação.
Dificuldades objetivas
Apesar da decapitação de sua direção, ainda havia pequenos grupos de membros da base, bem como o trotskysta sul-africano Frank Glass, que trabalhavam arduamente para manter vivas as chamas do trotskysmo, principalmente em Xangai.
A situação inicialmente parecia desesperadora. O regime do KMT, que agora era uma ditadura militar que buscava energicamente uma guerra civil “contra o comunismo”, não via diferença entre os trotskystas e o PCCh stalinizado. Nos anos seguintes a 1927, Chiang Kai-shek estava principalmente obcecado em erradicar o que chamava de “bandidos comunistas” da China, mesmo quando o Japão Imperial invadiu o país, tomando a Manchúria em 1931.
Em dezembro de 1936, Chiang Kai-shek foi capturado por um de seus generais e libertado apenas após concordar em assinar um cessar-fogo com o PCCh e colaborar na resistência contra o Japão. Chiang concordou relutantemente, sob a condição de que o PCCh suspendesse a luta de classes, cessasse toda a propaganda comunista, dissolvesse República Soviética de Yan’an (governo da zona controlada pelo partido) e incorporasse o Exército Vermelho ao exército nacional oficial. O PCCh aceitou estes termos, e a chamada “Segunda Frente Única” foi formalmente estabelecida no verão de 1937.
O acordo de Chiang com o PCCh incluía a libertação dos presos políticos mantidos nas prisões do KMT. Essa medida beneficiou diretamente os trotskystas chineses, pois permitiu a libertação de figuras centrais como Chen Duxiu, Zheng Chaolin, Wang Fanxi e Peng Shuzhi.
Com forças reduzidas, inexperientes e quase sem recursos materiais, os trotskystas passaram a travar uma guerra em três frentes: contra o KMT, contra o PCCh e contra os japoneses — todos os quais viam o trotskysmo como uma ameaça mortal.
O KMT e o exército japonês não faziam distinção entre o PCCh e os trotskystas, reprimindo ambos com brutalidade. Por sua vez, o PCCh, em consonância com a campanha de Stalin para exterminar o trotskysmo em escala mundial, promoveu violentos expurgos antitrotskystas nas regiões sob seu controle no final da década de 1930. A complexidade e o isolamento político dessa conjuntura tornavam a sobrevivência dos marxistas genuínos uma tarefa quase impossível.
Ainda assim, contra todas as probabilidades, os trotskystas conseguiram estabelecer uma direção nacional provisória da Liga Comunista da China, em Xangai, entre 1933 e 1934. Pouco depois, as forças dispersas em Hong Kong, Shandong e Guangxi restabeleceram contato com esse centro.
A partir daí, a Liga Comunista se orientou para os trabalhadores e estudantes urbanos, em grande parte desconectados do PCCh, que havia deslocado sua base para o campo e sua orientação para os camponeses. Eles traduziram e publicaram as obras de Trotsky em chinês e produziram diversos jornais ilegais, impressos em gráficas projetadas e construídas pelos próprios camaradas. O fato de terem logrado alcançar esses importantes avanços merece o maior reconhecimento.
A Guerra

O início da invasão em larga escala da China pelo Japão em 1937 levantou uma questão muito séria para os trotskystas chineses: qual posição eles deveriam assumir em relação à guerra?
É verdade que Chiang Kai-shek foi um carrasco do proletariado chinês e um arqui-reacionário. No entanto, a natureza da invasão japonesa à China foi a de uma guerra entre uma potência imperialista e uma nação oprimida lutando por sua libertação nacional.
Concretamente, a brutalidade dos invasores japoneses instigou um extraordinário clima de resistência entre os trabalhadores e camponeses da China. Isso é particularmente verdadeiro após o Massacre de Nanquim, em dezembro de 1937, quando tropas japonesas cometeram um dos piores crimes de guerra da história. Centenas de milhares de civis foram saqueados, estuprados e assassinados.
Frank Glass publicou um relato angustiante da vida sob a ocupação japonesa da China em 1939:
“Nas áreas controladas pelos japoneses, estes geralmente matam qualquer chinês acusado de atividades consideradas antijaponesas, sob as quais se pode incorrer em qualquer acusação, desde não ter um cigarro para um soldado japonês, quaisquer reverências incorretas a sentinelas e posse de um jornal do Kuomintang. Nessas áreas, o terror japonês é direcionado não apenas contra os revolucionários, mas contra toda a população. Inúmeras aldeias que os japoneses acreditavam estarem auxiliando as forças de guerrilha foram destruídas pelo fogo, com os japoneses metralhando os habitantes em fuga.”
As massas chinesas ardiam em fúria contra os invasores imperialistas. No entanto, embora o exército camponês do PCCh somasse cerca de 100.000 homens naquela época, era mal equipado e limitado principalmente à pequena e relativamente remota região ao redor de Yenan, na província de Shaanxi. O fato era que, gostassem ou não, a maior força que lutava contra essa invasão e à qual as massas podiam recorrer era o KMT.
Isso apresentou aos trotskystas chineses um problema muito complexo, numa época em que eles tinham apenas cerca de 200 pessoas espalhadas pela China. Como deveriam se posicionar em relação ao KMT e ao PCCh, sem ceder às pressões do oportunismo ou se isolar da classe trabalhadora? Nesse ponto, Trotsky ofereceu orientações muito importantes sobre como abordar essa questão.
Uma frente única baseada em princípios
Em primeiro lugar, é evidente que os comunistas devem se aliar às massas de uma nação oprimida contra o imperialismo. Mas, nesse caso, as massas chinesas ainda não haviam desenvolvido seus próprios órgãos de poder, e os revolucionários da Liga Comunista da China eram demasiados poucos para influir significativamente na situação por conta própria. As pequenas forças do trotskysmo precisavam ser fortalecidas, conectando-se a esse sentimento progressista de libertação do imperialismo entre as massas.

Mao e o PCCh, em particular, tentaram entregar todos os seus territórios ao KMT, aceitando Chiang Kai-shek como seu comandante. / Imagem: domínio públicoA única via possível consistia em os trotskystas atuarem no interior de uma frente militar única, fundada em bases de princípios, com o KMT e o PCCh, mantendo, contudo, a independência política e de classe.
Foi precisamente isso o que Trotsky defendeu como política para a China em 1937. Ele chegou a convocar os revolucionários a se juntarem à luta militar contra o Japão, mesmo que isso significasse se juntar aos exércitos do KMT. Foi assim que Trotsky analisou a situação em uma carta a Diego Rivera naquele ano:
“Chiang Kai-shek é o carrasco dos trabalhadores e camponeses chineses. Mas hoje ele é forçado, apesar de si mesmo, a lutar contra o Japão pela sobrevivência da independência da China. Amanhã ele pode trair novamente. É possível. É provável. É até inevitável. Mas hoje ele está lutando. Somente covardes, canalhas ou completos imbecis podem se recusar a participar dessa luta.
[…]
Participar ativa e conscientemente na guerra não significa ‘servir a Chiang Kai-shek’, mas servir à independência de um país colonial, apesar de Chiang Kai-shek. E as palavras dirigidas contra o Kuomintang são o meio de educar as massas para a derrubada de Chiang Kai-shek. Participar da luta militar sob as ordens de Chiang Kai-shek, já que infelizmente é ele quem tem o comando na guerra pela independência – preparar politicamente a derrubada de Chiang Kai-shek… essa é a única política revolucionária.” (grifo de Trotsky)
Essa tática se distinguia fundamentalmente das “Frentes Populares” stalinistas (isto é, coalizões interclassistas), ou do que Mao chamou de “Segunda Frente Única” com o KMT. Mao e o PCCh, em particular, tentaram entregar todos os seus territórios ao KMT, aceitando Chiang Kai-shek como seu comandante, e dissolver sua independência de classe em um campo “nacional” geral, com o KMT burguês à frente.
Em contraste, uma tática genuína de frente única teria feito com que o partido revolucionário formasse um bloco na luta nacional, sem abrir mão de sua independência política e organizacional, e especialmente de suas demandas sociais. Em vez de alimentar ilusões na capacidade do KMT de “combater o imperialismo”, sua política deveria ter sido direcionada a expor a incapacidade do KMT para conduzir a guerra. Em todos os momentos, deveria ter se reservado a opção de derrubar os elementos burgueses que lideravam a luta de libertação nacional, mesmo antes da vitória da guerra.
Como Trotsky explicou:
“Devemos conquistar influência e prestígio na luta militar contra a invasão estrangeira e na luta política contra as debilidades, as deficiências e a traição interna. Em certo ponto, que não podemos fixar de antemão, essa oposição política pode e deve se transformar em conflito armado, visto que a guerra civil, como a guerra em geral, nada mais é do que a continuação da luta política. É necessário, no entanto, saber quando e como transformar a oposição política em insurreição armada.” (grifo de Trotsky.)
Trotsky previu que, com uma aplicação correta da tática da frente única às condições prevalecentes durante a guerra e, acima de tudo, ao estado de ânimo dos trabalhadores e da juventude, os trotskystas chineses poderiam romper seu isolamento, permitindo-lhes ampliar sua base de apoio e encontrar um caminho para a classe trabalhadora, que, nesse momento, carecia de uma direção revolucionária.
Divisões entre os trotskystas
Infelizmente, no início da guerra, os trotskystas chineses não tinham clareza sobre essa questão fundamental.
Na liderança da Liga Comunista, Zheng Chaolin recusou-se a apoiar essa guerra de resistência por considerar que isso equivaleria a uma “colaboração de classes” com o KMT. Em um artigo intitulado Sob a Bandeira do Derrotismo Revolucionário, Zheng argumentou que, na era imperialista do capitalismo, as lutas de libertação nacional não tinham mais conteúdo progressista. Portanto, ele argumentou que os marxistas deveriam apoiar a derrota de Chiang na guerra contra o Japão.

Uma maioria, com sede no centro do partido em Xangai, apoiou a resistência, mas também criticou a liderança do KMT de tal forma que a fez parecer passiva em relação ao esforço de guerra.
Como Chen Duxiu explicou a Trotsky em uma carta posterior:
“Aos olhos das massas, o que viam dos ‘trotskystas’ não era resistência anti-japonesa, mas página após página de cada edição de seu jornal oficial, repleta de artigos atacando e denunciando o Partido Comunista Chinês e o Kuomintang. Como resultado, a propaganda stalinista sobre ‘traidores trotskystas’ encontrou eco em todas as camadas da sociedade, de tal forma que mesmo aqueles que simpatizavam conosco não conseguiam entender claramente a quem os ‘trotskystas’ estavam se opondo principalmente no momento.”
Os trotskystas deveriam ter concentrado seus esforços em medidas audaciosas para mobilizar os trabalhadores numa resistência revolucionária ao Japão — por exemplo, organizando milícias operárias — enquanto criticavam o KMT de maneira a não parecer que se afastavam do combate contra a invasão. Deveriam também ter exigido que o KMT fornecesse armas e treinamento aos trabalhadores urbanos, como pré-requisito prático para conter o imperialismo japonês. Assim, as massas veriam os trotskystas como combatentes sinceros pela libertação, e essa autoridade poderia ser usada para impulsionar uma orientação mais independente de classe e realmente revolucionária em relação à guerra.
Certamente, houve camaradas que participaram individualmente da luta militar, seja juntando-se aos destacamentos guerrilheiros organizados pelo KMT ou pelo PCCh, ou criando seus próprios destacamentos guerrilheiros. Shandong foi um dos focos da guerra de guerrilha liderada pelos trotskystas contra o Japão, mas estes tendiam a estar muito separados do centro do partido e eram frequentemente exterminados pelo KMT ou pelo PCCh. Mais importante ainda, essas tentativas de guerrilha tendiam a estar separadas da classe trabalhadora nas cidades, o que também isolava os revolucionários.
Apenas um terço, uma pequena minoria, entre eles Chen Duxiu, considerava necessário apoiar ativamente a guerra de resistência, ou pelo menos tentou fazê-lo.
No entanto, embora Chen estivesse correto ao defender a necessidade de participar ativamente do esforço de guerra, ele próprio nunca havia dominado completamente o método do marxismo e, na época, estava passando por um processo de desmoralização. Enquanto estava na prisão, a notícia dos Julgamentos de Moscou o deixou confuso sobre a natureza da União Soviética. Assim, ele renovou seu foco na questão da “democracia” em abstrato, semelhante à posição que mantinha antes de sua conversão ao marxismo. Isso afetou o conteúdo político da proposta de Chen, que consistia em restringir o programa dos trotskystas às lutas democráticas e nacionais.
A desmoralização de Chen se intensificou ainda mais quando ele anunciou publicamente, em 1937, que “não pertencia mais a nenhum partido ou organização”, em um esforço para forjar algum tipo de frente única entre os trotskystas e os partidos liberais-democráticos menores. Ele rompeu completamente com os trotskystas chineses no final da década de 1930. Ele então viveu na pobreza e abandonou a política, até sua morte, vítima de pressão alta e doença cardíaca, em 1942.
Derrotismo revolucionário?
Essa falta de consenso sobre a questão de como se orientar em relação à guerra com o Japão se agravaria. Juntamente com a ausência de um trabalho organizacional unificado, causou uma enorme cisão dentro da Liga Comunista. De fato, alguns dos principais trotskystas chineses começaram a reforçar suas posições sectárias sobre a guerra, particularmente depois que os EUA declararam guerra ao Japão em dezembro de 1941.
Uma minoria significativa, liderada por Zheng Chaolin e Wang Fanxi, acreditava que, como o imperialismo americano agora apoiava a China contra o Japão, toda a natureza da guerra havia mudado. Ainda no já citado artigo Sob a Bandeira do Derrotismo Revolucionário, Wang argumentou que a China não era mais uma nação oprimida lutando por sua libertação, mas sim uma representante dos EUA em seu conflito inter-imperialista com o Japão. Wang Fanxi, portanto, argumentou que a posição de Chiang Kai-shek era mais parecida com a do czar russo na Primeira Guerra Mundial, o que significava que os revolucionários não podiam mais apoiar nenhum lado da guerra. Zheng Chaolin considerou que esta era fundamentalmente a mesma posição que ele havia sustentado desde a invasão em larga escala da China pelo Japão em 1937 e, portanto, juntou-se à facção de Wang.
Mas, na Guerra Sino-Japonesa, mesmo quando os EUA apoiaram a China, as massas chinesas compreenderam claramente que estavam travando uma luta existencial como nação oprimida para evitar se tornar uma colônia japonesa. O fato de os EUA terem seu próprio conflito imperialista com o Japão não alterou a natureza da luta anticolonial pela independência dos chineses. Mesmo entre as camadas avançadas da classe trabalhadora, que já tinham receios em relação a Chiang Kai-shek, derrotar o imperialismo japonês continuou sendo sua principal prioridade.
Wang Fanxi tentou uma posição um pouco menos grosseira, mas igualmente abstrata, como Zheng Chaolin, que ele chamou de “triunfalismo revolucionário”. Ele explicou sua ideia da seguinte forma, com base em sua interpretação do artigo de Trotsky em 1937:
“A política vitoriosa revolucionária de Trotsky e dos trotskystas chineses derivou do fato de que a Guerra Sino-Japonesa foi parte das consequências da derrota da Revolução Chinesa de 1925-1927. Baseava-se na premissa de que o regime corrupto, degenerado e em constante recuo do Kuomintang não poderia derrotar verdadeiramente os agressores japoneses, e que a maneira mais segura de derrotar os invasores japoneses era organizar os trabalhadores e camponeses sob sua própria bandeira política.”
Wang afirmava que os trotskystas deveriam dizer às massas chinesas que o KMT era corrupto e servil demais para derrotar os japoneses. Para alcançar a vitória, os trabalhadores e camponeses deveriam primeiro se organizar e derrubar o KMT.
Em resumo, tudo isso parecia verdade. De fato, se os trotskystas já tivessem conquistado a vanguarda da classe trabalhadora, teria sido a posição correta a ser tomada. O problema era que, embora o objetivo geral dessa política estivesse correto, ainda não havia alternativa viável à “Frente Única” KMT-PCCh como força dirigente da resistência, por mais inepto e odiado que fosse o KMT.
Como uma força de apenas algumas centenas em um país com centenas de milhões de habitantes, os trotskystas chineses estavam longe de ser uma liderança alternativa confiável aos olhos das massas. Dizer às massas que o pré-requisito para derrotar os japoneses era derrubar o KMT, enquanto não havia alternativa de massa que pudesse substituir a aliança KMT-PCCh, só poderia ser percebido pelas massas como uma defesa da suspensão do esforço de guerra até que um partido revolucionário de massas viável surgisse – como se os japoneses esperassem gentilmente por essa eventualidade. O Japão precisava ser combatido imediatamente.
Embora aqueles que defendiam essas posições fossem minoria dentro das próprias forças trotskystas, eles eram muito influentes e publicavam artigos nesse sentido em alguns dos periódicos teóricos oficiais dos trotskystas chineses. Até hoje, esses artigos são usados pelo PCCh como prova de que os trotskystas foram traidores.
Forças dispersas
Embora a maioria em torno de Peng Shuzhi não concordasse com essas posições, eles próprios se dispersaram pelo país. Portanto, tiveram que agir em grande parte por conta própria, com forças ainda menores.
Em Xangai, sede do centro nacional, ondas de prisões e um êxodo de trabalhadores que fugiam da cidade em meio à invasão japonesa tornaram as seções locais inativas. Em Hong Kong, os trotskystas se infiltraram nas fábricas e, gradualmente, recrutaram alguns trabalhadores individualmente. No entanto, quando os japoneses ocuparam Hong Kong, o grupo ainda era pequeno, e todos foram obrigados a fugir para outras regiões.
Zhongshan e Wenzhou foram outros dois locais de trabalho bem-sucedidos. Em ambos os casos, o sucesso veio do foco na juventude. Em Zhongshan, os trotskystas criaram um grupo de frente juvenil chamado “Corpo de Serviço da Juventude em Tempo de Guerra”, que organizava estudantes para viajarem a aldeias para promover o esforço de guerra, e fundava grupos de leitura que incluíam literatura trotskysta. Em Wenzhou, partindo de um pequeno núcleo de professores simpatizantes, recrutaram entre seus alunos por meio de círculos de estudo e estenderam gradualmente sua influência a várias escolas primárias.
Mesmo assim, onde obtinham avanços, os trotskystas chineses permaneciam forças diminutas e isoladas, frequentemente submetidas a severa repressão tanto do KMT quanto das autoridades japonesas — o que, repetidas vezes, destruiu o trabalho paciente que vinham construindo. Os stalinistas colaboraram ativamente nessa repressão, entregando informações sobre os trotskystas e suas atividades às autoridades.
“O erro decisivo das duas frações trotskystas foi aplicar essa análise de forma unilateral, sem levar em conta as mudanças concretas na China e no mundo após a Segunda Guerra Mundial
Nessas circunstâncias, a maioria dirigida por Peng Shuzhi e a minoria liderada por Wang Fanxi envolveram-se, em 1942, numa acirrada luta de frações. O conflito culminou numa cisão: a maioria declarou que a minoria havia “abandonado a organização” ao publicar seus próprios jornais. Assim, as forças do trotskysmo chinês dividiram-se mais uma vez — e jamais se reunificaram.
A vitória de Mao
Novas oportunidades e desafios se abririam após a derrota do Japão, em 1945. Contudo, os trotskystas chineses cometeram então uma série de graves errosde perspectiva. O principal deles foi a incapacidade de avaliar concretamente o equilíbrio de forças existente no pós-guerra.
Quando os combates recomeçaram entre os exércitos do KMT e do Partido Comunista Chinês (PCCh), no verão de 1946, o movimento trotskysta chinês já se encontrava dividido em duas organizações independentes, cada uma com suas próprias publicações, embora ambas reivindicassem lealdade à Quarta Internacional fundada por Trotsky.

As duas frações travaram intensas polêmicas sobre uma série de questões políticas e táticas, cada uma acusando a outra de “oportunismo” ou de “sectarismo”. Em um ponto essencial, porém, compartilhavam a mesma perspectiva: ambas previam a derrota inevitável do PCCh frente ao KMT.
Em 1947, Peng Shuzhi, líder da fração majoritária, escreveu:
“Mostramos a mais profunda simpatia pela guerra conduzida pelos exércitos camponeses stalinistas, embora nunca tenhamos deixado de salientar que sua derrota foi, é e será causada pelas políticas traiçoeiras do partido e do Kremlin.”
Em uma resposta, publicada em 1948, Wang Fanxi, da minoria, escreveu:
“Como guerra camponesa, a guerra civil tem um caráter progressista do lado dos camponeses; mas, como guerra camponesa apenas, a guerra civil é desprovida de qualquer perspectiva e está até mesmo fadada ao fracasso devido ao domínio stalinista.”
A perspectiva deles baseava-se puramente em uma interpretação mecânica da análise de Trotsky sobre a China nas décadas de 1920 e 1930 e de sua teoria da revolução permanente.
Em numerosas ocasiões, Trotsky explicou que as tarefas democráticas da revolução chinesa não poderiam ser realizadas pela burguesia chinesa e, portanto, só poderiam ser resolvidas pela ditadura do proletariado em aliança com o campesinato, como na Rússia. A revolução democrático-burguesa na China, portanto, se transformaria em uma revolução socialista.
Além disso, tomando como base a derrota catastrófica da revolução de 1925-27 e o papel da Internacional Comunista, Trotsky havia enfatizado que o oportunismo orgânico e a colaboração de classes do stalinismo eram uma receita segura para a derrota — o que levaria o PCCh a capitular diante de Chiang Kai-shek ou, em última instância, da burguesia em geral.
Em 1932, ele escreveu:
“Nas condições atuais, a guerra camponesa por si só, sem a liderança direta da vanguarda proletária, só pode transferir o poder para uma nova camarilha burguesa, algum Kuomintang de ‘esquerda’ ou outro, um ‘terceiro partido’, etc., etc., que na prática diferirá muito pouco do Kuomintang de Chiang Kai-shek.”
O erro decisivo das duas frações trotskystas foi aplicar essa análise de forma unilateral, sem levar em conta as mudanças concretas na China e no mundo após a Segunda Guerra Mundial.
Consequentemente, insistiram obstinadamente que Mao não poderia derrotar o KMT, mesmo quando o exército camponês do PCCh atravessou o Rio Amarelo em junho de 1947, lançou uma ofensiva massiva contra as tropas em decomposição do KMT no final de 1948 e cruzou o Rio Yangtzé em abril de 1949.
A partir do Yangtzé, o exército de Mao (agora chamado Exército de Libertação Popular – ELP) varreu o restante da China, enquanto as forças do KMT abandonavam freneticamente uma cidade após a outra e recuavam para Taiwan. Mao proclamou a fundação da República Popular da China na Praça da Paz Celestial em 1º de outubro de 1949.
Ted Grant
Essa rápida sucessão de eventos chocou o mundo. Como Wang Fanxi explicou mais tarde: “A velocidade com que o regime (do KMT) ruiu não só chocou o regime de Chiang Kai-shek e seus mestres em Washington, como também surpreendeu Stalin. Até certo ponto, foi até mesmo inesperada por Mao Zedong. Desnecessário dizer que nós, trotskystas chineses, também não esperávamos por isso.”
Mais tarde, em 1951, numa tentativa tardia de compreender o que havia acontecido, Peng Shuzhi revelou a perspectiva mecânica comum a todos os trotskystas chineses antes da revolução:
“Os trotskystas sustentavam que a derrubada do regime burguês do KMT só seria possível se a classe trabalhadora urbana se levantasse e liderasse todos os oprimidos e explorados do país, especialmente as massas camponesas, levasse adiante uma luta persistente e, por fim, desencadeasse uma insurreição armada. Não era possível derrubar o regime burguês confiando exclusivamente nas forças armadas camponesas porque, nas atuais condições da sociedade, o campo está subordinado às cidades e os camponeses só podem desempenhar um papel decisivo sob a liderança da classe trabalhadora. Mas o fato que agora nos confronta é exatamente o contrário: foi um partido stalinista, confiando exclusivamente nas forças armadas camponesas, que destruiu o antigo regime e tomou o poder.
Essa extrema contradição entre os ‘fatos’ e a ‘concepção tradicional’ levou, antes de tudo, à confusão e às disputas entre os camaradas chineses.”
A única figura na Quarta Internacional que analisou corretamente esse processo foi Ted Grant. Em artigo publicado em janeiro de 1949 — nove meses antes da vitória de Mao —, Grant previu que o PCCh não apenas tomaria o poder, mas também aboliria o capitalismo, estabelecendo um regime moldado à semelhança da burocracia stalinista soviética.
Isso não refutou a teoria da revolução permanente, mas constituiu a concretização da revolução permanente de forma distorcida, decorrente do conjunto peculiar de circunstâncias que emergiram após o fim da Segunda Guerra Mundial, que não estavam presentes na década de 1930.
A União Soviética emergira da guerra com enorme prestígio e poder, o que fortaleceu materialmente e moralmente o PCCh, ampliando seu exército e sua autoridade entre as massas chinesas. Ao mesmo tempo, o partido controlava vastos territórios conquistados na luta contra o KMT e os japoneses.
Outra característica importante da situação internacional na época era que a maioria das antigas potências imperialistas havia se desintegrado. Enquanto isso, o imperialismo norte-americano, que havia emergido como a potência imperialista dominante, não foi capaz de intervir decisivamente naquele momento.
Por fim, havia o extremo estado de decadência da burguesia chinesa e de seu regime. O KMT estava podre, esgotado e amplamente desmoralizado. Embora Mao tenha tentado, por um curto período, conciliar com Chiang Kai-shek, o exército do KMT se desintegrou em grande parte diante do ELP de Mao, que prometia terras aos soldados camponeses que se juntassem a ele. A burguesia fugiu em massa e o PCCh avançou facilmente para tomar o poder por conta própria.
Ted Grant escreveu na primavera de 1949:
“O movimento camponês, ensina o marxismo, deve encontrar uma liderança nas cidades, seja na burguesia ou no proletariado. Onde a burguesia está presente, então, é claro, temos um desenvolvimento capitalista. Onde o proletariado assume a liderança, então temos a revolução socialista. Aqui temos uma variante peculiar desta última, na qual o movimento camponês tem uma liderança centralizada na forma do partido stalinista, que tinha suas raízes em Moscou. Baseando-se no campesinato, ele entra nas cidades não com o objetivo e a perspectiva de um verdadeiro partido comunista, mas com o objetivo de estabelecer seu poder por meio de manobras entre as classes. Ele o faz transferindo sua base social para o proletariado – não como representante direto do proletariado, como faria um partido bolchevique – mas de maneira bonapartista.”
Ele continuou:
“O stalinismo forma uma coalizão em condições em que a burguesia está subjugada, com a finalidade de utilizá-la como contrapeso ante o risco de uma insurgência proletária. Portanto, a coalizão que os stalinistas propõem na China não significará a vitória ou mesmo a sobrevivência da burguesia. Ela será usada para dar tempo à organização de uma máquina estatal stalinista e bonapartista nos moldes de Moscou.”
Foi exatamente o que ocorreu. Graças ao domínio do método dialético do marxismo, Ted Grant foi capaz de compreender a realidade em seu desenvolvimento concreto, aplicando a teoria de forma criadora e não dogmática.
Com base nesse método, ele previu que, à medida que o PCCh se consolidasse no poder com base em sua própria autoridade entre as massas, surgiriam conflitos inevitáveis com Moscou devido aos interesses nacionais opostos das burocracias. Essa previsão se confirmou plenamente com a cisão sino-soviética no final dos anos 1950 e início dos anos 1960.
Desorientação
Se os trotskystas chineses tivessem compartilhado a perspectiva de Ted Grant, poderiam ter sido realizados preparativos antes da vitória do PCCh para reagrupar as forças do marxismo genuíno. Infelizmente, não o fizeram e, por isso, quando Mao assumiu o poder, tiveram que recuar às pressas.
Apenas uma minoria deles conseguiu fugir para Hong Kong e Macau. Um grande número deles foi deixado para trás, quando foram presos enquanto o ELP avançava pela China. Muitos outros foram capturados em 1952, quando Mao lançou o “Grande Expurgo Anti-trotskysta” em toda a China, na tentativa de consolidar a posição da burocracia do PCCh, bem como de agradar a Stalin.

A tomada do poder por Mao só aumentou a confusão e a desorientação entre os trotskystas chineses. Por um período após 1949, o Partido Comunista Revolucionário da China de Peng sustentou que o governo de Mao era apenas um novo regime bonapartista burguês, repleto de contradições, e que estava levando a China a se envolver em uma Terceira Guerra Mundial.
Wang Fanxi, por outro lado, adotou a teoria do “coletivismo burocrático” de Max Shachtman, que via os regimes stalinistas como uma nova forma de sociedade de classes, concluindo que os revolucionários não deveriam defender esses regimes contra a agressão imperialista . Somente anos depois, Wang abandonou essa ideia confusa.
Tampouco se podia esperar clareza teórica da direção da Quarta Internacional, que mantinha uma abordagem igualmente mecanicista. James P. Cannon, dirigente do Partido Socialista dos Trabalhadores (SWP) dos Estados Unidos, só reconheceu que o capitalismo fora efetivamente abolido na China em 1955.
Em contraste, Ted Grant imediatamente celebrou a Revolução Chinesa como o segundo maior evento da história, depois da Revolução Russa. Embora saudasse a revolução, Grant alertou que a natureza stalinista do regime do PCCh – sua completa ausência de democracia operária, a existência de uma burocracia privilegiada e sua perspectiva de “socialismo em um só país” – acabaria por ameaçar as conquistas da revolução. Em vez de socialismo genuíno, Grant alertou que:
“… apenas uma caricatura horrível da concepção marxista da revolução resultará da liderança dos stalinistas. […] Sem dúvida, um tremendo progresso econômico será alcançado. Mas as massas, tanto operárias quanto camponesas, se verão escravizadas pela burocracia.”
A menos que os trabalhadores chineses tomassem o poder por meio de uma segunda revolução – política –, em determinado momento, uma camada da burocracia seria incentivada a restaurar o capitalismo. Consequentemente, as ideias de Trotsky sobre a China, ideias genuinamente marxistas, mantiveram toda a sua relevância como o único meio de salvaguardar as conquistas da revolução, preparando as forças para liderar tal revolução política.
Com essas ideias, os melhores elementos do trotskysmo chinês poderiam ter iniciado o árduo trabalho de reconstrução de suas fileiras e de apresentação das autênticas ideias marxistas ao proletariado chinês.
Contudo, diante da incapacidade de compreender as transformações em curso e da ausência de uma perspectiva unificada, os trotskystas chineses, dispersos e brutalmente reprimidos, foram aniquilados na China continental durante a década de 1950.
Legado
Embora este artigo tenha se concentrado nos principais erros teóricos cometidos pelos trotskystas chineses em suas três décadas de atividade, reconhecemos que esses camaradas estavam construindo em condições incrivelmente complexas e difíceis. A maioria deles foi lançada nessa situação com muito pouco tempo ou material para se educar nas ideias marxistas genuínas. Tudo o que tinham era um desejo ardente de libertar a humanidade e a disposição de superar todos os obstáculos.
Entre os melhores deles, não havia o menor desprezo pela teoria. Como dito, eles traduziram e produziram arduamente para o chinês os materiais teóricos que puderam encontrar e os estudaram cuidadosamente. Infelizmente, porém, nenhum deles foi capaz de enfrentar os imensos desafios políticos que os confrontaram no período que se seguiu à Segunda Guerra Mundial.
Hoje, as ideias de Trotsky não perderam um pingo de sua relevância para a China. Como Ted Grant previu, grande parte das conquistas da Revolução Chinesa foram destruídas por iniciativa do PCCh. O capitalismo foi restaurado, sob a liderança do PCCh, enquanto centenas de milhões de proletários e camponeses chineses são oprimidos e explorados por sua burguesia nacional.
A importância da futura revolução chinesa para o mundo será ainda maior do que a anterior. A China é agora a segunda potência imperialista mais poderosa do mundo e abriga o maior proletariado do mundo.
Um mês antes de seu assassinato por um agente stalinista, Trotsky recebeu a notícia de que a tradução chinesa de sua História da Revolução Russa estava prestes a ser publicada. Trotsky descreveu o recebimento dessa notícia como “um feriado para mim” e começou a escrever um prefácio para esta edição. Tragicamente, o prefácio não pôde ser concluído antes da morte prematura de Trotsky, mas no rascunho preservado pela companheira de Trotsky, Natalia Sedova, encontramos a seguinte observação:
“Somente revolucionários, revolucionários temperados e enriquecidos pelas experiências do passado, serão capazes de se elevar ao nível dos grandes acontecimentos. O povo chinês está destinado a ocupar o primeiro lugar nos destinos futuros da humanidade.”
Os trotskystas chineses assumiram valentemente seu dever como revolucionários, mas, devido a circunstâncias trágicas, não conseguiram triunfar. Cabe aos sucessores de sua bravura revolucionária concluir a luta.


