Para os marxistas, a Revolução Chinesa foi o segundo maior acontecimento na história, superado apenas pela Revolução Bolchevique de 1917. Milhões de seres humanos, que até então eram animais de carga do imperialismo, jogaram fora o jugo humilhante do imperialismo e do capitalismo e entraram no palco da história mundial.
[Publicado originalmente em marxist.com, em 1º de outubro de 2009]
A primeira Revolução Chinesa de 1925-7 foi uma revolução proletária genuína. Mas foi abortada por causa das falsas políticas de Stalin e Bukharin, que subordinaram a classe trabalhadora chinesa à chamada burguesia democrática sob Chiang Kai-shek. O Partido Comunista Chinês (PCCh) foi dissolvido no Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang, KMT) burguês e Stalin chegou a convidar Chiang Kai-shek para ser membro do Comitê Executivo da Internacional Comunista.
Essa política desastrosa levou a uma derrota catastrófica em 1927 quando o “democrata-burguês” Chiang Kai-shek organizou o massacre dos comunistas em Xangai. A derrota da classe trabalhadora chinesa viria a definir o próprio caráter da Revolução Chinesa em 1949. O que restou do PCCh fugiu para o campo, onde começaram a organizar uma guerra de guerrilhas baseada no campesinato — algo que mudaria fundamentalmente o curso da revolução chinesa.
A falência da burguesia
A Revolução Chinesa de 1949 foi bem-sucedida devido ao completo beco sem saída do latifúndio e do capitalismo na China. O nacionalista burguês Chiang Kai-shek, que tomou o poder em 1927 sobre os corpos despedaçados dos trabalhadores de Xangai, teve duas décadas para mostrar do que era capaz. Mas, ao final, a China continuava tão dependente do imperialismo quanto antes, o problema agrário permanecia sem solução e o país continuava atrasado, semifeudal e semicolonial. A burguesia chinesa, juntamente com todas as outras classes proprietárias, estava intrinsecamente ligada ao imperialismo, formando um bloco reacionário contrário às mudanças necessárias para melhorar a vida dos trabalhadores e camponeses.
A falência da burguesia chinesa ficou exposta quando os imperialistas japoneses invadiram a Manchúria em 1931. Durante a luta para derrotar os invasores japoneses, os comunistas chineses propuseram uma frente única aos nacionalistas burgueses do Kuomintang liderados por Chiang Kai-shek. Entretanto, o nível de cooperação efetiva entre as forças de Mao Tsé-Tung e o Kuomintang durante a Segunda Guerra Mundial seria mínimo. A aliança entre o PCCh e o KMT era uma frente única apenas no nome.
A luta da China contra o Japão se fundiu à conflagração geral da Segunda Guerra Mundial. Os comunistas assumiram a maior parte dos combates contra os invasores japoneses, enquanto as forças do Kuomintang se ocupavam de lutar contra os comunistas. Em dezembro de 1940, Chiang Kai-shek exigiu que o Novo Quarto Exército do PCCh evacuasse as províncias de Anhui e Jiangsu. Isso levou a grandes confrontos entre o Exército de Libertação Popular (ELP) e as forças de Chiang Kai-shek, resultando em milhares de mortes, marcando o fim da chamada frente única.

A Segunda Guerra Mundial terminou com o enorme fortalecimento do imperialismo estadunidense e da Rússia stalinista, e o inevitável conflito entre ambos já era evidente antes do fim da guerra. Em 9 de agosto de 1945, as forças soviéticas lançaram a impressionante Operação Ofensiva Estratégica da Manchúria para atacar os japoneses que estavam na região e ao longo da fronteira sino-mongol. Em uma campanha relâmpago, o exército soviético esmagou o Exército de Kwantung do Japão e ocupou a Manchúria. 700.000 soldados japoneses estacionados na região se renderam, e o Exército Vermelho conquistou Manchukuo, Mengjiang (Mongólia Interior), o norte da Coreia, o sul de Sacalina e as Ilhas Curilas.
A rápida derrota do Exército de Kwantung do Japão pelo Exército Vermelho não é mencionada por ninguém hoje em dia, mas foi um fator significativo na rendição do Japão e no fim da Segunda Guerra Mundial. Também foi um elemento importante nos cálculos de Washington na Ásia. Os imperialistas estadunidenses temiam que o Exército Vermelho soviético marchasse diretamente pela China e entrasse no Japão, assim como havia avançado pela Europa Oriental. O Japão finalmente se rendeu aos EUA depois que a força aérea americana lançou bombas atômicas sobre Hiroshima (06 de agosto de 1945) e Nagasaki (09 de agosto de 1945). O principal objetivo de destruir essas cidades japonesas era mostrar a Stalin que os EUA agora possuíam uma nova e terrível arma em seu arsenal.
Nos termos da rendição incondicional japonesa, ditada pelos Estados Unidos, as tropas japonesas receberam ordens para se renderem às tropas de Chiang Kai-shek e não aos comunistas nas áreas ocupadas da China. A razão pela qual as forças japonesas na Manchúria se renderam à União Soviética (URSS) foi simplesmente porque o Kuomintang não tinha tropas lá. Chiang Kai-shek ordenou que as tropas japonesas permanecessem em seus postos para receber o Kuomintang e não entregassem suas armas aos comunistas.
Após a rendição japonesa, o presidente dos EUA, Harry Truman (presidente entre 1945-1953), foi muito claro sobre o que descreveu como “utilizar os japoneses para conter os comunistas”. Em suas memórias, ele escreveu: “Para nós, estava perfeitamente claro que, se disséssemos aos japoneses para deporem as armas imediatamente e marcharem para o litoral, todo o país seria tomado pelos comunistas. Portanto, tivemos que tomar a medida incomum de usar o inimigo como guarnição até que pudéssemos transportar tropas nacionais chinesas por via aérea para o sul da China e enviar fuzileiros navais para proteger os portos marítimos”.
Stalin e a Revolução Chinesa
Qual era a posição de Moscou em tudo isso? Inicialmente, o Exército Vermelho permitiu que o Exército de Libertação Popular fortalecesse suas posições na Manchúria. Mas, em novembro de 1945, eles mudam sua orientação. Chiang Kai-shek e os imperialistas estadunidenses estavam apavorados com a perspectiva de uma tomada comunista da Manchúria após a saída soviética. Então, Chiang Kai-shek fez um acordo com Moscou para adiar a retirada das tropas soviéticas até que ele tivesse deslocado um número suficiente de seus homens mais bem treinados e material moderno para a região. As tropas do Kuomintang foram então transportadas por via aérea para a região em aeronaves americanas e os russos permitiram que elas ocupassem cidades-chave no norte da China, enquanto o interior do país permanecia sob o controle do PCCh.
Na realidade, Stalin não confiava nos dirigentes do Partido Comunista Chinês e não acreditava que eles pudessem chegar ao poder. A burocracia de Moscou estava mais interessada em manter relações amistosas com o governo de Chiang Kai-shek do que em apoiar a Revolução Chinesa. Após a Revolução, Mao Tsé-Tung lamentou amargamente que o último embaixador estrangeiro a se despedir de Chiang Kai-shek tenha sido o embaixador soviético. Stalin insistiu para que Mao se juntasse a um governo de coalizão com o Kuomintang, uma ideia que Mao inicialmente aceitou:
Enquanto a guerra continuava, Mao Tsé-tung exigiu que os nacionalistas concordassem com o estabelecimento de um governo de coalizão para substituir o regime de partido único, e Stalin e Molotov defendiam que os dois lados chineses se unissem. Em 14 de agosto de 1945, a União Soviética foi além. Negociou com o governo de Chiang Kai-shek um Tratado Sino-Soviético de Amizade e Aliança. Posteriormente, Stalin aconselhou os comunistas chineses que sua insurreição ‘não tinha perspectiva’ e que deveriam se unir ao governo de Chiang e dissolver seu exército.
No mesmo dia em que os nacionalistas concluíram seu tratado com a União Soviética, Chiang Kai-shek — a pedido do General Hurley — convidou Mao Tsé-tung a visitar Chongqing para discussões conjuntas. (Edward E. Rice, Mao’s Way, p. 114, grifo meu, AW)
No fim, como era inevitável, as negociações fracassaram e a guerra civil recomeçou. A União Soviética forneceu ajuda bastante limitada ao Exército de Libertação Popular, enquanto os Estados Unidos auxiliaram os nacionalistas com centenas de milhões de dólares em suprimentos e equipamentos militares. O General Marshall admitiu não ter conhecimento de nenhuma evidência de que o ELP estivesse sendo abastecido pela União Soviética. Na verdade, o ELP capturou um grande número de armas abandonadas pelos japoneses, incluindo alguns tanques. Posteriormente, um grande número de soldados bem treinados do Kuomintang se renderam e se juntaram ao exército de Mao Tsé-Tung, levando consigo suas armas. Estas eram, em sua maioria, fabricadas nos EUA.

As forças soviéticas aproveitaram o tempo para desmantelar sistematicamente a base industrial da Manchúria (avaliada em até 2 bilhões de dólares), enviando fábricas inteiras para a URSS. O fato é que, como já vimos, Stalin estava cético quanto às perspectivas de êxito de Mao e tentava manter boas relações com Chiang Kai-shek, como aponta Schram: “O padrão continuou obscurecido tanto pela preocupação de Stalin com a segurança do Estado soviético quanto por sua falta de entusiasmo por um movimento revolucionário dinâmico que ele talvez não conseguisse controlar.” (Stuart Schram, Mao Tsé-Tung, p. 239.)
Assim, as sementes do conflito sino-soviético já estavam presentes desde o início: não um conflito ideológico, como muitas vezes se afirma, mas meramente um conflito de interesses entre duas burocracias rivais, cada uma defendendo zelosamente seus interesses nacionais restritos, território, recursos, poder e privilégios. Esse nacionalismo estreito contrastava completamente com o espírito corajoso do internacionalismo proletário de Lênin e Trotsky. Lênin afirmou em mais de uma ocasião que estaria preparado para sacrificar a Revolução Russa se isso fosse necessário para alcançar a vitória da revolução socialista na Alemanha.
Se Stalin e Mao tivessem se baseado no programa do leninismo, teriam proposto imediatamente a criação de uma Federação Socialista da União Soviética e da China, o que teria sido de imenso benefício para todos os povos. Em vez disso, suas relações foram baseadas em interesses nacionais restritos e cálculos cínicos. Isso acabou levando à situação monstruosa em que os “camaradas” russos e chineses conduziram um “debate” na linguagem de mísseis e projéteis de artilharia sobre uma fronteira arbitrária traçada no século XIX por um czar russo e o imperador da China.
Os EUA ajudam Chiang Kai-shek
Os americanos ambicionavam transformar a China em uma esfera de influência dos EUA (na prática, uma semicolônia) após a guerra. Mas, depois de todo o sofrimento da Segunda Guerra Mundial, o povo americano não estava disposto a apoiar uma nova guerra para subjugar a China. Mais importante ainda, os soldados americanos não estavam dispostos a lutar em tal guerra. A incapacidade do imperialismo estadunidense de intervir contra a Revolução Chinesa foi, portanto, um elemento importante nessa equação.
Nessas condições, os imperialistas estadunidenses foram compelidos a manobrar e a intrigar. Washington enviou o General George C. Marshall à China em 1946, supostamente para intermediar negociações entre o Exército de Libertação Popular de Mao Tsé-Tung e Chiang Kai-shek. Na prática, porém, o objetivo era fortalecer Chiang, injetando armas, dinheiro e equipamentos para fortalecer as forças nacionalistas em preparação para uma nova ofensiva. Essa manobra não enganou Mao nem por um instante. Ele concordou em participar das negociações, mas continuou a se preparar para a retomada das hostilidades.

Embora o imperialismo estadunidense tenha sido incapaz de intervir na guerra civil de 1946-49, Washington forneceu enormes quantias de dinheiro, armas e suprimentos aos nacionalistas. Os Estados Unidos auxiliaram o Kuomintang com centenas de milhões de dólares em novos suprimentos militares excedentes. Contudo, todas as armas enviadas por Washington foram posteriormente utilizadas pelos vietnamitas contra o exército americano, visto que quase todo esse equipamento militar foi capturado pelas forças de Mao.
Desde a Conferência de Moscou entre os Ministros das Relações Exteriores da União Soviética, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha, em dezembro de 1945, os Estados Unidos aderiram a uma “política de não interferência nos assuntos internos da China”. Isso era, obviamente, uma farsa, assim como a política anterior de “não intervenção” na Espanha durante a Guerra Civil, quando as “democracias” boicotaram a República Espanhola, enquanto Hitler e Mussolini enviavam armas e homens para apoiar Franco.
O imperialismo estadunidense forneceu ao Kuomintang bombardeiros, aviões de caça, armas, tanques, lançadores de foguetes, fuzis automáticos, bombas de napalm, projéteis de gás e outras armas para esse fim. Em troca, o Kuomintang cedeu ao imperialismo estadunidense os direitos soberanos da China sobre seu próprio território, águas e espaço aéreo, permitindo-lhe usurpar direitos de navegação interior e privilégios comerciais especiais, bem como privilégios especiais nos assuntos internos e externos da China. As forças estadunidenses foram culpadas de muitas atrocidades contra o povo chinês: assassinatos, espancamentos, atropelamentos e estupros de mulheres, tudo com total impunidade.
Revolução Agrária
Em julho de 1946, com o apoio ativo do imperialismo estadunidense, o Kuomintang mergulhou a China em uma enorme guerra civil de brutalidade sem precedentes. Chiang Kai-shek lançou uma ofensiva contrarrevolucionária contra o Exército de Libertação Popular. Ele havia feito preparativos meticulosos e, naquele momento, seu exército contava com aproximadamente três vezes e meia mais tropas que o Exército de Libertação Popular; além disso, seus recursos materiais eram muito superiores. Ele tinha acesso a indústrias modernas e meios de comunicação modernos, dos quais o Exército de Libertação Popular não dispunha. Em teoria, Chiang Kai-shek deveria ter obtido uma vitória fácil.
No primeiro ano da guerra (julho de 1946 a junho de 1947), o Kuomintang estava na ofensiva e o Exército de Libertação Popular foi forçado à defensiva. Inicialmente, as forças de Chiang Kai-shek avançaram rapidamente, ocupando muitas cidades e áreas controladas pelo ELP. As forças do Kuomintang alcançaram o que parecia ser uma vitória decisiva ao tomarem Yenan, a capital do ELP. Muitos observadores interpretaram isso como uma derrota decisiva para o Exército de Mao. Mas essa avaliação estava incorreta. Diante de probabilidades extremamente desfavoráveis, Mao Tsé-Tung decidiu realizar uma retirada estratégica, optando por não tentar defender as grandes cidades com forças inferiores, mas sim concentrar-se nas áreas rurais, onde tinha uma base sólida entre os camponeses e de onde poderia reagrupar e concentrar suas forças para um contra-ataque.
O que os imperialistas estadunidenses e Chiang Kai-shek não perceberam foi que a arma mais eficaz nas mãos do Exército de Libertação Popular não eram armas e tanques, mas sim a propaganda. Prometeram aos camponeses sem-terra e famintos que, lutando pelo ELP, poderiam tomar as terras agrícolas de seus latifundiários. Na maioria dos casos, o campo e as pequenas cidades vizinhas já estavam sob o controle do ELP muito antes das cidades. Essa foi a origem da teoria de Mao Tsé-Tung sobre o campo “circundando as cidades”.
Quando Stalin mudou a linha da Internacional Comunista, das políticas ultraesquerdistas do “Terceiro Período” (1928-34) para as políticas oportunistas da Frente Popular, Mao revisou seu programa agrário, abandonando a política radical anterior de “terra para quem a trabalha” em favor de uma política mais moderada de redução dos arrendamentos. Ele teve a ideia de conquistar o apoio de “latifundiários progressistas” (!). Mas, depois de 1946, ele mudou a política novamente:
A política agrária que se seguiu foi mais radical do que a do período de 1937-45, que envolvia a redução de juros e arrendamentos em vez de uma reforma agrária imediata, mas as táticas seriam graduais e adaptadas às condições locais. Mao ainda pretendia incluir a “nobreza patriótica” na “ampla frente única” que estava determinado a manter. Somente após vários anos de controle comunista em uma determinada área é que todas as terras seriam redistribuídas; por ora, a reforma não deveria afetar mais de dez por cento da população. Mao também mandou reeditar as “três regras de disciplina” e os “oito pontos de atenção”; estes, de uma forma ou de outra, expressaram por quase vinte anos um respeito pela população civil e a abstinência da pilhagem que distinguiam o Exército Vermelho de todos os exércitos que o campesinato chinês havia visto no passado, e contribuíram muito para conquistar o apoio da população. (Stuart Schram, Mao Tsé-Tung, p. 242.)
Em todas as aldeias, o Exército de Libertação Popular distribuía terras aos camponeses, mas sempre deixava alguns lotes desocupados – para os soldados do exército de Chiang Kai-shek. Os soldados do Kuomintang capturados não eram mortos nem maltratados, mas sim alimentados, recebiam cuidados médicos e ouviam discursos políticos que denunciavam o regime corrupto e reacionário de Chiang Kai-shek. Em seguida, os prisioneiros eram enviados para casa para disseminar a mensagem entre os camponeses e outros soldados de que o ELP era a favor da distribuição das terras dos latifundiários aos camponeses.
Ao prometer terras aos camponeses, o ELP conseguiu mobilizar um grande número de soldados para utilizá-los em combate, além de fornecer apoio logístico. Isso se mostrou altamente eficaz. O exército de Chiang provavelmente teve a maior taxa de deserção de qualquer exército da história. Isso significava que, apesar de sofrer pesadas baixas, o Exército de Libertação Popular conseguia continuar lutando com um fluxo constante de novos recrutas. Somente durante a Campanha de Huaihai, eles conseguiram mobilizar 5.430.000 camponeses para lutar contra as forças do KMT. Stuart Schram destaca o aumento drástico no tamanho do ELP:
Durante 1945, as forças militares sob o comando do Oitavo Exército de Rota e do Novo Quarto Exército expandiram-se de um total de cerca de meio milhão para cerca de um milhão de homens. As forças do Kuomintang eram aproximadamente quatro vezes maiores. Em meados de 1947, após um ano de guerra civil em larga escala, a proporção havia mudado de um para quatro para um para dois. (Stuart Schram, Mao Tsé-Tung, p. 242.)
A ofensiva final
Clausewitz fez a célebre observação de que a guerra é a continuação da política por outros meios. A política desempenha um papel muito importante em todas as guerras, mas isso é particularmente verdadeiro em uma guerra civil. Embora os EUA (como sempre) mantivesse a ficção de que esta era uma guerra entre “comunismo e democracia”, na verdade, seu fantoche chinês, Chiang Kai-shek, era um ditador brutal. Provavelmente sob pressão de Washington, Chiang fingiu introduzir uma série de “reformas democráticas” para silenciar seus críticos, tanto internos quanto externos.
Ele anunciou uma nova constituição e uma Assembleia Nacional, da qual os comunistas, é claro, seriam excluídos. Essas “reformas” foram imediatamente denunciadas como uma fraude por Mao Tsé-Tung. A massa da população estava mais preocupada com a corrupção desenfreada no governo e o caos político e econômico, especialmente a hiperinflação massiva que levou ao colapso do padrão de vida. Houve protestos estudantis em massa em todo o país contra o imperialismo estadunidense.
Nas áreas controladas pelas forças nacionalistas, reinava um regime de terror branco [a violência organizada e os massacres em massa perpetrados pelas forças contrarrevolucionárias e pelas classes dominantes para esmagar movimentos revolucionários e restaurar a antiga ordem social — N.Ed.]. Chiang adotou a mesma tática usada anteriormente pelos invasores japoneses: queimar, saquear, estuprar e matar. Milhões de homens e mulheres, jovens e idosos, foram massacrados. Isso lhes rendeu o ódio da população e fortaleceu o apoio ao Exército de Libertação Popular.
Em teoria, os nacionalistas ainda tinham uma grande vantagem sobre o ELP. No papel, desfrutavam de uma clara superioridade tanto em número de homens quanto de armamento. Controlavam um território e uma população muito maiores do que seus adversários e contavam com considerável apoio internacional dos EUA e da Europa Ocidental. Mas isso era apenas em teoria. A realidade no terreno era bem diferente. As forças nacionalistas sofriam com a falta de moral e a corrupção desenfreada, o que reduzia drasticamente sua capacidade de combate, e seu apoio civil havia entrado em colapso.
As tropas nacionalistas desmoralizadas e indisciplinadas estavam se desintegrando diante do avanço irresistível do Exército de Libertação Popular. Elas se renderam ou fugiram, abandonando suas armas. A captura de um grande número de soldados do Kuomintang forneceu ao Exército de Libertação Popular os tanques, a artilharia pesada e outros recursos de armas combinadas necessários para conduzir operações ofensivas ao sul da Grande Muralha. O Exército foi capaz não apenas de capturar as cidades fortemente fortificadas do Kuomintang, mas também de cercar e destruir formações importantes de tropas de elite do Kuomintang, centenas de milhares de soldados por vez. Em abril de 1948, tomaram a cidade de Luoyang, isolando o exército do Kuomintang de Xi’an.
O Exército de Libertação Popular conseguiu passar à contraofensiva, forçando o Kuomintang a abandonar seu plano de uma ofensiva geral. Tendo capturado grandes quantidades de armas do inimigo, o ELP pôde aprimorar seu potencial militar, formando seus próprios corpos de artilharia e engenharia e dominando as táticas de ataque a pontos fortemente fortificados. Antes disso, não possuía nem aeronaves nem tanques, mas, uma vez formada a artilharia e um corpo de engenharia superiores aos do exército do Kuomintang, tornou-se capaz de conduzir não apenas guerra móvel, mas também guerra posicional. Segundo a própria avaliação de Mao:
[…] a cada mês [o ELP] destruía, em média, cerca de oito brigadas das tropas regulares do Kuomintang (o equivalente a oito divisões atuais). (Levar a Revolução até o Fim, 30 de dezembro de 1948, Mao, SW, volume IV, p. 299)
A transformação da situação militar foi realmente incrível. O Exército de Libertação Popular , que durante anos esteve em desvantagem numérica, entre julho e dezembro de 1948 finalmente conquistou a superioridade numérica sobre as forças do Kuomintang. Estes são os números divulgados por Mao na época:
No primeiro ano, 97 brigadas, incluindo 46 brigadas totalmente aniquiladas; no segundo ano, 94 brigadas, incluindo 50 brigadas totalmente aniquiladas; e no primeiro semestre do terceiro ano, segundo dados incompletos, 147 divisões, incluindo 111 divisões totalmente aniquiladas. Nestes seis meses, o número de divisões inimigas totalmente aniquiladas foi 15 a mais do que o total dos dois anos anteriores. A frente inimiga como um todo desmoronou completamente. As tropas inimigas no nordeste foram totalmente aniquiladas, as do norte da China em breve serão totalmente aniquiladas, e no leste da China e nas Planícies Centrais restam apenas algumas forças inimigas. A aniquilação das principais forças do Kuomintang ao norte do Rio Yangtzé facilita enormemente a futura travessia do Yangtzé pelo Exército de Libertação Popular e seu avanço para o sul para libertar toda a China. Simultaneamente à vitória na frente militar, o povo chinês obteve tremendas vitórias nas frentes política e econômica. Por esta razão, a opinião pública mundial, incluindo toda a imprensa imperialista, já não contesta a certeza da vitória nacional da Guerra de Libertação do Povo Chinês. (Levar a Revolução até o Fim, 30 de dezembro de 1948, Mao, SW, volume IV, p. 299)
Não há razão para duvidar da precisão dessa estimativa. Todos os historiadores burgueses concordam que, a essa altura, as forças de Chiang estavam recuando em desordem e que o Exército de Libertação Popular estava rapidamente ganhando força.
A queda de Beiping
No final de 1948, a maré havia virado. O Exército de Libertação Popular capturou as cidades de Shenyang e Changchun, no norte da China, e assumiu o controle do nordeste após uma dura campanha. Depois de um brutal cerco de seis meses a Changchun, que resultou em mais de 300.000 mortes de civis por inanição, o ELP forçou as tropas mais bem treinadas do Kuomintang a se renderem. Os planos de Chiang Kai-shek para uma contraofensiva estavam agora em ruínas. O ELP não apenas recuperou a maior parte dos territórios perdidos no nordeste da China, como também estendeu a frente de batalha para as áreas do Kuomintang ao norte dos rios Yangtzé e Weishui. Capturaram Shichiachuang, Yuncheng, Szepingkai, Luoyang, Yichuan, Paoki, Weihsien, Linfen e Kaifeng.
Em 1949, o Exército de Libertação Popular da China avançou para o sul do rio Yangtzé e o fim da guerra já estava à vista. Alguns dos chamados trotskistas persistiram em negar o óbvio. Nos Estados Unidos, Max Shachtman ridicularizou o argumento de James P. Cannon, que afirmava que Mao iria se render a Chiang Kai-shek. Ele disse: “Sim, Mao deseja se render a Chiang, mas ele tem um problema: não consegue alcançá-lo!”.
No final de 1948, a posição dos nacionalistas era desesperadora. Agora que Chiang estava encurralado, começou a buscar a paz. Apenas três anos antes, Chiang se vangloriava de que iria exterminar os comunistas. Suas tropas seguiam com entusiasmo sua política de “saquear, queimar e matar”. Agora que a derrota o encarava de frente, ele começou a entoar os louvores da paz. Uma transformação surpreendente!
Por trás da estratégia de “paz” de Chiang estava Washington, apoiado pelos imperialistas britânicos e franceses, que agora percebiam que a guerra estava perdida. Tendo falhado em esmagar o Exército de Libertação Popular pela força, eles esperavam salvar algo dos destroços por meio de intrigas políticas. Mas tais manobras não enganavam ninguém, e muito menos Mao Tsé-Tung.
Na maioria dos casos, o campo e as pequenas cidades vizinhas haviam caído sob a influência do Exército de Libertação Popular muito antes das cidades — parte da estratégia da guerra popular. Em janeiro de 1949, Beiping foi tomada pelo Exército de Libertação Popular sem luta, e seu nome foi mudado de volta para Pequim. Entre abril e novembro, outras grandes cidades também caíram com resistência mínima. Em 21 de abril, as forças de Mao cruzaram o rio Yangtzé e capturaram Nanjing, a capital do Kuomintang. Em pouco tempo, elas estavam expulsando os remanescentes desorganizados e desmoralizados das forças do KMT para o sul da China.

No fim, Chiang Kai-shek e aproximadamente dois milhões de nacionalistas chineses — predominantemente ex-burocratas do governo e empresários — retiraram-se da China continental para a ilha de Taiwan (então conhecida como Formosa). Chiang proclamou Taipei como a capital provisória da China. Antes de fugir, Chiang tomou a precaução de desviar cerca de US$ 300 milhões do tesouro nacional para enriquecer a si mesmo e aos seus aliados.
Tudo isso culminou em 1º de outubro de 1949, com Mao Tsé-Tung proclamando a República Popular da China. Uma nova página foi virada na história mundial.
O Exército Vermelho e os trabalhadores
Antes da guerra, Trotsky havia apontado que a questão decisiva era o que aconteceria quando o Exército Vermelho entrasse nas cidades. Um verdadeiro Estado operário se basearia na classe trabalhadora e em seus órgãos de poder: os sovietes. Incentivaria a auto-organização dos trabalhadores, com sindicatos reais, independentes do Estado.
No entanto, a Revolução de 1949 na China foi conduzida de cima para baixo, à maneira bonapartista. Em vez de se basearem na classe trabalhadora para derrubar o Estado burguês, formaram um governo de coalizão composto por várias facções do antigo governo do Kuomintang. Longe de incentivar o movimento independente das massas, qualquer manifestação de ação independente por parte dos trabalhadores foi reprimida.
Mao inicialmente começou com um programa que não ultrapassava os limites do capitalismo. Em certo momento, ele chegou a ter ilusões de um acordo com os americanos, como aponta Stuart Schramm:
Um editorial do jornal Liberation Daily de 4 de julho de 1944 teceu elogios à tradição democrática americana e comparou a luta dos Estados Unidos pela democracia e independência nacional no século XVIII com a luta da China no século XX:
“A América democrática já encontrou um aliado, e a causa de Sun Yat-sen um sucessor, no Partido Comunista Chinês e nas demais forças democráticas… O trabalho que nós, comunistas, estamos realizando hoje é o mesmo trabalho que foi realizado anteriormente na América por Washington, Jefferson e Lincoln; certamente obterá, e de fato já obteve, a simpatia da América democrática.” (Citado em Stuart Schram, Mao Tse-Tung, pp. 225-6.)
A linguagem é a da democracia burguesa e deriva da concepção de Mao sobre a Revolução Chinesa. Mao buscava o equilíbrio entre a burguesia e os operários e camponeses para consolidar o novo Estado e concentrar o poder em suas mãos. Nos estágios iniciais, ele fez de tudo para impedir que os operários tomassem o poder e esmagassem quaisquer elementos de um movimento operário independente que tivesse surgido. Assim como na Espanha em 1936, Mao não formou uma coalizão com a burguesia, mas com a sombra da burguesia. Mas enquanto na Espanha a sombra teve permissão para ganhar substância, na China ela foi sufocada. Quando o Exército Vermelho entrou nas cidades, conclamou os trabalhadores a não entrarem em greve nem a se manifestarem. Os oito pontos a seguir formaram a base de sua propaganda:
1) A vida e a propriedade das pessoas serão protegidas. Mantenham a ordem e não deem ouvidos a boatos. Saques e assassinatos são estritamente proibidos.
2) A propriedade comercial e industrial individual chinesa será protegida. Fábricas privadas, bancos, armazéns, etc., não serão afetados e poderão continuar operando.
3) O capital burocrático, incluindo fábricas, lojas, bancos, armazéns, ferrovias, correios, instalações telefônicas e telegráficas, usinas de energia, etc., será assumido pelo Exército de Libertação, embora as ações privadas sejam respeitadas. Aqueles que trabalham nessas organizações devem trabalhar pacificamente e aguardar a tomada de controle. Recompensas serão concedidas àqueles que protegerem a propriedade e os documentos; aqueles que entrarem em greve ou destruírem algo serão punidos. Aqueles que desejarem continuar servindo serão contratados.
4) Escolas, hospitais e instituições públicas serão protegidos. Alunos, professores e todos os trabalhadores devem proteger seus registros. Qualquer pessoa com capacidade para trabalhar será contratada.
5) Com exceção de alguns grandes criminosos de guerra e reacionários notórios, todos os funcionários do Kuomintang, policiais e trabalhadores do Pao-Chia [sistema medieval chinês de punição coletiva utilizado para controlar a sociedade — N.Ed.] nos governos provinciais, municipais e de Hsien serão perdoados, desde que não ofereçam resistência armada. Devem proteger seus registros. Qualquer pessoa com capacidade para trabalhar será empregada.
6) Assim que uma cidade for libertada, os soldados deslocados devem se apresentar imediatamente ao novo quartel-general da guarnição, à delegacia de polícia ou às autoridades do exército. Ninguém será interrogado caso entregue suas armas. Aqueles que se esconderem serão punidos.
7) A vida e a propriedade de todos os estrangeiros serão protegidas. Eles devem obedecer às leis do Exército de Libertação e do Governo Democrático. Nenhuma espionagem ou ação ilegal será permitida. Nenhum criminoso de guerra deve ser acobertado. Eles serão submetidos a julgamento militar ou civil por violações.
8) A população em geral deve proteger toda a propriedade pública e manter a ordem. (A. Doak Barnett, China on the Eve of Communist takeover, pp. 327-8.)
Imitando o modelo da Rússia stalinista, os stalinistas chineses transformaram os sindicatos em “uma escola de produção que incentiva as características produtivas e positivas do proletariado”. Aboliram o direito à greve e instituíram a arbitragem obrigatória. Todas as greves ou outras ações destinadas a defender os interesses dos trabalhadores foram condenadas como “aventureirismo esquerdista”.

Inicialmente, as empresas privadas dos capitalistas não foram afetadas. Apenas as antigas propriedades do “capital burocrático” foram nacionalizadas. Mas, nessas empresas, o poder foi atribuído a um comitê de controle, com o gerente da fábrica atuando como presidente, e composto por representantes dos antigos proprietários, representantes do pessoal de supervisão e representantes dos trabalhadores. Os trabalhadores tinham apenas direito consultivo, cabendo ao diretor a palavra final em todas as decisões.
Inicialmente, Mao Tsé-Tung tinha a perspectiva de cinquenta ou cem anos de capitalismo. Ele insistia que iria expropriar apenas o “capital burocrático”. Mas, uma vez no poder, ele logo percebeu que a burguesia chinesa, decadente e corrupta, era incapaz de desempenhar qualquer papel progressista. Assim, apoiando-se na classe trabalhadora, ele procedeu à nacionalização dos bancos e de toda a indústria de grande escala, bem como à expropriação dos latifundiários e capitalistas. Isso não foi tão difícil. Como disse Trotsky, para matar um tigre é preciso uma espingarda, mas para matar uma pulga, basta uma unha.
A sombra da burguesia
A ideia original de Mao era formar um governo de coalizão com representantes dos trabalhadores, camponeses, intelectuais, da burguesia nacional e até mesmo de latifundiários progressistas. No entanto, havia um pequeno problema. A burguesia havia fugido para Formosa (Taiwan) com Chiang Kai-shek. Formalmente, tratava-se de um governo de frente popular. Mas havia uma diferença fundamental entre esse governo e a frente popular na Espanha em 1936.
A única força armada na China era o Exército de Libertação Popular, o exército camponês controlado pelos stalinistas chineses. Lênin explicou que o Estado, em última análise, é um corpo armado de homens. Em 1949, o Partido Comunista Chinês alegava ter 4,5 milhões de membros, dos quais 90% eram camponeses. Mao era o presidente do Partido e detinha, de fato, as rédeas do poder, embora o governo fosse formalmente chefiado por seu braço direito, Zhou Enlai. O exército, a polícia e a polícia secreta estavam todos em suas mãos. Isso é apenas outra maneira de dizer: eles detinham o poder estatal. Essa era a sua verdadeira base de poder, e esse era o elemento decisivo na equação.
Em teoria, o governo da República Popular era uma coalizão de diferentes partidos. Mas, com exceção do PCCh, os demais eram seitas insignificantes, algumas das quais mal existiam, exceto no papel. Em 1º de maio, o Partido Comunista Chinês lançou um amplo apelo por uma frente única contra os nacionalistas:
Povo trabalhador de todo o país, unam-se; aliem-se à intelectualidade, à burguesia liberal, a todos os partidos e grupos democráticos, às figuras de destaque da sociedade e a outros elementos patrióticos; consolidem e expandam a frente única contra as forças imperialistas, feudais e capitalistas burocráticas; lutem juntos para destruir os reacionários do Kuomintang e construir uma nova China. Todos os partidos e grupos democráticos, organizações populares e figuras de destaque da sociedade, convoquem rapidamente uma Conferência Consultiva Política, discutam e realizem a convocação de uma Assembleia Representativa Popular para estabelecer um Governo de Coalizão Democrática!
Qual foi a resposta? Um pequeno grupo de refugiados políticos chineses em exílio voluntário na ilha de Hong Kong aceitou a oferta. Seu telegrama para Mao Tsé-Tung, datado de 5 de maio, proclamava pomposamente: “Expressamos aqui nossa resposta e apoio ao seu apelo, e esperamos que, com sua concretização, possamos alcançar nosso renascimento nacional”.
O telegrama foi assinado por líderes do Comitê Revolucionário do Kuomintang (KMTRC), da Liga Democrática, do Partido Democrático dos Camponeses e Trabalhadores (PWDP), da Sociedade de Salvação Nacional (NSS), da Sociedade de Promoção Democrática da China (CDPS), da Associação de Camaradas San Min Chu I, da Sociedade de Promoção Democrática do Kuomintang (KMTDPS) e da Chih Kung Tang.
Doak Barnett comenta: “Muitos desses indivíduos já foram membros respeitáveis do Kuomintang, e muitos ocuparam altos cargos dentro do partido, mas todos agora são dissidentes por razões pessoais ou ideológicas.” (A. Doak Barnett, China on the Eve of Communist takeover, pp. 85-86.)
Assim, o poderoso Partido Comunista Chinês formou uma aliança, não com a burguesia chinesa, mas apenas com a sua sombra. Esses “partidos” eram meros grupos dissidentes em Hong Kong. Os nomes de seus líderes foram alçados da obscuridade à proeminência com a permissão benevolente dos stalinistas. Essa manobra levou a especulações febris. Chegou-se a espalhar o boato de que os principais líderes do KMTRC, Li Chi-shen e Feng Yü-hsiang (antes de sua morte), se tornariam os chefes político e militar, respectivamente, com os líderes comunistas Mao Tsé-Tung e Chu Teh nos segundos cargos!
Tais rumores fantasiosos, naturalmente, não tinham fundamento. Mao havia conquistado o poder, para citar sua famosa frase, “pela ponta do fuzil”. Ele não estava disposto a entregar o poder real à burguesia chinesa – e muito menos a homens que não representavam ninguém além de si mesmos.
Neste momento, representantes desses grupos de Hong Kong, reunidos com os comunistas em Harbin, estão ajudando a planejar a Conferência Consultiva Política (CCP) patrocinada pelos comunistas, agendada para o início do próximo ano – “provavelmente em Pequim, se a situação militar permitir”, disse-me recentemente Li Chi-shen – para preparar uma “Assembleia Representativa Popular para estabelecer um Governo de Coalizão Democrática”. Os mais proeminentes desses representantes são o General Ts’ai T’ing-k’ai (do KMTRC), Shen Chün-ju e Chang Po-chün (líderes, respectivamente, do NSS e do PWDP, mas ambos representando a Liga Democrática em Harbin). “Luminares” pró-comunistas de vários tipos, incluindo Madame Feng Yu-hsiang, convergiram para Harbin à medida que essas reuniões prosseguem, e mais representantes de grupos de Hong Kong estão a caminho, provavelmente de navio via Coreia do Norte. (A. Doak Barnett, China on the Eve of Communist takeover, pp. 83-4.)
A situação real foi muito bem descrita por A. Doak Barnett, um jornalista americano que estava na China na época:
Antes de descrever cada um desses grupos que operam atualmente em Hong Kong, algumas generalizações podem ser feitas sobre eles, pois apresentam muitas semelhanças. Para começar, nenhum deles é de fato um partido político no momento, embora vários aspirem a sê-lo. São meramente pequenos grupos políticos, cada um com algumas centenas ou alguns milhares de membros. Nenhum deles possui um grande número de seguidores ou uma organização política forte. E não possuem exércitos — um pré-requisito para o poder político na China nas últimas décadas. Em suma, não possuem nenhuma das qualificações óbvias para uma ação independente bem-sucedida na turbulência da política chinesa contemporânea. Em termos de poder tangível, não conseguem se destacar.
Todos os grupos de Hong Kong se autodenominam “liberais” e, muitas vezes, são simplesmente rotulados como “grupos democráticos chineses”. Sem dúvida, alguns deles podem alegar com razão serem liberais (embora a palavra seja difícil de definir), mas outros são definitivamente oportunistas políticos. No que diz respeito a alguns de seus principais líderes, é difícil encontrar pontos básicos de diferença que os distingam dos líderes do Governo Central, exceto pelo fato de agora estarem em lados opostos da guerra civil. (A. Doak Barnett, China on the Eve of Communist takeover, p. 85, grifo meu, AW.)
O novo Estado
Mao consolidou um novo Estado, não como uma expressão direta da classe trabalhadora, mas sim através do equilíbrio entre as classes, e foi por meio desse Estado que expropriou os latifundiários e capitalistas. Apesar da maneira distorcida como foi alcançado, o estabelecimento de uma economia planificada nacionalizada foi uma medida progressista e um enorme passo à frente para a China. Contudo, não se tratava de uma revolução proletária no sentido entendido por Marx e Lênin. Os stalinistas chineses, agindo em nome do proletariado, executaram as tarefas econômicas básicas da revolução socialista, mas os trabalhadores na China permaneceram passivos durante toda a guerra civil e não desempenharam um papel independente em todo o processo.
Como resultado, a revolução foi conduzida de maneira bonapartista, de cima para baixo, sem a participação e o controle democrático dos trabalhadores. A burocracia desenvolveu uma ditadura totalitária de partido único, modelada na Rússia de Stalin. Dada a forma como a revolução foi conduzida e a existência de um poderoso regime stalinista nas fronteiras da China, esse resultado era totalmente previsível.
Mao utilizou o exército camponês como um aríete para esmagar o antigo Estado. Mas o campesinato é a classe menos capaz de adquirir uma consciência socialista. É claro que, em nações coloniais e semicoloniais subdesenvolvidas, o campesinato deve desempenhar um papel muito importante — mas apenas um papel auxiliar, subordinado ao movimento revolucionário dos trabalhadores nas cidades.
Devemos lembrar que, até a Revolução Russa, mesmo Lênin negava a possibilidade da “vitória da revolução proletária em um país atrasado”. Somente Trotsky havia anteriormente defendido a perspectiva de que a classe trabalhadora russa poderia chegar ao poder antes do proletariado da Europa Ocidental. No entanto, em 1917, foi precisamente isso que aconteceu. O Partido Bolchevique, sob a liderança de Lênin e Trotsky, levou os trabalhadores ao poder na Rússia, que, assim como a China em 1949, era um país extremamente atrasado e semifeudal. A classe trabalhadora russa, que era uma pequena minoria da sociedade (a maioria era composta por camponeses), colocou-se à frente da sociedade e realizou uma revolução socialista clássica em outubro de 1917.
Sob a liderança de Lênin e Trotsky, o proletariado imediatamente executou as tarefas da revolução democrático-burguesa e, em seguida, passou a expropriar os capitalistas e a estabelecer um regime de democracia operária. Seria possível que a Revolução Chinesa tivesse se desenvolvido nos mesmos moldes da Revolução de Outubro na Rússia. O que faltou foi o fator subjetivo: o Partido Bolchevique de Lênin e Trotsky.
O tipo de regime estabelecido na China representa um desvio da norma clássica, mas, na vida real, os processos nem sempre se conformam às normas ideais. Todos os tipos de distorções e variantes peculiares são possíveis. Ted Grant foi o único teórico marxista que explicou o papel do bonapartismo proletário como uma variante peculiar da teoria da revolução permanente de Trotsky. Quando a perspectiva de Mao Tsé-Tung ainda era a de um longo período de capitalismo, Ted Grant explicou a inevitabilidade da vitória de Mao e o estabelecimento de um Estado operário deformado. Ele também previu antecipadamente que a burocracia chinesa entraria em conflito com Moscou. (Ver Resposta a David James, primavera de 1949).
Um passo gigantesco à frente
A Revolução Chinesa foi um passo gigantesco à frente. Se não tivesse sido bem-sucedida, o país sem dúvida teria se transformado em uma semicolônia do imperialismo estadunidense sob a ditadura de Chiang Kai-shek. Em vez disso, em 1949, o povo chinês conquistou, pela primeira vez, a plena emancipação do domínio estrangeiro. A Revolução Chinesa foi um golpe contra o imperialismo em escala mundial. Deu um tremendo impulso à revolta dos povos coloniais escravizados. Isso por si só já era motivo suficiente para acolhê-la e apoiá-la.
Mas não é só isso. Ela culminou na derrubada do latifúndio e do capitalismo. A abolição do latifúndio libertou a China do fardo das relações semifeudais, e a liquidação da propriedade privada da indústria e a introdução do monopólio estatal do comércio exterior deram um poderoso impulso ao desenvolvimento da indústria chinesa. Contudo, a nacionalização dos meios de produção ainda não é socialismo, embora seja a condição prévia para ele.
O movimento em direção ao socialismo exige o controle, a orientação e a participação do proletariado. O domínio irrestrito de uma elite privilegiada não é compatível com o socialismo genuíno. Isso produzirá todo tipo de novas contradições. O controle burocrático significa corrupção, nepotismo, desperdício, má gestão e caos, que, em última análise, minam as conquistas de uma economia planificada e nacionalizada. As experiências da Rússia e da China comprovam isso.
A verdadeira razão para as variantes e deformações peculiares da revolução nos países ex-coloniais durante um longo período foi o atraso da revolução socialista nos países capitalistas avançados. Mas essa situação está mudando rapidamente. Todas as condições objetivas para uma revolução socialista estão agora se consolidando em escala mundial. Apenas a fragilidade das forças do marxismo genuíno significa que o processo será prolongado.
Sem a Revolução Chinesa de 1949, a China não teria conseguido o enorme progresso que alcançou. Os trabalhadores do mundo podem apontar os avanços colossais obtidos pela China após a revolução como prova do potencial de uma economia planificada e nacionalizada. Hoje em dia, tornou-se comum criticar a nacionalização e a economia planificada. Mas os argumentos sobre a suposta superioridade da “economia de mercado” se mostram completamente vazios à luz da atual crise econômica, a mais profunda crise do capitalismo mundial desde 1929.
As conquistas da economia planificada e nacionalizada foram a base para a ascensão da China como uma poderosa nação industrializada. Basta comparar a China com a Índia para perceber a diferença. Ambas começaram em um nível semelhante no final da década de 1940, mas a China desenvolveu-se a um ritmo muito mais acelerado.
Contudo, sessenta anos após a queda do capitalismo e do latifúndio na China, a camada dominante retomou o caminho do capitalismo. Essa possibilidade estava implícita em uma situação na qual a burocracia se elevou acima da sociedade. Inicialmente, como medidas para estimular o crescimento econômico dentro da economia planificada, a burocracia adotou métodos capitalistas. No entanto, apesar do crescimento, a imposição da “economia de mercado” na China não atende aos interesses dos trabalhadores e camponeses chineses. Ela está criando novas e terríveis contradições tanto nas cidades quanto nos campos, que, em determinado momento, levarão a uma nova onda revolucionária.

Com base na experiência, os trabalhadores, camponeses, estudantes e intelectuais chineses irão redescobrir as grandes tradições revolucionárias do passado. A nova geração abraçará as ideias de Marx, Engels, Lênin, Trotsky e Chen Duxiu, o fundador do comunismo chinês e seu verdadeiro herdeiro. Napoleão disse certa vez sobre a China: “Quando este gigante despertar, o mundo tremerá”. Reiteramos essas palavras, com uma ressalva: o gigante destinado a abalar o mundo não é outro senão o poderoso proletariado chinês. Aguardamos com impaciência a hora desse despertar.
Londres, 1 de outubro de 2009
