Em 1º de janeiro de 1959, a odiada ditadura de Fulgencio Batista, apoiada pelos EUA, foi derrubada por uma guerra de guerrilha, uma revolta popular de massa e uma greve geral nacional.
[Publicado originalmente em communistusa.org]
Inicialmente, Fidel Castro e o restante da direção da revolução não pretendiam avançar em direção ao socialismo. Em uma visita a Nova York naquele mesmo ano, Castro declarou:
“Afirmei de forma clara e definitiva que não somos comunistas… As portas estão abertas para investimentos privados que contribuam para o desenvolvimento de Cuba.”
No entanto, em 1960, ele retornou a Nova York para proferir um discurso inflamado na Assembleia Geral da ONU, no qual proclamou “o direito dos países subdesenvolvidos de nacionalizar, sem indenização, seus recursos naturais e os investimentos monopolistas”.
Em 1961, 80% da economia de Cuba havia sido nacionalizada: usinas de açúcar e refinarias de petróleo, serviços de eletricidade e telefonia, portos e ferrovias — a maioria dos quais pertencia aos EUA. As grandes propriedades rurais haviam sido expropriadas e entregues aos camponeses.
Mais de um milhão de pessoas se reuniram em Havana em 1962, um ano após derrotarem a invasão da Baía dos Porcos, apoiada pela CIA. Lá, Fidel proferiu a histórica “Segunda Declaração de Havana“:
“Cuba fala pelas massas exploradas da América; os Estados Unidos, pelos interesses exploradores, oligárquicos e imperialistas… Cuba, pelo socialismo! Os EUA, pelo capitalismo… O que Cuba pode oferecer ao povo — e já ofereceu — é o seu exemplo. E o que a Revolução Cubana ensina? Que a revolução é possível, que o povo pode realizá-la.”
Essa é a verdadeira razão pela qual a Revolução Cubana é vista como uma ameaça tão grande pelo imperialismo norte-americano. O povo de uma pequena ilha com dez milhões de habitantes decidiu tornar-se senhor do seu próprio destino, enfrentando a brutalidade arrogante do imperialismo dos EUA.
Essa foi a primeira e única vez que o capitalismo foi derrubado no Hemisfério Ocidental — e isso aconteceu a apenas 150 quilômetros da costa da Flórida. Com base em uma economia planejada, a Revolução alcançou milagres nas áreas de saúde, habitação, emprego, alfabetização, cultura e muito mais. Acima de tudo, ela estabeleceu um precedente para as massas da América Latina e do mundo: o de que a revolução socialista não é uma utopia inalcançável.
A heroica sobrevivência da Revolução Cubana é um lembrete diário ao imperialismo americano de sua derrota humilhante. Durante 64 anos, o governo dos EUA tentou — e fracassou — esmagá-la por meio de sabotagem, golpes, tentativas de assassinato, ataques terroristas e um bloqueio criminoso. Isoladas, cercadas e sob constante ataque da potência imperialista mais reacionária da história, as massas cubanas superaram adversidades incríveis para defender as conquistas de 1959.

A obsessão do imperialismo americano por Cuba
Hoje, a Revolução enfrenta seu perigo mais grave. Considerando o histórico brutal de intervenções dos EUA, isso não é pouca coisa.
Já em 1960, um memorando secreto do subsecretário adjunto de Estado, Lestor Mallory, explicava de forma direta que a Revolução contava com apoio excessivo na ilha para que se obtivesse uma vitória rápida por meio de invasão ou golpe. Portanto, a única maneira eficaz de enfraquecê-la e derrubá-la seria gerar “descontentamento baseado na insatisfação econômica e nas privações”, isto é, “negar dinheiro e suprimentos a Cuba, reduzir os salários nominais e reais, e provocar fome e desespero para derrubar o governo”.
O cerco à ilha promovido por Donald Trump e Marco Rubio é o ponto culminante desse esforço de décadas. O governo dos EUA está arquitetando uma catástrofe humanitária, planejada para maximizar o sofrimento e forçar a rendição de Cuba sob a mira de armas.
“É uma nação fracassada. Eles não têm petróleo, não têm nada”, disse Trump em março de 2026. Após impor um bloqueio total de petróleo, os imperialistas norte-americanos têm a audácia de criticar Cuba pela falta de combustível! Ele continuou: “Acho que terei a honra de tomar Cuba”. Assim, o presidente verbaliza o que tem sido a política dos EUA há mais de 200 anos.
Já em 1820, Thomas Jefferson afirmou que “via Cuba como a adição mais interessante que jamais poderia ser feita ao nosso sistema de Estados” e que os EUA “deveriam, na primeira oportunidade possível, tomar Cuba”.
Em 1823, após a proclamação da Doutrina Monroe, o então Secretário de Estado John Quincy Adams comparou Cuba a uma maçã madura que cairia da árvore do Império Espanhol e gravitaria naturalmente para as mãos dos EUA. Caso a metáfora não estivesse clara o suficiente, ele também a traduziu em termos diretos:
“[Cuba] tornou-se um objeto de importância transcendente para os interesses políticos e comerciais de nossa União… A anexação de Cuba à nossa república federal será indispensável para a continuidade e a integridade da própria União.”
Cuba tornou-se uma colônia espanhola em 1511 e foi a última colônia nas Américas a conquistar a independência do Império Espanhol, em 1898. No entanto, já na década de 1850, os Estados Unidos haviam despontado como o maior parceiro comercial de Cuba, importando açúcar, tabaco e café, e exportando produtos manufaturados para a ilha.
Naquela época, Cuba possuía uma economia de plantation escravista baseada em grandes propriedades agrícolas — os latifúndios — e produzia um terço do açúcar mundial. Os escravizados negros representavam cerca de 45% da população, e os libertos, outros 13%. Cuba também conta com grandes reservas de níquel, bem como de ferro, cobre, manganês, cromo e tungstênio — matérias-primas fundamentais para a produção industrial.
Dada a sua importância estratégica, os EUA fizeram três ofertas para comprar Cuba integralmente entre 1848 e 1854, mas a Espanha recusou. A burguesia cubana, em grande parte, apoiava essas ofertas — o que antecipava o papel que esses capitalistas compradores desempenhariam durante a Revolução.
Na década de 1890, os Estados Unidos detinham o controle de muitos setores-chave da economia cubana, incluindo o fornecimento de eletricidade, a rede telefônica e a maioria das usinas de açúcar da ilha. 90% das exportações de açúcar de Cuba destinavam-se ao mercado norte-americano.
Como disse o Secretário de Estado dos EUA, James Blaine, em 1881:
“Aquela ilha rica — a chave para o Golfo do México e o campo de nosso comércio mais amplo no Hemisfério Ocidental — é, embora esteja nas mãos da Espanha, parte do sistema comercial americano… Se algum dia deixar de ser espanhola, Cuba deverá, necessariamente, tornar-se americana.”
A classe capitalista norte-americana em ascensão garantiu que assim fosse.
A independência de Cuba e a Guerra Hispano-Americana
A luta de Cuba pela independência da Espanha foi um processo longo e violento, liderado pela pequena burguesia radical cubana e travado por camponeses e pelas camadas mais pobres da população. O processo teve início com o levante de De Céspedes em 1868 — quando ele libertou seus escravizados e deflagrou uma luta armada que ficou conhecida como a Guerra dos Dez Anos — e prosseguiu com a Guerra de Independência de 1895, liderada pelo lendário José Martí, que morreu em combate naquele mesmo ano.
O governo e a mídia dos EUA falavam da necessidade de “ajudar a pobre Cuba” contra os abusos da Espanha — que eram muitos e, de fato, muito brutais. O objetivo do imperialismo norte-americano, no entanto, era usar a desculpa da “democracia” para intervir e tomar a ilha para si. Após três décadas de conflito e exaustão mútua entre as tropas rebeldes cubanas (conhecidas como mambises) e o exército espanhol, os EUA finalmente declararam guerra à Espanha em 1898. As forças militares dos EUA derrotaram as forças em desvantagem do decadente império espanhol em apenas seis semanas, no conflito que ficou conhecido como Guerra Hispano-Americana.
Imediatamente, as forças dos EUA desarmaram os combatentes cubanos pela independência e estabeleceram uma ditadura. Os norte-americanos governaram Cuba por meio de um governo militar até 1901. Sob a mira de armas e com os fuzileiros navais dos EUA posicionados ao largo de sua costa, os cubanos foram forçados a incorporar a Emenda Platt à sua constituição, adotada naquele ano.
Embora a ilha viesse a se tornar formalmente “independente” em 1902, a Emenda Platt:
- Concedeu aos EUA o direito de intervir militar e politicamente em Cuba a qualquer momento.
- Proibiu Cuba de se associar a outros países, a menos que houvesse aprovação dos EUA.
- Concedeu ao açúcar cubano acesso preferencial ao mercado dos EUA, o que garantiu lucros vultosos aos proprietários americanos de plantações de açúcar, como a United Fruit Corporation.
- Concedeu às exportações dos EUA acesso preferencial ao mercado cubano.
- Cedeu terras cubanas para uso das forças armadas dos EUA.
Os EUA estabeleceram sua base na Baía de Guantánamo em 1903. Ela permanece na ilha até hoje, com seu infame centro de detenção, onde ocorrem todo tipo de abusos e torturas em território cubano ocupado pelos americanos.
Cuba tornou-se, na prática, uma subsidiária de empresas norte-americanas que produziam açúcar e tabaco utilizando mão de obra sazonal barata. Os EUA podiam vetar ou anular qualquer decisão do governo cubano. Ao longo das seis décadas seguintes, os americanos dominaram completamente a política cubana, enviando tropas à ilha nada menos que quatro vezes para “manter a ordem” e instalar novos governos.
Ditaduras patrocinadas pelos EUA
A classe dominante dos EUA e sua mídia acusam a Cuba pós-1959 de ser uma “ditadura” sem “liberdade” ou “democracia”. Trata-se de uma mentira cínica. Além disso, quem é o governo dos EUA para reclamar de ditaduras? O imperialismo norte-americano tem sido o principal patrocinador do terrorismo em escala mundial há pelo menos 80 anos. Ele deflagrou e financiou guerras intermináveis, bombardeou civis indiscriminadamente, derrubou governos eleitos e impôs ditaduras na América Latina e em todo o mundo.
A história da Cuba pré-revolucionária é, essencialmente, uma sequência contínua de regimes brutais, todos impostos pelos imperialistas e a serviço de seus interesses.
Entre 1906 e 1909, Roosevelt enviou 2 mil fuzileiros navais ao litoral cubano e estabeleceu um governo provisório liderado por um juiz norte-americano, Charles Magoon. Entre outras coisas, esse governo nomeado pelos EUA ajudou a importar métodos americanos de terror racista e segregação, mobilizando grupos de vigilantes brancos para matar cubanos negros. Corpos de vítimas de linchamento eram deixados pendurados nos arredores das cidades, ou suas cabeças decepadas eram colocadas à beira das linhas férreas.
Em 1912 e novamente entre 1917 e 1920, fuzileiros navais dos EUA foram enviados mais uma vez para reprimir grandes greves no setor açucareiro que ameaçavam seriamente os lucros norte-americanos. Em 1921, um representante de Woodrow Wilson foi a Havana para reformular as leis eleitorais, de modo a poder, basicamente, escolher a dedo o próximo governo.
Em 1933, a Frota do Atlântico e os Fuzileiros Navais dos EUA desembarcaram novamente na ilha em resposta a uma greve geral insurrecional. O embaixador norte-americano organizou um novo governo favorável aos EUA, mas este era tão fraco e impopular que durou apenas um mês.
Seguiu-se o “Governo dos 100 Dias” de Grau San Martín, que representava setores radicalizados da pequena burguesia. Grau foi forçado a renunciar pelo chefe do exército, Fulgencio Batista, que vinha conspirando com o embaixador dos EUA, Jefferson Caffery. Entre 1934 e 1959, Batista comandou Cuba como agente do imperialismo — ora nos bastidores, com presidentes fantoches, ora assumindo pessoalmente a chefia do governo em duas ocasiões.
Cuba antes da revolução
Vejamos alguns exemplos dos tipos de métodos “democráticos” que o ditador Batista empregou em prol do capitalismo norte-americano.

Batista reagiu a uma onda de greves em 1934–1935 suspendendo a Constituição, impondo a lei marcial e proibindo a liberdade de expressão. Os sindicatos foram dissolvidos, e dirigentes de greves sequestrados e assassinados; a universidade, importante centro de luta, foi fechada e ocupada militarmente por três anos; grevistas foram presos em massa, e civis, executados por fuzilamento.
Após saquear os cofres públicos de Cuba, Batista fugiu da ilha em 1944 e pediu sua “aposentadoria”, indo para a Flórida. Quando os EUA solicitaram seus serviços novamente em 1952, ele retornou para concorrer à presidência. As pesquisas indicavam que ele ficaria em um distante terceiro lugar; então, ele simplesmente mobilizou o exército mais uma vez e enviou tanques ao palácio presidencial, instaurando mais uma ditadura sangrenta.
Durante seus sete anos no poder, entre 1952 e 1959, o regime assassinou mais de 20 mil pessoas. Qualquer cubano que discordasse do governo era perseguido, detido, espancado, torturado ou desaparecia, ou tinha seu corpo descartado à beira da estrada. A polícia, o exército, a Guarda Rural e esquadrões da morte matavam e estupravam praticamente à vontade.
Muitos cubanos viviam em estado de miséria absoluta. Em anos favoráveis, 20% da força de trabalho estava desempregada. Os 500 mil trabalhadores da cana-de-açúcar representavam um quarto da população economicamente ativa de Cuba, mas eram trabalhadores sazonais que, após quatro meses de atividade, ficavam desempregados pelo restante do ano.
Um quarto da população era analfabeto e, em muitas áreas rurais, essa taxa ultrapassava 90%. Apenas 15% das moradias urbanas dispunham de banheiro. A posse de terras era extremamente desigual: 2% da população detinha 50% das terras agrícolas. No campo, a maioria dos camponeses vivia em cabanas com telhados de palha e chão de terra batida, sem água ou eletricidade. Apenas 4% dos camponeses tinham acesso a carne, e 2%, a ovos.
As condições para as mulheres eram ainda piores naquele que fora um país de predominância católica e economicamente atrasado. Menos de 10% das mulheres das áreas urbanas trabalhavam fora de casa. Muitas recorriam ao trabalho doméstico para os ricos — ou à prostituição — apenas para sobreviver.
Na década de 1950, Cuba havia se tornado uma “ilha Epstein”: uma espécie de bordel-cassino privado para o deleite da classe dominante norte-americana, marcada pela depravação. A máfia controlava todos os cassinos, muitos hotéis e a indústria do sexo. O tráfico de drogas e a prostituição infantil ocorriam sem restrições, com milhares de crianças sendo sequestradas e vendidas para a escravidão sexual.
Dois episódios proporcionam um vislumbre do tipo de atrocidade que moldou a mentalidade da geração de combatentes responsável pela Revolução Cubana, entre 1956 e 1959.
Celia Sánchez trabalhava como enfermeira e recepcionista para seu pai, um médico progressista renomado. Ela criou um forte vínculo com a filha de um camponês que seu pai atendia; Celia tratava a menina, então com dez anos, como se fosse sua própria filha. A menina desapareceu repentinamente. Poucos dias depois, seu corpo foi encontrado no subsolo de um cassino de luxo — vítima de abuso e assassinada para satisfazer o prazer de um americano que havia solicitado uma garota para passar a noite.
A partir desse momento, Celia Sánchez tornou-se uma combatente decidida contra Batista. Ela foi um dos primeiros membros do grupo de Fidel Castro e tornou-se uma líder de alto escalão — em muitos aspectos, equiparável ao próprio Fidel —, além de ter sido a primeira mulher a integrar o Exército Rebelde, em abril de 1957.
À medida que o Exército Rebelde avançava pelo interior, recrutando camponeses locais, Batista reagia bombardeando vilarejos inteiros, houvesse ou não guerrilheiros neles. O regime perpetrava massacres indiscriminados de homens, mulheres e crianças inocentes. Isso incluía o uso de napalm, fornecido a Batista pelos Estados Unidos. Ao testemunhar esse horror, Fidel Castro escreveu a Celia Sánchez em 1958:
“Jurei a mim mesmo que os norte-americanos pagariam caro pelo que estão fazendo. Quando a guerra terminar, uma guerra muito mais ampla e maior começará para mim: a guerra que vou travar contra eles. Estou ciente de que esse é o meu verdadeiro destino.”
Fidel e o M-26J
Fidel era um jovem alto, atlético e carismático. Radical de origem pequeno-burguesa, tornou-se um líder estudantil popular durante seus anos de universidade. Como advogado em Havana, assumia casos de pessoas pobres que, muitas vezes, não podiam pagar por seus serviços. Em 1952, candidatou-se ao Congresso por um partido pequeno-burguês conhecido como Ortodoxos. Provavelmente teria vencido a eleição, mas o golpe de Batista frustrou seus planos. Assim, chegou à conclusão de que a única maneira de conquistar o poder era por meio de uma revolução.
Em 26 de julho de 1953, ele liderou um grupo de cerca de 130 pessoas em uma insurreição armada para tomar um quartel do exército em Santiago de Cuba. A partir desse momento, a organização passou a ser conhecida como Movimento 26 de Julho (abreviado como M-26J ou M-26-7). O objetivo era deflagrar uma insurreição nacional que derrubasse o regime de Batista. No entanto, tratava-se de um grupo pequeno e de origem pequeno-burguesa, sem base de massa e sem vínculos com trabalhadores e camponeses. A tentativa terminou em desastre: oito pessoas foram mortas pelas tropas de Batista, as demais foram capturadas e outras 80 acabaram executadas como represália. Seguiu-se uma onda indiscriminada de repressão governamental, resultando na prisão de mais 100 estudantes, sindicalistas e socialistas.
Apesar do fracasso, é justo reconhecer que Fidel e seu grupo eram combatentes corajosos e comprometidos que não recuavam. Como advogado, Castro assumiu a defesa de todos os acusados, e apenas um quarto dos casos resultou em condenação. Ele utilizou os julgamentos como plataforma para proferir seu discurso histórico, “A História Me Absolverá”, no qual condenou o regime de Batista e defendeu o “direito de insurreição contra a tirania”. Esse discurso seria posteriormente publicado e se tornaria o manifesto do castrismo. Fidel e seu grupo tornaram-se famosos e respeitados em toda Cuba devido à sua determinação revolucionária. O apoio popular era tamanho que, em 1955, os prisioneiros foram anistiados e libertados. A reunião de fundação do M-26J ocorreu em junho daquele ano. Pouco depois, Fidel e seu irmão Raúl Castro viajaram para o México com outros líderes. Foi na Cidade do México que conheceram Che Guevara, que se juntaria a eles até o fim. Outros membros importantes do M-26J permaneceram em Cuba para comandar a resistência clandestina urbana, incluindo Frank País, Celia Sánchez, Haydée Santamaría e Armando Hart.
O M-26J defendia um programa radical de reivindicações democráticas, libertação nacional e reforma agrária — isto é, o desmembramento dos latifúndios e a distribuição de terras aos camponeses. O movimento buscava restaurar a Constituição cubana de 1940, a qual, entre outras coisas, incluía dispositivos favoráveis aos trabalhadores, como a garantia de emprego e a redução da jornada de trabalho. Defendia-se o direito dos trabalhadores a uma parcela maior dos lucros das empresas. O programa também preconizava os ideais da “democracia Jeffersoniana” e a busca por um “estado de solidariedade e harmonia entre capital e trabalhadores para elevar a produtividade do país”.
Não se tratava, portanto, de um programa socialista, mas sim de um programa nacional-democrático progressista. Acima de tudo, eles exigiam de forma consistente a derrubada revolucionária da ditadura. A recusa em transigir nesse ponto conquistou-lhes o apoio das massas. Nas palavras de Fidel, em 1956:
“O Movimento 26 de Julho é a organização revolucionária do povo, pelo povo e para o povo… [Um movimento] sem barões do açúcar… sem especuladores da bolsa de valores, sem magnatas da indústria e do comércio, sem advogados a serviço de grandes interesses, sem os chefes políticos provinciais… O Movimento 26 de Julho é a esperança de redenção para a classe trabalhadora cubana… É a esperança de terra para os camponeses que vivem como párias no país que seus avôs libertaram… É a esperança de pão para os famintos e de justiça para os esquecidos.”
A teoria da revolução permanente
Na década de 1950, os Estados Unidos detinham 90% das minas e fazendas de gado de Cuba; 80% dos serviços de utilidade pública; 50% das ferrovias; e 40% das terras destinadas ao cultivo de cana-de-açúcar, produzindo cerca de metade de todas as colheitas.
Como resultado, mesmo reformas de caráter nacional-democrático, aparentemente razoáveis, chocavam-se diretamente com os interesses capitalistas dos EUA. Um artigo do New York Times de abril de 1959 expressava isso com clareza, ao mesmo tempo em que manifestava a preocupação da classe dominante com a perspectiva de perder o controle sobre Cuba:
“Cuba não apenas fornece 40% do açúcar que consumimos, como também abriga investimentos norte-americanos avaliados em cerca de 800 milhões de dólares. Basta um olhar sobre o mapa para perceber a importância estratégica da ilha. Ela se situa em posição-chave em relação a todas as rotas marítimas e aéreas de acesso aos Estados Unidos a partir do sul. Nossa base naval na Baía de Guantánamo é a base fundamental na região do Caribe. O próprio Fidel Castro é de grande importância para nós. As massas da América Latina o veem como o grande defensor da justiça social pela qual lutam. Como aliado dos Estados Unidos, ele poderia ser de grande valia; como inimigo, poderia causar grandes danos.”
Por sua vez, a aliança estreita entre latifundiários e a burguesia cubanos era muito frágil e totalmente dependente dos EUA. Suas próprias riquezas e privilégios baseavam-se na dominação imperialista da ilha. Eles não tinham qualquer intenção de levar a cabo as tarefas da revolução burguesa, pois isso teria desferido um golpe mortal em seus próprios interesses. De fato, a maior parte da oligarquia cubana defendia a anexação pelos EUA!
Não havia uma “burguesia progressista” em Cuba na década de 1950 capaz de assumir a bandeira da revolução democrática e da independência. Esse papel caberia à classe trabalhadora, em aliança com o campesinato. Como Trotsky explicou — e como a Revolução de Outubro na Rússia comprovou —, a revolução começaria com as tarefas nacional-democráticas, mas estas só poderiam ser plenamente realizadas se ela ultrapassasse os limites do capitalismo, como um primeiro passo rumo à revolução socialista mundial.
Dentro de Cuba, poucas pessoas compreendiam isso. Julio Antonio Mella era uma delas. Mella foi um líder estudantil radical da Federação Estudantil Universitária em Havana. Ele foi um dos fundadores da primeira versão do Partido Comunista de Cuba, em 1925. Em 1928, ele escreveu:
“Em sua luta contra o imperialismo (o ladrão estrangeiro), as burguesias (os ladrões nacionais) unem-se ao proletariado — a velha e boa bucha de canhão. Mas acabam percebendo que é melhor formar uma aliança com o imperialismo, que, no fim das contas, persegue interesses semelhantes.”
Essa era a posição da Internacional Comunista leninista naquele período. Mais tarde, os partidos comunistas oficiais da América Latina, já estalinizados, romperam com essa concepção e adotaram a teoria menchevique das “duas etapas”. Stalin argumentava que os países coloniais e semicoloniais necessitavam de uma revolução nacional-democrática e de uma etapa capitalista de desenvolvimento distinta antes que a questão do socialismo pudesse ser colocada. Essa etapa deveria ser liderada pela burguesia progressista, cabendo aos trabalhadores apoiá-la sem levantar quaisquer reivindicações socialistas. Deixando de defender os princípios internacionalistas revolucionários de Lênin e Trotsky, esses partidos passaram a servir aos interesses de política externa da burocracia de Moscou, que alegava estar construindo o “socialismo em um só país”.
Na busca por uma burguesia cubana “progressista” inexistente, o Partido Comunista de Cuba aliou-se a… Fulgencio Batista! Tratava-se de uma “frente popular” com um ditador reacionário e com o próprio imperialismo norte-americano. Em troca, Batista recompensou o Partido concedendo-lhe a legalidade em 1939. De forma vergonhosa, os “comunistas” participaram de seu governo com dois ministros, várias cadeiras no Congresso cubano e a liderança da principal confederação sindical. Devido a essa colaboração traiçoeira, que perdurou até o início da década de 1950, o comunismo ficaria profundamente desacreditado aos olhos da vanguarda revolucionária cubana.
Ao contrário de Mella, o médico argentino Che Guevara não era um teórico marxista; no entanto, foi um revolucionário muito honesto e abnegado. Com base em sua própria experiência na Revolução Cubana, ele também trilhou o caminho rumo a uma posição revolucionária e de internacionalismo proletário. Em sua mensagem “Criar dois, três… muitos Vietnãs”, dirigida à Conferência Tricontinental de 1966, ele explicou corretamente:
“As burguesias nacionais perderam toda a capacidade de se opor ao imperialismo — se é que algum dia a tiveram — e tornaram-se a última carta do baralho. Não há outras alternativas: ou uma revolução socialista ou uma revolução de fachada.”
Uma luta da classe trabalhadora
Cuba possuía uma classe trabalhadora numerosa e combativa, composta não apenas pelos trabalhadores da cana-de-açúcar, mas também por aqueles dos centros urbanos. Assim, a luta nacional pela libertação de Cuba esteve sempre profundamente entrelaçada com a luta social.
Ao longo das décadas de 1910 e 1920, muitos trabalhadores rurais emigraram da Espanha, trazendo consigo suas tradições de sindicalismo de luta de classes e de anarquismo. Esse período foi marcado por grandes greves nos engenhos de açúcar, bem como nos setores de tabaco, transportes, portos e universidades, entre outros. A Grande Depressão da década de 1930 atingiu duramente a economia cubana, desencadeando uma nova onda de luta de classes que evoluiu para uma greve geral insurrecional em agosto de 1933.
Em setembro de 1933, 36 usinas de açúcar estavam sob controle operário por meio de conselhos revolucionários, e patrulhas de operários e camponeses mantinham a ordem como uma milícia vermelha, frequentemente confraternizando com soldados. Um desdobramento dessa luta foi a revogação da Emenda Platt da Constituição cubana em 1934. Embora em grande parte simbólico — visto que Cuba permaneceu uma semi colônia dos EUA —, esse fato representou uma grande vitória que revela o poder da luta de massas da classe trabalhadora em arrancar concessões concretas do imperialismo.

As explosões sociais continuaram no período do pós-guerra, com greves que incluíam piquetes combativos, batalhas de rua com barricadas, ocupações, descarrilamento de trens que transportavam tropas, incêndio de pontes para impedir o transporte, etc.
Isso precisa ser ressaltado, pois a maioria dos relatos sobre a Revolução Cubana concentra-se exclusivamente no papel da luta armada de guerrilha no campo. A verdade é que as massas de camponeses e trabalhadores desempenharam um papel decisivo antes, durante e depois da Revolução.
O próprio M-26J criou uma seção operária para coordenar as atividades dos trabalhadores nas cidades. Inicialmente, a principal base do movimento situava-se entre os trabalhadores da clandestinidade urbana. Com o tempo, foram formadas dezenas de células nos locais de trabalho, o que também repercutiu na juventude comunista; alguns de seus integrantes passaram a ver o grupo de Castro como um importante polo de atração.
A derrubada revolucionária de Batista
O plano para a Revolução previa que as primeiras tropas guerrilheiras partissem do México rumo a Cuba em dezembro de 1956, a bordo do famoso barco Granma. Os 82 insurgentes — incluindo Fidel e Raúl Castro, Che Guevara e Camilo Cienfuegos — chegaram com atraso e no local errado, onde as tropas de Batista os aguardavam. Quando finalmente chegaram ao acampamento na Sierra Maestra — a cadeia de montanhas em Santiago de Cuba —, restavam apenas 16 deles e apenas 12 armas.
Com o tempo, conseguiram se reorganizar e treinar novos recrutas vindos das cidades. Aos poucos, realizaram incursões contra guarnições isoladas, capturando novas armas. Por meio de seu programa de redistribuição de terras, fortaleceram os laços com os camponeses locais. Também conquistaram a confiança deles ao ensiná-los a ler e escrever e ao oferecer serviços médicos.
A guerrilha tornou-se um ponto focal, mas o fator decisivo foi que as massas cubanas estavam prontas para se livrar de um regime que todos odiavam. O assassinato de Frank País, o segundo principal líder do M-26J, demonstra o grau de maturação da situação. País liderava a frente operária e, após ser morto pela polícia secreta, uma greve geral paralisou Santiago e se espalhou para outras cidades. Seu funeral transformou-se em uma manifestação de massa com 60 mil pessoas.
Os trabalhadores, assim como os estudantes e os setores insatisfeitos da pequena burguesia, apoiavam a revolução. Na ausência de uma liderança revolucionária genuinamente marxista, depositaram suas esperanças na guerrilha, aguardando uma derrota militar do regime de Batista por essa via. O eixo da luta deslocou-se das cidades para o campo. A reforma agrária tornou-se a bandeira da luta guerrilheira, juntamente com o fim da fome e das matanças perpetradas por Batista.
O regime estava enfraquecido; as fileiras das forças armadas — compostas por trabalhadores recrutados à força e camponeses pobres — estavam desmoralizadas, famintas e carentes de treinamento. Diante de um inimigo determinado que lutava pela maioria oprimida, os soldados buscavam mais a rendição do que o combate. À medida que a frente guerrilheira se expandia e vencia mais batalhas, o apoio crescia exponencialmente. Por exemplo, a coluna de 230 homens de Che multiplicou-se por dez enquanto marchava em direção à cidade de Santa Clara, na região central.
As forças de Che tomaram Santa Clara em 31 de dezembro de 1958, ao mesmo tempo em que a guerrilha de Fidel vencia batalhas decisivas enquanto descia da Sierra em direção a Santiago, no extremo leste da ilha. Diante da derrota, Batista fugiu após instituir um governo provisório, numa tentativa de reorganizar o cenário político. Mas, desta vez, a medida era insuficiente e tardia demais.
Às 2 da manhã do dia de Ano-Novo de 1959, Fidel Castro fez um discurso na Rádio Rebelde — a estação de rádio da guerrilha — com uma mensagem clara: “Revolução, sim! Golpe militar, não!” Ele convocou todos os trabalhadores a ocuparem as sedes de seus sindicatos e paralisarem suas atividades. Tudo parou. Uma greve geral nacional, que durou de 1º a 4 de janeiro, garantiu o êxito da revolução.
O primeiro ano no poder
O M-26J chegou ao poder como resultado de uma insurreição revolucionária de massas que destruiu o poder político da burguesia e desmantelou o aparelho de Estado. O exército guerrilheiro assumiu o controle de todos os postos militares e delegacias de polícia, tornando-se o novo aparelho administrativo em toda Cuba.
A mídia capitalista dos EUA e os gusanos de Miami — descendentes da oligarquia cubana que fugiu da ilha — exploram até hoje a violência revolucionária. Inicialmente, as execuções dos piores carniceiros militares de Batista foram realizadas por fuzilamento. Posteriormente, realizaram-se julgamentos públicos diante de júris populares de massa. Ao todo, apenas 600 capangas de Batista foram executados — um número reduzido em comparação com as dezenas de milhares de pessoas presas, torturadas e assassinadas pelo regime. Nas palavras francas do chefe da CIA na época: “Houve muitos casos de crueldade e repressão por parte do exército de Batista… agora, provavelmente, haverá muita justiça”.
O primeiro governo após a Revolução foi uma coalizão baseada na Constituição de 1940. O gabinete incluía majoritariamente elementos liberais, como professores e advogados, muitos dos quais eram anticomunistas convictos. Dos 25 membros do gabinete, apenas três provinham do exército guerrilheiro.
Naquela época, Fidel pretendia apaziguar o imperialismo norte-americano demonstrando moderação. Ele realizou uma viagem pelos EUA, buscando atrair investimentos e tentando deixar claro que a sua era uma revolução democrática, e não socialista. Em maio de 1959, ele declarou:
“Nossa revolução não é nem capitalista nem comunista! … Nossa revolução não é vermelha, mas verde-oliva. Ela traz a cor do exército rebelde da Sierra Maestra.”
No entanto, logo ficou claro que o novo governo pequeno-burguês não tinha a intenção de realmente implementar o programa da Revolução, especialmente no que dizia respeito à questão fundamental da reforma agrária. Os guerrilheiros, homens de ação que esperavam medidas imediatas, perderam a paciência com a inação do governo, conforme Fidel descreveu em um pronunciamento televisivo em dezembro de 1961:
“Estavam nas mãos da classe dominante, naquele momento: todos os recursos financeiros, todos os recursos econômicos, toda a imprensa… todas as grandes emissoras de rádio e televisão… eles eram, para dizer de forma simples, ainda os donos do país… A responsabilidade de elaborar leis revolucionárias estava nas mãos deles… Esperamos para ver o que aconteceria… As semanas se passaram e eles não haviam aprovado uma única lei revolucionária.”
Por que isso aconteceu? Porque, para atender às demandas das massas, o governo precisava avançar sobre a propriedade privada e os lucros capitalistas — inclusive os do imperialismo norte-americano. Isso contrariaria os interesses de sua própria classe.
Em menos de um mês, o primeiro-ministro renunciou e foi substituído por Fidel Castro. Nos meses de março e abril, o governo implementou grande parte do programa de reformas de Fidel, que incluía:
- Redução de aluguéis e das taxas de financiamento imobiliário.
- Proibição de despejo de inquilinos por parte dos proprietários de imóveis.
- Salário-mínimo para cortadores de cana-de-açúcar, aumento salarial para servidores públicos de menor renda e redução salarial para o alto escalão.
- Redução de 30% nas tarifas de eletricidade e de 50% nas tarifas telefônicas (serviços controlados por empresas dos EUA).
- Programas de infraestrutura, como a construção de novas pontes para permitir o acesso a povoados isolados.
- Medidas antidiscriminatórias, como o fim de instalações exclusivas para brancos.
Eram medidas relativamente moderadas e progressistas, mas ameaçavam os lucros capitalistas. A classe dominante dos EUA ficou inquieta. Por toda a América Latina, eles haviam visto muitos governos surgirem e caírem e, mais cedo ou mais tarde, todos capitulavam diante das imposições imperialistas. Aquilo era algo novo: em Cuba, eles realmente pareciam estar cumprindo o que haviam prometido.
O ponto de virada decisivo foi a Lei de Reforma Agrária, anunciada em maio de 1959 sob o lema “A terra pertence a quem a trabalha”:
- Grandes propriedades com mais de 1.000 acres seriam desapropriadas e distribuídas aos camponeses sob a forma de cooperativas.
- Os bens dos aliados de Batista seriam desapropriados sumariamente, com poucas exceções.
- As terras só poderiam ser herdadas ou vendidas diretamente ao Estado, para evitar o surgimento de novos latifúndios.
- Os proprietários seriam indenizados com títulos de dívida pública com prazo de 20 anos e juros de 4% ao ano, com base no valor declarado pelos próprios proprietários para fins fiscais.
Como era de se esperar, a United Fruit Corporation rejeitou essa oferta, com o apoio do governo dos EUA. A implementação das novas leis significaria um confronto direto com o imperialismo.
Nesse momento, o papel do indivíduo tornou-se decisivo. Há inúmeros exemplos de líderes pequeno-burgueses ou reformistas que chegam ao poder com as melhores intenções, mas cedem à pressão do imperialismo e de seus lacaios locais. Ao se limitarem aos marcos do capitalismo, veem-se obrigados a rever seu programa, a formular metas “realistas” e “exequíveis” e a trair o movimento.
A Revolução Cubana, sob a liderança de Fidel Castro e Che Guevara, não recuou. O presidente Urrutia foi forçado a renunciar. Diante de uma crise política no gabinete, eles apostaram na mobilização de massas e moveram-se decisivamente para a esquerda, distribuindo terras aos camponeses e expropriando os latifundiários parasitários.
Nacionalizações em represália
Em resposta, os EUA intensificaram sua ofensiva contra o governo revolucionário. No entanto, a cada passo, o governo cubano revidava na mesma moeda.
Ao longo de 1959 e 1960, a CIA financiou e treinou grupos reacionários que realizavam ataques contra castristas e diversas formas de sabotagem: ataques aéreos, incêndio de plantações e armazéns, abate de animais de criação, destruição de centrais telefônicas, etc.
Assim, a Revolução respondeu confiscando todos os bens e propriedades de pessoas condenadas por atividades contrarrevolucionárias e daqueles que conspiravam a partir do exterior. Para fazer frente à agressão crescente, o governo também expandiu as iniciativas locais de base — formadas por milícias de trabalhadores armados — transformando-as em uma Milícia Revolucionária Nacional.
Em 1960, a URSS enviou 300.000 toneladas de petróleo bruto para Cuba, mas as refinarias pertencentes a empresas dos EUA — Shell, Standard Oil e Texaco — instaladas na ilha recusaram-se a processá-lo. Em resposta, o governo cubano colocou as refinarias sob sua supervisão.
Em julho de 1960, o presidente dos EUA, Eisenhower, cortou a cota de açúcar, dando início, na prática, ao bloqueio. Em resposta, o governo cubano nacionalizou as propriedades açucareiras dos EUA. Demonstrando uma audácia verdadeiramente singular, Fidel Castro declarou:
“Em resposta à tentativa deles de nos tirar a cota libra por libra, nós lhes tiraremos os engenhos de açúcar um a um, e lhes tiraremos tudo, centavo por centavo, até termos tomado dos americanos o último investimento.”
Em agosto de 1960, ele nacionalizou propriedades norte-americanas: serviços de telefonia e eletricidade, ferrovias, portos e 36 usinas de açúcar. Poucos meses depois, todos os bancos norte-americanos foram nacionalizados, permitindo que Cuba controlasse suas próprias finanças por meio do banco estatal, então liderado por Che Guevara.
Em outubro de 1960, as propriedades daqueles que haviam deixado o país também foram nacionalizadas, juntamente com as maiores empresas cubanas. Essas empresas cubanas dependiam inteiramente de companhias norte-americanas e, portanto, não conseguiam operar de forma independente da economia planificada após a tomada das propriedades dos EUA. A Lei de Reforma Urbana também expropriou as propriedades de grandes proprietários de imóveis, transferindo a titularidade das moradias para os inquilinos.
Assim, em apenas alguns meses, 80% da economia estava sob o controle do Estado cubano. Isso incluía ferrovias, portos, o setor bancário e 90% das indústrias exportadoras, o que significava que o comércio exterior estava totalmente sob controle estatal — uma medida essencial para a sobrevivência da economia planificada.
Estado operário
Os líderes cubanos não tinham um plano elaborado para estabelecer um governo de operários e camponeses. Eles reagiram de forma empírica, tentando resolver os problemas à medida que surgiam. O aspecto extraordinário é que, em vez de recuar, seguiram o único caminho viável para satisfazer as necessidades das massas e implementar seu programa: expropriar o capitalismo. Armando Hart, líder urbano do M-26J e então Ministro da Educação, explicou em uma entrevista de 1960 a um jornalista americano:
“A política dos Estados Unidos está nos forçando a realizar nossa revolução muito mais rapidamente do que queríamos. É uma política estúpida, pois a reação é sempre o oposto do que os Estados Unidos desejam. O comunismo não era um problema aqui. Se agora é, vocês o criaram ao nos forçar a adotar políticas para as quais não tínhamos outra escolha.”
Embora de forma inconsciente, isso expressa perfeitamente a dinâmica da teoria da revolução permanente.
Esse processo também revela uma característica fundamental dessa revolução. A estrutura política, herdada dos métodos de guerrilha militar, tinha um caráter vertical (de cima para baixo). A classe trabalhadora não exercia o poder diretamente por meio de sovietes ou outros conselhos operários ou populares com poder de decisão. Fidel Castro e um pequeno grupo de outros líderes guerrilheiros ocupavam todos os principais cargos governamentais, que eram preenchidos por nomeação. Todas as leis eram decididas de cima e implementadas por decreto.
Cuba havia se tornado um Estado operário: as relações de propriedade capitalistas haviam sido derrubadas e substituídas por uma economia planejada. No entanto, não se tratava de um Estado operário saudável, baseado no controle e na gestão da economia pelos trabalhadores. Uma transição plena para o socialismo exigiria democracia operária e, sobretudo, que a revolução se estendesse ao restante da América Latina e ao mundo.
Dito isso, a liderança cubana desfrutava de um apoio popular e de uma autoridade avassaladores e entusiásticos — e não apenas em Cuba. Esse governo representava a vontade da maioria muito melhor do que qualquer suposta “democracia” burguesa, inclusive a dos EUA, com seus dois partidos da classe dominante — ambos detestados — que se revezavam na opressão da população internamente e no financiamento de guerras imperialistas no exterior.
Em Cuba, cada avanço da Revolução foi apoiado, incentivado e legitimado por meio da mobilização de massas de trabalhadores, camponeses e mulheres, que eram profundamente leais ao governo. O processo revolucionário despertou a criatividade e a iniciativa espontâneas vindas da base. Isso também se manifestou nas organizações de massa da Revolução.
Milhões de pessoas se envolveram na federação sindical (sob nova liderança), na Federação Estudantil e na Federação das Mulheres Cubanas. O novo Partido Comunista de Cuba (PCC) surgiria mais tarde da fusão do antigo partido comunista (PSP), do M-26J e de um grupo guerrilheiro aliado, o Diretório Revolucionário. Talvez o mais importante de tudo fossem os Comitês de Defesa da Revolução (CDRs). Criadas em setembro de 1960 para combater o terrorismo da CIA, as unidades dos CDRs foram estabelecidas em cada quarteirão e em todas as áreas rurais, atuando como patrulhas de bairro para autodefesa.
A invasão da Baía dos Porcos pelos EUA
As tentativas de esmagar e sufocar a Revolução Cubana têm sido a política bipartidária de ambos os partidos capitalistas dos EUA desde o início. John F. Kennedy sucedeu Eisenhower em 1961 e imediatamente autorizou o plano preexistente da CIA para derrubar a Revolução. O plano consistia em uma pequena força de dissidentes invadir Cuba pela Baía dos Porcos — ou Playa Girón — no sul da ilha. Foi também JFK quem assinou o embargo a todo o comércio com Cuba em 1962.

As informações de inteligência para a operação da Baía dos Porcos pressupunham a existência de um sentimento generalizado contra Castro na ilha. Assim como ocorria com as suposições arrogantes do imperialismo no Vietnã ou na atual guerra contra o Irã, acreditava-se que a população se levantaria para apoiar a incursão imperialista, levando ao colapso do regime.
Ocorreu o oposto. Em 17 de abril de 1961, cerca de 1.500 exilados contrarrevolucionários desembarcaram em Playa Girón; no entanto, os CDRs estavam à espera, e os EUA fracassaram miseravelmente. Os combates foram intensos, mas duraram apenas dois dias. 1.200 invasores foram capturados, e cerca de 100 pessoas morreram de cada lado.
Entre os que foram tomados como prisioneiros, 800 pertenciam à antiga oligarquia, com um patrimônio que incluía dois bancos, cinco minas, dez usinas de açúcar, 70 fábricas, 10.000 casas e um milhão de acres de terra. Essa é a origem de classe dos gusanos — os “dissidentes cubanos” de Miami —, que ainda salivam com a perspectiva de reconquistar Cuba e recuperar o valor de suas propriedades, acrescido de juros.
As massas armadas haviam derrotado de forma decisiva a invasão e a tentativa de golpe dos EUA. Às vésperas desse feito histórico, Fidel Castro proclamara, pela primeira vez de forma explícita, o caráter socialista da Revolução durante um comício anti-imperialista de massas.
Fidel Castro foi um combatente revolucionário íntegro — um homem de ação. No entanto, apesar de suas enormes contribuições no plano prático, ele não contribuiu para a teoria do marxismo. Infelizmente, não havia em Cuba — nem em qualquer outro lugar — uma força marxista genuína de dimensão suficiente para oferecer um exemplo e uma base teórica à liderança cubana.
A influência da URSS
O fato de Fidel ter se identificado como “marxista-leninista” certamente tem muito a ver com a existência da União Soviética, que desempenhou um papel de enorme relevância na trajetória da Revolução Cubana.
A URSS atuou como um poderoso contrapeso ao imperialismo dos EUA, restringindo a capacidade deste de intervir em Cuba e em outras revoluções anticoloniais ao redor do mundo. Na década de 1960, cerca de um terço da população mundial vivia em regiões onde o capitalismo havia sido expropriado.
Acima de tudo, a União Soviética oferecia um exemplo vivo da força e da superioridade de uma economia planificada e estatizada. Em poucas décadas, a URSS havia industrializado rapidamente um país atrasado, derrotado os exércitos de Hitler e se tornado a segunda superpotência mundial.
Cuba estabeleceu uma relação economicamente vantajosa com a União Soviética, que comprava o açúcar cubano a preços elevados e vendia a Cuba todo tipo de produtos a preços baixos — sobretudo petróleo, mas também maquinário. 80% do comércio de Cuba ocorria com a URSS e o bloco do Leste Europeu, e 63% de suas importações de alimentos e 80% de suas importações de maquinário provinham da URSS. A União Soviética também fornecia empréstimos a baixo custo, além de equipamentos militares e assistência.
No entanto, essa assistência tinha um preço. Politicamente, o stalinismo exerceu uma influência nociva em Cuba, reforçando tendências burocráticas já existentes — embora esse processo fosse repleto de contradições. Cuba era um Estado operário deformado, mas não havia surgido do stalinismo soviético; a liderança cubana possuía sua própria base de apoio. A primeira década da Revolução, em particular, foi um período de efervescência ideológica e amplo debate, que incluiu muitas divergências entre os stalinistas — apoiados pela burocracia soviética — e os revolucionários cubanos.
Por exemplo, o Departamento de Filosofia da Universidade de Havana rejeitou os manuais soviéticos de “Marxismo-Leninismo”, buscando romper com a ideologia fossilizada e distorcida ensinada em Moscou. Em vez disso, elaboraram seu próprio currículo, baseado no estudo dos textos originais de Marx, Engels, Lênin e dos filósofos clássicos.
Che Guevara personificou o embate entre Cuba e a URSS em diversas questões. Ele defendia o planejamento econômico e a necessidade de industrializar o país, contrariando as recomendações soviéticas, que preconizavam mecanismos de mercado para a alocação de recursos. As relações comerciais entre os dois países também ameaçavam tornar a economia cubana totalmente dependente da URSS, com um modelo de monocultura baseado na exportação de açúcar.
Che também criticou os problemas da burocracia. Em 1962, ao notar a falta de envolvimento dos trabalhadores e o absenteísmo nos locais de trabalho, ele disse:
“Ficamos para trás na tentativa de envolver os trabalhadores… De quem é a culpa? Claramente, a culpa não é deles. Nós, o ministério e os líderes sindicais é que somos os culpados… Tornamo-nos burocratas perfeitos… Por que as grandes tarefas a serem realizadas pela classe trabalhadora sempre surgiam como iniciativas burocráticas?… O que poderíamos fazer para levar a classe trabalhadora a participar da liderança de seus locais de trabalho?”
A participação dos trabalhadores a partir da base, por meio de estruturas democráticas dotadas de mecanismos de tomada de decisão, é essencial para alcançar o socialismo. Sem isso, os trabalhadores tornam-se apáticos e alheios ao processo produtivo. A burocracia conduz inevitavelmente à má gestão, ao desperdício e à corrupção. Em oposição ao modelo stalinista de cima para baixo, o que se fazia necessário era uma democracia proletária baseada em conselhos eleitos pelos trabalhadores e camponeses, com membros sujeitos à revogação imediata do mandato e sem privilégios especiais.
Acima de tudo, Che Guevara criticava a política externa soviética contrarrevolucionária de “coexistência pacífica” com o Ocidente, segundo a qual se deviam evitar revoluções na esfera de influência dos EUA. Em contrapartida, Che e Fidel viam a Revolução Cubana como parte da revolução latino-americana e da luta dos povos coloniais contra o imperialismo. Como afirmou Che Guevara em 1965:
“Não há fronteiras nesta luta de vida ou morte. Não podemos ser indiferentes diante do que ocorre em qualquer parte do mundo. Uma vitória de qualquer país contra o imperialismo é a nossa vitória, assim como a derrota de qualquer país é a nossa derrota. A prática do internacionalismo proletário não é apenas um dever para os povos que lutam por um futuro melhor; é também uma necessidade incontornável… Os países socialistas têm o dever moral de acabar com sua cumplicidade tácita com os países exploradores do Ocidente.”
O erro foi a tentativa de utilizar táticas de guerrilha para exportar a revolução. Essa ênfase na ação guerrilheira — que havia obtido êxito em Cuba apenas graças a uma convergência específica de circunstâncias — conduziu toda uma geração de revolucionários a um fim trágico. A política do imperialismo norte-americano na América Latina, naquele período, poderia ser resumida na frase: “Não permitiremos outra Cuba”. Os EUA haviam aprendido algumas lições com aquela experiência e não seriam derrotados em um confronto puramente militar.
Che Guevara foi ferido, capturado e morto por tropas treinadas pela CIA durante um confronto armado na Bolívia, em outubro de 1967. Esse episódio, somado ao fracasso da colheita de dez milhões de toneladas de açúcar em 1970, marcou uma importante virada. A economia do país foi devastada por uma tentativa burocrática de aumentar artificialmente a produção de açúcar para atender à cota de importação da URSS. Isso resultou na total dependência econômica de Cuba em relação à União Soviética.
A subjugação política e ideológica resultante refletiu-se no “Quinquênio Cinzento” (Quinquenio Gris) de 1971–1975. Tratou-se de um período de repressão e censura, durante o qual qualquer divergência em relação ao pensamento oficial era reprimida. As tendências burocráticas intensificaram-se com a introdução de privilégios especiais para as elites da hierarquia do partido e do Estado.
No entanto, a dimensão da repressão jamais se aproximou daquela observada na contrarrevolução política stalinista na Rússia. Por exemplo, embora pessoas fossem demitidas ou expulsas do Partido por demonstrarem tendências oposicionistas, muitas vezes acabavam sendo reintegradas. Não houve expurgos em massa, julgamentos-espetáculo ou gulags destinados a aniquilar fisicamente a liderança da Revolução. Ao contrário do que ocorreu na Rússia, não houve um rio de sangue a separar os revolucionários de uma burocracia que usurpou o poder político.
Apesar de seus erros e da falta de clareza teórica, Fidel Castro e sua geração tinham, de fato, realizado a revolução, e sua colossal autoridade política permitiu-lhes permanecer no poder. A verdadeira tragédia foi a ausência de uma autêntica internacional comunista que pudesse ajudar a orientar esses esforços e difundir a revolução pelo mundo. O baixo nível econômico e o isolamento de Cuba eram — e continuam sendo — as principais ameaças à Revolução.
As conquistas da Revolução Cubana
A Internacional Comunista Revolucionária defende incondicionalmente a Revolução Cubana. Tratou-se de um governo que resistiu firmemente ao imperialismo e aos seus agentes cubanos, conquistou soberania genuína, realizou a reforma agrária, desarmou a reação, armou o povo e nacionalizou a propriedade capitalista. Com base nisso, alcançou avanços incríveis em todas as áreas.

Nos 25 anos seguintes à Revolução, a expectativa de vida subiu de 53 para 73 anos. Em 2025, a expectativa de vida chegou a 79,5 anos — um índice ligeiramente superior ao dos EUA e muito acima do registrado em países mais comparáveis, como a República Dominicana, o Haiti ou a Jamaica.
Cuba construiu um sistema público de saúde de excelência e totalmente gratuito. O país detém a maior proporção de médicos per capita do mundo — três vezes maior que a dos EUA. A taxa de mortalidade infantil, que anteriormente era de 79,5 por mil nascidos vivos, caiu para 4,0 em 2019, enquanto nos EUA o índice era de 5,9.
Uma campanha de grande envergadura erradicou efetivamente o analfabetismo. Isso foi alcançado por meio da mobilização popular, do envio de brigadas de alfabetização para as áreas rurais e da expansão da educação em todos os níveis, tornando-a pública e gratuita para todos. Por exemplo, já em 1959, o exército foi mobilizado para construir sistemas escolares completos, e grandes instalações militares do antigo regime foram transformadas em centros educacionais.
No auge do processo, a Revolução oferecia creches e assistência social gratuita para idosos, refeições escolares gratuitas e almoços a baixo custo em refeitórios de locais de trabalho. Também organizava atividades sociais e culturais — como programas gratuitos extraescolares, esportes e acesso a museus — e, de modo geral, subsidiava e promovia o desenvolvimento artístico e cultural.
A socialização de muitos aspectos do trabalho doméstico ajudou a libertar as mulheres de seu fardo doméstico. Dez anos após a revolução, metade dos estudantes de medicina de Cuba eram mulheres. As mulheres também representavam metade dos membros dos Comitês de Defesa da Revolução. Aliadas a campanhas culturais, essas medidas reduziram significativamente a desigualdade entre os sexos e os preconceitos de gênero.
Esse é o verdadeiro legado da Revolução Cubana.
O “período especial” da década de 1990
Essas conquistas foram fortemente comprometidas durante o chamado “período especial”, que se seguiu ao colapso da União Soviética. Quase da noite para o dia, as exportações cubanas caíram 80%, e as importações, 75%. Entre 1989 e 1993, o PIB de Cuba despencou 40%, e a população enfrentou grandes privações, como a escassez de alimentos, combustível, transporte, entre outros.
Foi também um duro golpe moral. O capitalismo parecia triunfante, com os imperialistas norte-americanos eufóricos diante da suposta derrota do comunismo. Cuba ficou completamente isolada no cenário mundial, e os EUA aproveitaram a oportunidade para apertar ainda mais o cerco. Por exemplo, Bill Clinton sancionou a Lei Helms-Burton em 1996, estabelecendo que empresas estrangeiras e nacionais poderiam ser processadas em tribunais norte-americanos caso mantivessem relações comerciais com Cuba.
A Revolução Venezuelana proporcionou uma tábua de salvação vital por um breve período, a partir de 2003, mas isso também chegou ao fim. O conselho infeliz dado pelo governo cubano à Venezuela foi o de não seguir o exemplo cubano — isto é, não expropriar as principais alavancas da economia. Esse foi um erro fatal que contribuiu para o colapso da Revolução Venezuelana e, consequentemente, para o novo isolamento da Revolução Cubana.

No entanto, apesar das imensas dificuldades, a Revolução Cubana sobreviveu ao “período especial”. Ao contrário do que ocorreu na URSS ou na China, onde os burocratas “comunistas” lideraram a restauração do capitalismo para se tornarem burgueses, o governo cubano decidiu manter a economia planejada. Diferentemente da Rússia, a população cubana e sua liderança sabiam como era a vida antes de 1959 e estavam determinadas a preservar as conquistas da Revolução.
Esse período testemunhou um despertar ideológico, com muitos debates buscando compreender por que e como a União Soviética havia colapsado. Isso incluiu, pela primeira vez na ilha, debates importantes sobre a obra-prima de Trotsky, A Revolução Traída, que descrevia a degeneração da URSS e alertava para a possibilidade de uma restauração capitalista.
Foi um período em que o espírito de luta da Revolução Cubana renasceu. A espontaneidade da base e as iniciativas vindas de baixo floresceram na tentativa de solucionar as dificuldades econômicas. No entanto, sob extrema pressão, o governo cubano viu-se forçado a fazer concessões ao mercado mundial: permitiu o investimento estrangeiro na ilha, promoveu o turismo como fonte de divisas, legalizou o dólar, descentralizou o comércio exterior e legalizou, de forma controlada, o trabalho autônomo e as pequenas empresas, entre outras medidas.
sses recuos podem ter sido necessários, mas, como demonstra a experiência chinesa, também representam uma grande ameaça e podem adquirir uma lógica própria, conduzindo a uma restauração capitalista completa. O processo de abertura ao mercado capitalista prosseguiu com maior vigor na década de 2010. Um segmento da burocracia passou a seguir esse caminho de forma consciente, buscando replicar o “modelo chinês” ou “vietnamita” de transição controlada para o capitalismo, sem abrir mão do poder político.
Defender a Revolução Cubana! Abaixo o imperialismo americano!
Hoje, o bloqueio petrolífero quase total imposto pelos EUA dizimou a capacidade de Cuba de gerar energia, com efeitos devastadores sobre o cotidiano de milhões de pessoas. Uma campanha criminosa e sistemática de sanções secundárias e pressão diplomática tem visado todos os aspectos da economia cubana, desde o turismo e a mineração até a exportação de serviços médicos, o transporte marítimo e o comércio. Trata-se de um cerco medieval brutal e cruel, cujo objetivo é forçar a rendição pela fome.
As medidas econômicas foram acompanhadas pela acusação forjada contra Raúl Castro — aos 95 anos de idade —, por ameaças de ação militar e por voos militares provocativos de coleta de informações de inteligência sobre a ilha.
Diante de tamanha pressão insuportável do imperialismo norte-americano, o governo cubano aprovou 176 medidas econômicas que, se implementadas, levarão à restauração completa do capitalismo.
A abolição da economia planificada significaria a destruição de todas as conquistas da Revolução, que ainda persistem, embora bastante enfraquecidas. Cuba retornaria a 1958: um país acorrentado, dominado — econômica e politicamente — pelo capital financeiro dos EUA. Uma pequena minoria enriqueceria; a esmagadora maioria sofreria com a pobreza, o desemprego e a miséria.
A causa fundamental dos problemas que a Revolução Cubana enfrenta reside no seu isolamento. Os únicos aliados confiáveis com os quais a Revolução pode contar são a classe trabalhadora mundial e as massas pobres. O único caminho a seguir é uma política de revolução socialista mundial. O destino da Revolução Cubana será, em última análise, decidido na arena da luta de classes internacional.
É um dever particular dos Comunistas Revolucionários da América continuar a levantar a bandeira da defesa de Cuba contra o imperialismo ianque. Devemos renovar nosso compromisso de construir as forças do comunismo revolucionário nos EUA e em todo o mundo, juntamente com todos os nossos camaradas da Internacional Comunista Revolucionária. A vitória da classe trabalhadora em qualquer país seria uma poderosa alavanca para romper o isolamento da Revolução Cubana. Uma vitória nos Estados Unidos será decisiva.


