Segundo o The New York Times, a guerra contra o Irã não foi tramada em Washington, mas em Jerusalém. Foi Benjamin Netanyahu quem formulou o plano, que apresentou a Trump e seu gabinete para aprovação em uma reunião na Casa Branca, em fevereiro.
Quatro meses depois, Trump está desesperado. Todos os objetivos de guerra inicialmente declarados pelos EUA foram discretamente arquivados, e tudo o que Trump quer agora é salvar as aparências e reabrir o Estreito de Ormuz.
Netanyahu tem outras ideias. Seus objetivos, bem distintos dos objetivos dos americanos, envolvem a expansão do território ocupado por Israel, o desmembramento do Irã e, acima de tudo, manter os EUA em uma guerra prolongada. Ele está, portanto, tentando romper o cessar-fogo e retomar as hostilidades, provocando continuamente os iranianos no Líbano.
“Você está completamente louco”, disse Trump a Netanyahu recentemente por telefone. “Você estaria na prisão se não fosse por mim. Estou salvando a sua pele. Todo mundo te odeia agora. Todo mundo odeia Israel por causa disso.”
E, no entanto, o cessar-fogo parece cada vez mais frágil. Trump é incapaz de forçar o Irã a aceitar qualquer posição que não pareça uma rendição por parte dele. E, portanto, Netanyahu pode conseguir o que quer, mesmo que isso signifique ignorar Trump. Após a última troca de farpas entre Irã e Israel, Trump repreendeu Netanyahu com raiva por ter atacado o Irã. “Quem manda sou eu”, lembrou-lhe, sem muita convicção.
Desde 7 de outubro de 2023, Israel parece estar ditando o ritmo dos acontecimentos, travando a guerra em sete frentes, enquanto os EUA aparentemente se deixam conduzir. Uma nação que abrange um continente inteiro, com 350 milhões de habitantes, está sendo conduzida por um caminho que se mostra extremamente prejudicial aos seus interesses por uma pequena nação com menos de 10 milhões de habitantes, ocupando uma pequena área de terra a 9.000 km de distância.
Essa aparente imposição de Israel aos Estados Unidos alimentou teorias da conspiração antissemitas. No entanto, essa estranha relação merece uma explicação, que, na verdade, é muito mais simples do que uma conspiração.
As origens da relação EUA-Israel
A relação entre os EUA e Israel começou a se desenvolver no período pós-II Guerra Mundial. Na época, o Oriente Médio emergia como uma região-chave para os Estados Unidos, que ascendiam ao status de superpotência capitalista mundial.
Por que o Oriente Médio é tão importante? O petróleo certamente desempenhou um papel. Em 1970, a produção de petróleo bruto dos EUA atingiu seu pico e, posteriormente, caiu. Enquanto isso, o prolongado boom industrial do período pós-guerra levou a uma demanda cada vez maior dos EUA por petróleo do Golfo.
Mas o petróleo é apenas parte da equação. Um fator não menos importante foi o medo do comunismo por parte da classe dominante dos EUA. Dada a sua proximidade com a União Soviética e as convulsões revolucionárias que varreram a região a partir da década de 1950, o Oriente Médio era uma linha de frente na Guerra Fria.
Hoje, o imperialismo americano e Israel estão tão interligados que pode ser tentador imaginar que sempre tiveram essa relação; que Israel surgiu como uma cabeça de ponte para os interesses dos EUA na região desde o início. Mas não foi assim que as coisas realmente aconteceram.
Como evoluiu a relação entre os EUA e Israel?
Em 1948, na época da Nakba, o principal objetivo do crescente imperialismo americano era suplantar a influência da Grã-Bretanha, que estava em declínio, no Oriente Médio.
Os britânicos mantinham seu domínio principalmente por meio de uma série de monarquias reacionárias. O estabelecimento de Israel foi conveniente para os americanos, pois enfraqueceu a Grã-Bretanha. O presidente Truman, portanto, reconheceu rapidamente o Estado de Israel.
No entanto, o imperialismo americano não queria apenas enfraquecer o Império Britânico. Queria assumir o controle total, o que significava conduzir as monarquias árabes reacionárias para sua própria órbita. Os americanos, portanto, tiveram o cuidado de não inflamar a opinião pública árabe contra si mesmos naquele momento, demonstrando zelo excessivo pelo novo Estado de Israel, que havia se estabelecido por meio do terror e da limpeza étnica de árabes.
Como já discutimos em outro momento, os EUA apoiaram Israel, mas em grande parte indiretamente, principalmente por meio das reparações da Alemanha Ocidental e da assistência privada de capitalistas judeus americanos.
Mas, na década de 1950, a política dos EUA enfrentou um novo desafio. As monarquias árabes reacionárias estavam caindo como dominós por toda a região, à medida que militares nacionalistas árabes radicais pressionavam as massas para lançar golpes de Estado, começando com o golpe dos Oficiais Livres no Egito, em 1952.

Mesmo aqui, diante de algo novo, os estrategistas do imperialismo estadunidense tatearam o caminho empiricamente. Afinal, o rei Farouk do Egito havia sido um fantoche britânico, não americano. Talvez os americanos pudessem trabalhar com Nasser?
Assim, em 1956, quando Nasser nacionalizou o Canal de Suez – e os israelenses, britânicos e franceses ocuparam a Península do Sinai em resposta – o presidente Eisenhower exigiu furiosamente a retirada deles.
Alguém consegue imaginar um presidente americano adotando tal postura com Israel hoje? Certamente, seria possível imaginar tais exigências sendo feitas à Grã-Bretanha e à França, mas não a Israel!
As consequências da Crise de Suez comprometeram as relações de Israel com os EUA por uma década. Não é por acaso que Israel desenvolveu seu próprio programa nuclear nas décadas de 1950 e 1960, às escondidas dos EUA, em colaboração secreta com o imperialismo francês.
No entanto, essa política americana logo se tornou desvantajosa. O Egito, que antes buscava o equilíbrio entre as grandes potências, começou a se inclinar cada vez mais para os soviéticos, de quem passou a receber armas em grande quantidade. A Síria começou a seguir o mesmo caminho. Então, em 1958, a revolução eclodiu no Iraque e a monarquia hashemita foi derrubada, sendo substituída também por militares nacionalistas ansiosos por emular Nasser.
A política americana teve que se adaptar. No final da década de 1950, o presidente anunciou sua doutrina homônima, a “Doutrina Eisenhower”: os EUA interviriam onde quer que considerassem necessário para “conter o comunismo”, o que fizeram na Jordânia e no Líbano.
A máscara caiu. O imperialismo estadunidense se revelou abertamente como uma potência imperialista agressiva na região, disposta a intervir militarmente para defender seus interesses.
Após a Guerra dos Seis Dias: Israel, o “porta-aviões inafundável”
O problema era que os EUA estavam preocupados com o Vietnã. O que os americanos mais precisavam no Oriente Médio era de um aliado poderoso e armado que pudesse usar como instrumento de influência. Foi nesse contexto que Kennedy assinou o primeiro grande acordo militar diretamente com Israel, em 1963.
Mas o verdadeiro ponto de virada na relação EUA-Israel ocorreu em 1967, com a vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias.
Em um ataque preventivo impressionante, Israel destruiu toda a força aérea egípcia antes mesmo de ela decolar. A partir daí, rapidamente tomaram a Cisjordânia da Jordânia, as Colinas de Golã da Síria e não apenas Gaza, mas toda a Península do Sinai até o Canal de Suez do Egito.
A classe dominante americana ficou em êxtase. De uma só vez, dois dos principais aliados da URSS na região (Egito e Síria) sofreram um duro golpe, sem a participação de um único soldado americano. A partir desse momento, dinheiro, armas e informações de inteligência começaram a fluir na direção de Israel.
Desde então, Israel recebeu mais de US$ 330 bilhões em ajuda, ajustados pela inflação. Os EUA o transformaram econômica e militarmente em uma superpotência regional: uma pequena e poderosa Esparta capaz de lutar em nome da América.
Seus gastos militares pintam um retrato vívido da economia distorcida e militarizada de Israel. Até 1967, esses gastos permaneceram abaixo de 10% do PIB – ainda um valor alto para a maioria dos padrões. Então, em 1967, dispararam para mais de 15% e continuaram a subir. Os gastos militares atingiram o pico de mais de 30% (!) do PIB em 1975, nunca caindo abaixo de 15% até 1986.
Durante todo o período de 1967 até o fim da Guerra Fria, Israel foi um campo armado, sustentado por dólares americanos. Tornou-se “o maior porta-aviões americano inafundável do mundo”, para citar as palavras do general americano Alexander Haig.
Em troca desse apoio, os israelenses retribuíram seus benfeitores americanos muitas vezes.
A vitória de Israel na Guerra dos Seis Dias – e nas guerras subsequentes no início da década de 1970 – levou quase diretamente, após a morte de Nasser em 1970, ao retorno do Egito à esfera de influência dos EUA sob o governo de Sadat.

Na Síria também, a derrota contribuiu para a queda dos oficiais baathistas de esquerda e deu ascensão a elementos de direita sob o comando de Hafez al-Assad em 1970, que iniciou a infitah (abertura), o que deu início ao processo de restauração do capitalismo.
Não é de estranhar que Israel fosse tão admirado por seus apoiadores, as classes capitalistas americanas e ocidentais.
Os laços que uniam os dois se fortaleceram e se multiplicaram. Israel atraiu investimentos de capital ocidental. O setor tecnológico israelense é hoje líder mundial em cibersegurança e tecnologia de drones e robótica com inteligência artificial, tudo graças à relação privilegiada que mantém com o complexo militar-industrial dos EUA, do qual é um valioso complemento.
E sua relação é de fato privilegiada. Israel não só recebe a maior parte da ajuda militar dos EUA no mundo, como é o único país que os EUA permitem usar essa ajuda para sustentar sua própria indústria bélica, em vez de comprar armamentos americanos.
Enquanto isso, o Mossad tornou-se um elo fundamental da inteligência americana. O general americano John Keegan descreveu a contribuição da inteligência de Israel para os EUA como “o equivalente a cinco agências da CIA”.
Em suas inúmeras guerras, Israel capturou enormes quantidades de equipamentos e armamentos soviéticos, o que permitiu aos EUA manterem a vantagem na corrida armamentista. Ajudou os EUA a obterem radares, tanques e até mesmo caças soviéticos. Em um caso, o Mossad chegou a induzir um piloto iraquiano a voar em um MiG soviético diretamente para Israel.
Poderíamos continuar, mas o ponto já foi esclarecido.
Considerando os serviços que Israel prestou ao imperialismo americano e o valor que adquiriu, não é de se admirar que tenha cativado os corações e as mentes da classe dominante americana por tantas décadas. O apoio a esta pequena nação tornou-se um princípio fundamental, e bipartidário.
Seus apoiadores mais fervorosos formaram um lobby poderoso – o mais poderoso da política americana. Além de incluir muitos capitalistas judeus americanos e membros influentes da comunidade judaica, o lobby pró-Israel também abrange um componente sionista cristão evangélico igualmente poderoso.
Eles trabalharam juntos para fomentar laços culturais, econômicos e políticos, silenciar os antissionistas e, acima de tudo, garantir a postura mais pró-Israel possível em Washington. Buscaram entrelaçar os destinos desses dois países de forma intrínseca.
Mas devemos enfatizar: a ascensão do lobby pró-Israel não é a causa dessa relação especial, mas sim sua consequência. A afinidade da classe dominante americana por Israel não precisa do lobby pró-Israel como explicação, assim como sua hostilidade à Revolução Cubana não precisa do lobby gusano-cubano como explicação.
Mas mesmo quando as ações de Israel, para um observador objetivo, são claramente prejudiciais aos interesses do imperialismo americano, o que vemos? Essa poderosa corrente de opinião na classe dominante dos EUA, esse instinto, instigado pelo lobby israelense, mantém o país em perfeita sintonia com Israel, mesmo quando ambos divergem. No entanto, tudo tem seus limites.
Israel tem seus próprios interesses
A classe dominante israelense sempre teve seus próprios interesses, bem distintos dos interesses dos EUA. E eles têm sido muito menos tímidos em desafiar seus benfeitores quando se trata de afirmar esses interesses do que os EUA têm sido em desafiar Israel!
De onde vem essa veia desafiadora dos israelenses? O cálculo da classe dominante israelense é simples. Para o imperialismo americano, sua relação com Israel é tudo ou nada. Ou Israel mantém a superioridade militar na região, ou não.
Os americanos podem reclamar das ações do governo israelense, podem suspender temporariamente os envios de armas, mas, governo após governo em Israel, sempre calcularam que, no fim, eles acabarão ficando do lado deles.
Assim, a classe dominante israelense tem defendido agressivamente seus próprios interesses, em muitas ocasiões em desafio direto aos presidentes americanos. Isso incluiu até mesmo atos abertamente hostis contra os próprios EUA, como espionagem industrial e roubo de segredos nucleares, além de simplesmente levar sua agenda expansionista mais longe do que os presidentes americanos gostariam.
Na década de 1980, Reagan – que era mais pró-Israel até mesmo para os padrões dos presidentes americanos – ficou estarrecido com o fato de os israelenses terem bombardeado a usina nuclear de Osirak, no Iraque, em 1981, sem sequer avisar os Estados Unidos. Ele ficou desesperado quando os israelenses começaram a bombardear Beirute em 1982.
Ele chegou a telefonar para o primeiro-ministro israelense Begin, cujas forças avançavam sobre Beirute, e acusá-lo de cometer um “holocausto”! Palavras fortes, sem dúvida, para um presidente americano, recentemente superadas pela diatribe repleta de palavrões de Trump contra Netanyahu, enquanto este ameaçava Beirute.
No fim das contas, porém, Reagan apoiou todos os crimes horríveis de Israel no Líbano. Mais do que isso, ele foi o presidente que mais firmemente consolidou a “relação especial” com Israel. Ele definiu novos e singulares níveis de parceria estratégica e militar, com todos os inúmeros privilégios que daí advinham para Israel, e chegou mesmo a socorrer Israel financeiramente quando a sua economia militarizada, enormemente distorcida, sucumbiu à hiperinflação e ao colapso bancário em 1985.
Esta é a história do começo ao fim:
- Os primeiros-ministros israelenses fazem o que querem;
- Os presidentes americanos reclamam;
- Israel consegue o que quer.
Assim como essa singular “relação especial” fomentou uma lealdade fanática a Israel na classe dominante americana, que persiste muito além do ponto em que deixou de ser racional, também distorceu a psicologia da classe dominante israelense, personificada sobretudo em Benjamin Netanyahu, que domina a política israelense desde a década de 1990.
O perverso pequeno valentão do parquinho anda por aí intimidando as outras crianças com confiança, porque acha que tem o grande valentão do seu lado.
Em imagens vazadas de 2001, Netanyahu explica, com ar de superioridade, aos jornalistas como minou os Acordos de Oslo. Questionado se temia irritar os americanos, respondeu: “Eu sei o que é a América. A América é algo que se pode manipular com muita facilidade”.
A classe dominante israelense percebe que tem todo o poder do império mais forte da Terra a seu favor e se acostumou a abrir e fechar esse apoio como quem abre uma torneira.
A psicologia da classe dominante americana
Eis, talvez, a questão pertinente: os Estados Unidos tinham, de fato, interesse em construir Israel como essa pequena Esparta. Mas a Guerra Fria acabou. Enquanto isso, o petróleo proveniente do xisto significa que os EUA, longe de dependerem do petróleo do Golfo, são agora um dos maiores exportadores mundiais.
Os interesses americanos mudaram. Então, por que a classe dominante americana não mudou também? Seu caso de amor com Israel continua.
A consciência de classe não se desenvolve imediatamente em sincronia com os acontecimentos. E a consciência da classe dominante americana foi moldada por oito décadas de domínio irrestrito.
O establishment nos EUA – republicanos neoconservadores e democratas liberais – compartilha uma visão fundamentalmente unificada. Um argumenta que a força americana irrestrita traz consigo “segurança” e “prosperidade”; o outro argumenta que os EUA têm o dever de manter a “ordem mundial baseada em regras”.
Ambas as afirmações se resumem à mesma coisa: os Estados Unidos podem e devem se impor em todos os lugares; os Estados Unidos podem e devem permanecer a potência hegemônica mundial. É quase uma visão de mundo subjetivista e pós-moderna. Se os Estados Unidos querem algo, podem tê-lo. É apenas uma questão de vontade, independentemente da realidade!
Essas são as pessoas que dão as cartas, que estão trabalhando em conluio com Israel neste momento para colapsar o cessar-fogo com o Irã, por mais insano que isso seja. Elas vivem em um mundo à parte do nosso, um mundo onde podem fazer o que quiserem e onde Israel é seu confiável e “inafundável porta-aviões”, em vez de um passivo sujeito a crises.
E Trump também vive no passado. Considere-se o Irã. Qual cidadão americano sabia onde ficava a Ilha de Kharg antes do início da guerra em fevereiro? Trump sabia. Já em 1988, ele havia dito que, se fosse presidente, “daria um jeito na Ilha de Kharg”.
Toda a classe dominante americana sabe há muito tempo exatamente onde fica a Ilha de Kharg. A classe dominante dos EUA não está acostumada a ser humilhada e, quando sofre humilhação, fica remoendo o ocorrido. A humilhação que sofreram no Irã em 1979 – com o estabelecimento da República Islâmica do Irã e a crise dos reféns na embaixada dos EUA – os assombra há décadas.
A razão tem muito pouco a ver com a política deles. O “razoável” para os americanos fazerem agora seria reconhecer a derrota e negociar a retirada da guerra. Isso significaria reconhecer o controle iraniano do Estreito de Ormuz e uma posição muito menor para os EUA na região.
Mas a classe dominante americana não consegue conceber um mundo onde seu poder seja limitado. Até mesmo a ideia de negociação parece estranha para a classe dominante americana. Os Estados Unidos não negociam. Negociação significa concessão. Se os Estados Unidos querem algo, eles intimidam e impõem sua vontade, e conseguem.

Assim, as “negociações” que precederam esta guerra não foram negociações de fato. Foram apenas um meio de ganhar tempo enquanto equipamentos militares eram deslocados para a região. Os negociadores iranianos ainda estavam à mesa de negociações em Omã quando os Estados Unidos tentaram decapitar o regime.
Poderíamos acrescentar que as negociações conduzidas pelos americanos com os russos sobre a Ucrânia foram igualmente superficiais, refletindo a mesma psicologia fundamental.
Um ponto de inflexão
As coisas têm sido assim por décadas. Mas tudo tem um limite. Eventualmente, a quantidade precisa se transformar em qualidade. Em primeiro lugar, a aproximação dos Estados Unidos moldou Israel em uma sociedade que agora está sendo dilacerada por suas próprias contradições internas.
Por um lado, Israel se vangloria de ser a “única democracia” do Oriente Médio. Por outro lado, o nível da discriminação legalmente sancionada contra os palestinos, incorporada nas leis israelenses, ridiculariza tal afirmação, enquanto a Lei do Estado-Nação de 2017 define oficialmente os não judeus como cidadãos de segunda classe.
Por um lado, abriga algumas das indústrias de alta tecnologia mais avançadas do mundo. Por outro, cultivou uma enorme multidão de colonos fanáticos que acreditam na verdade literal da Torá.
Por um lado, Israel tem o maior número de “unicórnios” (empresas avaliadas em mais de US$ 1 bilhão) em relação ao PIB de qualquer país do mundo. Por outro lado, apresenta alguns dos piores níveis de pobreza da OCDE.
Apenas seis meses antes de 7 de outubro de 2023, todas essas contradições explodiram à superfície. Israel foi assolado por enormes protestos, greves gerais e desobediência civil. A classe dominante estava em guerra consigo mesma.
Netanyahu conseguiu encobrir essas contradições com uma guerra após a outra, começando em Gaza. Ao fazer isso, ele adiou o dia do acerto de contas, elevando as contradições na sociedade israelense ao extremo.
Israel é um país pequeno. Após três anos de guerra contínua através de um exército de recrutas, a disciplina aparentemente está se deteriorando dentro das forças de ocupação no Líbano. Mais da metade dos reservistas não atende às convocações das Forças de Defesa de Israel. 63% dos oficiais querem deixar o exército.
Problemas econômicos se avizinham. As startups de tecnologia estão em desordem. Uma importante parcela da população em idade ativa está no exército. Os problemas de saúde mental atingiram níveis epidêmicos. Acima de tudo, Israel sofreu um enorme golpe psicológico. A imagem que a classe dominante havia cultivado, de que Israel é uma força invencível, foi destruída. O Estado sionista não pode mais alegar estar à altura de sua própria justificativa para a existência: a de garantir a segurança dos habitantes judeus de Israel.
A cada etapa, Netanyahu elevou a aposta para manter seu governo unido e salvar a própria pele. Até agora, ele conseguiu. Mas as contradições internas em Israel ameaçaram ressurgir repetidamente, cada vez com mais violência – como vimos com a raiva direcionada a Netanyahu pelas famílias dos reféns, bem como pelos judeus ultraortodoxos quando ameaçados de perder a imunidade ao serviço militar obrigatório.
Tudo isso eventualmente chegará ao seu limite.
O futuro da relação EUA-Israel
Mas as coisas também precisam chegar ao limite para a relação EUA-Israel. Os eventos dos últimos três anos estão minando profundamente o apoio a Israel dentro dos EUA.
Antes de 7 de outubro de 2023, a maioria dos americanos simpatizava com Israel (54%) em detrimento da Palestina (31%). Essa situação se manteve por décadas.
Hoje, menos americanos apoiam Israel (35%) do que a Palestina (41%). Entre os jovens, os números são ainda mais impressionantes. Uma ampla maioria apoia a Palestina (53%) em oposição a Israel (31%).
Essas são mudanças sem precedentes na consciência do público americano. Nas palavras do congressista Democrata Ro Khanna: “Nunca vi a opinião pública mudar tão rápido em qualquer assunto, incluindo o casamento entre pessoas do mesmo sexo […] como a que ocorreu na relação entre os EUA e Israel.”
Os Democratas estão sentindo a pressão. O dinheiro do grupo de lobby israelense AIPAC tornou-se a sentença de morte para alguns políticos Democratas, a ponto de ter sido revelado que o AIPAC recorreu a financiamento obscuro por canais paralelos para evitar a identificação. Os Republicanos também estão sentindo a pressão. A base MAGA também está dividida sobre essa questão, com figuras como Tucker Carlson acusando Trump de mudar de “América Primeiro” para “Israel Primeiro”.

Será possível, apesar de tudo, imaginar uma ruptura entre Israel e os EUA em algum momento? Independentemente do lugar que Israel ocupe na psicologia do imperialismo estadunidense, há outra consideração, que tentaremos ilustrar com uma pequena analogia.
Antes do início do declínio do imperialismo estadunidense, antes de se tornar a potência hegemônica mundial, existiu o imperialismo britânico.
Após a Primeira Guerra Mundial, Ronald Storrs foi imposto pelos britânicos como governador militar de Jerusalém, justamente quando estes assumiam o controle da Palestina como a nova potência colonial. Divertia-se em se autodenominar “o primeiro governador militar de Jerusalém desde Pôncio Pilatos”. Os britânicos incentivaram a imigração judaica e fomentaram a divisão entre árabes e judeus.
Em sua autobiografia, escrita antes da fundação de Israel, Storrs explicou que os imperialistas britânicos cogitaram a ideia de criar para si uma “pequena Ulster judaica leal em um mar de arabismo potencialmente hostil”. Assim como a Irlanda católica foi povoada por protestantes no século XVII, numa tentativa de garantir uma guarnição para os interesses britânicos, imperialistas como Storrs imaginaram os judeus desempenhando um papel semelhante entre os árabes.
Uma “pequena Ulster judaica leal” essencialmente se concretizou, só que leal aos americanos em vez dos britânicos.
Pode haver alguns paralelos entre o Oriente Médio e a Irlanda. À medida que o imperialismo britânico declinava e seu império se desfazia, seus interesses também mudavam na Irlanda. No período pós-guerra, o norte da Irlanda havia se desindustrializado e havia pouca necessidade de uma presença permanente para repelir as ameaças dos rivais europeus à costa oeste britânica – tanto a Grã-Bretanha quanto seus rivais haviam se tornado pequenos vassalos americanos.
Assim, a Grã-Bretanha já não tinha interesse em manter a partição da Irlanda. Seu “Ulster leal” havia cumprido seu papel. Exceto que os britânicos haviam criado um Frankenstein. O lealismo ao Ulster não desapareceu silenciosamente dos livros de história. Continuou a fomentar o caos, a perseguir católicos. Produziu monstros como o Reverendo Ian Paisley, com seus sermões contra o papado.
No final da década de 1960, essas contradições ameaçavam explodir em guerra civil. Independentemente do que os britânicos desejassem – e talvez fosse do seu interesse, naquele momento, “deixar ir” o Norte da Irlanda – eles eram prisioneiros de sua política passada. Não conseguiam se desapegar. Estavam mais envolvidos do que nunca.
Tropas britânicas foram enviadas às ruas da Irlanda e mantidas ocupadas por décadas, enquanto os atentados a bomba atingiam o território britânico. Mesmo hoje, o Norte da Irlanda continua a criar problemas para o capitalismo britânico, já bastante enfraquecido. Basta observar o pogrom que vimos na última semana.
Como uma aranha presa em sua própria teia, o imperialismo britânico ficou enredado nas contradições que teceu no passado, que outrora serviram aos seus interesses, mas das quais já não conseguia escapar.
Os imperialistas americanos fizeram o mesmo, em uma escala muito maior, enredando todo o Oriente Médio, criando uma “pequena Ulster leal” com ambições expansionistas e armas nucleares. Mesmo que fossem capazes de encarar a realidade com sobriedade – e não demonstram qualquer sinal disso – seriam incapazes de se livrar desse impasse, que se torna um fator determinante para a aceleração de seu declínio.

