Na semana passada, assistimos ao movimento da juventude varrer a Europa e chegar à Itália. Na sexta-feira, dia 16, houve marchas estudantis em todo o país, desde as grandes cidades (onde as praças se encheram com muitos milhares de jovens) até as cidades menores.
[Publicado originalmente em italiano em rivoluzione.red]
A participação foi significativa, mas o que é importante destacar é que também houve uma tendência generalizada à organização espontânea dentro das escolas. Piquetes foram frequentemente montados de última hora, de uma forma que não se via na Itália há muito tempo. Em muitos casos, pequenas marchas partiram das escolas e se uniram às manifestações oficiais.
No dia seguinte, sábado, dia 17, manifestações contra o alto custo de vida ocorreram em várias vilas e cidades. A convocação para a ação foi muito desorganizada, circulando por meio de grupos de WhatsApp e TikTok, sem indicação clara de quem estava organizando os protestos. Os manifestantes levantaram palavras de ordem contra o estado de degradação das escolas, a alta dos preços, o custo da gasolina e os cortes na saúde.
Houve apelos para seguir o exemplo da França – não foi coincidência que este tenha sido exatamente o mesmo dia das mobilizações em massa em toda a França. Em alguns casos, também houve uma tentativa por parte de elementos de direita de explorar a situação em benefício próprio. No final das contas, o fator decisivo foi que, onde ocorreram, essas manifestações foram uma continuação dos protestos do dia anterior.
Em Milão, a marcha atraiu 5 mil pessoas, reunindo muitos jovens no centro da cidade. Jovens albaneses vincularam a marcha às lutas internacionais e a impulsionaram agitando a bandeira albanesa. O punhado de elementos de direita foi expulso da marcha, que gradualmente cresceu em tamanho e tornou-se mais radical em suas palavras de ordem. Eventualmente, um grupo de jovens – alguns dos quais muito jovens – entrou em confronto com a polícia. Esses confrontos continuaram até tarde da noite nas ruas do centro da cidade. Não eram ativistas, mas jovens expressando sua raiva – frequentemente imigrantes de segunda geração –, claramente inspirados pelo movimento na França.
Após as manifestações, uma onda de ocupações de escolas começou na segunda-feira, e haverá novas mobilizações nas próximas semanas. A primeira delas será a greve geral previamente convocada pelo sindicato USB para 30 de outubro.
Parece improvável que vejamos uma repetição do que aconteceu em 22 de setembro, quando os trabalhadores entraram em greve em apoio à Palestina, capitalizando a convocação do USB e organizando marchas em massa. Hoje, a classe trabalhadora está sob imensa pressão, mas os focos de tensão permanecem isolados por enquanto. No entanto, é certo que a greve atuará como um catalisador para a organização de manifestações estudantis que atrairão um número muito grande de participantes.
Embora muitos desses estudantes certamente tenham participado das manifestações do ano passado em apoio à Palestina, este ano o papel de liderança desempenhado pela geração mais jovem é o foco central. Os jovens já tiveram o suficiente e estão entrando em ação, encontrando gradualmente maneiras e meios para fazê-lo.
Este é o mesmo processo que estamos vendo na França, onde os protestos contra as condições nas escolas se transformaram em um levante de massa contra todo o sistema, que também está atraindo os trabalhadores para a luta. Mas a atual onda de protestos é muito mais ampla: Espanha, Albânia, Portugal, Grã-Bretanha, Irlanda, Brasil, Argentina… Não há espaço suficiente aqui para listar todos os grandes movimentos que irrompem pelo globo. Nunca antes a luta pelo futuro da sociedade foi tão internacional.
O sistema contra o qual lutamos é brutal
No entanto, para o governo, para os jornais e até mesmo para o Partido Democrático, a única coisa que importa é que as vitrines de lojas foram quebradas em Milão no sábado. Há dias que somos submetidos a uma campanha nojenta que retrata menores de idade – alguns com apenas 12 anos – como criminosos perigosos.

Aqueles que se apresentam como intelectuais escrevem artigos longos sobre a necessidade de compreender um “mal-estar geracional”, tão misterioso quanto perturbador. Mas o que diabos é tão difícil de entender? Neste país, os 5% mais ricos possuem mais riqueza do que os 90% mais pobres. As escolas estão em ruínas e caindo aos pedaços, e a única coisa que o governo faz é lançar campanhas racistas contra estudantes estrangeiros.
Houve violência na semana passada na Itália? Sim, 20 pessoas morreram no trabalho, como acontece todas as semanas; 1,5 milhão de famílias foram dormir em moradias precárias; 5,8 milhões de pessoas acordaram com problemas de saúde para os quais desistiram de buscar tratamento porque as listas de espera são longas demais e não podem pagar por uma consulta particular. Em Gaza, enquanto isso, os ataques Aéreos israelenses mataram mais sete palestinos, incluindo duas crianças.
Pedimos desculpas se não perdemos o sono por causa das vitrines da Foot Locker (cujo faturamento em 2025 foi de 354 milhões de euros), da Decathlon (cujo faturamento em 2025 foi de 16,8 bilhões de euros) ou das butiques de alta costura para os ricos na Via Montenapoleone, onde uma bolsa custa 500 ou 1.000 euros.
A verdadeira violência é a do sistema capitalista, que condena bilhões de pessoas em todo o mundo à pobreza, à guerra, à destruição ambiental e que rouba dos jovens um futuro.
Certamente houve manifestações no passado exigindo uma mudança nessas políticas. No ano passado, milhões de pessoas – incluindo muitos dos jovens que foram às ruas na sexta e no sábado – manifestaram-se pacificamente para exigir o fim do genocídio em Gaza. A resposta? Eles foram ignorados e, em seguida, reprimidos. Como resultado, algumas pessoas simplesmente concluíram que precisam encontrar outra maneira de fazer suas vozes serem ouvidas.
O governo está com medo
A resposta do governo foi a repressão. Dois dias após os confrontos, aprovou um decreto introduzindo um novo tipo crime: “participação violenta em uma manifestação”. Isso acarreta a pena de dois a cinco anos de prisão e uma multa de 20 mil euros – o equivalente a um ano de salário médio de um trabalhador assalariado. O governo também permitiu a prisão preventiva tanto durante quanto fora das manifestações, e afirmou que menores podem ser criminalmente responsabilizados sem quaisquer circunstâncias atenuantes relacionadas à idade.
Além disso, enviou mais 500 soldados para patrulhar as ruas de Milão. Inicialmente, também queria conceder poderes policiais ao exército, enviando soldados para perseguir e prender jovens. Adoraríamos ver um décimo desse zelo aplicado ao enfrentamento dos problemas sociais. Essas medidas mostram que o governo está no bolso de uma classe dominante que não deseja abrir mão de sua opulência e está disposta a lançar a polícia contra os jovens que exigem uma vida melhor.
Esta é uma lição útil sobre como esta sociedade funciona, mas essas medidas serão inúteis. Elas certamente causarão danos e sofrimento a muitos jovens, mas a história nos ensina que os problemas sociais não podem ser contidos pela polícia. Na França, Macron tentou isso (agora ele até impôs um toque de recolher em certas áreas de Paris) e os protestos escalaram ainda mais. O governo está falando grosso porque está com medo – ele pressente que, se os jovens tomarem as ruas, não poderá detê-los.
Além disso, a campanha para demonizar o movimento teve pouco efeito. A direita organizou um comício no centro de Milão na segunda-feira, dia 20, em destaque havia uma faixa que dizia “Reemigrar todos eles”, mas a adesão foi ridiculamente baixa – apenas algumas dezenas pessoas – e o ato foi inclusive vaiado por vários transeuntes.

O governo tem razão em se sentir pressionado, vendo a possibilidade de irrupção de uma luta massiva.
O problema, se é que há um, é que aqueles que poderiam assumir a tarefa de organizar o movimento – trazendo os trabalhadores para a luta – estão fazendo exatamente o oposto. A CGIL, principal sindicato do país, emitiu um apelo escandaloso na quarta-feira, dia 21, pela “coesão social”. Nós nos perguntamos: coesão entre quem? Entre aqueles que lançam as bombas e aqueles que morrem por causa delas? Entre o patrão que explora e o trabalhador que é explorado? Entre aqueles que despejam e aqueles que são expulsos de suas casas?
O resultado foi uma demonstração de solidariedade com o Partido Democrático e o prefeito de centro-esquerda de Milão, Sala. A única preocupação dele é que o centro da cidade permaneça atraente para os especuladores aos quais ele apela desde que organizou a Expo Milão de 2015, antes de se tornar prefeito. Afinal, a única crítica do prefeito ao governo foi que este não havia enviado policiais suficientes para Milão.
Demasiado para a coesão social! O que precisamos é lutar contra essa coesão social com uma luta de massas – a única forma de luta capaz de impactar a consciência de milhares de jovens que estão furiosos e buscam uma saída por meio de ações individuais.
Qual caminho o movimento deve tomar?
O Partido Comunista Revolucionário (PCR) esteve presente nas praças de toda a Itália na sexta-feira e no sábado, e seus militantes, tanto dentro quanto fora das escolas – inclusive nos locais de trabalho –, continuarão a apoiar o movimento.
Nesta fase, há várias tarefas fundamentais que propomos. A primeira, que já está em andamento, é ampliar a luta, aumentar o número de escolas participantes e garantir a mais ampla participação possível dentro das escolas. O caráter de massa do movimento é sua maior força.
As manifestações de 30 de outubro devem servir a esse propósito, e devemos organizar assembleias para promovê-las, bem como piquetes nas manhãs em frente às escolas.
Nas escolas que se mobilizam, o máximo de debates políticos possível deve ser incentivado. Nas próximas semanas, organizaremos assembleias sobre o movimento estudantil na França, a luta por moradia na Espanha, a experiência do movimento de Maio de 68 na França, como combater a direita, a libertação das mulheres e o que a revolução significa hoje.
Em segundo lugar, por meio de discussão democrática, devemos dar a essas lutas uma forma organizada. A base dessas discussões deve ser: qual é o método mais eficaz para a luta? Nesse sentido, é essencial que a justa raiva vista nas ruas não seja desperdiçada em objetivos sem importância ou secundários, ou em ações individuais. Ela deve ser organizada e direcionada.
Portanto, não devemos dividir as frentes, mas uni-las. Devemos convocar o movimento operário a se juntar à luta entrando em greve. Não de maneira simbólica, como os dirigentes sindicais concebem as greves com demasiada frequência, mas seguindo o modelo da greve geral de 3 de outubro; e não podemos parar por aí. Devemos entender como podemos verdadeiramente desafiar a classe dominante e vencer.
A crise climática, o racismo, as escolas degradadas, um sistema de saúde em colapso, o trabalho mal remunerado e a pobreza são meramente diferentes facetas da crise do sistema. Para resolver qualquer um desses problemas, devemos arrancar as alavancas da economia e do poder das mãos da classe dominante e colocá-las nas mãos dos jovens e dos trabalhadores, para que possam ser usadas para atender às necessidades coletivas. Hoje, lutar por um futuro significa lutar pelo comunismo.
Essa tomada de consciência está se tornando cada vez mais difundida, tanto nas ruas da Itália quanto nas da França. Vimos isso em primeira mão nos últimos dias. Houve um salto na consciência, mesmo em comparação com as manifestações do ano passado.
Mas a consciência abstrata e dispersa não é suficiente. Há uma necessidade urgente de construir um partido revolucionário baseado em ideias claras, educação política, ação militante e métodos democráticos e eficazes. Conclamamos todos aqueles que compartilham desse senso de urgência a se juntarem a nós nessa empreitada.


