O governo holandês está tentando impor um orçamento que corta bilhões de euros do estado de bem-estar social, para poder gastar bilhões em rearmamento imperialista. Esta semana, milhares de trabalhadores de toda a Holanda – estivadores, ferroviários e metroviários, metalúrgicos, cervejeiros, servidores públicos e faxineiros – estão em greve para impedi-los.
[Publicado originalmente em marxist.com, no dia 07 de setembro]
Esta é a maior onda de greves em décadas. Seu potencial é enorme. Apenas algumas centenas de estivadores em Roterdã paralisaram o porto mais movimentado da Europa, responsável por 30% do comércio de contêineres da UE, em resposta direta a cortes concebidos explicitamente para financiar os gastos militaristas.
Este movimento é apenas um vislumbre do poder imparável de uma fração da classe trabalhadora europeia. Com uma direção militante, essa força poderia deitar por terra as classes dominantes e desferir um golpe contra a corrida armamentista em todo o continente, paga pela classe trabalhadora.
O preço da ‘liberdade’
O atual governo holandês é um participante particularmente entusiasta da corrida europeia ao rearmamento. Desde que a coligação Jetten formada por três partidos chegou ao poder no ano passado contra a extrema-direita, abandonou todas as suas promessas de reformas – incluindo o combate à crise de habitação com a construção de dez novas cidades – em favor de preparar o país para a guerra.
Publicamente, afirmam que isso é necessário porque a Rússia atacará a OTAN nos próximos anos. Privadamente, como o resto dos europeus, estão desesperados para provar o seu valor à América – enquanto se preparam para um mundo onde esta já não defende os seus interesses.
Para “construir um pilar europeu dentro da OTAN”, a coligação Jetten está orçando um programa massivo de rearmamento ao longo da próxima década. Até 2035, querem aumentar os gastos com defesa para 41 bilhões de euros por ano e expandir as forças armadas em 50%, reintroduzindo o serviço militar obrigatório se não houver voluntários suficientes. Para ganhar tempo, estão investindo 3 bilhões de euros por ano no prolongamento da destruição da Ucrânia – o triplo do alocado para resolver a crise de habitação.
O dinheiro para financiar estas generosas doações aos monopólios de armas será tirado diretamente do estado de bem-estar social. A coligação preparou um pacote de austeridade de 6,5 bilhões de euros, que inclui o corte de benefícios para desempregados, deficientes e incapacitados permanentemente; aumentar os custos dos cuidados médicos; reduzir o apoio às contas de energia e assistência doméstica; elevar a idade de aposentadoria de 67 anos acompanhando a expectativa de vida; e, para coroar tudo, forçar os cidadãos holandeses a pagar uma ‘contribuição pela liberdade’ – literalmente, um imposto de guerra!
Quem paga?
Afinal, como disse o último primeiro-ministro holandês, “A liberdade não é gratuita.” Alguém tem de pagar.
A classe dominante não vai fazê-lo. A coligação nem sequer mencionou um imposto sobre fortunas. Querem manter a Holanda como um local atraente para investimentos.
O Estado poderia. Ao contrário dos seus vizinhos falidos, a razão entre a dívida pública e o PIB na Holanda é de apenas 44%. Porém, com os preços subindo e os riscos aumentando, o Estado quer preservar a sua vantagem, e a sua reputação em relação à disciplina fiscal. Afinal, tomar emprestado para comprar a paz social só pode adiar a data do pagamento. Eventualmente, o custo terá de ser suportado por uma das classes com juros – como os trabalhadores de toda a Europa estão descobrindo atualmente.
Em vez disso, os mais pobres e vulneráveis foram selecionados para pagar a conta. Pela ‘liberdade’, espera-se que trabalhem até morrer, fiquem mais doentes e mais pobres, e paguem tributos à Rheinmetall e à Lockheed Martin. Mas este é um preço que os seus chefes estão dispostos a fazê-los pagar. Como disse o chanceler Merz, falando pela classe dominante do continente:
“Qual é o objetivo de subsidiar a educação infantil se estamos perdendo a nossa liberdade, e a paz na Europa está sob ameaça?”
Holanda paralisada
Os trabalhadores holandeses estão furiosos. Odeiam o governo. Passados seis meses, 70 por cento do país está insatisfeito. A confiança nos políticos caiu para um novo nível mínimo histórico.
Como o resto da Europa, enfrentam uma crise no custo de vida e as contas de energia nas alturas, após anos de estagnação salarial e austeridade. Agora estão dizendo a eles que precisam apertar os cintos para defender um país onde não conseguem pagar o aluguel nem comprar alimentos.
Os trabalhadores não estão aceitando isso passivamente. Em março, milhares de servidores públicos fizeram greve contra o congelamento salarial promovido pelo governo. No mesmo mês, 700 estivadores votaram unanimemente por paralisar os portos do país por pelo menos cinco dias para forçar o governo a recuar nos ataques.
Antes que pudessem parar, os três principais sindicatos emitiram o seu próprio ultimato, ameaçando ações coordenadas caso as medidas de austeridade não fossem abandonadas.
A ameaça por si só – apoiada por uma greve de quatro horas no transporte – foi suficiente para forçar a coligação a abandonar medidas essenciais de austeridade, como o aumento da idade de aposentadoria. Que demonstração do potencial poder da classe trabalhadora! No entanto, como 70 por cento dos cortes continuam de pé ou foram apenas adiados, as greves prosseguiram.
A mobilização desta semana é a mais ampla em décadas. Mobilizou estivadores, trabalhadores do transporte público, trabalhadores dos hospitais e enfermeiros, trabalhadores da construção civil, metalúrgicos e servidores públicos. Paralisou o porto de Roterdã, o maior porto da Europa. Tem o apoio de 78% dos holandeses – um mandato muito mais poderoso do que o de Jetten. Se este exército fosse reunido numa greve geral contra a austeridade e a guerra, poderia facilmente derrubar o governo e todos os seus planos.
Mas essa não é a intenção dos dirigentes sindicais. Quase nada disseram sobre o militarismo. Em vez de fazerem greve juntos, organizaram os setores para paralisarem um a um, a última greve cai no dia da apresentação do orçamento. Os estivadores pararam apenas por sete horas.

A sua estratégia foi concebida apenas para fortalecer a sua posição para que possam fazer um acordo, como é tradição. O recém-nomeado líder da FNV, Hans Spekman, admitiu isso mesmo no palco de um comício sindical:
“No que me diz respeito, ninguém precisa sair. Mas eles precisam fazer outra coisa… e depois trabalharemos juntos.”
Preparem-se para a guerra de classes!
O governo minoritário é tão fraco que pode ser forçado a abandonar totalmente os seus planos no dia de votar o orçamento.
Mas tal vitória seria apenas uma trégua temporária. Cortes e rearmamento são, em última análise, necessários para a classe capitalista holandesa. Cedo ou tarde, voltarão para exigir a sua cota. Confrontos futuros são inevitáveis.
O mesmo acontece em toda a Europa. Na Grã-Bretanha, a chanceler de Starmer foi levada às lágrimas ao vivo na TV depois que uma revolta no Partido Trabalhista prejudicou os cortes previstos nos benefícios por invalidez. Na França, Macron sacrificou quatro primeiros-ministros nas suas tentativas de impor a austeridade. A Bélgica explodiu em duas greves gerais pelo mesmo motivo. Na Alemanha, Merz já enfrentou protestos em massa contra o serviço militar obrigatório. Mas agora ele e os patrões estão preparando um pacote de austeridade devastador para financiar a construção do “exército mais forte da Europa”.
Na sua tentativa desesperada e fadada ao fracasso de manter a sua posição no mundo, as potências europeias em declínio não têm outra escolha a não ser atacar as condições da classe trabalhadora.
Precisamos falar sério: estamos em guerra – não contra Putin, mas contra os nossos próprios belicistas e capitalistas.
Para defenderem o seu nível de vida, as suas aposentadorias e os hospitais, os trabalhadores holandeses precisam de muito mais do que manifestações separadas. Precisam de uma greve geral contra cada centavo cortado dos serviços públicos e gasto na máquina de guerra.
Isso forçaria a classe dominante a ajoelhar-se. Traria para o campo as milhões de pessoas que já provaram estar dispostas a lutar contra os crimes do imperialismo europeu. E daria um exemplo revolucionário ao resto dos trabalhadores europeus, mostrando quem realmente comanda o continente.


