A Revolução Sudanesa de 2018-2021 foi um dos movimentos de massas mais poderosos deste século. Neste artigo, Thomas Soud explora o contexto da revolução, seu incrível potencial e como ela foi derrotada, hoje, a barbárie está instalada na região.
[Este artigo foi publicado originalmente na edição nº 52 da revista In Defence of Marxism, em fevereiro de 2026, a revista teórica da Internacional Comunista Revolucionária]
A contrarrevolução arrastou o Sudão para as profundezas da barbárie.
Em 2019, os trabalhadores tinham o poder em suas mãos, mas os líderes reformistas os traíram e devolveram o poder ao regime. Em 2022, a revolução foi perdida.
Um ano depois, os algozes da revolução voltaram suas armas uns contra os outros, cada um apoiado por uma constelação de diferentes potências estrangeiras. Devastaram Cartum, iniciaram um genocídio em Darfur e desencadearam a fome mais catastrófica do mundo em 40 anos.
Até o momento, pelo menos 400 mil pessoas foram massacradas, 4 milhões fugiram do país e outras 7 milhões foram deslocadas internamente. Mais de 30 milhões precisam de assistência humanitária, das quais 6,3 milhões enfrentam níveis extremos de fome. Dois anos e meio de guerra dividiram o país em duas partes.
Socialismo ou barbárie não é uma frase vazia, foi exatamente esta perspectiva que o Sudão enfrentou em 2019. Os revolucionários devem assimilar as lições do Sudão para se prepararem para as futuras batalhas.
O capitalismo sudanês
Os britânicos conquistaram o Sudão em 1898 e, por meio de uma ocupação brutal, transformaram a economia sudanesa. Antes da chegada dos britânicos, o capitalismo inexistia no Sudão. Com o domínio britânico, os pequenos agricultores de subsistência do país foram integrados ao mercado mundial, cultivando algodão e outros produtos agrícolas no fértil Vale do Nilo.
Embora não houvesse indústria fora da capital, Cartum, o mercado mundial impulsionou a construção de ferrovias que cruzavam o deserto. Em 1950, o setor ferroviário empregava 100 mil trabalhadores, dos quais 10 mil trabalhavam apenas no escritório central em Atbara. Foi nessas condições que os trabalhadores ferroviários se tornaram os primeiros a se sindicalizar em 1949, três anos após a fundação do Partido Comunista Sudanês.
O capitalismo britânico dominava a economia sudanesa. Os britânicos controlavam as ferrovias, as indústrias que processavam as exportações agrícolas e o sistema bancário. A classe capitalista sudanesa nativa era praticamente inexistente. Para estabilizar seu domínio, os britânicos empreenderam a construção artificial de tal classe. Abriram as primeiras escolas do Sudão e, seguindo um padrão observado em todo o império, estimularam a formação de uma burguesia compradora, uma classe totalmente dependente do imperialismo, sem uma base econômica ou uma política independentes.
A burguesia sudanesa era tão frágil e débil que, quando o primeiro governo democrático-burguês chegou ao poder após a independência, em 1956, logo convidou os militares a assumirem o controle para estabilizar o país. O domínio imperialista significava que a maior parte da limitada infraestrutura industrial era controlada diretamente pelos britânicos ou indiretamente, por meio de seu domínio sobre as finanças. Isso impediu o desenvolvimento de uma burguesia independente, mas, simultaneamente, ampliou a força relativa do proletariado, que tinha o potencial de liderar as massas rumo à conquista do poder.
Esse processo estava longe de ser excepcional. Alinhava-se à teoria da revolução permanente, desenvolvida por Trotsky em 1906, em relação à Rússia. Segundo essa teoria, a burguesia em países com desenvolvimento capitalista tardio não pode desempenhar um papel progressista. Isso foi plenamente confirmado no Sudão. O país teve três governos democrático-burgueses: 1956–1958, 1964–1969 e 1985–1989. Em todos os casos, a burguesia era débil, estava dividida, era corrupta e temia a classe trabalhadora. Cada um desses períodos terminou em uma ditadura militar.
Nos três casos, a classe trabalhadora poderia ter tomado o poder. Foram os trabalhadores sudaneses, por meio de greves gerais em massa, que derrubaram os militares na Revolução de Outubro de 1964. O golpe de 1969, liderado pelo Coronel Nimeiri, foi impulsionado pelo descontentamento dos “Oficiais Livres” pequeno-burgueses, que ecoavam o exemplo de Nasser no Egito e buscavam apoio na União Soviética. E, mais uma vez, foi a classe trabalhadora que derrubou Nimeiri em 1985, quando seu regime degenerou em uma ditadura islâmica.
O papel do Partido Comunista Sudanês (PCS) deveria ter espelhado o dos bolcheviques em 1917: mostrar às massas que o capitalismo não oferecia solução e que somente a tomada do poder pela classe trabalhadora, em aliança com o campesinato, poderia oferecer um caminho a seguir. Mas o PCS falhou nessa tarefa histórica.
No final da década de 1960, o PCS havia se tornado o segundo maior partido comunista da África, com mais de 10 mil militantes organizados. Dirigia tanto os sindicatos quanto o movimento estudantil. Contudo, esse enorme potencial foi desperdiçado devido às limitações da teoria stalinista.
Sob a orientação da burocracia soviética, o PCS aderiu à “teoria das duas etapas” da revolução, inspirada nos mencheviques, que afirmava que a revolução no Sudão só poderia ser de natureza democrático-burguesa. Assim, os comunistas foram instruídos a desempenhar o papel de meramente ajudar uma burguesia “progressista” a chegar ao poder. Alguns membros do partido chegaram a se identificar como “capitalistas revolucionários” e formaram uma ala abertamente burguesa.
Como resultado, o partido se desintegrou sob o peso dos acontecimentos. Sua participação no governo de 1964 causou divisões internas. A ascensão de Nimeiri em 1969 provocou outra ruptura. A tentativa fracassada de golpe de Estado liderada pelos comunistas em 1971 destruiu o que restava.
Na época da revolução de 1985, o PCS já estava desacreditado. Sua incapacidade de dirigir, agravada pelo recuo global do movimento operário, permitiu que a ditadura de Omar al-Bashir consolidasse o poder pelos 30 anos seguintes, reduzindo o partido a um grupo marginal e envelhecido.
Quando a “Revolução Gloriosa” de 2019 eclodiu, o papel limitado desempenhado pelo PCS não se deveu ao apoio das massas, mas sim a uma pequena camada de velhos dirigentes que conseguiram rapidamente se inserir em posições influentes no movimento usando suas conexões anteriores, em vez de exercerem qualquer influência real entre a juventude revolucionária.
O regime de Al-Bashir
O golpe de Al-Bashir em 1989 representou a vitória da contrarrevolução, pondo fim à revolução de 1985. Uma reação violenta se instaurou enquanto Al-Bashir governava em aliança com os islamitas. Os sindicatos foram forçados à clandestinidade, os preços subiram e o salário-mínimo foi drasticamente reduzido.
Al-Bashir compreendeu que, apesar da imensa derrota sofrida pelos trabalhadores em 1989, governar apenas pela força bruta era insuficiente para manter seu regime. Eventualmente, embora pudesse durar uma geração, a classe trabalhadora recuperaria sua força, o regime se fragmentaria e seu poder vacilaria. A situação de Al-Bashir era precária, mas a alta dos preços do petróleo lhe ofereceu uma margem de manobra.

No final da década de 1990, o boom do petróleo permitiu uma rápida expansão dos gastos públicos. Partes de Cartum começaram a se assemelhar a Dubai, com o surgimento de enormes projetos de infraestrutura por toda a cidade. Entre 1999 e 2013, o orçamento do governo aumentou treze vezes. Enormes subsídios alimentares foram concedidos aos trabalhadores e camponeses, enquanto o exército acumulava riquezas. Al-Bashir se incluiu nisso, provavelmente desviou US$ 9 bilhões para sua conta pessoal até 2019.
Simultaneamente, ele continuou a fomentar tensões étnicas no oeste, particularmente em Darfur, o que levou ao genocídio de 2005, onde mais de 300 mil pessoas foram massacradas. Os perpetradores foram os Janjaweed, também conhecidos como os “Demônios a Cavalo”. Em 2013, essa milícia genocida foi organizada nas Forças de Apoio Rápido (RSF, em sua sigla em inglês): uma força paramilitar criada especificamente por Al-Bashir para se proteger de golpes de Estado. Ao equilibrar as Forças Armadas Sudanesas (SAF, em sua sigla em inglês) oficiais e as RSF, ele acreditava que seu governo estaria seguro.
Essa crença mostrou-se equivocada. Em 2011, o Sudão do Sul — com o apoio do imperialismo estadunidense — conseguiu conquistar a independência. Os Estados Unidos mantinham uma relação tensa com Al-Bashir.
A independência nacional não trouxe libertação ao Sul. Em vez disso, as divisões étnicas e a interferência imperialista abriram caminho para a Guerra Civil do Sudão do Sul. Entre 2013 e 2020, 400 mil pessoas foram mortas.
Em 2013, com o fim das receitas petrolíferas do Sudão do Sul, Al-Bashir iniciou uma campanha de austeridade. Os subsídios aos combustíveis foram cortados, duplicando os preços da noite para o dia. Surfando na onda da Primavera Árabe, as massas sudanesas tomaram as ruas. Al-Bashir demonstrou imediatamente a sua crueldade, massacrando 200 pessoas numa tentativa de manter o poder. Com os partidos da oposição sem qualquer influência, aterrorizados pelo regime, e sem um programa político para resolver a profunda crise do Sudão após um século de pilhagem imperialista, o movimento foi temporariamente subjugado.
A derrota temporária do movimento em 2013 coincidiu com a descoberta de vastas reservas de ouro em Darfur. Por um momento, pareceu que o regime se estabilizaria. O ouro rapidamente se tornou a principal exportação do país e foi usado para manter vultosos pagamentos aos exércitos e subsídios limitados para a classe trabalhadora.
Mas o ouro sudanês forjou um cálice envenenado. Grande parte do ouro estava muito próxima da superfície e espalhada por uma vasta área. Em vez de incentivar uma produção altamente centralizada, financiada por grandes monopólios e pelo governo central, a produção de ouro desenvolveu um grande número de pequenas minas artesanais. Estas eram controladas por diversos líderes tribais, com grupos mercenários impondo as condições mais terríveis. O resultado foi que o governo central não conseguiu enriquecer-se facilmente. Estima-se que 50% da produção de ouro seja contrabandeada ilegalmente para fora do Sudão.
Foi através do ouro manchado de sangue de Darfur que as RSF se transformaram em uma organização poderosa. Comerciantes de ouro, contrabandistas, guardas de fronteira e uma milícia contrarrevolucionária, tudo em um só grupo, elas começaram a entrar em conflito com as SAF. Al-Bashir havia conseguido manter o equilíbrio entre esses dois corpos de homens armados, mas suas opções estavam se esgotando.
O fornecimento de petróleo do sul havia sido interrompido, o ouro do oeste raramente chegava a Cartum e a economia global cambaleava de uma crise para outra. Em 2016, a economia estava em queda livre: o PIB per capita caiu 31%, a inflação subiu para 122% e o governo recorreu ao FMI. O FMI concordou em socorrer o Sudão, mas somente se os subsídios para os itens da cesta básica fossem eliminados, em outras palavras, a crise deveria ser repassada à classe trabalhadora. O governo acatou o pedido.
O desemprego subiu para 20%. Com a remoção dos subsídios, o preço do pão triplicou e 45% da população passou a viver abaixo da linha da pobreza. Enquanto isso, o exército, como parte da estratégia de Al-Bashir para evitar um golpe, ostentava luxos, consumindo até 70% da receita do governo.
Foram essas condições que convenceram um pequeno grupo de manifestantes a ir às ruas em dezembro de 2018. Foram a centelha que incendiou o conflito.
A revolução começa
Em 13 de dezembro de 2018, algumas dezenas de manifestantes marcharam corajosamente na cidade de Ad-Damazin, exigindo a restauração dos subsídios ao pão. Eles estavam sob a direção da Associação dos Profissionais Sudaneses (SPA, em sua sigla em inglês), uma pequena coalizão de seis sindicatos de trabalhadores graduados. Em menos de um ano, eles se tornariam a principal força da Revolução Sudanesa.
Imediatamente, os manifestantes foram presos, e o sindicato dos médicos, como parte da SPA, convocou mais protestos. Em 19 de dezembro, trabalhadores em frente à SPA em Atbara atenderam ao apelo e saíram às ruas em apoio à causa. Marchando sob o símbolo do pão, eles gritaram “Abaixo o regime dos ladrões!”[1] e incendiaram a sede do partido de Al-Bashir na cidade. Com o tiro de largada dado, manifestações eclodiram por todo o país.
O movimento das massas abalou os partidos da oposição. Desde 2005, a ditadura havia expandido marginalmente as liberdades políticas. No entanto, em vez de usar esse espaço para desafiar o regime, os partidos liberais acomodaram-se a ele. Enquanto isso, o Partido Comunista, ainda atrelado à “teoria das duas etapas”, seguia os liberais.
Quando protestos espontâneos liderados por jovens surgiram em 2012 e 2013, a oposição não desempenhou um papel decisivo. Entre os jovens, esses partidos eram descritos como “desesperados e senis”. Agora, os eventos ameaçam torná-los completamente irrelevantes.
Assim, em 1º de janeiro de 2019, eles decidiram se unir ao SPA em uma ampla coalizão chamada de Forças para a Liberdade e a Mudança (FFC, em sua sigla em inglês). Essa coalizão incluía todos que não faziam parte diretamente do regime, do Partido Comunista aos liberais, passando por islamitas descontentes em Darfur.
Apesar de o SPA ser a maior força, foi a fração burguesa das FFC que passou a dominar. Líderes das FFC, como o ex-primeiro-ministro e aristocrata Sadiq Al-Mahdi, ou o queridinho dos grandes negócios, Al-Digair, não eram vistos nas ruas na primavera de 2019, mas sim em salas de reuniões e palácios por todo o mundo árabe.
O programa das FFC era vago e amplo, limitado apenas às demandas aceitáveis para a classe capitalista. Eles defendiam um governo de transição para garantir paz, democracia, justiça, direitos das mulheres e desenvolvimento econômico. No entanto, a impotência dessa coalizão ficou evidente em sua incapacidade de chegar a um consenso sobre demandas concretas – até mesmo a questão da revogação da lei islâmica (Sharia) permaneceu sem solução.
Enquanto a direção da revolução se ocupava em construir essa coalizão, Al-Bashir não perdeu tempo. Em 19 de janeiro, as forças de segurança do Estado foram enviadas para aterrorizar as massas.
A polícia prendeu manifestantes e esmagou suas cabeças contra o asfalto. Não importava se eram homens, mulheres, crianças ou idosos – o regime não discriminava. As forças de segurança lançaram gás lacrimogêneo contra fiéis do lado de fora das mesquitas e, quando médicos foram enviados para prestar atendimento de emergência, o Estado os fuzilou na rua. Mas o movimento continuou a crescer. Cinco mil pessoas compareceram ao funeral dos mortos, e os gritos de “Abaixo! Abaixo! Abaixo!” ecoaram por Cartum.
Al-Bashir proibiu as manifestações, mas isso não impediu que elas crescessem. As massas haviam perdido o medo do governo.
As mulheres do Sudão lideraram o movimento, representando até 70% dos manifestantes, pois haviam suportado o peso da repressão do regime. Todos os anos, entre 40 mil e 50 mil mulheres eram presas e açoitadas por usarem roupas “obscenas”, o que incluía o uso de calças.
No dia 8 de março, Dia Internacional da Mulher Trabalhadora, as mulheres do Sudão relembraram ao mundo suas verdadeiras tradições revolucionárias. Dezenas de milhares de mulheres marcharam, entoando cânticos como “Mulheres, sejam fortes!” e “Esta revolução é uma revolução de mulheres!”. Elas invadiram a principal prisão feminina de Cartum e forçaram o regime a libertar todas as detentas que haviam sido presas por participarem da revolução.
Essa vitória encheu de confiança os trabalhadores de todo o país. No final de março, 15 das 18 províncias do Sudão vivenciavam protestos em massa, com todas as camadas das massas trabalhadoras e oprimidas unindo-se à luta.
A queda de Al-Bashir
Enquanto a revolução varria o país, a SPA se posicionava firmemente a favor da queda de Al-Bashir. O grupo convocou um movimento de massa para o dia 6 de abril, com uma marcha até o complexo militar em Cartum.
A manhã de 6 de abril começou com um fluxo lento de manifestantes. Alguns duvidavam da quantidade de pessoas que compareceriam, mas, com o passar do dia, mais trabalhadores foram às ruas. Quando a marcha se aproximou do complexo militar, estima-se que 800 mil pessoas estavam participando. Inspirada pela revolução egípcia de 2011 e pela icônica ocupação da Praça Tahrir, a SPA convocou um protesto pacífico em massa até a queda do regime:
“Neste momento histórico, nós os incentivamos a manterem-se firmes nas ruas ao redor do Quartel-General das Forças Armadas e em todos os locais do país, até que a tirania seja desmantelada de uma vez por todas.”[2]
Por meio do protesto, os revolucionários criaram uma cidadela dentro da cidade, bloqueando o governo dentro de seus palácios. O trânsito parou e as massas estavam em festa. Uma faixa dizia: “Desculpem o atraso [no trânsito]. Estamos derrubando um regime”.[3]
O regime agora enfrentava uma escolha: reformar para apaziguar o movimento ou reprimir para esmagá-lo. Al-Bashir decidiu que a força mais brutal era necessária. Na manhã de 10 de abril, ele começou a preparar as RSF para massacrar as massas. Seu principal clérigo estava prestes a emitir uma fatwa (parecer jurídico religioso) declarando que era permitido matar 30% dos manifestantes para restaurar a ordem.
Mas naquela manhã, o restante do regime hesitou. Eles sabiam que o poder estava saindo de suas mãos e se transferindo para as ruas. Sentiam que o próprio exército estava se fragmentando à medida que a confraternização entre manifestantes e soldados crescia a cada dia. Talvez o governo pudesse ordenar o massacre de 30% dos revolucionários, mas temiam que essa fosse sua última ordem.
Reconhecendo a mudança no equilíbrio de poder, o vice-presidente Ibn Auf se reuniu com generais de alta patente tanto das RSF quanto das Forças Armadas, e juntos decidiram que Al-Bashir deveria sair.
O vice-presidente anunciou ao país que o governo de 30 anos de Al-Bashir havia chegado ao fim. Ele se declarou o novo chefe de Estado e anunciou que os militares governariam por dois anos, até que eleições democráticas fossem realizadas. Exigiu o desmantelamento do acampamento militar e impôs um toque de recolher militar para garantir isso.
A população não aceitou. No dia anterior, 9 de abril, haviam exigido “Caia, e pronto!”, então, em 10 de abril, gritaram “Caia de novo!”. O toque de recolher foi simplesmente ignorado. A verdadeira situação do poder era evidente para todos. O novo presidente não trouxe nenhuma estabilidade adicional. Assim, em 11 de abril, os generais agiram mais uma vez. O novo presidente foi deposto e o Conselho Militar de Transição, uma aliança entre as Forças Armadas e as RSF, assumiu o controle.
Dois ditadores foram derrubados em 24 horas. O poder estava nas mãos das massas, mas a SAF permitiu que os generais o retomassem. A face do regime havia mudado duas vezes, mas ele permanecia no poder. Por que as massas não conseguiram tomar o poder em suas próprias mãos? Por que seus dirigentes não souberam aproveitar o momento?
Para responder a essa pergunta, devemos primeiro analisar os diferentes grupos que compuseram a revolução sudanesa. Do lado da reação, os principais atores foram as RSF e as Forças Armadas. Do lado da revolução, estavam a FFC, a SPA e as organizações espontâneas dos trabalhadores.
Um Estado operário em embrião
O coração pulsante da revolução era a ocupação operária em frente ao complexo militar. Ela duraria de 6 de abril a 3 de junho de 2019.
Durante a ocupação, salas de aula foram organizadas para ensinar ideias políticas e os objetivos da revolução. Cozinhas comunitárias forneciam refeições, abastecidas por trabalhadores de fora que garantiam entregas regulares de alimentos. Postos de água foram instalados por toda parte.
A ocupação era um palácio de debates políticos acalorados. Discursos eram proferidos ao longo do dia enquanto as pessoas discutiam os próximos passos. Um telão gigante foi instalado, exibindo mensagens de solidariedade internacional. À noite, o mesmo telão mostrava as partidas de futebol mais recentes. Tambores, poesia e música estavam sempre presentes, enquanto artistas pintavam murais nas paredes.
A classe dominante sempre busca manter o controle por meio de táticas com o objetivo de dividir para governar. Sexismo, racismo e divisões sectárias são inerentes ao regime capitalista. Mas a luta de classes tem o poder de superar essas divisões. Dentro do acampamento, as mulheres podiam andar livremente sem véu e se misturar com homens da mesma idade – um ato completamente proibido pelo governo. As divisões religiosas que dilaceravam o Sudão estavam sendo superadas. Cristãos coptas cobriam com lençois, os muçulmanos que rezavam, para protegê-los do sol do meio-dia. E quando o governo tentou fomentar a divisão espalhando propaganda racista sobre os darfurianos, os revolucionários responderam:
“Al-Bashir, seu racista arrogante, somos todos de Darfur”.[4]
O protesto demonstrou na prática que, quando lhes é dada a oportunidade, os trabalhadores podem romper com as ideias retrógradas e reacionárias impostas à sociedade pela classe dominante. Transformou-se num caldeirão cultural, oferecendo um vislumbre do que poderia ser alcançado se os trabalhadores detivessem o poder.
O próprio protesto foi organizado espontaneamente pelos trabalhadores. Uma série de comissões eleitas surgiu para administrar o dia a dia. A Comissão de Proteção supervisionava a segurança, montava barricadas e monitorava os pontos de controle. A Comissão de Abastecimento coordenava a alimentação e a distribuição de bebidas. A Comissão Médica prestava assistência aos feridos. As Comissões de Conscientização educavam os participantes sobre política e procuravam conscientemente abordar questões como a discriminação. Por fim, a Comissão Organizacional supervisionava todas as outras e administrava a distribuição de membros.
A organização foi tão eficaz que, na área controlada pelo protesto, as ruas estavam limpas, bem administradas e organizadas. Enquanto isso, as áreas ainda controladas pelo governo permaneciam em decadência, repletas de lixo. O entusiasmo, a criatividade e a audácia dos trabalhadores superaram todos os desafios que enfrentaram.
A ocupação era o coração pulsante da revolução, mas a revolução tinha artérias, veias e capilares. Estes eram os Comitês de Resistência de Bairro. Cada comitê organizava trabalhadores em nível local. Eram eleitos democraticamente, com 40 a 50 membros em cada um, e havia de 7 a 10 comitês por bairro.
Surgiram inicialmente como organizadores de protestos locais: uma tarefa essencial após o bloqueio das redes sociais. Os membros dos Comitês de Resistência iam de porta em porta informando os trabalhadores sobre as próximas manifestações. Com a intensificação da repressão, os métodos tradicionais de reunião tornaram-se arriscados, então passaram a trabalhar com lojas e residências locais para permitir que os manifestantes se escondessem nos fundos das casas antes da marcha. Então, ao sinal de um tambor, os manifestantes inundavam as ruas, sobrepujando as forças de segurança.
À medida que a revolução se desenvolvia e os trabalhadores ganhavam confiança, as responsabilidades dos comitês se expandiam. Começaram a regular o preço do transporte público, organizar a distribuição de combustível e montar mercados onde os alimentos eram vendidos a preço de custo. Eles organizavam mutirões de limpeza de ruas, projetos de construção e outras iniciativas locais, arrecadando fundos dos moradores. A escala era enorme. Havia 700 comitês somente em Cartum e mais de 3 mil em todo o país.
O que os protestos de ocupação e os Comitês de Resistência de Bairro representaram foi o poder operário em embrião. Chamem-nos de comitês, chamem-nos de comunas, chamem-nos de sovietes (“conselhos” em russo) – não importa. Eram as massas tomando o poder em suas próprias mãos, entrando no palco da história para decidir seu destino, lutando para dar à luz uma nova sociedade. Não se prendam apenas às palavras dos marxistas. Um jornalista com certa consciência de classe, do Financial Times, um instrumento burguês, escreveu:
“Não se pode saber ao certo como se sentia a Rússia em 1917, quando o czar estava sendo deposto, ou a França em 1871, nos dias eufóricos e idealistas da efêmera Comuna de Paris. Mas certamente se sentia algo parecido com o que Cartum sentiu em abril de 2019.”[5]
A situação que emergia no Sudão era a de “duplo poder”, na qual o Estado burguês se confrontava com órgãos emergentes do poder operário, capazes de assumir o controle da sociedade. Mas esse poder operário emergente encontrava-se apenas em estágio embrionário.
O apelo para que os Comitês de Resistência de Bairro se unissem não foi feito. A SPA, que fetichizava o horizontalismo, resistiu a isso ativamente. Eles não compreenderam que uma situação de duplo poder é algo muito frágil. Não pode ser mantida indefinidamente. Ou os trabalhadores reunirão suas forças, esmagarão o Estado burguês e se tornarão o poder soberano da sociedade, ou a iniciativa passará para a contrarrevolução.
Durante os protestos, a palavra de ordem “Todo o poder aos Comitês de Resistência” jamais foi ouvido; a ideia de derrubar o Estado capitalista e de usá-los como as bases de um Estado operário nunca passou pela cabeça de nenhum dos envolvidos.
Somente em 2022 haveria as primeiras tentativas tímidas e atrasadas de unir os Comitês de Resistência. Muito antes disso, os contrarrevolucionários já haviam reduzido o acampamento a cinzas.
Uma direção pequeno-burguesa
Devido à fragilidade da oposição política, a raiva latente das massas não encontrava expressão política. Na frente industrial, os sindicatos tradicionais haviam sido completamente cooptados pelo regime militar. As camadas mais militantes, portanto, tiveram que encontrar novas organizações de luta.
A SPA foi um desses grupos pequenos, porém militantes. Com raízes no movimento desde 2012, a SPA foi oficialmente fundada no verão de 2018 como uma coalizão clandestina de seis sindicatos: de advogados, médicos, professores, engenheiros e docentes.
Quando a luta eclodiu em 2018, a SPA demonstrou considerável tenacidade, recusando-se a recuar diante da repressão estatal, o que elevou sua autoridade política aos olhos das massas. Dessa forma, a SPA tornou-se a direção de fato incontestável das primeiras etapas da revolução.
As fileiras da SPA continham muitos militantes determinados e abnegados, mas quanto mais alto se subia na hierarquia, mais o ambiente se tornava burocrático e de classe média. Isso se refletia na visão e nos métodos da direção da organização. Ela era intencionalmente organizada com base no consenso, com uma estrutura “sem dirigentes” que significava que quaisquer grandes divergências simplesmente permaneciam sem solução. Como em qualquer organização “sem dirigentes”, as camadas dominantes seriam aquelas com mais tempo e recursos disponíveis, ou seja, as da classe média.

A perspectiva pequeno-burguesa e reformista da direção da SPA desempenharia um papel fatal. Ao aceitar plenamente a necessidade do capitalismo sudanês, a SPA também aceitava a necessidade do Estado burguês. No Sudão, isso significava aceitar o poder dos militares, que eram parte integrante tanto do Estado quanto da classe dominante.
Portanto, ao contrário das massas, a direção da SPA foi dominada pelo pessimismo desde o início. Acreditavam firmemente que a revolução fracassaria e, em entrevistas concedidas ainda em março de 2019, expressaram a pouca esperança que tinham de que os protestos derrubariam Al-Bashir.
Sua política de consenso significava que uma posição só era adotada quando se tornava clara para todos. Essa direção não guiava o movimento, apenas o seguia.
Essa direção consensual tornou-se ainda mais problemática à medida que a revolução se intensificava. À esquerda, novas forças, despertadas pela revolução, ingressaram nas fileiras da SPA. Enquanto isso, a antiga direção, que estava na prisão ou no exílio, retornava conforme a revolução avançava. Mas essas eram as camadas mais burguesas, e entraram em conflito com a direção paralela que de fato dirigiu a revolução de dezembro a abril.
A ala direita da SPA chegou a exigir que o partido deixasse de desempenhar qualquer papel de direção na revolução. Afirmavam: “Somos sindicalistas, não políticos”, e que caberia aos partidos políticos decidirem o rumo a seguir. Essa posição só pode ser compreendida ao se perceber que muitos dos que a defendiam eram membros de outros partidos políticos, que se beneficiariam caso a SPA abdicasse de seu papel político de direção.
O problema era que havia um fundo de verdade na crítica da direita. Se a SPA desempenhasse um papel político de direção, não poderia se limitar a ser meramente sindicalista. Era necessário um partido político, com seu próprio programa político sobre como reestruturar a sociedade.
O sindicalismo, a ideia de que a classe trabalhadora não precisa de um partido político, foi desacreditada inúmeras vezes. A destruição do poder estatal é um ato político. A criação de um Estado operário e o programa que ele deve implementar são os atos mais políticos. Ao não romper completamente com esses métodos, a SPA mais vezes dificultou a revolução do que a dirigiu.
Após a queda de Al-Bashir em 10 de abril, a SPA foi pega de surpresa e sem saber o que fazer. Em vez de convocar imediatamente os Comitês de Resistência para assumirem o poder, as tropas de base do exército para romperem com os generais e depô-los, e para que greves gerais em massa tornassem isso realidade, os dirigentes hesitaram e começaram a debater entre si.
Enquanto isso, os generais não perderam tempo. As SAF e as RSF tomaram o poder das ruas e deram continuidade ao antigo regime, com apenas duas figuras públicas perdidas. Em vez de exigir a deposição desses generais, a SPA afirmou que era preciso negociar com aqueles que haviam acabado de usurpar o poder das massas.
A lógica de tentar despolitizar a luta industrial e de massas, combinada com a busca de consenso em larga escala, levou diretamente aos erros da política de Frente Popular. Embora não necessariamente compreendida conscientemente, a criação das Forças pela Liberdade e a Mudança (FFC) foi um eco da desastrosa “Frente Popular” da República Espanhola na década de 1930.
A ideia da Frente Popular era a de que os trabalhadores deveriam se unir à burguesia “progressista” para alcançar e defender as conquistas democráticas liberais. Essa tática fracassou completamente na década de 1930, fracassou no Sudão na década de 1960 e fracassaria novamente em 2019.
As FFC abrangia desde a SPA até o Partido Comunista, passando pelos liberais e pelos islamitas dissidentes. O único fator unificador era a queda de Al-Bashir; uma vez alcançado esse objetivo, a Frente começou a se desintegrar em suas partes componentes.
A Frente Popular negociou secretamente com o Conselho Militar de Transição em maio, às escondidas das massas. Os liberais defendiam um governo misto, militar e civil, enquanto permitiam que questões como a opressão das mulheres e o sofrimento econômico da população fossem deixadas de lado. Isso decorria da posição de classe da burguesia, que lutava por lei e ordem, temendo que, agora que o gênio da revolução havia saído da garrafa, não voltaria a ser recolhido.
Os militares compreenderam as divisões inerentes muito melhor do que os dirigentes operários. Manipularam diferentes frações das FFC umas contra as outras ao longo da revolução, mantendo assim o seu próprio domínio. A ausência de um programa político decisivo e claro à esquerda acabou por levar todos a voltarem-se para a direita.
As massas voltavam-se para a SPA, uma vez que não havia sido construída nenhuma outra alternativa política. A SPA voltava-se para as FFC, alegando que não eram políticos e não tinham o direito de liderar. Os líderes pequeno-burgueses das FFC voltavam-se para os liberais e para sua visão de um Sudão democrático, mas capitalista. Os liberais voltavam-se para os conservadores para garantir que a revolução não fosse longe demais e não desafiasse a propriedade privada. E os conservadores voltavam-se para o Conselho Militar de Transição, que planejava afogar toda a revolução em sangue.
O exército começa a ruir
O Conselho Militar de Transição era composto por duas partes: as Forças Armadas Sudanesas (FAS) e as Forças de Apoio Rápido (RSF).
As FAS eram o exército oficial do Sudão, sob a liderança do General Al-Burhan. Al-Burhan não possuía carisma natural e tornou-se, por acaso, o chefe de Estado de fato após a queda de Al-Bashir. Ele era um general de corpo e alma. Quando anunciou o regime militar em 11 de abril, não se tratava do discurso de um político, mas das ordens ríspidas de um sargento instrutor.
A maior fraqueza das FAS era a sua composição. Os generais eram um componente-chave da classe dominante, mas os soldados rasos eram trabalhadores. A mesma torrente de forças sociais que havia incitado as massas à ação inevitavelmente encontrou eco nas fileiras das FAS.
A consciência do exército não é como a da polícia. O exército é ensinado a defender a nação, dando a vida pelo povo. Portanto, quando os generais ordenam que voltem suas armas contra a população, o exército pode se dividir por classes sociais e até mesmo se desintegrar completamente. Foi exatamente isso que aconteceu em 1985 e levou à queda de Nimeiri. Agora, o mesmo processo estava se repetindo.
Os Comitês de Resistência de Bairro incentivavam os soldados a desertarem. Os soldados desertores recebiam abrigo em casas para se esconderem dos oficiais que buscavam vingança. Os Comitês de Resistência recebiam os soldados desertores como heróis e, à medida que a notícia se espalhava pelas fileiras, mais e mais soldados seguiam o exemplo.
Todas as camadas da revolução pressionavam o exército. Quando um general chegou em casa, descobriu, para seu choque, que sua filha havia se juntado à revolução. Durante o jantar, ela implorou: “Não atire em nós, pai!”.[6]
Os apelos espontâneos das massas abalavam o exército da cabeça aos pés. Soldados prendiam ativistas na frente de seus comandantes, levavam-nos para um beco e, assim que desapareciam de vista, os libertavam, informando aos comandantes que os revolucionários haviam conseguido escapar. Quando ordenados a assumir posições, protelavam e, em alguns casos, recusavam-se categoricamente.
Os generais sabiam que com uma ordem clara e decisiva da direção da revolução todo o SAF ruiria, com a deserção em massa dos soldados. Mas esse chamado nunca veio. As deserções permaneceram um fenômeno local e espontâneo. A SPA e as FFC não conduziram uma campanha sistemática e em massa entre os soldados para incitar a deserção e fragmentar as forças armadas em linhas de classe. Em vez disso, tentaram negociar com elas.
Ainda assim, o clima dentro da SAF impedia que o exército fosse usado plenamente como arma da reação. Para isso, a classe dominante se apoiou na outra metade do Conselho Militar de Transição, as Forças de Apoio Rápido.
Reação brutal
As Forças de Apoio Rápido (RSF) eram fundamentalmente uma organização mercenária. Baseavam-se em nômades árabes que sentiam que seu modo de vida estava sendo dizimado pela expansão das fronteiras do Saara devido às mudanças climáticas. Ao se juntarem às RSF, eles podiam ganhar muito dinheiro aplicando impiedosamente a exploração brutal das minas de ouro recém-descobertas que agora pontilhavam Darfur.

A revolução transformou as RSF de duas maneiras. Primeiro, as reivindicações da revolução – direitos das mulheres, direitos dos trabalhadores e a revogação da lei islâmica (Sharia) – não ofereceram nenhuma melhoria material para um grande número de camponeses e pastores que enfrentavam a catástrofe econômica e ambiental que se desenrolava em todo o Sahel oriental. Um programa socialista ousado para aliviar a pobreza das massas rurais era necessário para conquistá-las, mas os liberais em Cartum apresentaram os conceitos de “Democracia” e “Direitos Humanos” a camadas da sociedade que o próprio Estado mal conseguia alcançar. Líderes tribais reacionários aproveitaram-se desse vácuo e incitaram suas bases contra a revolução. Enquanto os membros comuns das Forças Armadas do Sudão confraternizavam com os revolucionários, as Forças de Apoio Rápido (RSF) tornaram-se as tropas de choque endurecidas da contrarrevolução.
Em segundo lugar, seu líder, Mohamed Hamdan Dagalo, também conhecido como Hemedti, vislumbrou uma grande oportunidade. Começando como um mero pastor de camelos, ele usou as RSF para se tornar um dos homens mais poderosos do país. Constantemente subestimado pelo restante da classe dominante em Cartum, Hemedti consolidou seu domínio sobre Darfur. A partir daí, conquistou o apoio da classe dominante por meio da brutalidade das RSF e, logo em seguida, começou a formar alianças com diversas potências estrangeiras, como os Emirados Árabes Unidos, para fortalecer ainda mais sua posição.
A partir de 2013, ele encontrou um aliado improvável na União Europeia. A UE estava desesperada para conter o fluxo migratório da África Oriental, e o Sudão era uma rota de trânsito crucial. Hemedti se apresentava como o “Sr. Migração”, a única força capaz de controlar a fronteira ocidental, e a UE adorou a ideia. Centenas de milhões de euros foram desviados para os cofres das Forças de Apoio Rápido (RSF) ao longo da década de 2010 como parte desse pacto infernal. Em 2022, descobriu-se que instrutores militares italianos estavam treinando soldados das RSF para impedir a entrada de refugiados na Europa.
Os líderes das SAF desprezavam a forma como seu poder e prestígio estavam agora ameaçados por esses nômades tribais. Mas, apesar do ódio profundo entre os dois grupos, eles sempre mantiveram uma frente unida para esmagar a revolução.
Foram as RSF e as SAF que se aliaram para depor Al-Bashir. Elas governariam conjuntamente, de diversas formas, até abril de 2023, quando finalmente voltaram suas armas umas contra as outras.
A greve geral de maio de 2019
Eis como as coisas estavam em abril de 2019: as massas estavam ganhando confiança e poder; haviam derrubado Al-Bashir e os Comitês de Resistência de Bairro estavam se espalhando por todas as partes. Isso apesar da direção pequeno-burguesa da SPA, que foi surpreendida por lograr a revolução. Sofrendo de vertigem, a SPA havia formado uma frente popular como parte das FFC, cujos líderes burgueses já tentavam fazer um acordo com os militares e interromper a revolução.
As SAF e as RSF agiram rapidamente com a queda de Al-Bashir. Criaram o Conselho Militar de Transição e enviavam diferentes propostas a diferentes setores das FFC para manipulá-los uns contra os outros. Esperavam ganhar tempo para consolidar o domínio da contrarrevolução.

O Conselho Militar de Transição chegou a cunhar um termo para sua tática de protelação: “tagilidade” (em inglês tagility, uma ironia, como uma maneira de protelar com agilidade). Esperavam prolongar tudo para que a revolução perdesse força. Eles entenderam que os protestos não poderiam durar indefinidamente. Conforme abril se arrastava para maio, o número de manifestantes caiu de centenas de milhares para dezenas de milhares.
Enquanto isso, a classe dominante orquestrou uma campanha difamatória cruel contra o acampamento. Alegavam que nos acampamentos a prostituição era desenfreada, que era um antro de traficantes de drogas e álcool e que a lei e a ordem haviam entrado em colapso. Mas o que estava em colapso era a lei e a ordem burguesas. Sob a cobertura da noite, as RSF atacavam o acampamento, brutalizando e matando trabalhadores sempre que tinham oportunidade.
Em 14 de maio, o Conselho Militar de Transição anunciou que as negociações com as FFC haviam resultado em um acordo. Haveria um período de transição de três anos sob governo conjunto militar e civil, seguido por eleições em que um terço das cadeiras seria reservado antecipadamente para as forças contrarrevolucionárias. Como parte do acordo, o conselho militar exigiu o fim da ocupação.
Os trabalhadores ficaram furiosos. Estavam sendo instruídos a abandonar completamente a revolução. Sob enorme pressão das massas, a SPA denunciou o acordo ao qual o restante das FFC havia capitulado e concordou em organizar uma greve geral massiva de dois dias como demonstração de força e vontade.
Em 28 de maio, o Sudão parou.
A SPA desencadeou uma greve que ficará marcada como uma das mais poderosas demonstrações de força da classe trabalhadora na história. Na capital, a adesão foi de quase 100%. Em todo o país, não importava se eram hospitais ou refinarias de petróleo, bancos ou ministérios do governo, aeroportos ou moinhos de farinha; Todos os setores foram afetados quando os trabalhadores entraram em greve de forma decisiva.
A greve também contou com imenso apoio entre os funcionários públicos, do Banco Central, da Receita Federal e do Ministério do Trabalho. Isso levanta, de forma palpável, a questão do poder: se as pessoas que comandam a máquina estatal respondem aos líderes da greve e não ao governo, então quem é o governo?
Os Comitês de greve, um após o outro, publicaram resoluções declarando sua disposição de lutar até o fim.
O comitê de greve em Porto Sudão declarou:
“Reafirmamos nossa prontidão e acatamos todas as decisões da SPA no contexto da restauração da plena autoridade e da soberania civil, e declaramos nossa prontidão para a desobediência civil e uma greve política aberta até a transferência do poder para as mãos civis. E como já dissemos, as instruções estão com vocês e a ação está conosco.” [7]
Os piquetes matinais transformaram-se em grandes manifestações à tarde. A intimidação estatal mostrou-se impotente. A força dos trabalhadores parecia imparável.
As RSF tentaram retomar o controle da situação através do terror. Invadiram a companhia elétrica para tentar quebrar a greve dos trabalhadores e prender seus dirigentes. Mas os trabalhadores reagiram e disseram que, se efetuassem as prisões, cortariam o fornecimento de energia elétrica aos prédios e instalações das RSF. Os reacionários foram forçados a recuar.
A lição era clara: nenhuma roda gira, nenhuma lâmpada pisca, nenhum telefone toca sem a permissão da classe trabalhadora. Uma vez que essa força é totalmente liberada, nada pode detê-la.
Porém essa força não foi totalmente liberada. A greve não fazia parte de uma campanha e estratégia para a remoção forçada dos líderes militares e de todo o Estado burguês em que se apoiavam. Em vez disso, era parte de um apelo para convencer os líderes militares a renunciarem e para que um governo democrático liberal assumisse o seu lugar. Mas os liberais das FFC já tinham feito um acordo. Era precisamente a esse acordo que os trabalhadores se opunham.
A direção da SPA não apresentou um programa político independente da classe trabalhadora. Em vez disso, manteve-o sempre dentro dos limites da democracia burguesa, que, no caso do Sudão, significava um regime militar, com, na melhor das hipóteses, uma figura civil como líder. Os militares entendiam isso; não temiam as FFC, nem os dirigentes da SPA. O que eles temiam eram as massas, que eram o motor de toda a revolução. A greve geral de maio não os derrubou, mas os militares estavam determinados a não dar aos trabalhadores outra oportunidade.
O chicote da contrarrevolução
Os trabalhadores ousaram demonstrar sua força em maio; agora, os militares concluíram que eles precisavam aprender uma lição através do terror. O protesto tinha que acabar.
Eram 5h da manhã do dia 3 de junho de 2019. Milhares de policiais e soldados das RSF se reuniram em frente ao acampamento. Estavam armados com AK-47s de um lado e chicotes e cassetetes do outro. O sinal foi dado e o terror foi desencadeado.

Ao longo de duas horas, as RSF invadiram o acampamento. Homens, mulheres e crianças foram mortos a sangue frio. Outros foram açoitados até a morte como sinal de humilhação. Mulheres foram estupradas impiedosamente. Aqueles à beira da morte tiveram pedras amarradas em seus corpos e foram jogados no Nilo. Outros foram mortos a golpes de facão no local.
Às 7h da manhã, mais de 200 revolucionários haviam sido massacrados. O acampamento foi coberto com gasolina e reduzido a cinzas. A fumaça que se alastrava por Cartum servia como uma mensagem intimidatória para todos os trabalhadores sobre o que havia acontecido.
Depois disso, as RSF se espalharam em motocicletas, incitando o terror por onde passavam. Açoitaram manifestantes até a morte, saquearam lojas e incendiaram e devastaram a cidade.
Apesar das aparências, o terror não é praticado sem reflexão. É uma estratégia política da classe dominante para intimidar os trabalhadores e forçá-los à submissão. A classe dominante tenta afirmar aos trabalhadores: nós somos fortes, vocês são fracos, vocês não têm escolha a não ser se submeter. Enquanto as RSF carregavam o porrete em uma mão, as SAF carregavam a cenoura na outra.
As SAF anunciaram que haviam cancelado as negociações com as FFC. Alegaram que as FFC estava errada em aceitar eleições em quatro anos e, em vez disso, que haveria eleições em nove meses, para as quais eles começariam os preparativos. Sua esperança era que os trabalhadores aceitassem agora uma aparente concessão, temendo os horrores ainda maiores que estavam por vir.
Os trabalhadores não se deixaram intimidar. A SPA rejeitou o acordo e anunciou que organizaria a maior marcha que o Sudão já vira, em 30 de junho, exatamente 30 anos após Al-Bashir ter assumido o poder. Não aceitariam nada menos que um governo totalmente civil.
Com as redes sociais bloqueadas, os dirigentes da SPA percorreram o país para divulgar a marcha. Com as manifestações sendo reprimidas, eles se reuniram e trabalharam em conjunto com os Comitês de Resistência de Bairro locais para se organizarem. Vigílias e funerais foram locais-chave de organização política.
Em 9 de junho, uma greve geral em massa foi convocada e, mais uma vez, aeroportos, bancos, hospitais e fábricas pararam de funcionar. Manifestações em massa foram convocadas e as pessoas entraram em greve, apesar do gás lacrimogêneo e das munições reais que enfrentaram.
Em 30 de junho, 1 milhão de pessoas marcharam. Elas cantavam:
“Liberdade! Governo Civil! A revolução apenas começou!”
“A bala não mata. O que mata é o silêncio.” [8]
O imenso movimento das massas, apesar de todas as tentativas de repressão, havia detido a contrarrevolução. O poder e a iniciativa estavam novamente do lado dos revolucionários. Mas a iniciativa precisa de estratégia e direção. E isso ainda faltava.
A traição de julho
Não havia razão para que 30 de junho de 2019 não pudesse ter sido o dia da queda do regime militar. Mais uma vez, a oportunidade para que o poder passasse para as mãos dos trabalhadores estava logo ali.
A SPA, contudo, acreditava firmemente que uma ampla coalizão com os liberais era necessária, o que na prática significava uma coalizão com o exército. Ao longo de toda a revolução, os líderes da SPA temiam a perspectiva de uma guerra civil. Apegaram-se ao pacifismo em todos os momentos e abraçaram e celebraram o fato de os revolucionários não se armarem, mesmo diante da violência mais brutal.
Esse apelo ao pacifismo não era uma estratégia para a paz, mas uma receita para a derrota e a morte em uma escala ainda maior. Como alertamos na época:
“Se a revolução descarrilar, as RSF não hesitarão em desencadear a mais sangrenta das guerras civis, se isso servir ao propósito de manter no poder a elite privilegiada do Sudão.” [9]
Essas palavras provaram ser proféticas. A falha em derrubar os militares lançou as bases para a Terceira Guerra Civil Sudanesa, o desastre mais sangrento do Sudão até então. A violência não é uma política, mas uma consequência lógica da luta de classes. Se você rejeita a violência de qualquer tipo e em qualquer momento, você desarma a revolução, permitindo que as massas sejam oprimidas e assassinadas pela classe dominante. Na fase decisiva em que o Sudão se encontrava, isso era indesculpável.
Frases feitas moralistas eram insuficientes. O que era necessário era romper com o monopólio da violência pelo Estado capitalista – através da formação de milícias de defesa operária pelos comitês de resistência. Tais milícias teriam lançado as bases para a plena transferência de poder para a classe trabalhadora.
Ironicamente, se a direção tivesse nutrido menos ilusões de pacifismo, quase certamente, o derramamento de sangue teria sido menor. Em vez disso, seu compromisso ideológico com a não violência lançou as bases para a traição de julho e, em última instância, para a atual guerra civil.
Essa fetichização do pacifismo não estava enraizada em nenhuma tradição antiga das massas sudanesas. Em vez disso, foi cuidadosamente cultivada por liberais ocidentais após o fracasso da revolta de 2013. ONGs como a Freedom House e o Instituto da Paz dos Estados Unidos – instrumentos-chave do soft power americano – buscaram se alinhar com os “revolucionários” liberais. Tendo perdido grande parte de sua influência no Sudão após o apoio à secessão do Sudão do Sul, os EUA agora buscavam se posicionar favoravelmente junto aos prováveis sucessores do regime.
Durante seis anos, organizações como a Freedom House trabalharam para identificar e treinar líderes emergentes entre as massas. Organizaram workshops focados em táticas não violentas e ideais políticos liberais. Os participantes selecionados eram levados para o exterior, cortejados e preparados para exercer influência. O objetivo era claro: cultivar uma nova geração de líderes leais ao liberalismo e ao Ocidente. E, dada a completa ausência de direção na esquerda, eles foram bem-sucedidos. Muitas figuras proeminentes dentro da SPA e das FFC (Forças pela Liberdade e a Mudança) foram conscientemente moldadas pelo imperialismo estadunidense para se tornarem quadros liberais.
No início da revolução, quando a SPA debatia se deveria exigir a mudança de regime ou simplesmente salários mais altos, foram esses agentes treinados no exterior que garantiram a última opção. Tornaram-se os defensores mais fervorosos do pacifismo e os oponentes mais determinados da autodefesa dos trabalhadores.
Enquanto isso, os imperialistas também exerciam pressão por outras vias. Os EUA, os Emirados Árabes Unidos, a Grã-Bretanha e a Arábia Saudita estavam desesperados para pôr fim à onda revolucionária, temendo seu potencial de se espalhar pela região. As FFC argumentaram que apenas um acordo de partilha de poder com o exército poderia evitar a guerra civil. Os dirigentes da SPA jogaram a toalha e declararam: “Não temos outra escolha [a não ser aceitar o acordo]” [10], sem conseguir vislumbrar uma saída sem o consentimento de pelo menos uma parte da burguesia.
Assim, em 9 de julho de 2019, as FFC concordaram com a formação de um governo de transição “tecnocrático”. Ele seria composto por cinco representantes civis das FFC, cinco oficiais militares e um membro supostamente “neutro”, formando um Conselho Soberano. Essa figura “neutra” mais tarde revelou-se um general do exército aposentado. O próprio Conselho seria chefiado por um militar indicado, com eleições agendadas para dali a três anos.
Seis meses de luta heroica da classe trabalhadora sudanesa resultaram em nada mais do que uma reorganização superficial daqueles que estavam no topo. Omar al-Bashir foi substituído por Abdalla Hamdok, um economista liberal anteriormente empregado pelas Nações Unidas. Mas a máquina do Estado capitalista permaneceu completamente intacta.
Hamdok governou por dois anos e meio. E não conseguiu nada.
Hamdok: o liberal impotente
Abdalla Hamdok foi escolhido por parecer agradar a todos. Em sua juventude, fora membro do Partido Comunista. Mas há muito tempo trocara sua filiação partidária pelo terno e gravata de um comissário da ONU. Os militares entendiam que Hamdok não representava ameaça alguma. Ele era considerado tão maleável que, em 2018, Al-Bashir cogitou contratá-lo como conselheiro econômico.

As massas comemoraram isso como uma grande vitória, mas os militares sabiam que, mesmo que Hamdok tentasse mudanças mais radicais, eles detinham todas as cartas na manga. Para reforçar esse ponto, quando Hamdok chegou a Cartum, já que não havia participado da revolução, os militares se recusaram a lhe oferecer qualquer residência. Como primeiro-ministro, ele foi obrigado a trabalhar no apartamento de um amigo durante seus primeiros meses no cargo.
Em relação à economia, Hamdok não era diferente de Al-Bashir. Ele estava ansioso para cortar os subsídios à classe trabalhadora, que considerava um fardo para a economia, ao mesmo tempo em que se recusava a cortar um centavo sequer dos vastos gastos militares. Deixou a economia em mãos privadas e corruptas dos capitalistas locais e internacionais. Permitiu que as filas para comprar pão serpenteassem por Cartum, enquanto as empresas de energia elétrica eram obrigadas a interromper o fornecimento de energia na cidade por longos períodos, e tratores permaneciam ociosos no Vale do Nilo, devido à falta de combustível.
A inflação logo atingiu 363% e a dívida pública em relação ao PIB ultrapassou a marca de 200%.
Em relação aos direitos civis, Hamdok cedeu às pressões dos militares. Continuou a censurar a imprensa, usou o aparato estatal para espionar alguns dos ativistas mais proeminentes da revolução e recusou qualquer investigação sobre o massacre de 3 de junho.
Os Comitês de Resistência ainda representavam um desafio potencial, mas estavam cada vez mais desmoralizados – e Hamdok habilmente os colocou uns contra os outros. A ideia de que os Comitês de Resistência deveriam funcionar principalmente como órgãos de ajuda mútua, em vez de instrumentos para a construção de um novo Estado operário, ganhava força. Seu papel, argumentava-se, não era lançar as bases do poder operário, mas sim as bases de um novo Estado de bem-estar social.
O governo de transição incentivou ativamente essa mudança de foco. Legitimou os comitês como órgãos administrativos auxiliares alinhados ao Estado. Incentivou as pessoas a recorrerem a eles para obter bens essenciais – combustível, alimentos e medicamentos – especialmente durante a pandemia, que ceifou 16 mil vidas somente em Cartum.
Como resultado, os Comitês de Resistência foram subjugados. Em vez de explicar pacientemente o verdadeiro papel de Hamdok e apresentar um programa que o substituísse pelo controle operário, os revolucionários mais dedicados foram relegados ao papel de trabalhadores humanitários. O que antes eram os órgãos embrionários de um Estado operário ficou atolado na luta diária para suprir as necessidades básicas de uma sociedade em colapso. Seu potencial revolucionário foi sufocado lentamente enquanto tentavam sustentar o peso de uma catástrofe humanitária iminente.
O chamado “acordo” com as SAF e as RSF foi uma completa capitulação, já que os generais detinham todo o poder. Hamdok era uma figura impotente no topo de uma enorme máquina estatal que ele não controlava. No Comitê Econômico de Crise, Hamdok, o “Doutor em Economia”, teve que permanecer em silêncio, enquanto o farsante pastor de camelos Hemedti dava as cartas.
Essa impotência não era produto da personalidade de Hamdok nem da imensa força militar, mas decorria diretamente de sua posição de classe. Os liberais sabiam que uma luta determinada para remover os militares e estabelecer um Estado liberal-democrático só teria êxito com a mobilização dos trabalhadores e da juventude. Mas a força das massas não se deteria com o estabelecimento da democracia formal.
Para as massas, a democracia seria, antes de tudo, um meio para a melhoria de suas condições de vida. Mas os liberais não conseguiam satisfazer os trabalhadores precisamente porque o Sudão estava mergulhado em uma crise capitalista da qual não conseguia escapar. Assim, a menos que fosse impedida, a revolução não se limitaria à democracia liberal, mas, sob a pressão das massas, avançaria para ataques à propriedade privada e à própria classe capitalista. Ataques que somente os militares poderiam repelir.
Portanto, a escolha para os liberais era a seguinte: estabelecer uma democracia, mas então correr o risco de ficar subjugado aos trabalhadores; ou continuar permitindo que os militares subissem em seus ombros, mantivessem o jugo de suas botas militares e os deixassem governar a sociedade como bem entendessem, desviando bilhões no processo.
A debilidade dos capitalistas, sua incapacidade de desenvolver minimamente a sociedade, combinada com a enorme força dos trabalhadores, fez com que os capitalistas estivessem ainda mais dispostos a buscar a salvação em um “homem forte” militar.
O golpe de 2021
Dois anos se passaram sob o governo de Hamdok sem que nada fosse resolvido. Segundo o acordo de traição de julho de 2019, as eleições deveriam ocorrer na primavera de 2022. Mas os militares não estavam dispostos a arriscar que as massas se manifestassem por meio de eleições. Na segunda-feira, 25 de outubro de 2021, Al-Burhan, das Forças Armadas do Sudão, convidou Hamdok para se juntar a ele como primeiro-ministro de um governo reconstituído, que cancelaria as eleições e colocaria o Sudão sob uma ditadura militar definitiva.
Para surpresa de Al-Burhan, Hamdok recusou. Ele acreditava que Al-Burhan não conseguiria concretizar o golpe sem o apoio dos EUA. Durante o fim de semana, o embaixador americano havia dito a Al-Burhan que, se ele prosseguisse com o golpe, os EUA cortariam US$ 700 milhões em ajuda e excluiriam o Sudão do acesso ao Banco Mundial, além de impor diversas outras sanções.
Al-Burhan não se intimidou. Apoiado por Al-Sisi no Egito, que havia feito o mesmo oito anos antes para esmagar a Revolução Egípcia, ele desafiou os EUA e tomou o poder.

Al-Burhan sequestrou Hamdok e, em seguida, foi à televisão nacional anunciar a suspensão de todos os voos, o apagão da internet e a declaração de estado de emergência até julho de 2023, quando novas eleições seriam convocadas.
Al-Burhan desejava apresentar isso como um fato consumado. Mas a classe trabalhadora tinha outros planos.
Com o anúncio do golpe, a revolução reacendeu. Os Comitês de Resistência de Bairro ganharam novo fôlego. A SPA e o Partido Comunista convocaram greves gerais em massa. Um milhão de pessoas atenderam ao chamado quando os sindicatos convocaram a desobediência civil em massa.
Al-Burhan anunciou que, por sua desobediência, todos os sindicatos seriam dissolvidos. As RSF foram mais uma vez mobilizadas para incitar o terror entre as multidões.
Mas as massas estavam determinadas a lutar. Responderam com gritos de “Os revolucionários e o povo livre continuarão a jornada!”, “Os revolucionários não temem as balas!”, “O povo está mais forte!” e “Recuar não é uma opção!”.
Cinco dias após o anúncio do golpe, 4 milhões de trabalhadores entraram em greve, determinados a deter os generais. O regime respondeu prendendo milhares, que saíram às ruas sob fogo de munição real.
Sob a enorme pressão dos acontecimentos, a SPA adotou sua posição mais radical até então. Exigiram a derrubada completa dos militares; um governo civil pleno para substituí-los, composto exclusivamente por forças revolucionárias; e a dissolução das SAF e das RSF, com o julgamento de seus líderes por crimes contra a revolução.
Mas, mesmo agora, sua falta de clareza política era evidente. A questão de como isso seria alcançado sem uma insurreição operária, sem armas, sem um novo Estado para substituir o antigo, permaneceu sem resposta. Em vez disso, parabenizaram Hamdok por se recusar a apoiar o golpe e lhe deram cobertura como um potencial líder. Isso se provaria fatal.
Em 21 de novembro, um mês após seu sequestro, um Hamdok trêmulo e desorientado apareceu com Hemedti e Al-Burhan, dizendo que haviam chegado a um acordo. Ele lideraria um novo governo tecnocrático com eleições adiadas para junho de 2023, mas a resistência teria que cessar.
Imediatamente, a ala direita das FFC manifestou apoio ao acordo. A ala esquerda recusou, mas não apresentou nenhuma perspectiva sobre como a sociedade poderia ser transformada. Continuaram a defender os métodos mais pacíficos possíveis e se recusaram a armar os trabalhadores.
Os Comitês de Resistência de Bairros de Cartum anunciaram: “É nosso dever resistir [aos generais] até que sejamos vitoriosos ou até que eles governem um país vazio depois de nos terem matado a todos” [11]. Mas, sem ainda qualquer perspectiva de como lutar eficazmente, as massas eram conduzidas como cordeiros para o matadouro.
Sem qualquer perspectiva por parte da direção, a resposta à greve diminuiu. As pessoas não enfrentam o risco de morte por mera boa vontade; elas precisam acreditar que suas ações podem mudar a história. Três anos de direção pacifista da classe média desperdiçaram essa crença, e não havia nenhum partido revolucionário para indicar o caminho.
Em 3 de janeiro de 2022, após a população ter retornado para casa, Hamdok renunciou oficialmente. As SAF e as RSF assumiram o controle total. Todos os apelos e lutas por um governo civil terminaram em nada além da consolidação do regime ditatorial militar. As ilusões do pacifismo levariam diretamente à guerra civil mais sangrenta que o Sudão já viu, pois esses tiranos permaneceram no poder.
Os trabalhadores foram levados a um beco sem saída. Sem perspectiva de como escapar, todas as suas energias resultaram em nada além de maior desmoralização. As RSF continuaram sua campanha de terror. Atacaram os trabalhadores com gás lacrimogêneo, cassetetes, munição real e metralhadoras antiaéreas. Os trabalhadores que choravam os mortos em funerais eram seus alvos, veículos blindados os atropelavam e davam marcha ré para se certificar da morte do manifestante.
A escala do terror não foi o elemento decisivo do golpe de outubro, mas sim a falta de uma direção resoluta com uma perspectiva clara de como lutar. Foi isso que, em última análise, levou os trabalhadores à exaustão.
A vitória da contrarrevolução
Janeiro de 2022 marcou o ápice da contrarrevolução. Os trabalhadores do Sudão não foram fisicamente esmagados pelos generais. Sua direção revolucionária os conduziu repetidamente a um beco sem saída. Após três anos de imensa coragem e sacrifício, o resultado foi mais um golpe militar.
Três anos de esforço deixaram as massas exaustas e desmoralizadas. Uma série de ações foi convocada no início da primavera de 2022, mas a adesão foi diminuindo gradativamente, à medida que a esperança se esvaía. Isso porque ninguém conseguia explicar claramente os eventos que estavam ocorrendo ou oferecer um caminho convincente para o futuro.
As SAF e as RSF conseguiram sufocar tanto liberais quanto revolucionários. Consolidaram o domínio da espada. A única questão era qual fração a empunharia. Com a classe trabalhadora marginalizada, os generais se voltaram uns contra os outros, disputando para ver quem ficaria com os despojos manchados de sangue do povo sudanês. Quanto mais completa a derrota das massas, mais acirradas se tornavam as lutas internas entre os vencedores.
Al-Burhan estendeu um cálice envenenado às RSF, propondo incorporá-las às Forças Armadas sob seu comando. Apesar dos serviços prestados pelas RSF à contrarrevolução, a camarilha de Cartum ainda as considerava pastores tribais atrasados.
Mas Hemedti não tinha intenção de recuar. Ele havia consolidado sua base em Darfur, enriquecendo-se com as vastas minas de ouro do oeste. Ele havia se provado o cão de caça da contrarrevolução e rapidamente cortejava apoiadores internacionais, particularmente os Emirados Árabes Unidos, cujas ambições se estendiam pelo Chifre da África. Em janeiro de 2022, Hemedti havia ascendido de um pastor de camelos periférico ao homem mais poderoso do Sudão. Ele não permitiria que Al-Burhan ameaçasse sua posição.
A luta pelo posto de “Bonaparte supremo” do Sudão havia começado. Os alicerces da guerra civil estavam agora firmemente estabelecidos.
Em 16 de abril de 2023, as RSF sentiram-se suficientemente encorajadas para atacar as Forças Armadas Sudanesas (SAF). Com caças e tanques, o primeiro ataque da Terceira Guerra Civil Sudanesa foi disparado. Em duas semanas, 800 mil refugiados fugiam do Sudão enquanto a fome assolava o país. Mulheres grávidas morriam de fome devido à falta de alimentos. A pior fome global em 40 anos foi desencadeada, com 24,6 milhões de pessoas enfrentando a inanição e 2 milhões enfrentando a fome com risco de morte [12]. Em janeiro de 2025, a União dos Médicos do Sudão estimou que mais de 522 mil crianças já haviam morrido de desnutrição.
Ambos os lados competem para levar a barbárie a novos patamares. Tortura, castração, decapitação e escravidão são a ordem do dia. Bebês de apenas um ano foram estuprados. O abuso sexual foi transformado em arma de guerra.
No Oeste do país, as RSF consolidaram seu domínio. Reabriram sua campanha genocida em Darfur contra o povo Masalit, alimentada pelas divisões entre os pastores nômades árabes e os pastores negros africanos. Em 2005, conduziram uma política sistemática de estupro em massa para exterminar a população africana. Agora, as RSF adotaram uma abordagem mais direta. Todos os homens negros africanos deveriam ser executados, independentemente da idade. Mulheres fugiram para o Chade com seus bebês sem vida em suas costas devido aos buracos de bala em suas cabeças.
No passado, um conflito dessa magnitude teria sido gestado tanto nos corredores de Washington quanto no campo de batalha. Afinal, foram os Estados Unidos que intermediaram o Acordo de Paz Abrangente de 2005, pondo fim à Segunda Guerra Civil Sudanesa e, em última instância, dividindo o país em dois. Mas o relativo declínio do imperialismo estadunidense permitiu que diversas potências menores afirmassem seus interesses na região, independentemente da política externa dos EUA. No Sudão, elas buscaram o controle das rotas comerciais do Mar Vermelho, a leste, das terras férteis ao longo do Nilo e do ouro, a oeste, cujo valor está em alta devido à erosão da hegemonia do dólar.
Uma gama vertiginosa de potências interveio. Os sauditas têm apoiado consistentemente as Forças Armadas, enquanto os Emirados Árabes Unidos, um concorrente imperialista em ascensão, tornaram-se o principal apoiador das RSF. A lista de atores estrangeiros parece interminável: Catar, Egito, Turquia, Etiópia, Eritreia e Chade desempenharam seus papéis. As repercussões ameaçam transformar a paz de quatro anos no Sudão do Sul em outra guerra civil.
Para piorar ainda mais a situação, a Rússia inicialmente interveio ao lado das RSF para garantir ouro e contornar as sanções ocidentais. Para contrariar a tentativa russa de burlar as sanções, o Exército Ucraniano interveio ao lado das SAF, resultando em cenas espetaculares de mercenários russos lutando contra as forças especiais ucranianas nas ruas de Cartum.
Agora, porém, os imperialistas russos mudaram de lado, priorizando o acesso ao Porto do Sudão. Assim, as RSF foram abandonadas e as SAF tornaram-se aliadas da Rússia, o que levou a cenas ainda mais espetaculares de mercenários russos trabalhando em conjunto com as forças especiais ucranianas.
Uma análise completa da Terceira Guerra Civil Sudanesa está além do escopo deste artigo. O que é certo é que a classe trabalhadora sudanesa sofreu uma derrota catastrófica. Levará anos, talvez décadas, e grandes transformações, não apenas dentro do Sudão, mas também internacionalmente, para que recupere suas forças.
Enquanto isso, a barbárie se alastrou – e está se espalhando, dia após dia, para além das fronteiras do Sudão.
Socialismo ou barbárie?
Pacifistas e covardes podem alegar: “Se nunca tivéssemos lutado pela liberdade, teríamos sido poupados de tais horrores”. Mas o próprio capitalismo é um horror sem fim. A crise no Sudão não foi resultado da revolução – foi a profunda crise da sociedade sudanesa que deu origem à revolução.

Se os trabalhadores nunca tivessem ido às ruas, isso teria impedido o colapso econômico, quando a inflação já havia ultrapassado os 100% em 2018? Teria evitado a fragmentação da classe dominante, quando o ditador já havia criado dois exércitos rivais para garantir seu poder? Teria impedido a intervenção das potências regionais – as mesmas que já alimentam a destruição no Iêmen, no Tigray, no Sudão do Sul e na República Democrática do Congo?
Todos esses acontecimentos decorrem da crise global e sistêmica que o capitalismo enfrenta desde a crise de 2008.
Essa crise inaugurou uma era histórica de instabilidade – um período definido pelo impasse prolongado entre uma classe capitalista incapaz de desenvolver as forças produtivas e uma classe trabalhadora repetidamente traída por seus próprios líderes. O mundo hoje é definido por uma instabilidade orgânica, marcada por oscilações bruscas e convulsões abruptas.
O Sudão esteve mais perto do que qualquer movimento recente de romper esse impasse – de estabelecer um governo operário. Em sua coragem, determinação e resiliência, a classe trabalhadora sudanesa não poderia ter feito mais. O que faltou foi uma direção verdadeiramente revolucionária. Repetidamente, o movimento sucumbiu às ilusões burguesas e pequeno-burguesas.
Esse fracasso não se deveu às deficiências pessoais de líderes individuais. Foi o resultado inevitável da ausência de um partido revolucionário construído previamente – um partido fortalecido contra as pressões da sociedade burguesa, com quadros treinados e enraizados em todo o país, capazes de unir as massas trabalhadoras em torno de um programa revolucionário coerente. Sem tal partido, mesmo a revolta mais heroica sucumbirá ao peso da classe dominante.
O fracasso da revolução sudanesa abriu as comportas para horrores inimagináveis. Mas o Sudão não é exceção – é um alerta. A palavra de ordem “Socialismo ou Barbárie” não é uma proposição teórica distante; era a escolha real e concreta que o Sudão enfrentava em 2019. Na ausência de uma direção revolucionária, o resultado foi a barbárie. Essa questão será levantada repetidamente.
A velha toupeira da revolução está se infiltrando, não apenas pela África e pelo Oriente Médio, mas também para o norte, em direção aos centros do imperialismo. Os tremores que abalaram Cartum em 2019, com o tempo, abalarão os centros do capitalismo global. A única questão é: estarão as forças da revolução preparadas ou permitirão que a história se repita?
A revolução sudanesa oferece um tesouro de lições. Seria imperdoável deixar que seu legado se perdesse. A batalha entre revolução e contrarrevolução irromperá repetidamente, em escalas cada vez maiores. Não pode haver dúvidas quanto ao vencedor final, se, e somente se, nos prepararmos com antecedência.
Cronologia
- 1899: O Sudão torna-se formalmente uma colônia britânica
- 1955-1972: Primeira Guerra Civil Sudanesa
- 1956: Independência do Sudão; primeiro governo parlamentar
- 1958: Primeiro golpe militar
- 1964: A Revolução de Outubro põe fim ao regime militar; segundo governo parlamentar
- 1965: Partido Comunista é proibido
- 1969: Golpe militar de Nimeiri; incursões na propriedade privada, Partido Comunista legalizado
- 1971: Revolução fracassada do Partido Comunista; membros do Partido Comunista são presos
- 1983: Nimeiri impõe a lei da Sharia; início da Segunda Guerra Civil Sudanesa
- 1983-2005: Segunda Guerra Civil Sudanesa
- 1985: Revolução põe fim ao governo de Nimeiri; Terceiro governo parlamentar
- 1989: Omar Al-Bashir toma o poder em um golpe militar com o apoio de islamitas
- 2003-2005: Al-Bashir realiza genocídio em Darfur usando os Janjaweed
- 2011: Sudão do Sul conquista a independência
- 2013: Os Janjaweed são reorganizados como Forças de Apoio Rápido (RSF)
- Dezembro de 2018: Protestos eclodem contra Al-Bashir
- 11 de abril de 2019: Al-Bashir cai
- 3 de junho de 2019: As RSF tentam aterrorizar trabalhadores enquanto a SPA negocia com o Conselho Militar de Transição
- 30 de junho de 2019: Marcha de um milhão de pessoas contra as Forças Armadas do Sudão (SAF) e as RSF
- 3 de julho de 2019: Acordo de compartilhamento de poder entre o Conselho Militar de Transição e a SPA é alcançado
- 25 de outubro de 2021: as SAF depõem o governo civil de transição
- 27 de outubro de 2021: Quatro milhões de trabalhadores entram em greve
- Janeiro de 2022: As Forças Armadas Sudanesas (SAF) completam o golpe
- 16 de abril de 2023: As Forças de Apoio Rápido (RSF) tentam um golpe contra as SAF, dando início à Terceira Guerra Civil Sudanesa
Referências em inglês:
[1] Quoted in W Berridge et al., Sudan’s Unfinished Democracy, Oxford University Press, 2022, pg 46
[2] Quoted in S Zunes, ‘Sudan’s 2019 Revolution’, ICNC Special Report Series, Vol. 5, April 2021, pg 7
[3] Quoted in W Berridge et al., Sudan’s Unfinished Democracy, Oxford University Press, 2022, pg 32
[4] ibid. pg 112
[5] D Pilling, ‘Sudan’s protests feel like a trip back to revolutionary Russia’, Financial Times, 24 April 2019
[6] Quoted in W Berridge et al., Sudan’s Unfinished Democracy, Oxford University Press, 2022, pg 33
[7] H Alizadeh, ‘Powerful general strike in Sudan: now kick out the junta!’, marxist.com, 31 May 2019
[8] H Alizadeh, ‘What next after Sudan’s Million Man March?’, marxist.com, 1 July 2019
[9] F Weston, ‘Sudan: the whip of the counter-revolution spurs on the revolution’, marxist.com, 10 June 2019
[10] Quoted in W Berridge et al., Sudan’s Unfinished Democracy, Oxford University Press, 2022, pg 67
[11] J Attard, ‘The Sudanese Revolution is in danger’, marxist.com, 19 January 2022
[12] World Food Programme, ‘Famine in Sudan’, wfp.org


